"Viola-de-cocho: são cinco cordas, cinco continentes. A súmula dos judeus, árabes, mouros, africanos, portugueses e indianos. Na verdade, a viola-de-cocho é uma autêntica Arca de Noé onde estão reunidas todas as culturas em harmonia. Vieram nessa verdadeira caravela que é a viola-de-cocho." Abel Santos.
Vou iniciar esse texto confessando uma indignação que senti naquela época e agora volto a sentir, sobre um episódio que aconteceu em Cuiabá há cerca de dez anos atrás. Considerei-o como absurdo, kafkiano, grotesco e ridículo.
O maestro Abel Santos, mineiro de Uberaba, descendente de portugueses, pacato cidadão do mundo, músico desde os cinco anos de idade, desenvolvia um trabalho seríssimo de pesquisa sobre a viola-de-cocho e suas origens, movimentos históricos, influências, cruzamentos com outras culturas, desenvolvimento de suas possibilidades, entre outras buscas. Buscou ampliar o campo harmônico da viola-de-cocho aumentando dois trastos no braço do instrumento que originalmente é todo baseado em três, passando para cinco trastos, o que aumenta bastante as possibilidades do instrumento.
Na época, em 1996, Abel abriu uma empresa-produtora cultural com o nome de "Viola de Cocho, produções artísticas". Tudo certinho, tudo registrado conforme as leis vigentes e pronto: o céu desabou sobre sua cabeça. Gritaram os cegos: ele roubou a marca para ele, ele patenteou a viola-de-cocho, ele registrou para seus domínios o nosso patrimônio histórico, ele surrupiou de nós a viola-de-cocho debaixo dos nossos narizes, ele é um Anjo mau, (desculpando o trocadilho) um enviado do demo! E pronto, sua caveira estava feita, na feira, nos bares, nas rodinhas que se formavam na praça do centro, nas casas dos ribeirinhos, na casa das madames que dirigiam a cultura, os intelectuais de plantão, o prefeito, o delegado, o padre, a crítica de arte, o governador, todos saíram berrando cegamente aos quatro cantos da cidade. Criavam assim, um ambiente perfeito para a crucificação de mais um artista brasileiro.
Abel relatou um fato grotesco que aconteceu naquele período quando foi abordado por um senhor na Feira do Porto, que o afrontou, perguntando agressivamente: “O Sr. é aquele que nos roubou, não é?” Ao tentar se explicar o homem passou a berrar com ele chamando-o de ladrão da cultura alheia, de safado! Passou a gritar com ele, enquanto chamava outros amigos feirantes, e deram uma carreira atrás dele, que se lançou desesperadamente para dentro de sua Caravan (que conserva até hj!) em busca de proteção, de um abrigo, “pelo amor de Deus!”, fechando o carro com muita pressa, ligando-o rapidamente, enquanto os chutes batiam fortemente em sua porta, amassando-a, e ele se mandava, fritando os pneus.
As pessoas parecem não ter noção de determinadas acusações públicas. Uma falta de bom senso imperou na época. Eu sempre me perguntava. Meu Deus, quanta estupidez, até quando teremos que aturar tudo isso? Qual o problema do cara abrir uma empresa com o nome Viola-de-Cocho? Qualquer um poderia ter feito isso. É legal, não tem nada a ver, ele não tem como patentear a viola-de-cocho, ninguém pode fazer isso: ele até brincou dizendo: "Já pensou se eu patenteasse o ganzá, que muitos dizem ter sido inventado em Cuiabá? Ora, Cuiabá tem 287 anos, o ganzá tem 40 mil anos!"
Trajetória
Em 1986, Abel Santos chegou a Cuiabá e iniciou seu trabalho com a viola-de-cocho. De lá para cá, não parou mais: adotou o instrumento como um modo de tocar a vida. "Não faço música para vender. Nunca tive uma preocupação capitalista com a música. Música é demanda da alma". Ele diz ainda que, para chegar onde chegou, teve que trabalhar muito, estudar muito, se esforçar bastante. Nada vem de graça, lembrei do Ezra Pound com sua máxima: arte é noventa por cento de esforço e apenas dez por cento de inspiração.
Um dos seus mestres na UFMT, que conheceu assim que chegou em Mato Grosso, foi o professor (Phd) Leônidas Querubin, que, de cara, saiu com essa máxima: "Quanto mais sábio mais simples." A vida acontece aos poucos, o aprendizado é uma constante quando se está atento para os fenômenos que nos cercam e quando abrimos corações e mentes para receber novas informações de forma simples, direta, sem afetações. Fora do círculo acadêmico, outros mestres deram o tom do conhecimento que buscava a sabedoria popular, a capacidade de observação do ser humano diante dos fenômenos naturais: Manoel Severino, Caetano, João Batista Rodrigues, Euclides Maia (o Bugre), Chico Salles, esses são os nomes dos mestres fazedores da viola de cocho e organizadores dos grupos que resistiram ao tempo - de Siriri e Cururu, que o maestro Abel viu, muitas vezes, vaiados nos eventos que participavam, folclorizados, quando aqui chegou.
Abel afirma que esses sim são os verdadeiros “doutores” de toda essa história. Para exemplificar Abel cita um episódio que envolveu o Mestre Manoel Severino: “Certa vez, ele, diante de uma árvore, olhou, olhou, arriscou e disse, calculando mentalmente, que a árvore teria cerca de 90 anos. Ele conhece a ‘pele’ das árvores. Coisa que os engenheiros florestais e agrônomos, utilizando meios científicos, concluíram surpresos, que o Manoel estava certíssimo.”
É interessante observar como a história é recheada das mais absurdas contradições. Esse interesse das elites cuiabanas pelo siriri e o cururu é recente demais. No ano de 1880, o Código de Postura de Cuiabá, no capítulo 17, em seu artigo 65, parágrafos 1º e 2º, diz: Dos jogos e reuniões ilícitas, vozerias e ofensas à moralidade pública. Art. 65º – Fica expressamente proibido: § 1º - Fazer bulha ou algazarra e dar altos gritos à noite.
§ 2º – Fazer sambas, cururus e outros brinquedos que produzam estrondo dentro desta Cidade.
Encerrando a peleja, Abel é inapelável: "A obra de um homem fala mais que suas palavras."
Para ele, “executar arte exige uma grande preparação, não basta só o impulso!” Diz sempre aos seus alunos: “Sou um ser material que quer ascender ao espiritual. Apesar de toda a tecnologia, tocar na viola-de-cocho me aproxima da essência humana.”
A partir dos estudos e de uma pesquisa arqueológica em busca dos caminhos que a viola percorreu, o maestro escreveu um livro, "Uma melodia histórica", acompanhado de CD, já esgotado, onde busca encontrar elos musicais entre a viola-de-cocho matogrossense e a viola portuguesa. Uma espécie de busca das próprias origens: "Não há como tirar de Cuiabá o influxo português. Na arquitetura, nos instrumentos." Ele se diz apaixonado pelo canto gregoriano, pelo alaúde, pela história da música, dos instrumentos musicais. Além do mais é compositor e intérprete, edita CDs com suas canções que têm muito de influência da música medieval. Ele me garantiu que estará postando suas músicas aqui no Overmundo, só está resolvendo "problemas pessoais" com seu computador.
Abel é um obsecado pelo poder da viola de cocho: "Diante da carência de recursos, o homem toma iniciativas que, bem ou mal, atendem às demandas profundas do seu espírito. A viola de cocho é a prova dessa essencialidade. Ao encontrar esse instrumento me encontrei como ser humano, como pai, nesse grande útero. Eu renasci desse útero que é a viola."
Maravilhoso! Como as pessoas veêm aquilo que querem e normalmente querem um pra cristo. Parabéns Eduardo! Parabéns Abel!
Claudiocareca · Cuiabá, MT 18/10/2006 11:31
Bravo Abel, permaneça! Quando incluimos um grupo de cururu e siriri na Mostra Urucum (2001) lá em Corumbá, tinha gente que torcia o nariz e falava mal, onde já se viu e tal. Depois do catálogo, um pesquisador com projeto na FUNARTE tentou fazer um trabalho sério de pesquisa, registro que afundou por mil questões, entre elas a intolerância. Anos depois resolveram tombar a viola, argumentei em monografia que era caso de registro, registraram... Bárbaro é que mesmo enfrentando senhores e senhoras pseudointelectualóides e seus carimbos e papéis, esse patrimônio se perpetua na dedicação apaixonada de gente feito Abel.
Bia Marques · Campo Grande, MS 19/10/2006 12:59
Abel é pura poesia na viola de cocho, já ouvi e vi ao vivo várias vezes, e todas, simplesmentes todas, são apaixonantes.
Quanto a questão da "patente", aqui em Cuiabá alguns temas são tabus para quem não é daqui, a cuiabania fala grosso, e, sem estudar o "causo", acaba provocando injustiças imperdoáveis, é o que aconteceu com Abel Santos...Viva a viola de cocho!!!!!!!!!!!!!!
é. parece que a peleja terminou com vitória de todos os anjos que amam a música.
eduardo ferreira · Cuiabá, MT 20/10/2006 13:03
A música realmente não tem preço! Porém só sabe quem a faz, quem a escuta, quem a vive.
Toco violão e guitarra (Rock Underground) e não importa o estilo ou instrumento, quem vive a música sente a sua presença em seu âmago.
Parabéns!
Espetacular. Conhecia a sonoridade da Viola de Cocho por conta do magnífico ponteador de viola, Roberto Corrêa (http://www.robertocorrea.com.br/obra_pesquisa.htm). É um universo encantado de sons, o que se apresenta.
Thiago Perpétuo · Brasília, DF 20/10/2006 21:22
Axé para vc amigo Abel, profundo conhecedor dos acordes e deacordes desta viola de cocho enluarada...
Mario Vilela · Cuiabá, MT 20/10/2006 23:05
Infelizmente a maioria da humanidade vive seus dias em "sombras", futilidades, "vaidade de vaidades" e "aflição de espírito", esquecem-se da essência humana, da transcendência.
É o caso que ocorreu com o Abel, prova como as pessoas são "fracas". Mas é isso, apesar de tudo, penso que se foi encontrado um caminho para chegar à "luz", há que divulgar esse caminho. Penso que devemos olhar e analizar esse mundo ( um caminho à "luz") da viola-de-cocho, já que há toda uma essência nas pesquisas desse instrumento. Ótimo "trabalho" sobre a vola-de-cocho, não conhecia. Me chamo Abner, sou de Salvador/BA. Tudo de bom.
é isso aí galera. a cultura produzida no brasil dá um caldo muito interessante. rico e iluminado. é só se servir...
eduardo ferreira · Cuiabá, MT 23/10/2006 17:45
Isso é fruto da desenormação... Para muitos, o ganzá, por exemplo, nasceu no momento em que ele o conheceu... É dificil ter a noção da historicidade dos instrumentos, principalmente para quem não tem acesso a essas informações, como nós o temos. A divulgação de fatos como este é uma das formas de acabar com este "medo", que é fruto unicamente da ignorância.
Eduardo Butakka · Cuiabá, MT 23/10/2006 20:12concordo eduardo. temer o que não se conhece...como diria oswald de andrade: demasiado humano...
eduardo ferreira · Cuiabá, MT 24/10/2006 15:03
Parabéns Eduardo por essa matéria, gostei muito dela.
Legal poder ter conhecido um pouco mais da história de MT. Tive o prazer de escutar esse Maestro da Viola-de-Cocho, tocando em uma apresentação no Centro de Eventos dos Pantanal, onde pude escutar o que realmente a "viola" pode fazer.
Parabéns....
legal skiper 3d, é um prazer poder contribuir para essa história de um brasil quase-oculto. overmundo é o canal!
eduardo ferreira · Cuiabá, MT 26/10/2006 13:02
Eduardo, Parabéns!
Lindissima matéria
geysa querida, que prazer enorme te ver aqui no overmundo! vc está no brasil? ligue-se. beijaço procê! quero te ver mais por aqui ...
eduardo ferreira · Cuiabá, MT 28/10/2006 22:06Obrigado Eduardo, to adorando tudo por aqui.. ainda mas eu que estou tão longe da nossa terra querida...vou acessar é muito pode deixar. Estou aqui em Estocolmo, mas vou ficar um mes por aí em janeiro, espero nos vermos, beijo pra vc e outro pra Ana
Geysa Salgueiro · Cuiabá, MT 29/10/2006 07:48fique ligada mesmo! daqui estaremos de olho e repassando as novidades para vc e toda a comunidade overmundana! bjos.
eduardo ferreira · Cuiabá, MT 1/11/2006 16:47
Vale a pena !!!
Amigos do MIS, vamos votar...!!!
Valeu Eduardo !!!
Abraços
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