Pirapora do Bom Jesus, celeiro da cultura popular

Cristiano Sidoti
Dona Maria Esther
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Cristiano Sidoti · Guarujá, SP
3/3/2009 · 111 · 8
 

Depois de seguidos carnavais passados em Pernambuco, praticamente uma década trabalhando e brincando nas famosas troças, bois e maracatus, acabei ficando este ano em São Paulo no período da maior festa popular brasileira, este rito contagiante que enlouquece e liberta as pessoas da vida cotidiana.

Passar o carnaval na frente de uma televisão seria patético, ver o desfile oficial das Escolas de Samba não seria o suficiente para quem se anima com o verdadeiro sentido da festa, de ver e sentir as raízes da cultura popular.

Matutando o meu destino acabei me lembrando do grande sambista paulista Geraldo Filme e por conseqüência “Pirapora do Bom Jesus” a cidade dos Romeiros, berço do samba paulista, onde Mário de Andrade documentou pela primeira vez a origem do samba paulista designando-o como o “samba rural paulista” nos idos de 1930. Fiquei sabendo por um site que a maior personalidade do samba de Pirapora, Dona Maria Esther, 84 anos, seria homenageada neste ano de 2009. Contando com estas fortes referências estava traçado o meu destino, resolvi arriscar a viagem contando que seria de baixo custo e estaria longe dos trios elétricos e da multidão embriagada.

Pé na estrada eu, namorada e mais um amigo. Chegando lá encontramos uma cidade simpática de traçado colonial, o que de cara nos impressionou foi a fedentina do rio Tietê que passa por dentro da cidade carregando uma poluição assustadora, espumas, lixo, um verdadeiro desastre ecológico. O curioso que eu não estava em Recife - Olinda mas sentia toda aquela atmosfera, cheiro de rio poluído, religiosidade, ladeiras e muita tradição dentro do universo cultural regional.

Depois de instalados na pousada partimos para a praça central a espera da homenagem e apresentação da “Roda de Samba de Pirapora” e depois do grupo “Vovô da Serra do Japi” com seu samba de bumbo, esperamos horas tomando umas e outras em um boteco onde fomos tratados com extrema atenção pelo seu proprietário, a aquela altura já havia percebido que éramos praticamente os únicos “turistas” do local onde se preparava uma festa feita basicamente para população local.

Quando Dona Esther subiu ao pequeno palco com seus instrumentistas dotados de belos tambores e cantou seu primeiro samba; viemos todos abaixo, a batida da zabumba ecoou e tocou forte a emoção, era difícil de acreditar, mas estávamos de repente em um ambiente conhecido dos brincantes de outrora, depois de vários sambas mestrados talentosamente por Dona Esther veio à homenagem, um busto da sambista, uma escultura que representa o valor inestimável do seu legado cultural, foi tão forte a cena que enchi os olhos d água, senti que estava em frente de uma lenda viva, uma entidade.

Terminada a apresentação da Roda de Samba de Pirapora ouve-se de longe novo batuque só que desta vez subindo a rua, assim que fomos ao seu encontro novamente um espanto, uma coisa fantástica, era o pessoal do "Japi" vários cabeções de caveira e um diabo com capa preta e tudo, seguimos este “bloco” por toda a cidade, todos muito entusiasmados e cantando as respostas de seus sambas com todo o fervor, em um destes sambas os brincantes pediam bebida para os moradores das casas da cidade que não hesitavam em dar litros de pinga e vinho que rolaram fartamente para todos os presentes. Ali estávamos em êxtase brincando um delirante carnaval de rua, sem apertos, tumultos, propaganda de cerveja e o melhor; perto de casa.

Nos dias que se seguiram sambamos muito na casa do Samba onde se apresentaram vários grupos destacando o genial Osvaldinho da Cuíca, da Vai Vai, com sua ginga e musicalidade de raízes piraporenses e o Samba lenço de Mauá, vale ressaltar que o Samba lenço foi uma grande revelação para mim, a força deste grupo é incrível, todo composto por uma família comprometida com a cultura de seu povo, sua história e origem, todos estavam visivelmente emocionados pelo recente falecimento de uma Senhora componente do grupo, lágrimas rolavam junto ao som dos tambores, indescritível.

Parabéns Pirapora do Bom Jesus, Dona Maria Esther, Grupo Cultural Vovô da Serra do Japi, o Samba Lenço de Mauá e todas as pessoas envolvidas neste movimento de afirmação de identidade da cultura popular no Estado de São Paulo.

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Hermano Vianna
 

alô Cristino: muito obrigado por trazer essas notícias - muito bom saber que o batuque de Pirapora está vivo e animadíssimo! gosto tanto de carnaval em cidades grandes quanto pequenas - seu texto me lembrou um dos melhores carnavais da minha vida - peço licença para republicar o relato (que está no livro de fotos do Música do Brasil) aqui:

O carnaval da Varginha, distrito do município de Santo Antônio do Leverger, em Mato Grosso, é um dos mais peculiares do Brasil. Vai até as origens religiosas mais profundas da folia de momo, sendo também uma festa de santo, com mastro, procissão e tudo, em homenagem a Santa Gertrudes.

A festa começa com a matança dos bois que vão alimentar os foliões – algumas centenas deles - por quatro dias. Tudo se aproveita, de uma maneira ou de outra: ossos para sopa; tripas para o sarapatel. Até o couro dos bois é guardado para fazer o mocho, instrumento de percussão característico da região, que, como seu nome diz, tem formato de banco de sentar.

A folia propriamente dita, começa na noite de sábado, com a procissão dos cururueiros, que sai da casa do festeiro do ano anterior – uma espécie de organizador, que empresta seu lar para a sede do carnaval – com a imagem da santa e o mastro que será fincado na casa do novo festeiro. Depois da solenidade do levantamento do mastro, a procissão entra no barracão de palha especialmente construído para o carnaval, coloca a imagem de Santa Gertrudes num altar que já estava preparado para recebê-la e tem início uma roda de cururu, da qual só os homens participam.

O instrumento característico do cururu é a viola de cocho, da “família” do alaúde, na maioria das vezes sem furo no tampo frontal, sob as cordas. Com afinação específica, é tocada sempre em dois acordes, com som quase percussivo. Geralmente, os violeiros - e tocadores de ganzá - são também cantadores e compositores. O cururu é cantado em dupla, onde o cantor acompanhante, harmonizando as terças, pode até pegar a letra na hora, no tranco. Os cantadores, com viola de cocho em punho, também entram para dentro da roda, dançando em círculos durante horas.

A roda de cururu faz um intervalo por volta da meia-noite, quando as mulheres entram no barracão da festa para rezar uma ladainha, que louva tanto Santa Gertrudes, e todos os outros santos, quanto as “divindades” do carnaval. Termina a reza, soam novamente as violas de cocho, até o amanhecer.

Na tarde de domingo, depois do almoço, é a hora das mulheres caírem na folia. A música muda. Sai o cururu e entra o siriri, também tocado por violas de cocho, mas agora comandadas pelo baticum do mocho. O pequeno “bloco” de carnaval canta siriri numa procissão profana que invade todas as casas do povoado, “louvando quem mora dentro”. É demonstração radical do poder da comunidade sobre o espaço privado de cada família. O melhor é afastar os móveis e qualquer enfeite frágil: a folia, que ao andar pela rua parece até desanimada, ao entrar numa casa adquire a intensidade furiosa de uma Praça Castro Alves em miniatura. Nesses momentos, não importa o sambódromo, não importa a saída do Olodum: aquele é o melhor carnaval do Brasil.

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 28/2/2009 11:56
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Cristiano Sidoti
 

valeu Hermano obrigado, achei ótimo o que escreveu sobre o carnaval da varginha, ainda não conheço de perto o cururu e o siriri, mas deu pra sacar o clima.
abraço

Cristiano Sidoti · Guarujá, SP 28/2/2009 15:32
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Luiz Cabelo
 

ótimo texto, achei muito ineressante!

Luiz Cabelo · Porto Alegre, RS 4/3/2009 01:13
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Cristiano Sidoti
 

O curioso também é que "Pirapora do Bom Jesus" se refere ao local em si (município) e "Bom Jesus de Pirapora" se remete à imagem de "Jesus" segundo o sincretismo local.

Cristiano Sidoti · Guarujá, SP 4/3/2009 10:07
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businari
 

Cristiano, que maravilha!!!

Como é bom ler suas impressões e deparar-se com esse trabalho de pesquisa aprimorado. O Brasil é lugar festivo, país globalizado em seus costumes desde antes de Cabral. Nós, tecnoíndios que somos, nesta selva de concreto e vidro, agradecemos à saraivada de cultura disparada no papel digital que reluz nas telas de nossos computadores.

Um abraço!

businari · São Vicente, SP 4/3/2009 14:43
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Marcos Paulo Carlito
 

Muito bom, ótima referência da cultura brasileira.
Tem um link para a gente ouvir um pouquinho deste samba?

Marcos Paulo Carlito · , MS 8/3/2009 13:34
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Cristiano Sidoti
 

Oi Marcos , valeu a força. Infelizmente não consegui gravar o "samba de bumbo" para colocar junto com o texto, seria bem nais interessante para sacar a história, por que é muito vibrante a batida e as letras.

Cristiano Sidoti · Guarujá, SP 9/3/2009 18:01
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Hermano Vianna
 

oi Cristiano: achei este documentário aqui no YouTube:

http://www.youtube.com/watch?v=2Y_wZzp5SBU

é um trabalho de conclusão de curso de jornalismo - mas ficou bem bacana - dá para ouvir bem a música

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 9/3/2009 18:09
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