Perdido de van com Miguel Gullander

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capa do guia ideal-delirante para a nova globalização em língua portuguesa
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Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ
27/7/2007 · 124 · 10
 

Ainda bem que me enganei. Conto a história do princípio. O escritor é metade sueco, metade português. Enfim, europeu. Desde que saiu da Suécia, em 2001, dá aulas na África: Cabo Verde, Moçambique, e hoje mora em Angola. Fiquei logo meio desconfiado... Sei que é uma generalização estúpida, um preconceito. Mas vários desses europeus apaixonados pelos trópicos, ou pelo Terceiro Mundo - que surgem por aqui para nos ajudar -, geralmente me parecem ingênuos na sua procura de expiar culpas ou incentivar "autenticidades". Quase nunca escondem por completo o sentimento de superioridade, de saber o que é bom para nós. Querem que sejamos "diferentes", exóticos - e tudo acaba com um gosto meio cafona de realismo mágico ou "macumba politizada para turista".

Então, quando abri o livro, o Perdido de Volta de Miguel Gullander, eu estava cheio de receio. Logo na primeira página há referências à possessão e, na segunda, a uma "negra linda". Mas o clima já era todo alucinado, uma alucinação com ares de pop art, de história em quadrinhos ou de bad trip estilo William Burroughs. Então continuei a leitura, um tanto curioso. No capítulo 2, a temperatura abaixa para 27 graus negativos, nas ruas de Estocolmo. A África vira um espetáculo numa sala de teatro alternativo. E no próximo capítulo, quando chegamos na ilha do Fogo (ilha magnífica, onde já pisei, e encontrei aquele povo que planta uvas na cratera do vulcão - juro que não foi alucinação...), já estamos a bordo de uma Toyota, igual a todas essas vans que cuidam do transporte coletivo delirante e informal da maioria das cidades periféricas do mundo. "Estou em casa", respirei aliviado. Ou estou também perdido de volta, como sempre me sinto em qualquer lugar, não importa se é um baile funk ou uma conferência sobre neurociências em Natal... Esse mestiço luso-sueco se revela a cada página um escritor mais interessante.

Perdido de Volta é o nome da van da ilha do Fogo. Lá, como em todos países africanos de língua portuguesa, as vans têm nomes próprios. Miguel Gullander cita alguns: "Pomba Branca", "Dois Canhões, um Tiro", "Lisboa no Coração" etc. O motorista explica por que batizou sua van de Perdido de Volta. A explicação é tão boa, e serve para esclarecer tanta coisa de nossa globalização escalafobética, que me sinto na obrigação de copiar tudo aqui:

"Estas Hiaces [uma marca de van Toyota, extremamente comum em toda a África] são o transporte público daqui. Elas aparentemente não têm horário, nem rota específica. Aparentemente. Lá porque nós, gentinha, não sabemos o que vai acontecer, e guiamos descontraidamente, ao acaso, por onde vai apetecendo, isso não quer dizer que o caminho não esteja já traçado. Eh! [...] Por mais falta de cumprimento de horário, de rota - por mais desconhecido que seja o caminho - por mais desnorteado que pareça ser o destino, por mais perdido que se esteja, esta carrinha acaba sempre por ir aonde a necessidade exige - acaba sempre por passar onde é preciso. Recolhe quem deve recolher, e até dá, por vezes, uma boléia - e, mesmo que ande perdida na noite, na chuva, nos caminhos sem vivalma, - perdida, ela acaba sempre por regressar de volta onde pertence, a casa."

Descrição perfeita de nossa condição pós-pós-moderna, não é mesmo? No sistema de som da Perdido de Volta do livro estava tocando kuduro, a música pop-favelada-eletrônica de Angola que conquistou rapidamente Moçambique, Cabo Verde, os bairros pobres de Lisboa e Paris, e agora vira moda em pistas de dança "antenadas" de Berlim ou Londres. No resto do livro somos embalados por gangsta-rap e punk-hardcore-straight-edge, e nos deparamos com uma pichação na parede da biblioteca de Oeiras, Portugal: "Queremos um tsunami!" Quem pichou, já deve saber: tudo ao redor é tsunami. E o livro apenas descreve nossa descida coletiva para cada vez mais fundo no maelstrõm (fenômeno "natural" da mitologia viking/nórdica, da qual Miguel Gullander é profundo conhecedor).

Mudou o mundo? Ou mudaram apenas os jovens europeus apaixonados pelo Terceiro Mundo? Tudo mudou, principalmente nossa percepção diante do mundo: impossível manter a imagem daqueles trópicos tradicionalmente selvagens, intocados pela modernidade, de certa forma puros (mesmo na sua devassidão, mesmo na sua injustiça social). Tá tudo dominado e conectado. E o livro do Miguel Gullander vem nos anunciar: o mundo ficou bem estranho. Muito mais estranho do que os absurdos habituais das narrativas do realismo mágico.

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Este meu texto, até agora, é meio ficção, é meio invenção. O leitor desconfiado que conduzia a narrativa não sou eu. É apenas um recurso retórico, para prender - com a polêmica nossa de cada dia adorada pelos cadernos culturais dos jornais - a atenção dos outros leitores, que terão contato com minhas palavras através do Overmundo. Se você está lendo até aqui, a minha estratégia deu certo, ou pelo menos não deu totalmente errado. Na verdade não comecei a ler o livro com desconfiança. Afinal, foi presente do José Eduardo Agualusa e do pessoal da editora Língua Geral. Admiro a literatura de Agualusa há muito tempo. Até escrevi o prefácio de seu primeiro livro editado no Brasil. Não gosto apenas dos seus livros, mas também da sua maneira de pensar o mundo, ou o mundo da língua portuguesa em particular. Se ele gosta de alguma coisa, vou gostar da mesma forma. Então, se o livro foi lançado pela sua editora, tenho certeza que vou aproveitar bem a leitura.

E ainda por cima a editora é a Língua Geral. Minha afinidade com sua linha editorial é enorme. Fiquei pensando, ao ler o Miguel Gullander: o Overmundo poderia igualmente se chamar Língua Geral - temos objetivos muito semelhantes, focos complementares. A editora Língua Geral, que lançou seus primeiros livros no final de 2006, também quer descentralizar a produção/difusão/circulação da informação cultural no Brasil. Não lança apenas a literatura dos países africanos de língua portuguesa entre nós. Lança autores que escrevem em língua portuguesa em qualquer canto do mundo, inclusive em recantos brasileiros fora-do-eixo. A proposta não é regionalista, mas sim cosmopolita, mesmo falando uma só língua, e mesmo descobrindo apenas uma parte do mundo. Um mundo que está certamente perdido, mas aqui está de volta, em eterno luso-retorno, o tempo todo.

E quando leio Perdido de Volta me sinto vizinho do Miguel Gullander, nós dois perdidinhos e em casa, casas do mesmo tipo (já muito diferentes daquela casa portuguesa com certeza, do famoso fado...), não importa se situadas em costas opostas do Atlântico. Bem, reconheço: nossa casa é uma van Toyota, surfando no caos do oceano, para dentro e fora do maelstrõm.

Então todo este texto foi uma cantada, um bilhete dentro de uma cibergarrafa: Eh! Miguel (e todos os outros autores da Língua Geral), que tal mandar notícias aí de Benguela - ou de qualquer outra van de residência - para cá, para este vasto e igualmente delirante (como queria o poema de Murilo Mendes que nos batizou) Overmundo?

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Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A
 

Puta texto, Hermano. E o que dizer das zonas de pertencimento mútuo que aproximam Língua Geral de Overmundo e de todo o resto da internet colaborativa? Sintonia finíssima.

A história de Perdido de Volta parece ser muito boa, mesmo. E o contexto, o mais estonteante que se possa imaginar. Não li nada dele. Tenho uma antologia de contos africanos muito antiga. Vou, finalmente, olhar.

De fato, o mundo virou algo que nenhum devoto do realismo mágico poderia imaginar. Toda certeza... Aliás, tem gente que sempre achou isso, mesmo no auge do tal "movimento".

Toda van tem um nome nos países africanos de língua portuguesa?! Dar um passeio na Perdido de Volta ou na Dois canhões, um tiro virou, desde já, meu sonho de consumo.

Abraços!

Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A · Fortaleza, CE 24/7/2007 09:51
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Thiago Camelo
 

Em uma tarde meio adoentado vendo TV em casa, caí no meio de uma entrevista do MIguel Gullander a Leda Nagle, na TVE. Fiquei impressionado com a clareza das metáforas dele para coisas tão abstratas, justamente essas que você diz Hermano, sobre pertencer ou não (o que já tanto faz, segundo ele mesmo) ao redemoinho do mundo. E daí, claro, esqueci que vi a entrevista e nunca me lembraria do nome do rapaz sem o seu texto. Pra mim já valeu muito.

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 24/7/2007 11:02
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Helena Aragão
 

Belo texto. Se seu convite final for aceito, vai bater com o momento em que abriu-se a possibilidade de se indicar o país de origem no Overmundo. Boa coincidência. Não seria nada mal ler nem que fosse parte dos "sotaques" e delírios na nossa língua por aqui - e, outra coincidência, no momento em que se discute uma reforma ortográfica pretensamente unificadora...

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 24/7/2007 14:13
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Ize
 

Oi Hermano, adorei seu texto demais da conta. Por uma dessas coincidências da vida (elas existem?) estava aqui quase dormindo em cima de uma dessas críticas medonhas à pós-modernidade (reconheço que elas são necessárias) e vem vc e me salva. O kuduro me levou a Angola e a Cabo Verde e, ainda que virtualmente, amei a viagem. Tem algum lugar aqui no Rio em que eu possa dançar ao som do kuduro? (Aliás, esse nome mostra que a globalização tem razões que a própria razão desconhece, né?). Enfim, o bilhete na cibergarrafa encontrou destinatária. Já adorava o moçambicano Mia Couto e vou amanhã mesmo procurar o que tem dessa Língua Geral aqui em Ipanema. Obrigada por ela, pelo overmundo e por me salvar do tédio.
Um abraço

Ize · Rio de Janeiro, RJ 27/7/2007 20:46
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Hermano Vianna
 

oi Ize: dá para dançar kuduro nas festas de imigrantes angolanos, que são muitos no Rio (e moram principalmente na Favela da Maré/Vila do João) - abraços!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 27/7/2007 20:52
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Ize
 

Puxa, tenho que dar um jeito de ir lá. Vou tentar descobrir o caminho das pedras (sem metáfora).
Abraço

Ize · Rio de Janeiro, RJ 27/7/2007 21:44
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Fausto Rosario
 

Texto extraordinario sobre um livro que ainda nao li, mas "ouvi" em interminaveis e imprevistas conversas tidas com o Gullander pelas ruas e esquinas da cidade de Sao Filipe, sem hora e lugar marcados, bastando um pequeno facto, um pormenor, uma negra bonita, uma van com o nome " Telefona, bu fra" (telefona e conta)...
Gullander, viking dos tropicos, que tanto pode ser Burroughs ou Bukowski, mas a quem continuo a chamar "Maltese", seu filho da mae, manda-me o livro depressa a fim de podermos continuar a viagem...
Fausto do Rosario

Fausto Rosario · Cabo Verde , WW 23/8/2007 08:37
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Hermano Vianna
 

alô Fausto: muito bom ter Cabo Verde aqui no Overmundo!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 23/8/2007 10:31
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João Everton da Cruz
 

João Everton da Cruz · Nossa Senhora das Dores, SE 7/4/2008 18:55
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Gheisa Machado
 

Olá.
Gostaria de dizer que esse foi um dos mais dificultosos e maravilhosos livros que já li na minha vida.
Ganhei esse livro das mãos de uma pessoa muito especial e quando o li, juntamente com essa pessoa, tive asensaçao de que eu o tinha ajudado a escrever.
Cada pergunta que eu questionava todos os dias que acordava, perguntas que estavam dentro de mim, vi sendo rebatidas pelos personagens do livro. Senti que eles as sentiam.
Levei umas duas semanas para ler esse livro, nunca levei mais de uma semana para ler qualquer livro.
Esse foi um dos que precisei de bastante tempo para absolver de verdade.

Gheisa Machado · Rio de Janeiro, RJ 9/10/2009 20:06
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