Pirata de roupa nova

Frutos da Terra/Divulgação
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Edson Wander · Goiânia, GO
25/5/2006 · 132 · 11
 

Mercado paralelo de CDs faz agora o disco "genérico" que, bem finalizado, está sendo vendido em lojas regulares de Goiânia com preço de original.

Nem sei se a roupa é tão nova, mas vamos lá. Distinto, de roupa nova e elegante. Ele já é um velho conhecido dos consumidores de música, perseguido até, mas está de volta à praça sob o garboso nome de "genérico". A pirataria parece se sofisticar na mesma velocidade das "armas" anti-pirataria e, tal como o samba em seus primórdios, está adentrando os salões da nobreza. Os bons e já velhos discos piratas estão chegando às lojas regulares com nova embalagem.

Bem finalizados, os discos "genéricos" (como são chamados no mercado) vêm com encartes coloridos e até impressão na face do CD, mas não resiste a uma observação mais atenta do produto. O CD usado para a fabricação é simples, um CDR (regravável), desses encontrado no mercado por preços módicos. Isto está acontecendo em Goiânia.

A primeira "vítima" da estratégia foi encontrada em um dos discos mais vendidos em Goiás por este escriba colaborador deste Overmundo. Duas lojas da rede Bazar Paulistinha, a mais tradicional loja de discos de Goiânia, vende CDs genéricos de Geraldinho Nogueira. Comprei os dois volumes do famoso contador de causos que está tendo os CDs originais reeditados pelo seu idealizador, o publicitário Hamilton Carneiro (escrevo sobre esses discos e o artista logo abaixo). Comprei o volume 1 com emissão de nota fiscal a R$ 18 na loja da Avenida Anhanguera (grande centro comercial da cidade) e o segundo volume foi adquirido pelo mesmo preço na loja da rede instalada no Goiânia Shopping (segundo principal centro de compras da capital).

A estratégia engana o consumidor menos atento, mas não é muito difícil detectar a precariedade do material usado. Apesar de colorido, o encarte tem falhas de impressão e os discos, diferente dos originais, não trazem o número de série da fábrica, impresso na face interna (o lado onde o aparelho de som "lê" as músicas). Submeti os CDs comprados no Bazar Paulistinha a outros lojistas da cidade e à Delegacia do Consumidor (Decon). Todos disseram se tratar de pirataria. "Para efeito de processo criminal precisamos levar para análise técnica, mas dá para afirmar com certeza tratar-se de discos pirateados", afirmou o policial William José dos Santos. O delegado titular da Decon, José Correia, disse que para o Decon não há eufemismos. "Genérico é o mesmo que pirata".

Também delegado do órgão, José Carlos afirmou que a Decon já tem uma linha de investigação sobre este tipo de pirataria, mas nunca conseguiu "dar flagrante" ao ato. Segundo lojistas do setor, que pediram para não serem indentificados, o mercado de genérico em Goiânia é bem menor do que o da "pirataria normal". Conforme essas fontes, os "fabricantes" de CD genérico não passam de 30, que distribuem os produtos por todo o Centro-Oeste, Triângulo Mineiro e até o interior de São Paulo. A Decon acha o número alto, mas não sabe dizer o tamanho deste tipo de pirataria na cidade.

O delegado titular José Correia diz que para a Decon abrir uma nova investigação sobre o caso, "é preciso primeiro pegar o original e ver com o dono dos direitos dos discos se não houve nunhum tipo de licença a terceiros para a produção dos discos". Na sequência, a Decon tentaria obter dos lojistas onde compraram os CDs genéricos. Hamilton Carneiro, dono dos direitos autorais dos discos de Geraldinho Nogueira, diz que nunca autorizou nenhuma cópia em série dos CDs. Resumo da história para mim: do ponto de vista de Decon, Pronco e organismos do gênero, isso vai dar em nada. Melhor o consumidor ficar atento na hora de comprar esse tipo de trabalho regional nas lojas, digamos, oficiais.

O publicitário Hamilton Carneiro informou que com o fechamento da Anhanguera Discos, selo por onde os discos eram distribuídos, ele deixou os dois CDs de Geraldinho Nogueira fora do mercado por dois anos. O hiato se deu em virtude das negociações sobre os direitos dos álbuns que Carneiro fazia com a família de Geraldinho. Estimativas dos próprios lojistas e policiais da Decon dão conta de que o custo de um CD genérico não passa de R$ 3,50. Percorri várias lojas de discos da capital, mas não encontrei outros discos "genéricos" à venda. Na verdade, esse nem era meu objetivo. Fui atrás de uma pista objetiva e achei o que queria. Procurei insisitentemente os gerentes da Bazar Paulistinha, mas eles não quiseram se pronunciar sobre o assunto. Abaixo, resumo a história de Geraldinho Nogueira e a nova reedição dos discos dele.

Trova reeditada

Um dos artistas mais vendidos de Goiás, o velho Geraldinho Nogueira volta em CD reeditado que estréia o selo Frutos da Terra. São dois volumes com as gravações do prosador caipira no programa Frutos da Terra, da TV Anhanguera (filiada da Globo), apresentado há 22 anos por Hamilton Carneiro. O formato é Geraldinho soltando sua prosa em causos hilariantes mediados por Hamilton Carneiro e pontuados por modas de viola da dupla André e Andrade. Caipira mesmo, aqui não tem nada de sertanejo-romântico.

Com o fim da gravadora Anhanguera Discos, que lançou primeiro os discos, o publicitário, poeta e apresentador Hamilton Carneiro retoma a gestão dos discos no selo próprio. "Retomei porque ainda há uma demanda muito grande por este projeto, mas o fiz de uma forma negociada com a família do Geraldinho para dar fim de vez às acusações de apropriação que sofri", disse Carneiro sobre as críticas que recebeu de que ele teria lucrado com a projeção e venda dos discos do programa enquanto a família estaria supostamente empobrecida. "Nunca deixei de ajudar, mas agora eu sugeri que contratassem um advogado para estabelecer as bases legais do contrato", afirmou Carneiro sobre o contrato fechado com a família estabelecendo cotas de direitos artísticos (7%) e autorais (8,4%) para a viúva e filhos de Geraldinho.

Hamilton Carneiro diz que a pirataria quase o levou a desistir do projeto. Depois da primeira edição, os CDs Trova, Prosa e Viola passaram um bom tempo fora das prateleiras das lojas. Com o novo selo, os dois volumes do CD sai com tiragem inicial de duas mil cópias cada e Carneiro vai trabalhar por enquanto com disitribuição própria em Goiás, Minas Gerais, Brasília e negocia com lojas de São Paulo.

A história de sucesso de Geraldinho Nogueira começou em meados da década de 80. O espetáculo Trova Prosa Viola, idealizado por Hamilton Carneiro, reuniu ele, Geraldinho e a dupla André e Andrade durante oito anos pelos palcos de Goiás e fez o matuto virar ícone, instigando pesquisadores de universidades brasileiras e sendo assistido por milhares de pessoas. O disco ganhou primeiro registro em vinil em 1994 e chega agora na segunda reedição em CD. Era 1984, quando Hamilton Carneiro encontrou Geraldo Nogueira, um “rachadô da arueira”, “capinadô de roça” e “derrubadô de mata” (na definição do próprio Geraldinho) nos arredores de Bela Vista, a 45 quilômetros da capital. O talento puro do matuto foi incialmente testado nos comerciais da extinta Caixego (banco de Goiás).

Analfabeto (“minha caneta é a enxada na saroba”, dizia o sertanejo), Geraldinho era dono de metáforas que retratavam o jeito simples e ao mesmo tempo criativo do homem do campo. Hamilton sabia que havia descoberto um talento nato. Concebeu então o show Trova Prosa Viola em que contava com a dupla caipira fazendo um fundo musical concernente às peripécias semânticas de Geraldinho.

Da turnê que começou em Quirinópolis, o espetáculo chegou ao televisivo Som Brasil, da Rede Globo, à época sob o comando de Lima Duarte, e provocou a procura de vários pesquisadores de Letras e Comunicação Social de universidades do Rio Grande do Sul e São Paulo interessados em investigar o fenômeno Geraldinho. Hamilton Carneiro conta que já recebeu 16 propostas de imitadores de Geraldinho. "Mas todo imitador não passa de arremedo, fica caricato, não dá. Mazzaropi e Oscarito só tiveram um, assim como Geraldinho Nogueira", compara.

O formato do show virou marca. Geraldinho e seus “causos” seguidos das toadas de André e Andrade, a maioria delas escritas pelo próprio Hamilton, com temas próximos ao que havia acabado de ser contado. O show começava a ganhar o país quando Geraldinho morreu, em 5 dezembro de 1993, vítima de trombose intestinal. A produção tinha agendado apresentações no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, Rio Grande do Sul e Salvador. Dos ensaios para o segundo show, ficaram outros causos de Geraldinho e novas músicas de Hamilton nas vozes de André e Andrade, que estão reunidos no segundo volume agora reeditado. Outras vezes prometido, Hamilton Carneiro garante que este ano sai a versão em DVD das gravações.



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Carlos Eduardo Pinheiro
 

Muito bom o texto. Parabéns!

Carlos Eduardo Pinheiro · Goiânia, GO 22/5/2006 16:52
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Dramarc
 

Poderia ter sido mais sintético.

Dramarc · Fortaleza, CE 22/5/2006 20:12
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Pedro Rocha
 

É muito importante se discutir a pirataria. Principalmente em um site que tem a licença creative commons e se propõe a uma forma diferente de "direitos autorais".

Pedro Rocha · Fortaleza, CE 23/5/2006 11:23
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Daniel Cariello
 

Edson, será que você consegue convencer o Hamilton a liberar um desses causos para ser publicado aqui no Overmundo? Eu já escutei esse disco, e as estórias são ótimas!

Daniel Cariello · Brasília, DF 25/5/2006 15:09
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wado
 

Muito pertinente. Eu já tinha visto este tipo de impressão por gente que quer divulgar demo de forma mais classuda. Se não tem permissão do autor e do detentor do fonograma é má fé mesmo.

wado · Maceió, AL 26/5/2006 13:32
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Psychojoanes
 

Viva os pirata! Menos os genéricos do mal que fura olho de quem é cego.

Psychojoanes · São Domingos do Prata, MG 26/5/2006 17:30
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Edson Wander
 

Daniel,
Já entrei em contato com o gerente do novo selo do Hamilton e ele topou, tá vendo lá qual faixa e quando vai disponilbizar o trabalho aqui.
Grato a todos os comentaristas.
Abraços,
EW

Edson Wander · Goiânia, GO 27/5/2006 14:55
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Rodrigo Nunes
 

Pessoal é importante divulgarem isso, pois estas pessoas estão contribuindo para o fim do mercado legal. Já bastam os piratas tradicionais de rua, agora lojistas, não dá...!!!

Rodrigo Nunes · Goiás, GO 29/5/2006 09:18
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Rodrigo Nunes
 

Raul,

Conforme sua solicitação em relação a publicação de faixa do CD do Trova, Prosa e Viola neste site. Informamos que autorizaremos exclusivamente para este site a publicação da faixa do CD Trova, Prosa e Viola - Vol 1, intitulada CAUSO DA BICICLETA, sem ônus, a título de divulgação.

Atenciosamente,

Rodrigo Nunes
Frutos da Terra - Goiânia

Rodrigo Nunes · Goiás, GO 7/6/2006 16:22
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Rodrigo Nunes
 

Na autorização abaixo onde se lê Raul, Digo: Daniel Cariello.

Grato,
Rodrigo Nunes

Rodrigo Nunes · Goiás, GO 7/6/2006 16:40
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Fernando Santos e Juliana Alves
 

Geraldinho é retrato de um camponês que fatalmente já não existe em nosso estado. Achei lindo o fato do Edson ter se lembrado dele e principalmente de ter demonstrado a forma anáquica que esse sistema tem tratado nosso povo e sua história.

Fernando Santos e Juliana Alves · Goiânia, GO 3/7/2006 15:06
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