O tempo não perdoa. E, se faz esquecer de recentes operações da Polícia Federal país afora, o que dizer dos artistas brasileiros que merecem o seu devido espaço na história da arte? Trabalhos como o do pernambucano Paulo Bruscky, sem nunca ter exposto em Alagoas – apesar de ser nosso vizinho –, deveriam merecer um olhar mais cuidadoso dos produtores culturais de nosso Estado.
Só agora Bruscky nos é apresentado, através da exposição “Work in Progress e Objetos Inúteis”, com abertura na última quarta-feira (26), na Pinacoteca da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), localizada de frente à Praça Sinimbú. É também a abertura do calendário de exposições da instituição em 2008, cuja escolha pelo artista trará reflexões sobre as artes visuais na contemporaneidade da produção nordestina, embasada numa aproximação com o cotidiano e fundada numa precariedade intencional.
Dito isto, esqueça qualquer pré-julgamento acerca da mostra: o artista em questão ficou famoso nos anos 1970, quando começou a fazer experimentações no campo da arte conceitual, com pesquisas envolvendo materiais diversos e intervenções, como happenings, carimbos, áudio, copy art e super-8. Mas, nem por isso, está “fora” do mercado da arte atual. Passa por um momento de revigoramento, sendo chamado a participar das mais importantes exposições do cenário nacional. Bom para os alagoanos interessados em firmar sua posição em um sistema de promoção da arte contemporânea dominado pelo eixo Rio-São Paulo.
Neste seu revigoramento, grande parte do mérito vai para a crítica de arte, pesquisadora e curadora Cristina Freire. Em dezembro de 2007, no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (USP), Freire organizou uma retrospectiva intitulada "Ars Brevis", primeira individual de Bruscky em museu paulista, na qual reviveu o que há de mais consistente e questionador no trabalho desse pernambucano em sua carreira. Paralelo à mesma, ocorreu o lançamento do livro “Paulo Bruscky: Arte, Arquivo e Utopia” (Companhia Editora de Pernambuco, 2007, 271 páginas), de autoria da curadora, a ser lançado também em Alagoas nessa quarta.
A exposição “Work in Progress e Objetos Inúteis”, em cartaz até o dia 18 de maio, não é de alguém que se alimenta apenas de um (bom) passado: Bruscky, atualmente, aos 59 anos, ainda é apontado pela crítica nacional como um artista promissor. Prova disso é sua participação na mostra desse ano “Futuro do Presente”, no Itaú Cultural (SP), a qual reviveu um de seus mais famosos trabalhos: “Meu cérebro desenha assim”. Esta sua segunda versão, de 2007, foi concebida para a exposição – que buscou mostrar obras fundamentadas na experimentação, como um apontamento para o futuro das artes visuais. Amelia Toledo, Cildo Meireles, Nelson Leirner, Chelpa Ferro, estiveram entre os artistas escolhidos pelos curadores Agnaldo Farias e Cristiana Tejo.
É este o trabalho encontrado na primeira sala da Pinacoteca da Ufal. Batizada de EEG Arte, Bruscky “revela” o que seu cérebro “sente”, uma analogia para a percepção do público sobre de que maneira sua experiência estética com as artes visuais interfere na mente do artista. Revela, assim, uma possibilidade de fruição estética do espectador advinda de situações até então impensadas por qualquer artista contemporâneo, blefante ou não, que queira mostrar sua produção a partir de novos suportes.
“Ao tomar os registros dos aparelhos como recurso gráfico, subverte os lugares e sentidos da ciência e da arte. Transforma o hospital em seu laboratório de criação para buscar aí correspondências entre o mundo da tecnologia moderna e as emoções e sentimentos humanos mais profundos”, diz Cristina Freire sobre a EEG Arte.
Novos suportes são uma constante na produção do artista. E, na segunda sala, pode-se observar um pouco dos experimentos do artista, como nos registros do “Meu cérebro desenha assim” (Parte 1 e 2); da exposição “Exercícios” (1980), realizada a partir de performance, instalação, xerox, arte-correio e videoarte; e “Arte Pare” (1973), documentando um projeto de intervenção urbana que consistiu em colocar uma fita cor-de-rosa com um laço na cabeceira da ponte da Boa Vista, em sua terra natal.
Outro destaque da sala de projeção são os xerofilmes, realizados através da seqüência do processo “xerográfico” – o nome é advindo das máquinas copiadoras da marca Xerox – criado e desenvolvido pelo próprio. “Xeroperformance” (1980) e “Aépta” (1982) compõe este tipo de videoarte, os quais mostram um pouco mais do relacionamento corpóreo do artista com as máquinas – visto que, na primeira sala, a relação é com o eletroencefalograma. Mais de 30 produções dos anos 1970 e 1980 fazem parte dessa mostra, na segunda sala do espaço expositivo.
Objetos que revelam uma certa inutilidade, como em “Ancoradouro”, o qual mostra a imagem de um porto com uma porta que leva – e fecha – a lugar algum estão presentes na terceira sala. Em Maceió, um trilho esfacelado na Avenida Buarque de Macedo, intitulado “Arquitetura dos Trilhos” (2008), da série “Arte em trânsito e em todos os sentidos”, compõe a mostra dos “objetos inúteis”. Mas se for para discutir utilidade na arte, o que se faz útil? A resposta é subjetiva: deleite estético e enriquecimento da percepção humana. Ou não, pois, para ele, a discussão deveria ser muito maior, englobando até a utilidade das ciências – desde o Renascimento consideradas como a grande atividade humana.
Pioneiro e inovador
Bruscky faz parte da primeira geração da videoarte no Brasil, junto com os artistas Anna Bella Geiger, José Roberto Aguilar, Ivens Machado, Letícia Parente, Regina Silveira, Paulo Herkenhoff, Fernando Cocchiarale e Mary Dritschel, dentre outros. A partir de 1973 entrou no movimento Internacional de Arte Correio, tendo mantido contato com integrantes dos grupos Gutai e Fluxus e participado de exposições no Brasil e exterior. Pelo contato com esses grupos, é também possuidor de grande acervo documental acerca das vanguardas artísticas a partir da década de 1960, incluindo trabalhos originais. Principalmente no que se refere à Arte Postal, tendência artística originada em 1968 por Ray Johnson e sua Escola de Arte por Correspondência. Consiste em trocar mensagens criativas – imagens, ícones, pinturas, desenhos, carimbos, adesivos, envelopes, colagens ou composições – utilizando o sistema de correios para a veiculação.
A partir de 1979, realizou mais 30 filmes – os quais podem ser vistos na exposição da Pinacoteca. Foi em 1980 que inventou os “xerofilmes”, abrindo um novo campo para o desenho animado e o cinema experimental. De acordo com Walter Zanini, historiador da arte, Paulo Bruscky, em Recife, inclui pela primeira vez o vídeo em seu aspecto multimídia no final dos anos 1970.
Um ponto peculiar do artista é o fato de parte de sua obra ser feita em seu ambiente de trabalho; sim, ele utilizava de suas folgas de funcionário do Hospital Agamenom Magalhães, de Recife, para subverter aparelhos como aparelhos eletroencefalógrafos (EEG Arte), eletrocardiogramas, raio X, mimeógrafo, xerox, fax, carimbo etc. Seu apartamento é também escancarado, como observa-se as imagens das janelas na terceira sala da exposição, criando o efeito de que estas são reais devido à semelhança com as do prédio onde está a Pinacoteca.
Outra característica é a multiplicidade de trabalhos: além dos suportes falados anteriormente, faz também poesia visual feita a partir de objetos do cotidiano, como remédios. Nem as caixas destinadas ao transporte das obras passam despercebidas, as quais ele expõe na terceira sala da Pinacoteca da Ufal com os dizeres: “Arte se embala como se quer”.
Bruscky revela traços de sua produção com a cultura nordestina, mas fugindo ao regionalismo preconizado por muitos como bandeira. Este caminha na mesma idéia do alagoano Delson Uchoa, que sempre proclama: “minha arte tem traços da minha região, e eu assumo, de forma que se estivesse no Alaska teria um trabalho totalmente diferente”. E é isto que dará a tônica da terceira sala da exposição, pois será observado ao final da mesma o que foi feito em Alagoas no work in progress “Objetos Inúteis” e comparar com os resultados em Paris e Salvador, onde foram realizados o trabalho recentemente. É um processo de constante descoberta, tanto para o artista como para os alagoanos que se desafiarão a compartilhar com a experiência de fruição estética de Bruscky.
Como acontecido em outros lugares, todos os momentos dessa sala serão documentados e uma parte será exposta na próxima exposição, em João Pessoa, no segundo semestre. Como se observa, sua videoarte está também “em progresso”.
O trabalho enfoca como tema principal a relação do ser humano com o ambiente. Assim, será construído um “monumento” com a participação do visitante, cujo papel é de co-autor, que durante todo o período da exposição poderá levar seus objetos “inúteis” a serem incorporados à estrutura montada pelo artista. Um cartaz na Pinacoteca e os convites enviados pedem ao público para levar objetos “inúteis”. Quem sabe, dessa forma, estes tornem-se úteis? O artista responde: “é essa minha pretensão, refletir nos parâmetros de utilidade/inutilidade para cada pessoa. Isto envolve o aspecto afetivo humano quanto aos bens materiais e ao consumismo exacerbado da sociedade”.
Essa relação com o público torna-se tão importante para Bruscky que ele não hesita em afirmar que o considera mais importante que qualquer crítico. “Todo artista tem obrigação de dialogar com o público, pois a arte é sempre questionamento; é sempre quebrar com idéias pré-estabelecidas do cotidiano”. Tal reflexão é influência assumida do artista Marcel Duchamp, cuja homenagem acontece em dois momentos da exposição: no tabuleiro de xadrez intitulado “Jogo do Acaso” e na fotografia do jarro de flores em Copenhagen denominada “Homenagem a Marcel Duchamp”.
Precariedade e regionalismo em sua obra
O artista tem na precariedade de sua obra um elemento provocador, irônico; é, também, traço marcante de sua influência com a cultura nordestina, marcada pela habilidade de seus habitantes a viver e criar em condições adversas. “O mais importante é o saber e não o fazer”, adverte Bruscky em um letreiro na parede da terceira sala da exposição. Cristina Freire trata também da precariedade na proposta dele, em texto sobre a exposição no MAC-SP: “O transitório-permanente da obra desse artista pernambucano, em sua assumida precariedade, revela outros sentidos para o decurso da nossa história da arte contemporânea”.
Para o crítico pernambucano Moacir dos Anjos, a produção visual contemporânea brasileira possui um “sotaque” que tem como uma de suas principais características promover a aproximação e o contágio entre elementos que, em outros contextos, se antagonizam e se repelem, tais como o vernacular e o erudito ou o inacabado e o pronto. Isso confere, aos sentidos enunciados na contemporaneidade, um caráter híbrido e flexível, exprimindo uma capacidade de adaptação do país a uma condição adversa e complexa no mundo, tão bem encapsulada no termo “gambiarra”.
Ao tratar da contemporaneidade no campo das artes, Ferreira Gullar sugere, em seu livro "Argumentação Contra a Morte da Arte", uma observação aprofundada do contexto no qual o artista está inserido, a exemplo de Bruscky. “Arrisco dizer aos artistas jovens que tentem buscar na realidade de nossa terra e de nosso povo os estímulos que já não vêm de fora. Sem medo de errar. Dispostos mesmo a errar. E errar aqui pode ser apenas abandonar o que já se sabe, voltar as costas às conquistas alcançadas por um século de experiências, e começar de novo. (...). Há que desvencilhar-se dos preconceitos novos que, mais pretensão que verdade, esterilizam o artista, minam-lhe a generosa capacidade criadora”.
A precariedade na produção brasileira funcionou como elemento constante e potencial. É inclusive em Hélio Oiticica que Moacir dos Anjos tratou ao falar das principais influências na contemporaneidade brasileira: “Não há como negar que os artistas brasileiros crescem em meio a uma genealogia só nossa. Seus trabalhos têm uma referência forte da Antropofagia, da tradição concreta, da Lygia Clarck e do Hélio Oiticica. Essas são as nossas especificidades”. Paulo Bruscky sabe muito bem disso, ao revelar sua relação com uma arte experimental e conceitual e influência do concretismo brasileiro – como nas suas poesias visuais e nos resultados obtidos pela EEG Arte.
Ainda sobre a precariedade, a jornalista Gisele Kato, em reportagem à Bravo de outubro de 2007, fala que o país vive sob o “encanto da imobilidade”. “Driblamos um obstáculo e aparece logo um substituto”. A precariedade, não só no campo da arte, é uma maneira de afirmação, de permanência em um país onde conseguimos nos adaptar e “driblar” as adversidades para seguirmos em frente - uma criatividade para trabalhar com o precário que muitas vezes nos é apresentada como a única opção para produzirmos. “Somos anarquicamente criativos”, diz Bruscky.
Portanto, ao contrário do que se pensaria, a condição precária na produção não foi problema para o artista em questão, nem recebeu da crítica a alcunha de “mal-feito”; mas, sim, uma possibilidade que o deixou bem à vontade: o pernambucano é criativo e inquieto ao extremo, sem esquecer da sua ironia: características que o fizeram expor seu traço nordestino e fazê-lo internacionalmente reconhecido, tendo participado de mostras realizadas na Itália, Canadá, Estados Unidos, Venezuela, Dinamarca, Suécia, Finlândia, Portugal e Espanha. Agora, o público alagoano, muitas vezes desavisado do que chega às galerias de seu Estado, pode apreciar e se inspirar. E não se esqueça de comparecer também no último dia da exposição (18 de maio), para um debate com o artista sobre o resultado do seu work in progress alagoano.
meu cerebro dezenha açim e açado :-))) !!
boa matéria, valeu !
muito bacana seu texto, Vitor - acho que é sua estréia no site também: muito bem-vindo! sinto bastante falta de mais textos sobre artes plásticas por aqui - bom saber que Alagoas e o Overmundo podem finalmente e ao mesmo tempo conhecer o trabalho do Paulo Bruscky
Vitor,
Oportuna a lembrança a Paulo Bruscky e seu excelente texto.
Abs
Beto
Massa Vitor! Vou lá na pinacoteca conferir. Ótimo texto. Abraço.
Marcelo Cabral · Maceió, AL 1/4/2008 16:53
Obrigado ao pessoal que por cá passou!
Pra quem mora em Alagoas, vale a pena dar uma passada na Pinacoteca no último dia da exposição. Quem sabe nos encontramos e batemos um papo!
A Pinacoteca Universitária é aberta de segunda a quarta das 8h30 às 12h e das 14h às 19h. Terça, quinta e sexta das 8h30 às 12h e das 14h às 17h e fica localizada no Espaço Cultural Universitário, na praça Sinimbu. Mais informações: (82)3221-7230.
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