Pelo fim do nordestino

Ministério dos Transportes
Região Nordeste
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Marcelo Cabral · Maceió, AL
30/1/2007 · 366 · 68
 

Muito se fala sobre o preconceito que os nordestinos sofrem nas grandes capitais do sudeste, mas em minhas andanças por essas bandas, vi pouco disso na verdade. Claro que sou nordestino fajuto, nasci na cidade de São Paulo, mas tive minha formação em Maceió, capital do estado de Alagoas, desde os três anos de idade (ou seria um paulista fajuto? Ou ainda um alagoista?).

Preconceito declarado, discriminação mesmo, nunca vi, mas um desconhecimento inacreditável da mais básica geografia brasileira, isso muito.

Não posso contar, nos dedos das mãos e dos pés, quantas vezes me encontrei nesta situação: Alguma festinha ou reunião de qualquer natureza, onde algum cidadão, minutos depois de me conhecer (quem apresenta já diz de onde você é, como um sobrenome, mas nada contra) chega e me pergunta: “sim amigo, mas lá em Fortaleza, tal e coisa?” como se fosse na esquina da minha casa! Então eu respondo que Fortaleza está tão distante de Maceió quanto Belo Horizonte (aproximadamente).

Aliás, foi lá em BH que uma vez um amigo do meu amigo me disse “poxa, você é do Nordeste, quando passar pela Passarela do Álcool, lembre que eu blá blá blá, num sei o quê por lá”. Respondi pra ele que nunca estive em Porto Seguro, ele achou estranho, por eu ser nordestino, mas expliquei que a tal Passarela é bem mais perto de onde ele mora que Maceió algumas centenas de km. É do lado de BH.

Muito sujeito cheio de título, curso disso e daquilo, já chegou pra me perguntar se Maceió é a capital de Aracaju, entre outras atrocidades. Ajuda aí né amigo? Se fosse uma coisa rara de acontecer, vá lá, tudo bem, mas acredite, é constante e corriqueiro.

Muito me estranha que o carioca seja carioca, com sua identidade e lugar no espaço territorial desse Brasil nacional, e não sudestino. O carioca é carioca, o mineiro é mineiro, tal qual o paulista e também o capixaba. Ninguém é sudestino.

Essa coisa do termo “nordestino”, e até do orgulho de sê-lo, é um tanto equivocada, coloca todo mundo no mesmo saco de farinha, da mesma forma que as generalizações “baiano” e “paraíba”, tão usadas em São Paulo e Rio de Janeiro respectivamente.

Nada contra os baianos e os paraíba(nos), muito pelo contrário, mas, bem, eu sou alagoano, não porque isso seja lá grande coisa, sem essa de nacional-fascismo do tipo “minha terra, minha cultura e minha praia são melhores que as dos outros. Se discordar, peixeira”. Nada disso, é uma questão de dar nome aos bois mesmo, e de recuperar aquelas aulas de geografia que, sem dúvida, muita gente Brasil afora matou ou bombou forte.

Esse termo, tão usado, tão comum, o “nordestino”, alimenta a preguiça em relação a pensarmos melhor o nosso País, conhecê-lo o mais de verdade possível, sem colocar “aquele amontoado de estados pequenos”, seus povos e culturas, sotaques e costumes, na mesma categoria: “Os nordestinos”.

De Maceió até Recife são menos de 300 Km, Alagoas já fez parte da capitania de Pernambuco. No entanto, em Maceió, eu vou à casa DO fulano, e em Recife eu vou à casa DE beltrano, entre todas as incontáveis diferenças. E viva a diferença!

“O nordestino” é uma construção cultural e histórica que perpetua o preconceito de uma forma muito sutil. Portanto eu digo: Pelo fim do nordestino! Vamos acabar com isso gente, deixa dessa...

Antes de terminar, preciso contar mais um causo desses, um dos meus preferidos. Estava hospedado na casa de uma amiga de Alagoas que vive em Porto Alegre. Nessa época, ela morava com uma estudante de Relações Exteriores (!) gaúcha de vinte e poucos anos que me disse o seguinte: “Antes de morar com uma nordestina, eu pensava que o nordeste era ali onde tem a seca e aquela coisa toda...como chama mesmo?” eu respondi “sertão” e ela continuou “isso mesmo, achava que o sertão era o nordeste e que o norte era ali onde tem aquelas praias tropicais bonitas com coqueiros”.

E pra acabar com a conversa: um brinde aos paraibanos, pernambucanos, potiguares, cearenses, baianos, sergipanos, alagoanos, maranhenses e piauienses!

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Hermano Vianna
 

Oi Marcelo: seu texto propõe um debate extremamente necessário, sobretudo numa época que fala tanto em cotas etc.

Sou paraibano de nascimento, mas se pensar bem me considero mais um nordestino criado em Brasília (que é uma cidade bem nordestina, com uma maioria - acho - de gente vinda de todos os estados do Nordeste). Vi e vivi muito preconceito contra nordestinos, tanto faz se pobres ou ricos (mas claro que para os pobres a situação é muito pior). Meus amigos zombavam de mim na escola porque minha mãe falava (e ainda fala, ainda bem) com sotaque nordestino (eles não sabiam diferenciar, como sabemos, o sotaque de João Pessoa do de Recife ou de Salvador).

Houve ataques à nordestinos por organizações de direita de São Paulo. Na hora H somos todos classificados como "farinha do mesmo saco" (e não adianta apontar as divertidas disputas constantes entre cearenses e paraibanos nas portarias dos prédios de Copacabana...) Vale a pena fortalecer esse sentimento de identidade? Identidade é como tudo na vida: tem lado ruim e lado bom. Como fortalecer o lado bom? Ou é melhor não tentar nem isso, pois o lado ruim é mais perigoso?

Escrevi este comentário apressadamente... É só para iniciar a conversa. Volto aqui mais adiante.

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 28/1/2007 14:47
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Marcelo Cabral
 

Valeu Hermano, essa é a pergunta mesmo! Reforçamos aspectos bons dos estereótipos ou tentamos negá-los? Não sei, gostaria de saber o que pensam os sudestinos e nordestinos por aqui, aberto também, é claro, pros centro-oestinos, sulistas e nortistas.

Marcelo Cabral · Maceió, AL 28/1/2007 15:23
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Marcelo Cabral
 

Vejam que interessante, o verbete que acabei de encontrar no Minidicionário Silveira Bueno, de língua portuguesa:

“BAIANADA, s.f. Fanfarronice de baiano; porção de baianos”.

Marcelo Cabral · Maceió, AL 28/1/2007 15:49
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Pedro Rocha
 

Oi Marcelo,

Eu sinceramente tenho apenas reflexões instantâneas sobre a questçao, mas como o overmundo não é restrito a especialistas e tal, arrisco algumas opiniões. Acho que há uma identidade, com todas as suas diversidades, forte na região Nordeste - pelo menos eu me identifico com a região em geral. Claro, isso é uma construção cultural e histórica (isso não significa necessariamente manipulações deliberadas pelo poder constituído ou algo do tipo), mas não acho que isso seja o principal elemento do preconceito, nem um que tenha em sua descontrução importância central para o fim das rotulações. O preconceito tem que ser enfretado sem que pra isso tenha que se desconstruir as identidades - mesmo que diversas em si - que são embaladas por ele. Do contrário, a própria identidade estadual ou nacional ou dos negros ou dos homossexuais deveriam também ser descontruídas. Ou seja, deve afirmar a identidade em sua diversidade. Parece contraditório, não sei se o é, mas é o que acho.

valeu,

Pedro Rocha · Fortaleza, CE 29/1/2007 17:48
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Marcelo Rangel
 

Além do nome, vejo que temos mais coisas em comum: sou um carioca adotado por Aracaju, SE (sergiroca? ou cariopano? rs). Já passei pelas mesmas situações, meus amigos do Rio raramente acertavam ("ele mora em Alagoas"). Hoje já não erram tanto, depois de serem corrigidos repetidas vezes.. Nunca tinha refletido sobre o uso do termo 'nordestino', uma generalização que beira o estereótipo, né? Mas noto que os próprios nordestinos o usam com orgulho, é quase como um elo que une os povos destes estados... Mas numa coisa você está mais que certo: onde é que esse povo estava durante as aulas (básicas) de geografia, pelamordedeus???
Valeu!!

Marcelo Rangel · Aracaju, SE 29/1/2007 19:54
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Ricardo Sabóia
 

Muito legal a discussão, Marcelo! Vou dar aqui o meu pitaco como pernambucano que já morou em seis estados do Brasil hehe.
Na minha leitura, a "nordestinidade" ou o "nordestino" no teu texto fica centrada em dois pontos, a geografia (essencialmente) e a diversidade que negaria a própria idéia de "Nordeste". Aqui a coisa complica. Reconheço que realmente existem na região cidades bastante diferentes, culinárias diferentes, sotaques diferentes etc, mas o mais importante não é discutir COMO se constrói essa "identidade" percebida como comum? Em que canais, em quais locais, mediante quais discursos, referencais e, em alguns casos, estereótipos? Entender isso é mais importante (pelo menos pra mim como nordestino) do que a reafirmação das tais diversidades. Não acho que seja só uma questão de desconhecimento geográfico dos "sudestinos". E arrisco a dizer que, mesmo tendo dificuldade de ver daqui essa "identidade" no cotidiano (como cearense, ver os baianos ou pernambucanos como nordestinos...), tenho a impressão de que aqui na região também se usa de modo estratégico uma idéia de "Nordeste" (Hehe, é só o pau que tem aqui em Fortaleza carros com adesivos do Bompreço "orgulho de ser nordestino").
Ah, e só pra complementar, lembrei que quando morei em Salvador, discutia-se muito que a idéia de "baianidade", "cultura baiana", era construída sobretudo a partir de referenciais de Salvador e do Recôncavo.
Saudações!

Ricardo Sabóia · Fortaleza, CE 29/1/2007 20:23
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Marcelo Cabral
 

Oi Pedro, penso que seu ponto de vista é muitíssimo acertado e reconheço o senso de identidade, de laços comuns, entre os povos dos estados do nordeste. Mas essa coisa do “nordestino” está na boca e na intenção (até impensada mesmo, automática, cultural) de quem diz. A idéia aqui é justamente usar esse elemento, entre tantos que formam o preconceito, como você bem falou, para despertar uma reflexão sobre o assunto, e a palavra, a linguagem que se usa pra “dar nome aos bois” é um elemento importante nessas construções.

Não sei se você, o Marcelo, o Ricardo e outros nordestinos (tudo bem, minha intenção não é tirar o termo do dicionário) concordam comigo, mas pelo que já pude observar dos povos sertanejos, seja de qual estado do nordeste for o sertão, parecem ter mais em comum que os habitantes das capitais, é só um exemplo, talvez por enfrentarem situações semelhantes (sem generalizações também), constituindo mais uma povo, uma nação, uma identidade comum, não sei. Coisas desse tipo eu queria pensar com esse texto, algum especialista se habilita a responder?


Marcelo Cabral · Maceió, AL 29/1/2007 20:33
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Hermano Vianna
 

por isso fica aqui a pergunta: é interessante enfraquecer o "nordestino" para fortalecer o "alagoano" ou o "paraibano", por exemplo?

toda identidade é artificial (a gente inventa e renova a invenção todos os dias) - é negociação constante entre nós e os outros (aqueles achamos que são parecidos ou diferentes daquilo que imaginamos ser)

mesmo a identidade pessoal é invenção...

então é uma questão de escolha, política mesmo: quais identidades (com necessariamente seus lados ruins e seus lados bons, suas vantagens e suas desvantagens) escolhemos/escolheremos fortalecer?

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 29/1/2007 20:45
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Ricardo Sabóia
 

O curioso é que até agora só opinou quem é "nordestino", hehe. Mesmo o Hermano, que é paraibano candango cariocacêntrico!

Ricardo Sabóia · Fortaleza, CE 29/1/2007 20:52
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Marcelo Cabral
 

Hermano, respondendo a sua pergunta, prefiro fortalecer o "alagoano" sem descartar o nordestino geográfico (quando o foco é a região) ou negar os laços comuns entre os estados do nordeste.

Por outro lado, criar um manual do politicamente correto não me parece uma boa idéia.

Mas é preciso repensar as idéias sobre a região e essa identidade, que como eu disse, está na boca de quem diz, e como o Hermano colocou, é inventada e maleável de acordo com os significados que damos e as relações que criamos pra essas identidades.

Ricardo, também aguardo opiniões de outras regiões.

Marcelo Cabral · Maceió, AL 29/1/2007 21:14
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Higor Assis
 

O maior erro é se classificar, porque tem de haver isso...

Direita, esquerda e isso e aquilo. Sãos pessoas de sua região e ninguém maior ou melhor que ninguém, como algunsa disseram somos farinha do mesmo saco e vamos por fim no mesmo saco.
Acredito que a distinção veio de fora e ai como em epocas passadas este pais copiava tudo, foi o que aconteceu e esta prevalescendo aos dias atuais e sendo levado a sério.

Higor Assis · São Paulo, SP 30/1/2007 14:49
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Carlos ETC
 

Eu acho que a questão não é matarmos a expressão nordestino, até porque foi a expressão que serviu de identidade e deu grande força àqueles que "desceram" o Brasil em busca de uma vida melhor.

O grande foco agora seria, a partir da grande força que essa expressão nos deu, dar ênfase à diversidade, à pluralidade cultural que existe dentro dessa região. E isso vai se dando em cada estado, já que em cada estado a pluralidade cultural também é enorme!

Como podemos exigir que o "resto do Brasil" nos veja de maneira particularizada e distinta se às vezes nem os próprios baianos, pernambucanos, sergipanos e outros conhecem suas raízes e culturas? Lógico que uma aulinha de geografia vai ajudar aqueles que cometem essas gafes (risos), mas também vai ajudar a nós mesmos a nos mantermos fortes (se é que a palavra é essa) na identidade.

No mais, tintin! Um brinde ao nordeste, singular e plural, ao som do samba de roda, maracatu, congado, baião e muito mais!
Ótimo texto, ótima provocação para reflexão!
Parabéns pelo texto, Marcelo!

Carlos ETC · Salvador, BA 30/1/2007 16:38
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Mi [de Camila] Cortielha
 

Marcelo, o debate é realmente interessante (e bem construído).

Coincidentemente, a agência de notícias em que trabalho entrevistou o sociólogo Gláucio Soares, do Instituo Universitário de Pesquisasdo Rio de Janeiro, que vai por uma tangente: ele afirma que é necessário construir a formação de uma identidade cultural para os centro-oestinos e sudestinos também (já que se generalizam os nordestinos, nortistas e sulistas), principalmente com apelo político.

Vou citá-lo: “Essas identidades contam - e muito - seja na retórica política que, dentro e fora do Congresso, é importante para lutar por recursos públicos, inclusive por recursos destinados a combater o crime, seja na atividade política que assegura esses fundos. Políticos e a sociedade construíram uma fortíssima identidade nordestina, uma forte identidade nortista e uma identidade sulista. A construção dessas regiões como blocos que constituem o edifício político e a luta por recursos foi importante”.

Então agora teríamos que lutar em duas frentes? Separar as identidades no Nordeste, no Norte e no Sul e criar estereótipos Sudestinos e Centro-oestinos?

Mi [de Camila] Cortielha · Belo Horizonte, MG 30/1/2007 19:58
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Mi [de Camila] Cortielha
 

"construir a formação de uma identidade cultural" foi horrível. Me perdoem! ;)

Mi [de Camila] Cortielha · Belo Horizonte, MG 30/1/2007 19:59
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Egeu Laus
 

Me parece que a falta de conhecimento, e portanto o PRÉ-conceito, é que determina essas visões.

Nascido em Santa Catarina passo pelos mesmos "erros de classificação". Primeiro para provar que em SC nem todo mundo é alemão. Segundo, que não é a mesma coisa que o Rio Grande do Sul. Terceiro que nem tudo é "limpinho" e "organizado" (que povo trabalhador! Só podiam ser de origem européia!)

E só para complicar: sou um "bugre" (indio com branco no dialeto sulista) misturado com açoriano (lado paterno) e prussiano (lado materno). Durma-se com um barulho desses!

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 30/1/2007 21:45
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Roberto Maxwell
 

Minha familia veio de Pernambuco e eu sofri os mesmos problemas que o Hermano relata. Identidade "nordestina" foi mesmo algo construido por uma serie de fatores. Acho que o Overmundo eh um espaco para se desconstruir certos mitos. Mas, eu vejo que a ideia de carioca e paulista no nordeste tambem eh bastante mitificada. Eu nasci no Rio de Janeiro, mas sou branco azedo, detesto praia e a cultura praiana da cidade. Detesto academia e samba, para mim, eh um estilo que eu gosto da mesma maneira que rock ou eletronica: se a o artista me bate no ouvido e me soa legal eh bom... Entao, quando decidi sair do Brasil, decidi tb q nao voltaria pro Rio caso eu retornasse, tamanho o deslocamento que eu sinto em viver na cidade. Depois, fui vendo que ser do Rio de Janeiro - apesar das pressoes ao contrario - nao eh vestir a carapuca que nos colocam. E hoje sou mais tranquilo com isso. Digo q sou carioca, filho de nordestinos de Olinda, nascido no Brasil e cidadao do mundo. Me satisfaz.

Roberto Maxwell · Japão , WW 31/1/2007 02:26
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Erika Morais
 

Marcelo, acho que já li esse texto antes ou já conversamos sobre isso alguma vez...
Também sou “paulisgoana”, nascida em São Paulo, por anos e anos vivi em Maceió (pra onde espero voltar um dia), filha de cearense, neta de pernambucano...
Não sou especialista no assunto, mas considero essa identidade nordestina extremamente importante e necessária, mesmo que mutante, reinventada. Acredito que esse orgulho nordestino partiu de uma necessidade de resistência, de nos mostrarmos fortes frente ao pré-conceito (explícito ou velado), assim como também percebo essa estrutura na identidade sulina, com a diferença de que os Estados do Sul conseguem, com menos dificuldade manter suas identidades separadas da região.
A questão é, como muitos já falaram aqui, não acabar com a identidade nordestina e sim de fortalecer a identidade alagoana, pernambucana, sergipana, cearense... fortalecer e saudar as diferenças. Se reconhecer como paulistano ou alagoano, sem fascismo, se divertindo e aproveitando o que cada cantinho desse país tem de melhor: suas pessoas.

Ah, essa confusão geográfica tão bem citada pelo Marcelo no texto é realmente uma constante: ora por preconceito mesmo, ora por ignorância.
Uma coisa que percebo é que, aqui no sudeste pelo menos, o termo “nordestino” era pouco falado. Todos eram chamados de “nortistas”, “do norte”, até pouco tempo (vá lá, uns 20 anos, acho). Porque será?

Erika Morais · São Paulo, SP 31/1/2007 11:21
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Fernando Mafra
 

Belo texto e bela discussão. Comecei a escrever um comentário mas está ficando enorme! É um assunto com muitas implicações, estou considerando fazer um post novo ao invés de simplesmente comentar. Vou organizar meus pensamentos primeiro.

Parabéns Marcelo!

Fernando Mafra · São Paulo, SP 31/1/2007 12:23
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Rica P
 

Que maneira legal de começar uma discussão, texto lúcido e ao mesmo tempo leve. Sou paulistano, filho de Pernambucano. Penso como você, há tempos aposentei o 'nordestino', só quando o foco é a região, como você disse. Acho que se ganha mais do que se perde. abç

Rica P · São Paulo, SP 31/1/2007 13:39
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jujuba
 

Nossa! Tomei um certo susto quando li o título, hehehehe!
Eu nunca usei a palavra "nordestino", mas mesmo sem usar você tem aquela massificação cultural na cabeça de achar que é "tudo a mesma coisa"!

Que nem achar que quem mora na Grande são Paulo (santo andré, são caetano) é "paulistano"

jujuba · Santo André, SP 31/1/2007 13:56
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Valério Fiel da Costa
 

Oi Marcelo.

Gostei bastante do seu texto, sendo belemense e vivendo em são paulo há 11 anos, me identifiquei com ele. Penso, porém, que tanto faz, para fins de generalização, se o cara se considera nordestino ou alagoano ou paraense. Todas essas definições acabam não representando o fulano e sua relação com o país, que é contingenciada, é claro, por questões geográfico-políticas e culturais, mas principalmente pelas singularidades que tal vivência proporcionou. Digo isso porque me parece insuficiente dizer que fulano é "paraense" para entender do que se trata. Fulano é fulano e não fazemos idéia da rede de contingências que definem fulano. Assim, posso ser paraense e nunca ter tido nenhuma relação com o que o país considera a cultura paraense. Pode ser que eu tenha passado os anos 80 ouvindo pós-punk inglês, por exemplo, e isso seja um dado mais relevante que minha posição geográfica e seus supostos adendos culturais obrigatórios.

Valério Fiel da Costa · São Paulo, SP 31/1/2007 14:03
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Marcelo Cabral
 

Interessante observar nos comentários o que é um referencial de identidade pra cada um, ou seja, muitas vezes “gostar de música tal” ou “não gostar de praia” possuem um sentido mais forte de identidade pras pessoas que o “de onde eu vim” ou a idéia do sentimento de “minha terra”.

Acredito que o fato de ouvir música inglesa não torna alguém menos paraense, ou seja, não acredito que todo paraense escute carimbó todo santo dia, e que todo alagoano é igual ao outro alagoano só por ser alagoano, como se fossemos todos aos ensaios folclóricos do guerreiro nos fins de semana e comêssemos sururu ao leite de coco todo dia...AH! Ou mesmo ir à praia todos os dias, uma idéia recorrente entre muitos dos meus amigos e amigas sudestinos que romantizam a idéia do paraíso tropical, como se ninguém trabalhasse embaixo desse sol danado.

Ser criado e crescido no lugar X não anula o indivíduo e suas particularidades. Vamos nos livrar então dos “adendos culturais obrigatórios” também, como disse o Valério.

No entanto, aquele grupo de pessoas cresceu e conviveu e convive com um determinado tipo de humor, de comida, de uma série de coisas que forma a cultura do lugar e permeia o indivíduo inevitavelmente, construindo uma parte importante do nosso senso de identidade.

Mi, sua citação do sociólogo Gláucio Soares me lembrou de uma história que ouvi umas duas ou três vezes, mas não posso afirmar, porque só ouvi falar (uma expressão perigosa) que grupos políticos no Brasil, em suas escolas de retórica de palanque, ensinam seus alunos a falarem “nordestês”, por ter um apelo maior (alguém confirma isso?).

Marcelo Cabral · Maceió, AL 31/1/2007 15:47
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Barba
 

E eu que morei 14 anos no extremo Norte de Minas e, quando cheguei a Belo Horizonte, cheguei a ser chamado de "paraíba". O apelido acabou pegando num outro pobre coitado que estudava comigo mas vinha de Recife : /

Texto muito bom. Gosto quando alguém expressa um ponto de vista com simplicidade e clareza. Queria que mais pessoas lessem esse texto, pra dissipar algumas nuvens de ignorância que existem por aí.

Barba · Belo Horizonte, MG 31/1/2007 15:53
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Oona Castro
 

Marcelo, excelente debate. Reflexões de uma sudestina:
Eu, como boa e multi sudestina (famílias de Minas, nascida em SP e vivendo no Rio há quase 2 anos) convicta, tenho a impressão às vezes de que essa questão tem menos a ver com o Nordeste do que com o Sudeste. Existe, ainda que haja exceções, um sentimento nos estados do Sudeste (à exceção do ES) de que o centro do Brasil é aqui. E perdemos de vista o resto. Então, existe o pessoal "do Sul" (RS, PA e SC também vivem isso - e todo mundo confunde com freqüência). O Mato Grosso e Mato Grosso do Sul são confundidos com freqüência. Tocantins, por vezes, vira do Centro-Oeste. Existem os nortistas. E por aí vai. Só que há algo de dominante neste discurso, eu acho, e ele tende a se alastrar.
Confesso que também fico meio assustada quando ouço no Rio que eu não pareço paulistana, como se isso fosse um elogio. E adoro ser paulistana. Adoro o Rio e cariocas. Adoro Minas e mineiros - ainda que possa também passar horas tentando definir as identidades das pessoas desses lugares, sem êxito.
Uso, oportunamente, o fato de ser de família mineira quando me convém, para apaziguar espíritos provocadores.
Enfim, são diversas as questões que gostaria de levantar, mas por enquanto fico por aqui.
Apenas acho que o "provincianismo", no caso, reside no fato de não distinguirmos estados, culturas e geografias diferentes das nossas. E não no fato de pertencermos a um ou outro local.

Oona Castro · Rio de Janeiro, RJ 31/1/2007 17:19
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Nivaldo Lemos
 

Pessoal, permitam-me meter a colher, mas neste assunto de identidade cultural estou com o Pedro Rocha, de Fortaleza. Acho que está havendo uma certa confusão conceitual. Não é abrindo mão de nossa identidade nordestina que eliminaremos o preconceito. Ser nordestino é uma construção histórica baseada em uma formação social, econômica e cultural comum – tanto na diversidade como nas adversidades. Negando-a, negaríamos nós mesmo, nosso próprio imaginário, nossa consciência ética, social e política, bases de uma formação estético-filosófica que nos legou intelectuais e artistas como Ariano Suassuna, João Cabral de Melo Neto, Catulo da Paixão Cearense, Mestre Vitalino, Chico Sciense, entre tantos outros. Abrir mão desse legado é assumirmos nós mesmos o preconceito, é introjetar em nossa própria alma o veneno que nos levará à morte cultural, à debacle. Precisamos reafirmar nossa auto-estima, nossa cultura e não abrir mão delas. Em 1975, dizia eu em um poema: “Ah, esta vontade de gritar a todas as terras/a todos os povos, em todas as línguas/este meu canto brasileiro, nordestino/nutrido de cactus e mandacarus.” Hoje, reafirmo.

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 31/1/2007 17:40
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Juracy dos Anjos
 

Olá, Marcelo!!!!

Gostei do seu texto e acredito que a discussão que você propõe é muito pertinente. No entanto, algumas colocações que você apresenta no decorrer do seu texto parece-me, a olhos nús, falsas; uma delas é dizer que não presenciou nenhum tipo de preconceito contra nós, nordestinos.

Você pode não ter percebido o preconceito, e até mesmo o racismo - porque este traz um ideologia de interiorização e superioridade do povo do sul do país -, porque ele está, muitas vezes, escondido por trás de piadinhas de mal gosto ou chacota do nosso sotaque.

Sou baiano e já ouve e presencie diversas vezes piadinhas sobre a forma com que os baianos falam e se comportam. E acredite que todas foram feitas em tom de brincadeira, sem preconceito aparente.

Mas este é o perigo, porque o preconceito está tão naturalizado em nossas cabeças que acreditamos que não estamos sendo preconceituosos, que as brincadeiras que fazemos não humilham ou ofendem as pessoas.

Podemos dá um exemplo da naturalização: a TV Brasileira, grande parte produzida em São Paulo e no Rio, veiculam programas que falam que os baianos são preguiçosos e lentos, ratificando um mito contra os negros no período da escravidão (você pode verificar mais informações na tese defendida pela antropóloga Elisete Zanlorenzi).

Então, meu caro, acreditar que não existe preconceito é acreditar que vivemos no país de conto de fadas, e não vivemos.

Juracy dos Anjos · Salvador, BA 31/1/2007 17:46
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apple
 

Beeem, Marcelo Cabral! Vc falou em título, mas título não é sinônimo de conhecimento geral! 'As vezes, a pessoa se profissionalizou com sacrifício, vindo de um meio social desfavorecido; mas não teve oportunidade em outros campos.

Agora nordestino, brasileiro, ...com certeza existem por razões de similaridades entre as suas partes integrantes. O problema existe apenas na não-diferenciação todo-partes.

Passemos a solução! Trabalhar a educação e as oportunidades sociais em geral!

apple · Juiz de Fora, MG 31/1/2007 18:23
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Marcelo Cabral
 

Juracy, em nenhum momento afirmei que o preconceito ou a descriminação não existem, na verdade, o texto é sobre isso. Falei apenas sobre minha experiência pessoal, das coisas que vi e vivi. Trata-se de um relato de impressões (por se basear meramente na experiência de uma só pessoa, eu). Não nego que outras pessoas sofreram e sofrem descriminações terríveis, o que é muito triste.

Nivaldo, de forma alguma eu quero negar nossa cultura, alagoana ou nordestina e brasileira acima de tudo, só acho que ter necessidade de “reafirmar nossa auto-estima” é se colocar demais no papel do oprimido, do inferiorizado, da auto-afirmação. Prefiro explicar, de um por um se preciso for, qual é a capital de cada estado.

Na região nordeste temos muito em comum, acredito que ninguém aqui quer negar isso, negar a cultura e muito menos os grandes artistas e escritores que a região produz, mas este senso de identidade que partilhamos não pode servir como ferramenta do preconceito na palavra de quem descrimina.

Marcelo Cabral · Maceió, AL 31/1/2007 18:34
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Nivaldo Lemos
 

"'O nordestino' é uma construção cultural e histórica que perpetua o preconceito de uma forma muito sutil. Portanto eu digo: Pelo fim do nordestino! Vamos acabar com isso gente, deixa dessa..."

Sinceramente, Marcelo, desculpe-me, então, não compreendi mesmo o que você quis dizer. Se a questão é semântica, proponho a todos nós brasileiros passar a nos chamar de "norte-americanos"! Quem sabe assim possamos finalmente nos sentir menos oprimidos ou inferiorizados. Desconfio que tem mais caroço neste angu que uma simples solução semântica... Cê não acha, Marcelo?

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 31/1/2007 18:55
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Valério Fiel da Costa
 

E vou pegando o bonde do marcelo para dizer que esse discurso de resgate às origens que propõe uma obrigação do nativo para com uma cultura regional é perigoso na medida em que é à revelia do próprio nativo que tal se constrói.

Hobsbawn tem um livro excelente sobre a problemática da construção (invenção) do nacionalismo no mundo todo (Nações e Nacionalismo desde 1780) que esclarece como, em determinado momento, tornou-se conveniente para diversos povos, em termos político-econômicos e militares, aliar-se a outros povos, e como foi necessário criar para tais alianças um lastro de subjetividade que, em última instância, tem como objetivo convencer o nativo de que aquele outro povo tem direito de compartilhar com ele daquele território e daqueles costumes.

A 'nação' é uma invenção das elites motivada por questões político-econômicas e militares. Graças a essa invenção podemos chamar ao mesmo tempo o acreano e o catarinense de brasileiros.

O regionalismo parte da mesma necessidade de fortalecimento mútuo de "iguais". Tal movimento será sempre político-econômico, mascarado de cultural. Ignoram-se as inúmeras nuances que podem existir numa determinada região para garantir uma coalisão plena entre os indivíduos que a compõe. Isso é força, isso é poder, e isso não acontece por acaso: é necessário projetos de larga escala - e estes realmente ocorreram em todo o país.

Resta saber se do ponto de vista do pensamento é conveniente continuar fingindo um regionalismo em detrimento da possibilidade de enxergar em perspectiva tal problemática e perceber que a complexidade do "ser-paraense" no fim das contas acaba impedindo que consigamos apreendê-lo tal como sempre o pretendemos.

Como artista que batalha pela liberdade de pensamento, penso que o regionalismo tem prejudicado o campo ao impor balizas ao criar, com suas tentativas de premiar o "regional" e isolar o "estrangeiro".

Valério Fiel da Costa · São Paulo, SP 31/1/2007 19:00
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Augusto Soares
 

"mas um desconhecimento inacreditável da mais básica geografia brasileira, isso muito"

Sou paraense, e pros sudestinos ou sulistas, Norte e Nordeste são uma região só. Fiz faculdade no interior de SP (meus pais são de lá) e nos anos que morei em SP percebi que muita gente precisa de aulas de geografia... Fortaleza, Recife e Belém na visão dos sudestinos ficam lado-a-lado...rs
Hoje moro em Belém, e hoje mesmo assistindo a uma palestra de um fornecedor da empresa onde eu trabalho, que é de BH, ele disse: "semana passada estive em um cliente aqui pertinho, em Fortaleza, apresentando nosso produto"! A platéia não se conteve, tivemos que achar graça! Gente, Belém-Fortaleza é praticamente BH-Fortaleza numa viagem de avião... cadê a noção de geografia básica?

Augusto Soares · Belém, PA 31/1/2007 19:26
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irailgato
 

os americanos nos acham cucarachas. os paulistas acham que nordertino é tudo igual. eles estão errados e certos.
onde começam e onde terminam estes conjuntos/grupos socio-culturais? nos macro grupos, por exemplo: nós, os mexicanos, os colombianos e os argentinos temos, sim alguma identidade que nos diferencia do americano médio, seja ele branco ou negro. do mesmo modo fechando o foco eu acho muito engraçado falar em "paulista". não tem nada mais diferente do que um cara de santos com um de araraquara! hobsbawn tem razão, sim. há toda uma artificialidade nesses rótulos. assim como uma certa dose de preconceito. o paulistano é vítima do preconceito carioca o tempo todo. e eu no fundo acho muito engraçado.
li outro dia um historiador ( desculpem se não lembro quem era, mas se não me engano era na revista de história da Biblioteca nacional) que o paraná é uma invenção. assim como a comida típica mineira é na verdade paulista.
as identidades regionais brasileiras meio que se resumiriam a:
paulistas, baianos, cariocas, gaúchos, amazônicos e pernambucanos. todos os outros seriam de alguma forma desmembramentos criados pela política. mas no fundo me parece tudo arbitrário. sou paulistano, filho de baiana com descendente de italiano. torço para o santos e bebo muito vinho argentino! quem sou eu nesta estatística? um brasileiro ou um cucaracha?

irailgato · São Paulo, SP 31/1/2007 19:42
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Renan Barbosa
 

Não deu pra ler todos os comentários, mas pretendo fazê-lo... Então, pode ser que eu repita considerações já feitas, mas acho que talvez a expressão "nordestino" não seja o x da questão, e seria muito difícil abolí-la. O que precisaria ser abolido é a ignorância, que muitas vezes é a mãe do preconceito. Uma vez, numa aula, um 'professor doutor' de um hospital daqui de SP falava na "sub-raça" do Nordeste (os "nanicos" por causa da fome), com aquele ar de arrogância e sarcasmo. Bati no ombro dele, e do alto de meu 1,95 falei: " veja um representante da sub-raça aqui!" Não vi o filme "um dia sem mexicanos", mas já imaginaram SP e Rio sem os nordestinos? Nada de portarias, padarias, estacionamentos, restaurantes, postos de gasolina, feiras etc. etc. Mesmo hospitais sem médicos e enfermeiros parariam. Marco Mendes, um músico paraibano como eu, radicado aqui em SP, gravou em seu cd "Música Comum" um repente de Bráulio Tavares (paraibano, escritor, compositor, cantor, roteirista): "se não fosse o valor do nordestino em São Paulo não tinha arranha-céu". Agora, dá lucro alimentar a pobreza, a falta de educação e "ingenuidade" do nordestino. Se não, como vai se achar mão-de-obra barata aqui no sudeste e lá???? Parece discussão importada dos anos 70 e 80, mas a miséria do NE ainda interessa a muita gente. E nós, de nível universitário, tanto quanto os que tiveram outra formação cultural, sofremos preconceito diariamente. Temos sempre que tentar nos afirmar, isso nos deixa às vezes até defendidos, arrogantes, rancorosos. Então, a falha está na expressão "nordestino", que simboliza um povo aguerrido e singular, embora cheio de diversidades, ou na pobreza da alma das pessoas, que insistem em só enxergar o calango, a terra rachada, todos os demais estereótipos e o trabalhador esforçado mas disposto a se deixar explorar? Quanto vale o NE para o "Sul maravilha"?
A propósito, texto maravilhoso de Marcelo Cabral e o debate mais ainda!

Renan Barbosa · São Paulo, SP 31/1/2007 19:58
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Marcelo Cabral
 

Valério, quero agradecer seu comentário e acho muito pertinente a citação do Hobsbawn e principalmente a questão que você levantou sobre os regionalismos forçados de auto-afirmação. Em Alagoas, percebo esse tipo de coisa nos últimos 7 anos mais ou menos, uma necessidade de inserir elementos regionais quase obrigatórios nas artes em geral, nas temáticas de festas, premiações, acho meio estranho e repetitivo, não sei como acontece nos outros estados do nordeste (o que de certo modo, reforça meu ponto de visto, acredito).

Nivaldo, veja bem, vou tentar explicar minha opinião apesar de já ter dito 3 vezes que o nordestino ou o “nordestino” está na boca de quem diz, mas vamos lá, é simples:

Exemplos:

1 - “Isso é trabalho mal feito de ‘nordestino’” ou “Tanto faz, ‘nordestino’ da Bahia pra cima é tudo a mesma coisa” (essa eu cansei de ouvir). Pelo fim deste “nordestino” eu reafirmo, por favor.

2 - Mas no caso de “O Congresso X aconteceu no inverno rigoroso do Rio Grande do Sul, a organização do evento, em um gesto de gentileza, acomodou os nordestinos nos alojamentos com carpete e aquecimento mais eficiente” (baseado em fatos reais) ou ainda “Os nordestinos nos presentearam com grandes artistas e escritores” contra esse nordestino não tenho nada contra.

Repetindo, não quero tirar o termo do dicionário, minha idéia é que ele seja utilizado da maneira do exemplo 2.

Marcelo Cabral · Maceió, AL 31/1/2007 20:20
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Marcelo Cabral
 

Valério, quero agradecer seu comentário e acho muito pertinente a citação do Hobsbawn e principalmente a questão que você levantou sobre os regionalismos forçados de auto-afirmação. Em Alagoas, percebo esse tipo de coisa nos últimos 7 anos mais ou menos, uma necessidade de inserir elementos regionais quase obrigatórios nas artes em geral, nas temáticas de festas, premiações, acho meio estranho e repetitivo, não sei como acontece nos outros estados do nordeste (o que de certo modo, reforça meu ponto de vista, acredito).

Nivaldo, veja bem, vou tentar explicar minha opinião apesar de já ter dito 3 vezes que o nordestino ou o “nordestino” está na boca de quem diz, mas vamos lá, é simples:

Exemplos:

1 - “Isso é trabalho mal feito de ‘nordestino’” ou “Tanto faz, ‘nordestino’ da Bahia pra cima é tudo a mesma coisa” (essa eu cansei de ouvir). Pelo fim deste “nordestino” eu reafirmo, por favor.

2 - Mas no caso de “O Congresso X aconteceu no inverno rigoroso do Rio Grande do Sul, a organização do evento, em um gesto de gentileza, acomodou os nordestinos nos alojamentos com carpete e aquecimento mais eficiente” (baseado em fatos reais) ou ainda “Os nordestinos nos presentearam com grandes artistas e escritores” contra esse nordestino não tenho nada contra.

Repetindo, não quero tirar o termo do dicionário, minha idéia é que ele seja utilizado da maneira do exemplo 2.

Marcelo Cabral · Maceió, AL 31/1/2007 20:21
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Nivaldo Lemos
 

Marcelo,
desculpe-me, então. Mas, sem querer dar uma de "nordestino" (embora assumindo que o sou), o problema foi o título do artigo. Pois, considerando o trecho que lhe reproduzi no último comentário, acabei incorrendo em erro e o entendi ipsis litteris (como de resto muita gente boa). Esclarecido o mal-entendido, viva todos nós brasileiros e parabéns pelo belo artigo "Pelo Fim do Preconceito". Agora, ponho minha viola no saco e vou indo que a hora é essa. Mas que que a polêmica foi boa, foi, hem? Abração.

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 31/1/2007 20:38
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Marcelo Cabral
 

Valeu Nivaldo. Penso que se o título fosse "Pelo fim do preconceito" não teria despertado tanto sua atenção, e acredito que a de muitos que leram e deram início a esta prosa tão rica. Abraço

Marcelo Cabral · Maceió, AL 31/1/2007 20:49
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Artur Finizola
 

Fala Marcelão... bom tópico esse pra se discutir... eu particularmente, chamo alguns amigos do sudeste de "sulistas", isso mesmo... pra mim são todos da parte de baixo do brasil... mas sem preconceito algum... e gosto de ser chamado de nordestino onde chego sim, e os que me conhecem, gosto de ser conhecido como Alagoano, gosto de defender as cores da minha terra, mas não numa luta e sim numa postura para se mostrar ao resto do Brasil que Alagoas também é um porto cultural legal, com muitos artistas fabulosos e nós daqui sabemos disso... mesmo com todas as dificuldade...

bem, não posso demorar por aqui hoje, mas volto pra continuar esse papo sim...

ah... outro ponto que fico triste é que algumas regiões do nordeste se acham mais nordestinos que o resto, isso me deixa triste e não adianta dizer que é fantasia minha... vi e vivi isso algumas vezes... acho que os nordestinos deviam se abraçar inicialmente

abraços a todos

Artur Finizola · Maceió, AL 31/1/2007 21:54
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Carol do Vale
 

Faço coro com os elogios à qualidade do texto e à pertinência do assunto: suscita mais perguntas que respostas, como deve ser. Creio que a grande questão que permeia toda essa discussão é: como construir uma identidade sólida o bastante para criar um elo (afetivo, até) entre esses diversos estados, sem que isso resulte em homogeneização, ocultamento das diferenças. Questão ampla e complexa, que pode ser pensada nos mais diversos níveis, desde a formação de um sentimento de "latinidade", "brasilidade", "nordestinidade", "cearensidade" (falando em causa própria), até as infinitas subdivisões que se pode fazer em cada uma dessas categorias. Enfim, o que se faz urgente é repensar a própria idéia de identidade, como aqui já começa a ser feito.

Carol do Vale · Fortaleza, CE 31/1/2007 22:09
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Barba
 

Bem, não vejo qualquer problema em se existir uma identidade do Nordestino, do Sulista, etc. O ruim é as pessoas levarem os estereótipos aos extremos - como os exemplos do artigo do Marcelo bem colocam - e assumir que "é tudo igual". Esse rolo compressor homogeneizador é que uma mazela, que perpetua a idéia de que o Nordeste é composto de miséria e ignorância, algo que integra grande parte do senso comum do Sul e Sudeste.

Existem referências culturais que partes do Nordeste possuem em comum e isso é decisivo na construção dessa identidade. Mas, nem sempre seu simbólico é o que os "nordestinos" desejam, ou enxergam em si mesmos, e muitas vezes está carregado de preconceito sim. Chamar um pernabucano de "paraíba" é mais do que desconhecer ou compreender sua origem, é associar a ele uma palavra que muitas vezes foi reservada àqueles retirantes que vinham tentar a sorte mais ao Sul. Uma maneira de demarcar um limite, uma fronteira entre quem é nativo e quem é "outsider". Já escutei essa palavra sendo usada de maneira pejorativa várias vezes, bem como outras formas menos educadas de referir a quem é do Nordeste.

... de qualquer maneira o problema maior é a imagem que o senso comum faz do Nordeste, não o fato de seus habitantes possuirem (ou não) uma identidade compartilhada.

Barba · Belo Horizonte, MG 31/1/2007 23:45
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Milena Azevedo
 

Oi, Marcelo! Só o título do seu texto já me deixou intrigada e me levou a lê-lo na íntegra. Você fez um perfeito resumo do "pré-conceito" Nordestino-Paraíba-Baiano e propôs uma saudável reflexão (que, na verdade, é um grito de "basta" à ignorância) Nasci na região Nordeste (sou potiguar) e já tive a experiência de morar em São Paulo e em São Leopoldo (RS). Vivenciei algumas situações similares às de seu relato. Certamente que o Nordeste como um todo foi uma construção histórica e ideológica que perdura até os dias de hoje. Cabe a nós perguntar por quê?

Milena Azevedo · Natal, RN 1/2/2007 00:26
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Ilhandarilha
 

Texto bem bacana, Marcelo, que nos leva a refletir muito sobre nossos próprios preconceitos. Por ser tão bem construído, gerou tantos comentários pertinentes. Essa questão da identidade é realmente polêmica. Sou do ES, que vc cita no seu texto como um estado do sudeste com identidade própria (O carioca é carioca, o mineiro é mineiro, tal qual o paulista e também o capixaba. Ninguém é sudestino.). Mas responda rápido: você seria capaz de identificar um capixaba pelo sotaque. Ou identificar uma sonoridade musical capixaba? uma literatura capixaba? Morei muitos anos fora daqui e as pessoas me perguntavam se eu era de SP, Minas, até SC, mas ninguém se lembrava do ES. Quando respondia que era de Vitória, me falavam: sei! Vitória da Conquista?
Acho que essa questão não reconhecimento da identidade não ocorre só nos estados do nordeste. Ocorre com todos os que estão fora do eixo mais forte (econômico e midiático) formado por Rio, SP e Minas.
Se, para o resto do Brasil, quem nasce na região nordeste está fadado a ficar no mesmo saco "nordestino", é porque esse conceito foi forjado durante anos por esse eixo forte. E, desconfio, reforçado pelos próprios nordestinos, q

Ilhandarilha · Vitória, ES 1/2/2007 10:40
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Ilhandarilha
 

Texto bem bacana, Marcelo, que nos leva a refletir muito sobre nossos próprios preconceitos. Por ser tão bem construído, gerou tantos comentários pertinentes. Essa questão da identidade é realmente polêmica. Sou do ES, que vc cita no seu texto como um estado do sudeste com identidade própria (O carioca é carioca, o mineiro é mineiro, tal qual o paulista e também o capixaba. Ninguém é sudestino.). Mas responda rápido: você seria capaz de identificar um capixaba pelo sotaque. Ou identificar uma sonoridade musical capixaba? uma literatura capixaba? Morei muitos anos fora daqui e as pessoas me perguntavam se eu era de SP, Minas, até SC, mas ninguém se lembrava do ES. Quando respondia que era de Vitória, me falavam: sei! Vitória da Conquista?
Acho que essa questão não reconhecimento da identidade não ocorre só nos estados do nordeste. Ocorre com todos os que estão fora do eixo mais forte (econômico e midiático) formado por Rio, SP e Minas.

Ilhandarilha · Vitória, ES 1/2/2007 10:42
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Roberta AR
 

Gostei muito do texto. Vivemos num país continental que se desconhece por completo. Você fala sobre a falta de noção da geografia do Nordeste, acontece o mesmo com todas as regiões do país , a gente acaba conhecendo um pouco melhor só o que está mais perto.
Eu sou paulistana, vivo hoje em Brasília, mas o primeiro lugar onde morei depois de sair de São Paulo foi em João Pessoa. Acreditem ou não, o preconceito não é só contra nordestinos. Existe uma grande resistência aos do sudeste no nordeste também. Digo isso porque não sou endinheirada e acho que o preconceito fundamental do brasileiro é contra pobre, que é em sua maioria nordestino e negro.
Eu acabei ouvindo frases como "você é tão legal, nem parece paulista", como se todo muito em São Paulo fosse intragável.
É nessa hora que a gente percebe que o Brasil só se conhece pelos estereótipos da TV. Nunca vamos conseguir lidar com a diversidade do nosso povo se ela não nos for íntima. E isso é responsabilidade dos formadores de opinião, das escolas e da arte produzida no Brasil, que, aliás, tem sido grande responsável em criar estereótipos.

Roberta AR · Brasília, DF 1/2/2007 10:49
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Guilherme Mattoso
 

Adorei o texto, MUITO bacana mesmo! Acho que o tema dá pano pra manga e merece desdobramentos aqui no Overmundo. Depois de uma breve reflexão arrisco alguns pitacos:

Acho que a falta de conhecimento pelo pessoal aqui do sudeste acaba generalizando as outras regiões. Essa aglutinação não é exclusividade dos nordestinos. Pelo menos aqui no Rio, as pessoas costumam colocar também no mesmo saco os estados do sul e a região norte também... como um imenso estado (tipo, "ih, você já foi no Acre! Legal, tenho uns primos em Manaus...").

Enfim, o assunto merece destaque e discussão, pois é muitíssimo interssanete. Parabéns pela matéria!

Guilherme Mattoso · Niterói, RJ 1/2/2007 10:54
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jjLeandro
 

Olá, vou dar aqui a minha opinião.
Sou maranhense de nascimento, filho de pernambucano (não conheço Pernambuco - mas tenho vontade pela sua rica história), mas de criação goiano, morei 12 anos, estudei, me formei em Goiânia e trabalhei muito em Jornalismo lá. Minha família atravessou o Tocantins (rio) e se estabeleceu em Araguaína -To, em 1970., Sou hoje ardoroso tocantinense, pois acho que a naturalidade do homem se afirma onde ele finca raízes e faz existir o seu mundo. Sou, por definição cidadão do Brasil (do mundo se chegar a rodá-lo todo). Talvez alguns não entendam bem esse meu desprendimento, mas justifico: sou por excelência um migrante andarilho. E, para quem não conhece, e sei que muitos que depuseram aqui não conhecem, a migração nessa região que vivo: norte do Tocantins, sul do Pará e Maranhão é vertiginosa. Só haverá identidade firmada quando isso abrandar e raízes forem criadas. Enquanto não, ganhar a vida (ganhar dinheiro) é o essencial e a identidade desse povo.
Bom tergiversei, mas vamos lá!

Sei que o assunto jpa polemizou com gente de toda parte do Brasil. Os maiores problemas do Brasil e também as nossas maiores virtudes são a nossa extensão territorial e a nossa língua. A língua, então, apesar das diversidades regionais e até estaduais, mantêm-nos coesos. Pela nossa extensão, somos quase um continente, como a Europa, mas mantemo-nos unidos num só "saco de gato". Às vezes surgem gritos aqui e ali quando um apanha mais que o outro. O Nordeste teve sua grande importância histórico-econômico e todos sabemos disso. Tanto que até hoje estigmatiza-se como nordestino quem é oruindo dessa região. Isso tornou-se pejorativo em alguns sentidos pela superação econômica de outras regiões sobre os estados nordestinos. Acho que daí, dos problemas sócio-econômicos e da perda de importância surgiu o preconceito. Pelo que leio, nos EUA existe ou existia isso com relação aos sulistas (agrário e escravagista). O Norte era o importante (industrial e progressista).
Não creio que enquanto o Nordeste não virar o jogo sócio-econômico isso se resolva pela vontade de todos nós apenas.
abcs

jjLeandro · Araguaína, TO 1/2/2007 11:16
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jjLeandro
 

Em tempo: o vínculo do maranhense com Nordeste é muito tênue. Em qualquer lugar que ele chegue do Brasil e você pergunta de onde ele é, ele nunca diz "sou nordestino", diz assim: "sou maranhense". Aliás nos livros de geografia quando era era criança (ih! faz tanto tempo), acho que embora não oficial, Maranhão e Piauí eram chamados de Meio-norte. Nordeste era o núcleo do desenvolvimento português colonial: PE, SE, AL e BA.

Já pensaram nisso? Nem todo Nordeste é Nordeste.

jjLeandro · Araguaína, TO 1/2/2007 11:25
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Carlos ETC
 

Já dei minha opinião aqui e volto a reafirmar a importância da expressão nordestino. Se formos reparar do ponto de vista cultural e até histórico, a força dessa expressão ganhou mais luminosidade quando figuras como Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira, Zé Dantas, entre outros muitos, começaram a enfatizar e engrandecer, em suas obras, o nordeste (vide artigo Revendo Humberto Teixeira e sua telúrica paixão).

Na época, o nordestino precisava se afirmar como tal, visto que precisaria ser aceito em terras do sudeste e do sul para sua própria sobrevivência (praticamente como um estrangeiro). Então esses artistas cantavam belos louvores para o nordeste, para a terra de onde vieram (e para onde, um dia, gostariam de retornar). E isso fez tocar o coração de muitos que se encontravam exatamente naquela condição social, independente de que estado havia saído.

Preconceitos? Muitos, como sabemos. Mas tínhamos que assumir essa condição mesmo como sendo uma grande massa. Hoje a coisa precisa ir mudando devagarinho, sem deixar de lado a paixão pelo nordeste. Precisamos enfatizar agora os valores particulares dos estados nordestinos e vejo isso já sendo feito (lentamente, mas sendo feito sim).

Não sei, mas talvez tenhamos uma coisa que nenhuma outra região tenha. Eu, pelo menos, nunca ouvi expressões de amor à região Sul, Sudeste, assim de maneira tão generalizada...

Taí uma coisa que eles poderiam cutivar. Faz bem!

Carlos ETC · Salvador, BA 1/2/2007 13:55
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Hermano Vianna
 

um debate parecido e muito interessante também aconteceu lá no início no Overmundo neste link - é o ponto de vista "nortista" ou "amazônico" - vale a pena reler

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 1/2/2007 15:44
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Vânia Medeiros
 

vá chamar pernambucano de baiano pra ver a BRONCA....

MARAVILHA, Marcelo. esse texto é uma pérola.

Vânia Medeiros · Salvador, BA 2/2/2007 15:19
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Thiago Paulino
 

Marcelo, não cheguei a ler todos os comentários.. mas acredito que você gostaria muito de um livro chamdo a Invenção do Nordeste de Durval Muniz de Albuquerque e publicado pela Cortez/Massangana. Ele mostra como a questão do nordeste foi "uma ivenção cultural".. o livro traz muitas questões interessantes e aprofundaria ainda mais sua reflxão... Em minhas andanças escutei algumas piadinha com o fato de eu ser de Aracaju, no emntanto, o que mais me assusta também é a grande falta de informação, primeiro passo para o pré-conceito. Parabéns por trazer esta discussão.
Abraço.

Thiago Paulino · Aracaju, SE 2/2/2007 16:58
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Hermano Vianna
 

ótima lembrança, Thiago - este livro é muito interessante!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 2/2/2007 17:10
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toinho.castro
 

uma pequena contribuição para a conversa: sabe o que me faz nordestino? uma certa luz do sol que só encontro ali... já procurei por ela aqui no rio de janeiro, em são paulo, na argentina... mas essa luminosidade, essa claridade de quando o sol está no céu, eu só tenho quando vou ao "nordeste". o que me faz nordestino é uma vegetação que vai mudando quando vou entrando por aqueles estados, pela bahia, pernambuco... a temperatura da água do mar. o fato de recife estar ali e não em outro lugar.

é bom, para mim, poder chamar esse conjunto de coisas, diferentes de outro lugar, de nordeste.

e essa discussão pode facilmente ficar filosófica. basta lembrar que num dos seus contos (jorge luis) borges fala algo mais ou menos assim "...só existem os indivíduos, se é que alguém existe". porque do mesmo jeito que a diversidade pode anular a idéia de nordeste... porque a idéia de pernambuco seria válida, quando trata-se também de um universo tão diverso? afinal, que elos nos unem uns ao outros? eu mesmo, não sou tantos?!

outro dia eu estava num boteco aqui no rio... e o sol refletiu no copo de cerveja e quase que aquela luz me comove, porque lembrei de recife.

toinho.castro · Rio de Janeiro, RJ 3/2/2007 11:53
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Hermógenes
 

Sou de Belém e acredito já ter vivido situações semelhantes.
Sabe porque o Brasil conhece a geografia do sudeste e o sudeste não conhece a geografia nacional? Resposta: televisão.

Quase toda a produção de dramaturgia e a maior parte das notícias são do sudeste.

Brasileiro é tudo igual nesse sentido, não é que o paraense saiba mais geografia que o paulista, é que o paraense conhece os bairros de São Paulo de tanto assistir sobre as enchentes do Tietê e Pinheiros no domingo a tarde no Gugu. No Gugu e nas novelas a programação é feita como se o país todo se resumisse a Rio e São Paulo. Que novela já se passou em Goiânia?

Além do mais que interesse a grande massa de sudestinos teria no resto? O resto é resto.. Nós, o resto, pelo menos uma vez na vida pensamos na possibilidade de conhecer as Cidades Maravilhosas. Talvez raríssimos alagoanos saibam o nome de 3 bairros de Belém, mas todos nós sabemos o nome de 3 bairros paulistanos.

Hermógenes · Belém, PA 5/2/2007 20:06
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Mestre Vilinba
 

Prezado Marcelo, nosso mundo é aquilo que temos de informação e eu amo Maceió apesar de ter nascido no Rio de Janeiro. Tenho um filho alagoano e conheço muito bem essa cidade, já "botei minha mola" no "Vulcão" e sinto arrepios de emoção todas as vezes que falo sobre o assunto, mas eu te pergunto: já percebeste a imagem que nossos administradores passaram e continuam passando sobre o ´povo brasileiro de determinadas regiões? Para o brasileiro que nasce na região Norte passam a informação de que todos são indígenas que vivem à beira-rio, comem peixes e só tomam açaí e navegam em suas canoas para fazer escambo nas grandes cidades (procure nas imagens de livros e revistas)

Mestre Vilinba · Arraial do Cabo, RJ 27/4/2007 13:01
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Mestre Vilinba
 

Continuando, o brasileiro que nasce na região do nordeste se apresenta nas imagens de flagelados, gabirus, e são motivos de pinturas dos grandes artistas nacionais, talvez essas imagens sejam passadas com o intuito de manter a chamada indústria da fome onde são enviados valores em dinheiro a fundo perdido para essa região dominada por poucas famílias tanto na política quanto na economia e se você fizer as contas verá que o nordeste é a região onde se concentra o maior número de representantes de nossa política nacional, pois são nove estados consegue implantar a maioria no Congresso e no Senado sem contar o número de presidentes oriundos do nordeste que já administraram esse País desde Marechal Deodoro da Fonseca. Se pararmos para pensar veremos que o dito popular "farinha pouca meu pirão primeiro" funciona e muito bem , mas o povo? como diriam os jovens de hoje? he,he,he???
Lamento que meus irmãos nordestinos sejam discriminados por pessoas que nem sequer sabem onde estão situadas as suas capitais e nem imaginam a fartura de suas terras, bastando dizer que é só dar uma olhada no mapa do Brasil e constatar que Alagoas é banhado por inúmeros rios, entretanto é detentora de um recorde nacional de mortalidade infantil em uma cidade chamada Teotônio Vilela (o nome também lembra uma artista ) sem poder explicar o porque dessa mortalidade infantil . Será por fome? desnutrição?, doença?, não sei, só sei que existem dois tipos de pessoas neste mundo: Os que são mandantes e os desprezados.
Muito assunto poderia ser dito, mas o meu desejo é que você sinta mesmo orgulho de ser alagoano ou orgulho de ser nordestino ou orgulho de ser gente como a gente e como todos os que sabem viver com harmonia e paz entre seus semelhantes. Parabéns pelo assunto polêmico e receba uma abraço deste carioca ou sudestino, ou seja lá o que queiram me chamar.

Mestre Vilinba · Arraial do Cabo, RJ 27/4/2007 13:36
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Dokstra
 

discussão pertinentíssima! vale de fato dar uma olhada no livro citado acima "A invenção do nordeste & outras artes" do durval muniz (só acho que na perspectiva foucaultiana do autor cabe um materialismo mais azeitado!). tomei ele como base pra escrever minha tese (http://www2.dbd.puc-rio.br/arquivos/160000/163100/10_163157.htm?codBib=), que, por sinal, trata do mesmo tema do post. (postei tb uma ficçãozinha que tangencia o assunto aqui no over: http://www.overmundo.com.br/banco/infra-estrutura)
abraços em todos!

Dokstra · Recife, PE 15/8/2008 23:00
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Marcelo Cabral
 

Obrigado Bazo! Vou ler teu texto no link.
Abraço

Marcelo Cabral · Maceió, AL 16/8/2008 10:40
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rogeriotomazjr
 

[sem ler os comentários e seguir o debate]
Muito legal o texto! Também coleciono causos desse tipo que o Marcelo relata. Nasci em Fortaleza e passei 2/3 da minha vida em São Luís, mas sou filho de baiano, já morei em Salvador (e conheço boa parte do interior da Bahia) e sou APAIXONADO pela cultura PERNAMBUCANA...
Apesar de concordar com o Marcelo na proposta de acabarmos com esse rótulo generalista "nordestino", não dá pra negar que há muita coisa em comum entre as culturas desses estados todos, o que não ocorre tanto no Sudeste (no Sul, arrisco-me a dizer que também há muita afinidade cultural entre os três estados)...

rogeriotomazjr · Brasília, DF 9/12/2008 16:13
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Marcelo Cabral
 

Obrigado pelo comentário Rogerio!
Seguramente temos muitas afinidades culturais na região, o que é ótimo e indiscutível.
Sugiro que você leia também os comentários, esse debate aí em cima foi bem bacana, e como você vê, ainda rende prosa.
Abraço!

Marcelo Cabral · Maceió, AL 10/12/2008 10:44
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Bender Arruda
 

http://www.myspace.com/rapadurarap
para escuta o nordeste.

Bender Arruda · Duque de Caxias, RJ 1/11/2010 14:47
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Gustavo Henrique
 

Se eu fosse o articulista, colocaria a palavra "nordestino" entre aspas ou em itálico, para não gerar alguma confusão e ensejar preconceito. Até porque ele, como o corpo do texto que escreveu confirma, faz referência ao significante, à matéria, à palavra, e não ao nordestino, pessoa. [rs.]

Gustavo Henrique · Crato, CE 10/12/2011 23:46
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Gustavo Henrique
 

Bacana, o linque. Uma discussão que rende muito bons frutos. E acho que os comentários da postagem são até mais ricos que o "relato de impressões e a experiência pessoal" do Marcelo Cabral, o autor. Acho que, quando se usa o termo "nordestino", o que se mais enfatiza não é a "massificação cultural" que tornaria indistinto um cearense de um paraibano, ou de um pernambucano, ou de qualquer outro nordestino [sic]. Existe, sim, um fulcro cultural comum para a diversidade que apresenta cada estado do Nordeste. Acho que não é fazendo-se apagar o peso que tem o termo "nordestino" que se abrandará o preconceito. Nesse ponto, eu concordo plenamente com os comentários de Nivaldo Lemos, de Pedro Rocha e de Carlos Etc.

Ninguém pretende tirar de evidência ou tornar menos importante as culturas de cada estado do Nordeste, usando o termo "nordestino", como se fosse tudo "farinha do mesmo saco", como foi citado na postagem. Mas há, sim, uma base cultural comum. Do contrário esse termo não se perpetuaria com tanta intensidade na pena de tanta gente boa e não teria rendido a quem estuda o Nordeste tanto pano pra mangas.

Acho, por fim, que o problema são os extremos do entendimento da "Nordestinidade", ou do "Nordestinismo", e não o termo propriamente dito, como se isso diluísse as demais culturas ou a possibilidade de haver integração entre elas, ou mesmo como se isso diluísse as identidades estaduais dentro do Nordeste. Ou seja, a "valorização" não pode servir de instrumento para cerceio cultural. Ao extremo, se imposta, pode soar como espécie de ditadura cultural do Nordeste. Na realidade, quem valoriza, verdadeiramente, a identidade nordestina, que existe, em paralelo, com as identidades de cada estado dessa região, como substrato delas, no mais das vezes, não se impõe o uso de antolhos e, por isso mesmo, também reconhece e não se nega poder estar engastado nas diversas culturas desses brasis.

O que grandes artistas fizeram, como o próprio Luiz Gonzaga, que, através da música, talvez tenha sido o que mais popularizou e levou às demais regiões do Brasil a argamassa com que se sedimentou a base das identidades culturais do Nordeste, foi lembrar que, apesar de a região ser marcada muito mais pela pobreza na primeira metade do século passado, existem valores culturais fortíssimos nessa região, seja na reforço da figura do vaqueiro, do sertanejo, da paisagem, da fauna, da flora etc. Não faço referência a esse artista à toa, sem nenhum cálculo, até porque, na Literatura, existem muitos outros registros da identidade cultural nordestina que poderiam ser lembrados, mas sim porque ele teve um papel importantíssimo na popularização da figura do nordestino em outras terras. O engano de achar que nordestino é tudo "farinha do mesmo saco" não partiu de quem popularizou essa figura ou da popularização do termo em si, mas de quem não compreendeu muito bem essa identidade, que reúne outras, mais específicas. Trocando em miúdos, é mais um desconhecimento da diversidade cultural que existe no Nordeste, por parte de quem está de fora, do que propriamente culpa da ventilação do termo "nordestino" e do bojo significativo que ele encerra.

Então, parafraseando Patativa, "eu digo e não peço segredo" que sou nordestino, mas antes sou cearense, e, antes de tudo, sou filho do Crato! [rs.]

Parabéns, Marcelo Cabral, pela iniciativa de levantar esta profícua discussão.

Abraço!

Gustavo Henrique · Crato, CE 10/12/2011 23:53
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Marcelo Cabral
 

Concordo totalmente contigo Gustavo Henrique. E obrigado pelo comentário. Abraços a todos.

Marcelo Cabral · Maceió, AL 12/12/2011 13:33
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Makko1941
 

Pelo que já vi e vivi, o que os sulistas pensam do NE é exatamente o que a gaúcha te falou(quando não falam baixaria mesmo). Pra mim nada resumi melhor o que o resto do país pensa do N e NE(mesmo tão diferente não dá pra separar quanto ao preconceito). Tive a oportunidade de viajar por todo o NE e o termo nordestino, quanto cultura, só se aplica praticamente ao forró. Se tirasmos as capitais e respectivas regioes metropolitanas e a parte sul da Bahia, aí sim nordestino se aplica a quase toda a população/cultura/culinária e modo de vida e de falar de nossa região, que aí seria bem mais a cultura sertaneja.
é bem provavel que o termo nordestino tenha surgido de politicagem para alguns partidos se manterem no governo, claro que nos anos 50/60 a economia da região era bem mais homogenea que hoje.
Quanto ao preconceito é uma questão nacional, pois todas as regioes o tem e até um pouco como aquela rivalidade para ser melhor. O paulista acha que só ele trabalha e o carioca vive na praia, o soteropolitano achar que Bahia não é nordeste ou ainda os nordestinos acharem que o Piauí é o lugar mais fraco que tem ou não tem nada lá.
Enquanto outras regioes do mundo estão olhando para frente e formando cidadão do mundo(por isso eles dizem que amazonia pertence a todos), agente ainda só consegue olhar para o próprio umbigo.

Makko1941 · Maceió, AL 12/12/2011 16:45
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Douglas Jesus
 

curto e grosso : O tendão de aquiles do preconceito é a informação.
E a nossa defesa ? A mesma.

Douglas Jesus · Aracaju, SE 13/12/2011 00:04
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Marcelo Cabral
 

Valeu vizinho! justamente. Informação. Abraços.

Marcelo Cabral · Maceió, AL 13/12/2011 13:24
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R Barradas
 

Concordo e discordo do texto. Esse ponto eu já vinha apontando também várias vezes quando o assunto era o preconceito contra nordestinos. Esse analfabetismo geográfico exacerbado de muitos do 'eixo' (opa) e do Sul (opa novamente) é um caso sério. De fato acredito que limitar a nossa identidade como nordestino é algo negativo, quando tratamos com pessoas desculturadas, como os preconceituosos. Em contra-partida, há toda uma positividade quando relacionamos ao orgulho que sentimos em sê-lo, em fazer parte de um povo, que apesar das diferenças, tem coisas em comum, culturalmente, socialmente e politicamente falando. Na verdade se notarmos, Rio e São Paulo fazem parte de uma unidade formada, como havia dito antes, 'O Eixo'. Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul também, 'Sulistas', não lembram do movimento 'O Sul é o meu País'?. E o Centro-Oeste nem se fala... O problema não está simplesmente em caracterizar o Nordeste como um todo, mas associá-lo sempre a imagem da pobreza, preguiça, descaso, vagabundagem e etc...

R Barradas · Olinda, PE 19/12/2011 16:10
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