Pedro Jorge, a polissêmica

Henrique Araújo
Da sacada ao abismo citadino
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Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A · Fortaleza, CE
13/12/2006 · 113 · 6
 

Uma saga minimalista

O que Curinga, arquiinimigo do Batman; Roberto Carlos, de As curvas da estrada de Santos; e o Sr. Spock, da série Jornada nas Estrelas podem ter em comum? Nada, responderá a maioria. Uma característica, entretanto, os une visceralmente: estão todos expostos na vitrine de uma das lojas do 3º andar da galeria Pedro Jorge, no centro de Fortaleza. Nela, além de miniaturas das personalidades acima referidas, encontramos, brandindo guitarras ou massacrando os pratos de alguma bateria, figuras como os roqueiros da banda Kiss ou Aerosmith; lendas do rock nacional, como Raul Seixas, Renato Russo e... Pitty. Harmoniosamente, a velha e nova guarda do rock convive com os esculhambados Beavis e Buthead e Homer Simpson.

Abaixo, a galeria exposta em fatias laterais, cujas denominações, lados "Par" e "Ímpar", servem apenas para refenciar de que lado estamos falando: do lado do mar ou do concreto. Mais o térreo do exército de relojoeiros e casas de artigos religiosos, uma constante de cima a baixo, da esquerda à direita, indo e voltando.


Lado Par

Do lado par, no último andar, vista para grafites em vastas cores cobrindo muros e fachadas de lojas descascadas e telhados de amianto.

Na Opus, uma das lojas mais tradicionais entre os amantes do rock ou simplesmente consumidores da moda underground, o movimento durante a manhã é pequeno. À exceção de alguns estudantes, atraídos por cintos com “arrebites”, perneiras e munhequeiras, quase não há ninguém. Encostado ao balcão, o vendedor aproveita para assistir a mais um capítulo da série 24 horas. Aqui e acolá, um cliente, que entra e vasculha a coleção de discos e camisas em busca de alguma raridade. O vendedor não desgruda os olhos das estripulias de Jack Bauer, agente da CIA invariavelmente encarregado de salvar o mundo de terroristas árabes ou latino-americanos.

Aureliano Xavier Teixeira, 34 anos, já assentou tijolos, preparou argamassa e retelhou casas. Antes, quando era servente, apenas olhava e preparava a massa que o pedreiro utilizaria. Aureliano fez, também, pequenos consertos na rede hidráulica do bairro onde mora, o Nova Metrópole, na Região Metropolitana de Fortaleza. Há seis anos, após sentar para estudar numa das salas de um curso para a formação de seguranças, realizado no município de Itaitinga, Aureliano conseguiu emprego na galeria. Não é forte como os meninos de academia podem ser, mas assusta pelo tamanho. Seu ponto fraco: o sorriso. Ele é um dos três seguranças que protegem, de segunda a sábado, das 8 às 18 horas, os comerciantes e transeuntes da Pedro Jorge.

Conforme o rodízio informal realizado por Aurelino e seus colegas de trabalho, havia chegado a sua vez de circular na parte superior da galeria. No trajeto usual, ele aproveita para passar na Opus, onde se encaminha, em passos miúdos, em direção ao balcão da loja. Percebendo a presença do segurança, o vendedor narra, sem erguer a vista da televisão e de forma sucinta, o objetivo da nova missão de Jack. Aureliano passa, então, a acompanhar atentamente as aventuras do agente.

No mesmo patamar da galeria, Daniel Antunes, 22 anos, vende, há dois meses, camisas do ColdPlay, Avril Lavigne e Creed e adereços trespassados por pinos de metal cromado. Ele mesmo encontra-se em conformidade com o meio: na camisa preta, rostos de três ou quatro jovens estampados fazem estranhas caretas. Nos pés, tênis All Star vermelhos. A um cliente que descreve, em minúcias, o tipo de jaqueta que gostaria de comprar – um blusão com zíper varando-o de cima a baixo – Daniel balança a cabeça negativamente: estava em falta. O rapaz ainda olha outras peças, calças rasgadas e camisas com estampas do filme Taxi driver, mas vai embora.

Daniel é franzino e aparenta inteligência. Escuta música na loja, fala sobre as bandas que gosta e como foi parar na Dark, estabelecimento do qual é funcionário. Começou com piercings. Ali mesmo, na galeria, aprendeu o ofício. “Foi um ano observando e outro colocando”, conta. Cobrava, em média, R$ 50 pelo serviço. Ele confessa não ter tido muito tempo para se tornar um bom profissional: “Em alguns lugares, não dava pra colocar. Tinha que chamar outra pessoa”, informa. Além de pendurar brincos em umbigos, lóbulos, mamilos e supercílios, Daniel também escreveu em uma revista do Carlito Pamplona, bairro de Fortaleza. “Ela falava de skate, rock e outras coisas”. O interesse pelo jornalismo veio a reboque da experiência de Daniel com a Oxe, nome da revista. Em pouco tempo, tomou a decisão: parou de trabalhar e estudou durante um ano. Entrou para o curso de jornalismo de uma universidade particular, mas logo desistiu. Ainda pensa em retomar o curso, escrever novamente em revistas e se tornar um bom jornalista.


Lado Ímpar

Do lado ímpar, a vista descortina o azul-turquesa intermitente do mar de Fortaleza, a oficina de um senhor que conserta cadeiras e o cone cinzento da torre da Catedral da Sé. Mais as fachadas de lojas, ruas apinhadas de ambulantes e telhados de amianto.

Corredores mergulhados em silêncio. No ar, odor de próteses. Curvado sobre um molde em gesso, Jéferson esmera-se: do bico de gás, alimentado por querosene, ele retira a pinça, mergulhando-a, em seguida, na cera vermelha ou azul. Aos poucos, faz surgir o exato desenho de uma arcada dentária no molde de quartzo. Desconhece a boca da qual foi retirado o molde original, feito em gesso. Ao longo do dia, serão, pelo menos, outras sete arcadas marcadas a fogo e cera. Nas costas à mostra, o rosto de uma mulher pintado em azul.

Circulando na saleta onde trabalham, além dele, outros três homens sem camisa, Joacy Gadelha. Tem 35 anos, 16 dos quais dedicados ao fabrico de próteses dentárias, e uma tatuagem no dorso. Começou trabalhando como empregado e hoje tem orgulho de ter se convertido em dono. Joacy é baixo, tem bigode e parece sentir prazer ao explicar todas as etapas pela qual a prótese dentária passa até chegar à boca do cliente. Fala que, ao longo do ano, o período que vende mais é dezembro. Em janeiro e começo de fevereiro - antes, portanto, do carnaval - as vendas caem vertiginosamente. No final do ano, o que importa é aparecer nas fotos com um belo sorriso. Depois, apenas o carnaval, com ou sem dentes postiços.

Num dos cantos da sala, Carlos Eduardo Rocha Moraes, 26 anos, lixa as próteses há pelo menos um ano. Curvado sobre um punhado de pequenos pinos, identificados pela função que cada um exerce durante o processo, Eduardo fala pouco. Não se distrai. Para cada peça, ele garante levar uma hora polindo. No final, uma prótese brilhando é devolvida ao molde original e levada para uma sala contígua. De lá, o destino é o consultório médico conveniado. Ao estender a mão para receber a prótese, pouco ou nada da história de Eduardo passará pela cabeça de alguém.


No térreo


Do térreo, vista nenhuma se tem, senão a do incessante movimento de pernas e braços articulados a troncos de homens e mulheres em busca das compras de Natal. Após ter sido coberta com um teto de alumínio, a galeria ganhou ares de caverna e abriga, no seu útero, relógios, bíblias e a cajuína de Edísio, proprietário da livraria em cuja calçada trabalha Joaquim.

Lá fora, o sol faz escorrer suor viscoso, empapando camisas e agoniando juízos. Dentro, a impressão é de que, da escala de temperatura, pelo menos dois ou três graus ficaram detidos na entrada da galeria. O suor logo seca.

O homem de rosto magro interrompe por um instante o conserto do relógio e aponta, discreto, a banca de Joaquim. “Melhor falar com ele, está há mais tempo aqui”. Enfileirados, cerca de dez ou mais trabalhadores desatarraxam pinos de peças nacionais e importadas, emendam pulseiras ou simplesmente as substituem por novas. Feroz, a concorrência resulta, muitas vezes, em discussões iniciadas e encerradas ali mesmo, à vista dos clientes.

Jornal aberto no caderno de política. Por trás da barreira de papel, o rosto moreno de Joaquim Barbosa Teixeira, 57 anos, relojoeiro na galeria há 19 anos. No começo, retificava e vendia relógios. Hoje, com a hegemonia dos importados, Joaquim apenas vende e faz pequenos reparos. “Os casos mais difíceis, envio para o rapaz que trabalha comigo lá do outro lado da galeria”.

Joaquim arma a sua banca em frente à livraria Ceará, que vende, entre outras coisas, tabuleiros para futebol de botão, lousas brancas e uma cajuína sob encomenda fabricada em Cascavel. A Edísio Holanda, 69 anos e proprietário da livraria, Joaquim paga a mensalidade de R$ 350. Mais cara que o aluguel de uma sala em um dos flancos da galeria, cujo valor não ultrapassa os R$ 300. O homem grisalho, entretanto, argumenta: “E o cliente, quem leva até lá em cima?”.

Antes do acidente que o deixou imobilizado por cerca de um ano, Joaquim trabalhava como contínuo em uma ótica ali mesmo, no centro da cidade. Após cair da moto, viu-se obrigado a vender um carro que possuía para pagar medicamentos. Com o que sobrou, comprou, por influência de um amigo, a mercadoria com a qual passaria a lidar desde então: relógios.

Hoje, ao lado de Edísio, com quem compartilha a leitura do jornal diário obtido a um preço menor mediante “negociação” com o gazeteiro, Joaquim comenta sobre as mudanças pelas quais a galeria passou durante esse tempo e atesta: “As bíblias estão dominando pouco a pouco todo o espaço”.

Edísio, natural de Cascavel e amante de cajuína, confirma o que dissera o amigo: “Antes, predominavam as livrarias na Pedro Jorge. Aqui em cima da gente funcionava uma agência do Banco do Nordeste. Ali na esquina, tinha uma peixaria. Aqui em frente, uma barbearia”, e continua a enumerar a transmutação do comércio local com o passar dos anos, acrescentando: “Hoje, muita loja de artigos religiosos, bíblias, etc”. Ele mesmo, confessa, chegou a ter quatro livrarias funcionando na galeria. “Fiquei somente com esta aqui”.

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Thiago Camelo
 

Grupo TR.E.M.A mais uma vez fazendo matérias legais e com abordagens diferentes sobre o mesmo objeto.

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 11/12/2006 17:08
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Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A
 

curioso: sabia que o pedro tinha feito a galeria, mas não que a matéria estava aqui, no Overmundo. bom não ter lido antes de sentar diante do computador: o "refresco de ácido" que o menino toma antes de escrever certamente respingaria no meu texto...

abrasços a todos!

Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A · Fortaleza, CE 11/12/2006 17:24
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Débora Medeiros
 

Incrível como a Pedro Jorge dá que sobra pra mil pautas diferentes e interessantes! Eu e mais 3 amigas temos um jornal meio que semestral (todo semestre, tem uma cadeira que pede um jornal como trabalho final, já percebeu? :p), chamado A Vaca. A segunda e mais recente edição foi toda constituída por pautas sobre o centro da cidade, inclusive a Pedro Jorge. Foi uma das pautas mais legais de se fazer, aliás :)

Sou fascinada por esse lugar desde meus anos de roqueirinha que ia toda vestida de preto pros shows do Shaaman no Metrópole, hehehe!

Débora Medeiros · Fortaleza, CE 20/2/2007 21:06
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Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A
 

olha, débora, sapeca esses textos de vocês aqui no overmundo!

Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A · Fortaleza, CE 21/2/2007 10:31
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Débora Medeiros
 

É isso que tô pensando em fazer mesmo, Henrique. Mas vou falar com elas antes, até porque também estamos pensando em fazer uma versão online dA Vaca, daí teria que ver o que ficaria aqui e o que iria só pra lá. Por enquanto, tô trabalhando mesmo é nuns textos meus pra cá :)

Débora Medeiros · Fortaleza, CE 21/2/2007 11:09
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Jade Allen Leto
 

ADOREI O POST, MUITO BOM!

Jade Allen Leto · Guaiúba, CE 31/8/2011 15:20
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