Assisti Sempre Vivas Parteiras numa sessão particular, no Galeria e Cineclube Artes e Cores, uma semana antes do lançamento, em 23 de novembro, no Centro de Cultura Luiz Freire, em Olinda. Trata-se de um registro sobre o universo quase invisível das parteiras tradicionais e seus saberes, que ficou pronto após cinco anos, graças ao envolvimento de um grupo de profissionais e o providencial apoio financeiro do Banco do Nordeste (BNB).
O documentário tem a direção de Sandra Maciel, mas quem assina o projeto de forma coletiva é o Movimento Curador. Para compor o filme, a equipe registrou depoimentos de parteiras tradicionais da Chapada Diamantina (Bahia) e de Jaboatão dos Guararapes (Pernambuco). De uma fala a outra, fica clara a liderança natural destas mulheres que, apesar de nem sempre recompensadas, prestam grande serviço para suas comunidades.
Sempre-vivas são plantas encontradas no cerrado baiano. São assim chamadas por dois motivos: podem viver até 50 anos, e suas flores são capazes de manter a intensidade das cores mesmo depois de secas. Hoje correm risco de extinção, mas por muito tempo foi a única forma de sustento do povo da pequena cidade de Mucugê, Chapada Diamantina. São ótimas para Ikebana e Feng Shui.
Foi justamente na Chapada Diamantina que Sandra teve o primeiro insight para realizar o documentário. “Lá conheci Dona Elvira, que já estava muito velhinha. E eu pensei: 'logo ela morre e vai com ela todo esse conhecimento'. Eu achava que devia registrar e comecei a pesquisar para este fim. O encontro com Dona Elvira foi um marco para começar o registro", lembra Sandra.
Ela define o documentário como um registro etnocientífico sobre parteiras tradicionais. Com duração de 45 minutos, o filme retrata a resistência das parteiras, que contam as técnicas utilizadas no partejar e o seu saber sobre as plantas em relação à cura e métodos de estimulação para um bom trabalho de parto. Também são desveladas as relações do parto com a espiritualidade por meio de cantos, rezas e rituais. “Eu achava que não tinha material suficiente, mas depois comecei a compreender de outra forma: seria algo bem simples, feito para as parteiras, para elas se verem. O importante era o registro etnocientífico. Daí entrei em contato com o processo espiritual do filme”, conta Sandra, que se interessa por parto tradicional desde que teve sua primeira filha, Ítala.
“Meu primeiro parto me fez acordar para a situação desumana com que vem sendo tratadas as mulheres, nos hospitais e maternidades. Meu parto teve todo tipo de intervenção. Eles romperam minha bolsa, tiraram meu tampão, fizeram vários toques desnecessários. Eu fiquei numa sala com mais quatro mulheres que gritavam e as enfermeiras não tinham ao menos preparo para atendê-las. Eu queria ficar em silêncio pra poder entrar em contato com aquele momento, para preparar a chegada da minha filha na terra e sofri todo tipo de preconceito. E pra finalizar o médico ouvia jogo de futebol no rádio, na sala de parto. Eu sofri muito e quando sai de lá eu pensei que tinha algo errado. Perguntei pra minha mãe como eu tinha nascido, e fui então me aproximando das discussões do parto domiciliar, das Ongs, e por fim cheguei até as parteiras e me apaixonei por elas, me identifiquei com a luta delas”, diz Sandra.
Sempre Vivas Parteiras pretende ser, antes de tudo, um instrumento de referência para as parteiras tradicionais. Nele, oito parteiras (quatro da Chapada Diamantina e quatro de Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco) falam de suas experiências que, com linguagem simples, desmistificam a necessidade da presença médica no parto, demonstrando que o nascimento é um evento fisiológico e afetivo pertencente à família e a comunidade.
Interessado no processo de criação do documentário e do contexto político que ele se insere, fiz algumas perguntas a Sandra Maciel, cujas respostas publico a seguir:
Por que a opção pelo audiovisual para registrar o trabalho das parteiras?
Duas amigas da sociologia que trabalhavam com vídeo e fotografia sugeriram que fossemos filmar as parteiras. No início eu queria fazer um filme só sobre Dona Elvira, mas decidimos que seria bom ouvir várias parteiras. Eu não tinha muito conhecimento de audiovisual e o feitio do roteiro foi uma escola pra mim. Nós nos baseamos na fala da primeira parteira que foi entrevistada, ela nos deu todo o roteiro, ela foi falando das técnicas, do manejo, do jeito que fazia o parto, das ervas que usava, dos rituais, das rezas e também da situação sócio-econômica e histórica das parteiras tradicionais. Foi ela quem deu todo o panorama da miséria em que viviam aquelas mulheres que tinham “pego” tantos meninos, que tinham passado tantas noites em claro. Dona Elvira fez o roteiro com a gente.
E como o filme foi produzido?
Foi na base da militância. Nós não tínhamos recurso pra nada. Fomos com uma câmera hi-8, com passagens cedidas pela Prefeitura do Recife e articulação com Secretarias de Saúde da Chapada Diamantina. E muita “brodagem”, é obvio: câmera emprestada, diárias de captação de áudio... Nós chegamos na casa de algumas parteiras com mais de 70 anos que não tinham um café pra receber a gente. Eu fiquei chocada, indignada com esse quadro e fiquei pensando: “será que ninguém pode ajudar essas mulheres?” Pois esse foi o primeiro momento do filme, em 2003. Esse momento teve uma edição que foi exibida na Chapada para algumas parteiras e depois em Brasília num encontro de parteiras. Essas exibições foram importantes porque as parteiras se viram e se ouviram e começaram a dar o caráter didático do documentário. Porque elas viam e debatiam depois sobre as técnicas que não se usavam mais, que era diferente em cada região e os rituais de cada uma. O segundo momento culminou com o nascimento de minha terceira filha, Violeta, que filmamos o parto, e decidimos fazer o filme com as falas das parteiras e cenas do meu parto e de outros partos. Nesse momento filmamos o trabalho das parteiras de Jaboatão do Guararapes e achamos que era um bom material para editar. E o terceiro momento é marcado pela finalização, aprovada pelo Banco do Nordeste - BNB.
Como foi o processo de edição?
Não foi fácil. Porque a escolha da equipe para finalizar passava pelo envolvimento com o tema, nós não queríamos apenas um “técnico” precisávamos de alguém que tivesse “parido” também. E esse foi o principal pré-requisito para a escolha do editor. Porque o parto é um evento muito íntimo, você grita, sente dor, abre suas entranhas. E a edição não é apenas uma fase de separar imagens, não é assim que o Movimento Curador entende o cuidado com cada conteúdo. Para nós, não é real essa “neutralidade” científica. Nesse momento nós precisávamos de um editor que se envolvesse, e Alexandre convidado porque estava “grávido” e teve filho em casa durante o processo de finalização do filme. Mas essa dificuldade para se chegar ao editor não foi a única que enfrentamos, porque o parto é um momento muito íntimo e tivemos alguns impasses na equipe pra decidir fazer o filme sem mostrar um parto. Nos sabíamos que já existia muito filme mostrando parto. Nós questionamos qual seria a necessidade de se exibir um evento que é afetivo, forte e visceral e de se conseguir transformar em imagem de uma forma que não expunha publicamente, de forma superficial e grosseira um evento de tamanha “grandeza espiritual”. O parto não é um evento público, então nosso intuito era mostrar a luta política das parteiras e foi Dona Elvira, que faleceu em 2005, que deu todo o panorama social da parteira e a miséria, da falta de reconhecimento profissional e da luta política das parteiras tradicionais.
Qual é a discussão política proposta pelo filme?É a de que o médico não é a figura mais importante no momento do parto. Nos hospitais ele tiram a criança de perto da mãe, não deixam o pai e familiares participar, depois lavam e esfregam as crianças... é um descuido tão grande. Os profissionais do parto humanizado tratam as parteiras como bonecos de cera no museu, como se elas não existissem mais, que não fossem úteis, enquanto elas estão em plena atividade em áreas que eles si quer sabem que existe.
Então o documentário se posiciona contra o movimento do parto humanizado?
Ele se posiciona a favor do saber das parteiras tradicionais, que são tratadas pelas políticas públicas de saúde como inexistentes, como coisas do passado. Elas sofrem muito preconceito. Veja por exemplo a questão da higiene: existe um padrão que até os hospitais não conseguem acompanhar. Vide as denúncias de infecção hospitalar. Mas as parteiras fazem parto nas invasões, onde não tem nem esgoto. Os médicos são na maioria de classe média e seu padrão de higiene é ditado por suas classes sociais e formação acadêmica. Enquanto as parteiras atendem áreas muito pobres, por isso se adaptam as condições sociais da população.
Muito bacana. Adorei, espero que chegue logo por sp.
Higor Assis · São Paulo, SP 24/12/2007 10:31beleza de colaboração e de documentário1 feliz ano novo!
Rosa Campello · Recife, PE 28/12/2007 09:47Legal a divulgação do doc. e o foco dado para as parteiras que tardiamente estão sendo reconhecidas pela sua importância e conhecimento por atuar em lugares mais distantes, atendendo tão especialmente e na maioria em condições adversas. Bravas.
analuizadapenha · Natal, RN 28/12/2007 11:59
Andre,
Legal, bem feita e oportuna.
Sou filho de parteira - Mãe Beata, uma mulher ainda nova
casada com um tio, ainda nova, num momento inesperado, (dias mal contados) minha mãe sentiu as dores - mãe Beata fez o seu primeiro parto. Meus irmãos, cinco, também.
um abraço, andre.
André,
novamente uma contribuição tua com um olhar sociológico, antropológico, mas acima de tudo, atento para a necessidade de se dar visibilidade para expressões artísticas com potencial multiplicador no aspecto da diversidade cultural.
Fiquei também impressionado e muito curioso para conhecer mais, trocar mais informações com a Sandra Maciel, cujo insight foi muito bem canalizado para a realização.
Pelo teu artigo, acredito que além do filme dá para produzir oficinas e um conteúdo em vídeo ou livro contando o processo, que parece ser tão ou mais rico que o próprio resultado, que mesmo sem ter visto, já estimo que esteja muito bacana.
Salve Higor, Amélio, Rosa, Ana, André e Alê: Obrigado pela atenção à minha colaboração!
Higor, vamos organizar uma sessão em São Paulo??
Tentei converter um trecho do filme para postar aqui, mas em vão, tive problemas técnicos..
Alê, para falar direto com Sandra e demais do Movimento Curador (vale a pena conhecer) é só escrever para movimentocurador@gmail.com . eles tem um projeto de oficinas sim, a serem ministradas na futura Casa de Cura e Nascimento.
Um abraço!
Valeu a todos que estao fazendo comentarios sobre o ^sempre vivas parteiras^presisamos de parsceiros vamos levar ele para Sampa ,Porto Alegre,Natal etc. e abrir discucao com as parteiras para reverter as posisoes de poder.
fede · Olinda, PE 1/1/2008 17:02
olá andré. sou nova por aqui e fiquei super interessada em assistir esse documentário. onde posso achar??
parabéns pela contribuição às culturas tradicionais.
abraço.
ainda curso a graduação em psi, mas to participando de um projeto relacionado aos saberes e as práticas das parteiras tradicionais de pernambuco. o meu especificamente é sobre a espiritualidade delas em seu ofício.
Alessandra Alencar · Recife, PE 19/3/2009 17:47
Alessandra, procure o Movimento Curador, o contato tá no comentário acima do seu. Se precisar, tenho o telefone deles.
Um abraço,
Esse documentario esta servindo de referncia ao meu trabalho de campo. Parabéns!!!!!
Grey anne · Humaitá, AM 6/6/2009 15:18
olá gostei muito da reportagem;
faço enfermagem e estou pensando em fazer meu tcc sobre parteiras e gostaria de ajuda.
agradecida! abraços
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