Peixe elétrico, goma do encantado (Parte I)

Henrique Araújo
Igreja Matriz de Messejana
1
Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A · Fortaleza, CE
14/5/2007 · 106 · 3
 

CHEGADA

Com a mudança do verde para o vermelho no cruzamento entre as ruas Tenente Jurandir Alencar e Pe. Pedro de Alencar, no centro de Messejana, ele caminha rumo à feira. Num pedaço de papel amassado e enfiado no bolso da camisa, a recomendação escrita em letras garrafais: "Não esquece: só se for de Cascavel". Um pouco adiante, ao lado da Paróquia Nossa Senhora da Conceição, reinaugurada em 2001, toma a primeira de uma série de notas escritas apressadamente no bloco: "cruzamento dos Alencar. Em Messejana, quase todo mundo pertence à família".

Na face direita, 6h40; na esquerda, 8h35. No centro, nem uma coisa nem outra. Afinal, nenhum dos três relógios afixados na torre do campanário da igreja diziam a verdade. Debaixo do calor das 10h25, o miolo da praça da matriz estava vazio. O vendedor de CDs e DVDs piratas escarafunchava as unhas à sombra de uma mangueira. No horizonte de expectativas, embora o dia fosse de agitação, nenhum cliente. O engraxate, sem mais que fazer, abancara-se num dos quatro ou cinco quiosques erguidos na praça. Os demais protegiam-se como podiam, ora abanando-se com papelão, ora enfurnando-se numa das muitas lojas de variedades que apenas muito recentemente haviam tomado o bairro de assalto. Em situação privilegiada, apenas Iracema, naquele seu banho de cuia sem fim.

Diferente dos outros dias da semana, sábado e domingo não têm feira. Apenas no nome, porque, em Fortaleza, de segunda a segunda, das cinco da manhã, quando vão chegando os primeiros vendedores, até as três da tarde (mais demorada, a feira de Parangaba encerra as suas atividades exatamente às 15 horas), todo dia é dia de feira. Pois era domingo de feira. E, engrandecendo-o, também era dia de final no campeonato cearense de futebol. Nessas condições, percorrer a feira de Messejana à procura de histórias e, en passant, da famosa goma para tapioca ("só se for de Cascavel") conferia um tom diverso ao arremate da semana. Na lembrança, perdida entre recordações do seu primeiro peixe de briga, a feira de Paraganba. Forte cheiro de murici, empurrões e comida gordurosa. Pastel e caldo de cana. Tudo em companhia do tio, fanático torcedor do Ceará.


DIMENSÕES DA FEIRA

Um breve exercício mental. Tentem imaginar a feira de Messejana, uma das maiores e mais movimentadas de Fortaleza, vista do alto. Uma agência bancária aqui, um barbeiro ali - sim, lá, no centro, ainda existem barbeiros. Esgoto correndo a céu aberto acolá - não, o bairro não tem saneamento. A um domingo do dia das mães, uma infinidade de lojas apinhadas atira seus televisores com tela plana e aparelhos de som em quem passe muito perto. Exercício findo, joguem fora o precário esboço da feira rabiscado no papel: ele não se parece em nada com a realidade. Também tratem de rejeitar qualquer idéia que se aproxime disto: “a feira é um chafurdo só”. Pelo contrário: muito organizada, dividida em seções conforme o tipo de produto a ser exposto, constitui um polígono regular. Mais exatamente, um quadrângulo. Com algumas arestas, é verdade. A principal delas: o cabeleireiro (cadeira armada na calçada, uma tesoura e um pente) fica próximo à seção de carnes.

Simplificando o esquema de organização da feira. Nos extremos: carne, peixe e frango de um lado e confecções, calçados e eletrônicos do outro. Entre os dois antípodas, tomates, capas para celular, pomada de Copaíba, sela e arreios para cavalos; biscoitos, bolachas e iogurtes aparentemente vencidos. Eis a feira. Claro, mais tudo que ele - ora cego em procura da goma de Cascavel, ora vexado com tanta gritaria ou perdido no meio do colorido e cheiros vários - deixou de ver e ouvir.

PARANGABA-MESSEJANA

Às 3h30 da manhã, ele ainda estava dormindo. No mesmo horário, ela, dona Jaira, boceja e pensa duas vezes antes de dar o passo definitivo para despertar de vez: acender a luz o quarto. Se ela toma café? Apenas café. Em seguida, enfia numa grande sacola de pano algumas dúzias de calções e camisas. No pequeno cômodo, os dois filhos – um homem e uma mulher – ronronam feito gatos. O mais velho é lutador. Dona Jaira também luta, sim. Entre os modos de lutar dos dois, mãe e filho, pouca coisa em comum. Apenas certo grau de violência. Ele pratica vale-tudo. Na feira de Messejana, aos domingos, e noutras no restante da semana, dona Jaira garante que às vezes também “vale tudo”.

“Aqui a prefeitura não olha pra gente. Tá vendo ali?”, pergunta apontando para um muro caiado junto ao qual há uma pequena montanha de lixo. “Aquilo ali a gente tem que pagar pra alguém tirar”, diz dona Jaira que, além do lixo, também custeia, juntamente com outros feirantes, os quatro seguranças que fazem a ronda, que não é a do quarteirão. “No final da feira, cada um paga o que pode e eles ficam satisfeitos”.

Antes de chegar até a barraca de dona Jaira, ele percorre alguns corredores estreitos da feira. Está na seção de confecção. Aqui e ali, bate com a cabeça na armação das pequenas habitações cobertas com plástico preto ou amarelo. O movimento é de shopping center nos finais de semana que antecedem a uma grande data. No caso, o festivo e passional segundo domingo de maio. Para alguém passar, ele tem de se recostar à lateral de alguma barraca. Ali, sente o cheiro forte da tintura nos tecidos e fica tonto. Pensa na goma e segue em frente.

Dona Jaira negociava quando ele se aproximou. “Se levar os dois, faço por seis cada”, lançava a isca. Eles, os clientes, a morderam direitinho. Cada calção custava separadamente R$ 8. Pensando tratar-se de mais um cliente, ela vai atendê-lo. Ele pergunta pela seção de comidas. Dona Jaira responde que fica do outro lado da feira. “Bem do outro lado”, enfatiza. Ele fala dos corredores estreitos. Ela diz qualquer coisa sobre necessidade e oportunidades para todos. Ele vai jogando mais iscas. Ela morde.

“Gosto de ser feirante, mas não quero isso aqui pros meus filhos”, dona Jaira lança a sentença que, na prática, tem o valor de um cartão de visitas. Daí até entrarem na rotina propriamente dita da feirante e em sua vida pessoal é um pulo. Em resumo, ela percorre, de domingo a domingo, feiras itinerantes nos mais diferentes e distantes bairros de Fortaleza: Aerolândia, Antônio Bezerra e Messejana são apenas alguns deles. “Claro, esta é a mais famosa. É pra onde gosto de vir. Por quê?! Porque tem mais clientes e é onde ficam os meus fornecedores”.

Dona Jaira pede um minuto para atender a dois jovens. Eles viram e reviram dois bermudões folgados o suficiente para serem transformados em dois cada. Repete-se o mesmo jogo de gato e rato visto durante a negociação anterior. Vendedora habilidosa, vence novamente. “Precisa de mais alguma coisa?”, volta-se novamente para ele. Dona Jaira não espera resposta: “Olha, outra coisa. A associação daqui nunca saiu do papel. A gente tentou criar uma, mas aconteceram uns problemas e acabou. Não tem mais”, explica. Ele se despede perguntando o seu sobrenome: “Alves”.

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Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A
 

Vão desculpando por alguns erros de concordância...

Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A · Fortaleza, CE 14/5/2007 08:56
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TaYgUa's
 

Fui umas duas vezes lá na feira. É um mundo que realmente deve ser contado. Parabéns!

TaYgUa's · Fortaleza, CE 15/5/2007 08:24
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André Gonçalves
 

sao coisas que o mundo vai matando. feiras, e afins.
pena.

André Gonçalves · Teresina, PI 15/5/2007 14:07
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