Pérolas aos porcos?!

Fonte: Google Imagens
Que fazer nos novos banheiros de um terminal de ônibus?
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Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A · Fortaleza, CE
14/3/2008 · 133 · 2
 

HÁ POUCO MENOS DE UM ANO, ir a um dos banheiros do terminal de ônibus de Messejana, bairro de Fortaleza, significava 1) aspirar, logo à entrada, o azedo imperecível de urina, 2) patinar no piso de cerâmica desgastado, 3) martirizar-se ao encostar as nádegas nas bordas imundas dos sanitários e, por fim, 4) afligir-se com uma inelutável falta de papel higiênico. Hoje, após passarem por uma reforma ampla, plural e irrestrita, os novos banheiros guardam apenas o péssimo hábito de não terem papel. Ao menos não à mão. O único rolo disponível fica escondido numa touceira de plantas rasteiras ou preso ao cós das calças de zeladores sempre dispostos a barganhar sobre o tamanho exato do papel quando o momento pede urgência.

Pedro de Santos Carvalho, 64 anos, é um deles. Há duas semanas o enfezado zelador amarga a rotina que reza: periciar, no início das jornadas de trabalho, as condições físicas das novas instalações; lavar e enxugar obsessivamente piso, paredes, espelhos, pias e sanitários a cada vinte minutos; abastecer o recipiente destinado ao sabão líquido; manter-se atento ao que entra e sai dos banheiros; e, finalmente, entregar tudo cheirando a novo antes de ir embora, às 23 horas. Para ele, a cereja do bolo dos terminais tem custado caro. “Além de perder o meu ônibus todas as noites, tenho de ficar limpando o tempo inteiro. Não sei por que um negócio desses pra quem não merece. Tem gente que quer tomar banho e mijar na pia. Não sabem nem usar o mictório. Queria voltar pro Siqueira [outro dos sete terminais de Fortaleza]. Lá não tinha besteira.” Tanta nostalgia não chega a ser um sentimento totalmente impenetrável ao entendimento humano. Pedro acredita que, quanto mais fedentina houver num banheiro, mais sossegadas serão as suas seis horas diárias de trabalho.

A capital cearense abriga, ao todo, sete pontos de integração destinados aos cerca 1,6 mil ônibus que, faça chuva ou sol, se desdobram para atender a uma demanda de mais de um milhão de usuários vindos dos mais de cento e oitenta bairros espalhados por seis regionais (algo como as subprefeituras de São Paulo). Em bom português, os terminais carregam sobre as suas colunas de concreto a dura tarefa de facilitar a vida de quem acaba aprendendo, a bordo de linhas como Paranjana e Grande Circular, medonhos conceitos como o de calor latente, coeficiente de atrito, queda dos corpos e lançamentos horizontal e vertical. Pedro talvez não saiba, mas só em Messejana são 149 mil bexigas e intestinos grossos e delgados circulando a cada vinte e quatro horas. Como se não bastasse o estresse implicado na intrincada missão que é apanhar um ônibus numa metrópole, esses organismos são inexoravelmente bombardeados por coxinhas, enrolados, pastéis, caldos, bolos, sanduíches e sucos manufaturados ali mesmo, nas dezessete lanchonetes que matam a fome de quem vem e vai.

Não raro, essa mistureba termina por conduzir uma fração do contingente que depende dos ônibus aos cuidados de Pedro. Ele se esforça para manter os cinco aparelhos sanitários e os três mictórios da marca Celite, as pias e divisórias de granito, as portas de madeira, as torneiras e descargas, os dois espelhos (à proporção que nos aproximamos ou nos afastamos deles, nossos membros e tronco são exageradamente esticados ou encolhidos) e os mais de setenta metros quadrados de cerâmica tão formosos quanto os primos ricos que povoam as galerias de arte contemporânea. E, claro, prontos a receberem os dejetos das mais variadas formas, cores e natureza.

DE APARÊNCIA FRÁGIL, quase desmontável, Pedro acredita que tanto luxo corresponda, sem tirar nem pôr, ao desperdício que é lançar pérolas aos porcos. O zelador reprova o comportamento abusivo de alguns usuários. “Aqui mesmo no terminal tem um rapaz, um branquinho de cabelo comprido que vem no banheiro pelo menos umas dez vezes só no meu horário. Não sei o que faz tanto. Ele chega, entra... Depois vai no espelho e faz assim...” — Pedro alisa os poucos tufos de cabelo que tem e arremata: “É uma coisa...”

Há uma semana, a incipiente rotina do zelador foi sacudida por alguém cuja maneira de usar as novíssimas instalações sanitárias escapou ao rol de funcionalidades previamente estabelecidas. De modo geral, as pessoas buscam esses espaços sociais quando querem muito a) urinar, b) evacuar, c) se masturbar ou d) simplesmente lavar as mãos. “Ele entrou aqui como qualquer outro. O problema mesmo foi a demora. Dez, quinze, vinte minutos e nada”, relata Pedro, que também é perito em esperas. “Eu tive que entrar lá pra ver. Fiquei parado na frente da porta, mas não ouvi qualquer barulho. Então saí. Contei mais vinte minutos e comentei com um colega de trabalho: só pode estar morto.”

Não estava. Impaciente, Pedro voltou a fazer guarda à entrada da cabine. Até que o som da chave sendo girada o animou: o homem não morrera. Ao contrário, estava vivinho da silva e, segundo o zelador, sem quaisquer vestígios de que realizara algum trabalho sujo ou limpo nos últimos dois terços de hora. “Falei com o rapaz. Ele disse que estava cansado e que tinha resolvido sentar ali e esperar o ônibus.”

NAQUELE MESMO DIA, ele ainda seria procurado por um usuário à caça de papel. Numa conversa pontuada mais por gestos do que palavras, o zelador lhe explicou: a supervisora resolvera encerrar todos os rolos numa saleta e tirar o dia de folga. O jovem, que viu imediatamente uma nuvem espessa de desamparo abater-se sobre si, entrou no banheiro de mãos abanando. Empunhando um rodo com um molambo preso em sua extremidade, Pedro foi lamber, pela enésima vez, a cerâmica branca da entrada dos sanitários. Esfregou tudo até desaparecerem as marcas dos solados de chinelas e sapatos e o sem-papel, já à porta, imprimir novas tatuagens no piso. Mais leve e envergonhado do que há cinco minutos, ele se dirigiu até a pia e lavou as mãos. Em seguida, mirou-se demoradamente no espelho, que refletiu uma cabeça dez ou quinze vezes maior que a original. Antes de ir embora, olhou em torno. Encostado à parede, Pedro resmungou: “É muito luxo pra quem não merece”.

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Andre Pessego
 

Verdade, a primeira colocação ainda é a marca nos pouquissimos banheiros publicos existenes em cidades e logradouros pelo Brasil a fora.
Aqui em S. Paulo os banheiros de pontos de onibus, os chamados terminais, por onde passam milhões de pessoas/dia
(ainda) configuram um descalabro,
um abraço, andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 14/3/2008 06:48
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Sinvaline
 

Que boa observação. Detalhes que nos incomodam mas ficam esquecidos. Ótima colaboração.
votado.

Sinvaline · Uruaçu, GO 14/3/2008 11:11
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