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Patrimônio, de quem?

Mário de Andrade, 1929
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Yuno Silva · Natal, RN
6/3/2006 · 142 · 3
 

Perdida no meio do mato que toma conta do Sítio das Porteiras, propriedade da família Moreira há pelo menos um século, a casa de taipa onde nasceu e viveu o maior expoente do coco de embolada (tradição sonora da cultura popular nordestina), Chico Antônio (1904-1993), continua em pé por um mero capricho da natureza. "Escorada" em um cardeiro - nomenclatura muito usual no Nordeste para designar espécies de cactos -, a casinha de seis cômodos e pé direito baixo guarda relíquias da música afro-brasileira.

Correndo o risco de desmanchar no próximo inverno, e tombada pelo Patrimônio Histórico do Estado há quase dois anos (maio de 2004), o máximo que o filho caçula do embolador pode fazer enquanto a "ajuda" não chega é tapar "o sol com a peneira", ou melhor, "chuva com um plástico".

"Tio Biu, por que o senhor não troca algumas telhas e conserta o telhado?", pergunto inocente. "Não é por nada não. Só que uns 'dotô' vieram aqui dizendo que não podia mexer em nada, que iam fazer outra casa nova aqui do lado... Só promessa. Por mim derrubava essa e construía outra nova", diz Severino Moreira, 69, solteiro, o mais novo dos sete filhos de Chico Antônio.

Parêntese: o que Biu tem a ver com Severino? Diz a "lenda" que Biu é o apelido do Severino no Nordeste. Sondei algumas pessoas em outros círculos, e a lenda existe - uma história sem explicação sobre a origem.

Todos os dias Tio Biu prepara a própria comida, ara a terra, cuida da roupa (esticada em toda a "sala" da frente). Cada canto da casa, uma história: o altar protegido por São Jorge, Nossa Senhora e um santo sem feições definidas, criado por Severino com um barro negro cru que remete àquelas decorações góticasaos, e que remete à formas góticas do século XV, criado por Severino, os jarros seculares ainda guardam água, a cama do "coquista" praticamente intacta, o lugar para molhar o corpo, depósito caseiro de grãos... Enquanto o fogão à lenha esquenta a panela a todo vapor, o simpático guardião cozinha arroz com peixe pescado e legumes colhidos. Além de ser o herdeiro legítimo do Coco de Embolada, seu Severino Moreira também está identificado pela Fundação Nacional de Arte como ceramista.

Sem noção da real dimensão da música do pai, seu Severino diz que nunca cantou nem tocou. "Meu pai ia rimar na praia e sempre bebia. Por isso minha mãe dizia 'pra eu' não fazer isso", lembra já mudando de assunto: "Nunca recebi um centavo das cantorias do meu pai, não visto nem com o dinheiro que estão ganhando por aí com a música dele", desabafa.

Luz elétrica e água encanada só na casa de parentes, a meia légua dali, onde seu Severino dorme. Atualmente Biu só fica na tapera durante o dia, e sua rotina solitária só muda em dia de visita de alunos da rede pública de Pedro Velho - a "coisa" mais intrigante para este nordestino. "Não sei o que esse povo vem ver aqui. Tudo velho despedaçado. Preservar o quê?! Tem dia que chega uns dez ônibus, as crianças tudo na fila pra entrar na casinha", questiona confuso.

Projetos

Quem ajuda a preservar a memória que resta é a neta de Chico Antônio, Marta Moreira, e a bisneta Socorro dos Anjos Moreira - a prefeitura municipal ajuda como pode. Já a Fundação José Augusto, autarquia que direciona a política cultural do Estado, decidiu por inscrever o projeto de preservação do patrimônio em um edital público. "Ainda não fizeram nada. Vieram aqui (segundo semestre de 2005), tiraram fotos e disseram que teriam uma resposta em março quando saísse o resultado do edital. Vamos esperar", torce Marta Moreira. A coordenadora do Centro de Documentação Cultural Eloy de Souza, Isaura Rosado, braço da Fundação que cuida, dentre outros atributos, dos museus, informou que o projeto também será encaminhado antes de recorrer ao orçamento do Governo. "O projeto de criação do memorial custa cerca de R$ 80 mil, investimento dividido entre Governo e edital. Caso não seja aprovado, recorreremos ao Estado para que banque integralmente", avisou a coordenadora. Calculando o valor pela importância de se preservar chega-se a uma conta bem óbvia(!).

Modernismo

No fim da década de 1920, durante suas andanças pelos confins sonoros do Brasil, o musicólogo paulista, poeta e escritor Mário de Andrade topou com galalau Chico Antônio. A mesma música que viria inspirar o pernambucano Antônio Nóbrega - Na pancada do ganzá, primeiro CD solo na carreira de Nóbrega, lançado em 1996, foi dedicado à memória de Chico Antônio -, encantou o modernista. Um ano antes, o extinto grupo Mestre Ambrósio (PE) já havia apresentado uma releitura para Usina (tango no mango).

O encontro foi tão marcante que Chico Antônio pode ser "lido" em diversos livros de Mário de Andrade, entre eles O turista aprendiz. Nessa época, o embolador chegou a passar uma temporada no Rio de Janeiro. Sem recursos e pouco adaptado, voltou a Pedro Velho para trabalhar na roça e cantar cocos nos fins de semana.

Isolado por quase cinco décadas, Chico Antônio foi "redescoberto" em 1979 pelo pesquisador e folclorista Deífilo Gurgel, 79. "Segui os rastros da história de Mário de Andrade, que falavam sobre a existência de um lendário cantador lá pras bandas do litoral sul do Estado", lembra. Três anos depois, o embolador grava o único disco pela Funarte com nove músicas, entre elas Boi tungão, Onde vais, Helena e Vou no mar. Em 1983, Eduardo Escorel produz o documentário Chico Antônio, o herói com caráter - nesse mesmo ano, o potiguar chegou a participar do programa Som Brasil (TV Globo), então apresentado por Rolando Boldrin.

A musicalidade de Chico Antônio, espécie de precursora primitiva do hip hop de hoje - o coco de embolada pode ser visto como uma espécie de rap do sertão "das antigas" -, continua inspirando teses, pesquisas e bandas de rock, respectivamente os livros O canto sedutor de Chico Antônio, da historiadora Gilmara Benevides, Usina Brasileira: Centenário de Chico Antônio - Caderno de Cocos, onde o organizador João Natal transcreve letras e partituras dos cocos, e, por fim, o grupo potiguar de "hard coco" Folcore.

Enquanto isso em Pedro Velho: "Sei de livros falando de Chico Antônio, mas não sei se tudo é verdade. Também não sei direito quem foi Mário de Andrade, dizem que foi um escritor famoso do Sul. O bom é que a história valoriza a região", pensa o agricultor Joaquim Bezerril, 57 anos, trabalhador rural da região e guia do primeiro contato com a família Moreira.

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Renata Marques
 

uma pena o que estão deixando acontecer com nossa memória por essas bandas.

Renata Marques · Natal, RN 8/3/2006 00:42
4 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Hugo Morais
 

É por essas e por outras que o tal país do futuro não chega nunca a ele. Valorizamos o que vem de fora, mas não olhamos ao redor.

Hugo Morais · Natal, RN 10/3/2006 15:51
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
joão hortencio
 

Olá!!! gostei do comentário! tenho os meus também a fazer, mas não agora. Sou de Pedro Velho, a terrinha do coquista Chico Antonio.Aguardem!!! Vocês terão muitas surpresas sobre Chico Antonio e sua arte!!
João Hortencio Sobrinho.

joão hortencio · Pedro Velho, RN 2/8/2008 10:46
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