Quando o agente penitenciário avisou que havia visita, ele não demorou a aparecer. Sob o olhar atento dos outros presos, que estavam em horário de lazer, Zé Neguinho do Coco – artista popular recifense preso por tentativa de homicídio – recebeu o grupo de estudantes universitários, disposto a colaborar para a entrevista.
Apesar do ambiente hostil da cadeia – estávamos na Penitenciária Agroindustrial São João, em Itamaracá –, da sala apertada, das moscas, da superexposição e do barulho que vinha lá de fora, o músico foi simpático. E, ainda, quando pedimos gentilmente que tocasse algumas de suas composições para nós, voltou para buscar seu pandeiro.
E mais: trocou de roupa, arrumou-se todo com uma camisa branca estampada, pôs um chapéu, uma corrente. Zé Neguinho sorri. É um artista nato, desenrolado. Ali, na cadeia, são poucas as oportunidades de cantar e ser escutado. Atrás das grades, o artista revela que também não consegue mais compor.
O “machadeiro, amola o machado, pra cortar o pau de quiri", então, não encontra coro ali na penitenciária. Nem resposta. O verso da música Pau de Quiri só pode ser ouvido via CD homônimo – o único dele foi gravado em 2005 – ou, ainda, na versão da música feita pelo Cascabulho, banda de Silvério Pessoa dos anos 90 que “descobriu”, por assim dizer, o artista, nas ruas do Morro da Conceição.
Do morro para o asfalto, das rodas entre amigos para os palcos dos shows e programas de TV, como o Som da Sopa, de Roger, o coquista passou a ser referência para novos artistas de música popular: como o próprio Silvério, as meninas do ex-Comadre Fulôzinha e Lula Queiroga. Zé Neguinho, de 63 anos de idade, tem uma voz aveludada, gostosa de se ouvir. Quando ele canta “Jacira”, o “Coco da Liberdade”, o próprio “Pau de Quiri”, entre outros cocos de sua autoria, o pandeiro desempenha um papel crucial.
Da lata de doce à música
Uma lata de doce aberta, furada, com tampinhas de garrafa pregadas nas extremidades: assim eram feitos os primeiros pandeiros no morro. Era com esse pandeiro improvisado, meio rude, que os sambistas, emboladores, boêmios e tocadores de coco faziam suas rodas de música e desciam os morros da Zona Norte do Recife para tirar um som no asfalto.
No Morro da Conceição, onde cresceu, o coquista conheceu o mestre Jackson do Pandeiro, um cidadão “baixinho e orelhudo”, segundo Zé Neguinho. Com ele, aprendeu a tocar. E, nas rodas, a improvisar nas respostas. A embolar e a compor.
"O nome dela é Jacira
seu apelido é boneca
quem olha pra ela peca
cumprindo essa grande sina"
Nos anos 50, os tocadores se vestiam à caráter: chapéu, bigode, camisa solta. No estilo de vida, era uma lapadinha de cana, as brigas de rua, uma fuga ou outra pulando os telhados da casa. Foi justamente assim que o menino José Severino Vicente, mais tarde, Zé Neguinho, aprendeu a tocar e a viver: ainda menino, olhando o som tirado pelos pais e tios, tamborilando na mesa, levando relha da mãe que não suportava aquele ruído.
Por causa de uma briga, Zé Neguinho foi preso, aos vinte e pouco anos. Cumpriu pena na antiga Casa de Detenção do Estado, onde hoje, ironicamente, funciona a Casa de Cultura.
Coco da Liberdade
O destino ia fazer com que fosse preso novamente, dessa vez, por tentar vingar a morte de um filho. Vingar, talvez, não seja o verbo mais adeqüado para se usar nesse caso. Um dos filhos homens foi morto por uma gangue. Morto o filho, as ameaças continuavam. Os responsáveis pela morte do rapaz bateram à sua casa dizendo para encomendar outro caixão.
Apesar da dor, o artista seguia a rotina. Vida no morro não é fácil. Vida de artista de morro, então, menos ainda. Zé Neguinho fazia uns bicos de segurança para sobreviver. Um dia, voltava do trabalho, armado. No caminho de casa, foi abordado por uns amigos, que o convidaram para uma cerveja.
Sol quente, cansaço, uma cerveja a mais não iria fazer mal. Depois de um copo, outro, Zé Neguinho segue. Nas mãos, uma sacola com uma camisa que havia comprado poucas horas antes.
No caminho oposto ao seu, cinco homens, que teriam matado seu filho. Um deles puxa uma arma. Zé Neguinho revidou. A bala atinge a barriga de alguém da gangue. Zé Neguinho continua o seu caminho, vai deixar a camisa nova em casa. Não dá tempo de chegar: preso em flagrante, por tentativa de homicídio. Segue para o Centro de Triagem Professor Everaldo Luna (Cotel), de Abreu e Lima. De lá, para o Presídio Aníbal Bruno.
Em 2002, consegue a liberdade condicional, mas, por falta de informação, não comparece ao fórum para atualização de dados e é tido como foragido. Intimado pela justiça por uma questão de pensão alimentícia, em 2005, ele volta pra cadeia, desta vez, por violação de condicional.
Agora, nada de show. Na antiga PAI (Penitenciária Agrícola de Itamaracá), onde está preso hoje, o coco faz eco, não tem resposta. A platéia é composta apenas pelos cinco estudantes que vieram fazer um vídeo para a faculdade e pelos detentos que espiam a entrevista, curiosos e desconfiados.
O coco da liberdade, composto quando estava no Aníbal Bruno, o músico não consegue cantar, naquela hora. Confunde a letra. Está cansado. Incomoda-se com o barulho no corredor. “Muito barulho aqui, não dá”, diz, num dos poucos momentos em que demonstra irritação. A hora da entrevista acabou. Zé Neguinho vai voltar para a cela.
Que história forte essa de Zé Neguinho... história forte e triste de um artista brasileiro pobre, nordestino, que tem sua vida e sua arte marcadas pelas injustiças dessa ordem de vida que vivemos.
Legal demais seu texto.
Muito bom Mariana. Não tem uma foto para ilustrar o texto? =)
Bruno Nogueira · Recife, PE 17/7/2006 12:12
Eu tentei, Bruno, mas não consegui gerar uma imagem para colocar aqui. Vou continuar tentando, se der tempo...
Mariana Reis · Olinda, PE 17/7/2006 14:15
Adoro o coco do Zé Neguinho mas desconhecia sua triste história :(
Ótimo texto, poderia ser editado em 'textos não-ficção', apesar da história dá uma excelente triste ficção. Boa dica pra quem curte realizar documentários.
Parabéns, Mariana!
Caraca, que história. Muito bom texto.
Edgar Borges · Boa Vista, RR 19/7/2006 16:50Em termos jurídicos, o que pode ser feito por Zé Neguinho? Este homem é um artista genial não pode ficar atrás das grades...Parabéns pelo texto!
Luisa Pitanga · Rio de Janeiro, RJ 20/7/2006 14:08
Bem, há um advogado que cuida do caso... A discussão mais completa vcs podem acessar na comunidade Zé Neguinho do Coco no orkut.
Como podem ver, agora temos fotos. A primeira é dele na cadeia, na ocasião da entrevista, em maio de 2006. A outra, é uma imagem de uma apresentação dele no programa de Roger (cedida pela TV Viva).
Muito bom mesmo, Mari!! Parabéns! :) E um beijão!!
Carol Senna · Olinda, PE 14/8/2006 00:18
Pois é Mariana, "as grades nunca vão prender os pensamentos". Só faltou algumas fotografias não é mesmo?
Um abraço.
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