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Pixo, as marcas de SP

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Quando me mudei pra São Paulo, em 82, eu era criança, e as paredes marcadas da cidade foram uma revelação. Os pixos pareciam coisas muito novas, inusitadas e fantásticas, incompreensíveis e sedutoras. Talvez por não ter acompanhado o assalto dos espaços públicos pelas tintas, nunca consegui concordar com o senso comum que classifica essa forma de expressão como puro vandalismo. Cheguei e já era. Essa prática vem das manifestações políticas dos anos (19)60, e foi mudando muito ao longo do tempo. Das palavras de ordem contra a ditadura até frases de efeito como “Celacanto provoca maremoto” (titulo de um episódio da sério National Kid), “Rendam-se terráqueos” e “Sou pipou”, que conquistaram territórios pelo nonsense no fim dos anos 70, chegamos ao estágio da identificação codificada, a divisão entre turmas com nomes e estilos de caligrafia próprios. Pelo menos foi aí que eu cheguei, em uma cidade lotada de propagandas legais e ilegais, que mudou muito e continua igual até hoje. Essa transição para as letras gigantescas e organizações em grupos tem ligação direta com a cultura hip hop estadunidense: entre outras entradas, na metade da década de 80 foi exibido nas salas de cinema daqui o filme “Beat Street” que, apesar de um roteiro água-com-açúcar, mostra claramente a organização dos grafiteiros.

A maneira como a opinião pública, via mídia e repressão policial, lida com esse fenômeno sempre me pareceu a pior possível. Nos anos 80, a equação tinta+muro foi reconhecida por artistas plásticos como o finado
Alex Vallauri, que adotou a técnica de stencils (ou máscaras, moldes de desenhos ou frases para serem preenchidos por tinta) em seus trabalhos e usou muros como telas, abriu-se uma janela de aceitação. Na verdade, não foi bem uma janela, foi mais um filtro. Porque foi a partir daí que surgiu uma distinção que fez muito mal para os grafiteiros de São Paulo, a divisão entre o que é graffiti e o que é pixação. Reconhecidos como válidos graças a uma apreciação estética mais imediata, os graffitis, peças com ilustrações coloridas, foram eleitos a “evolução” ou “salvação” da pixação. O problema é que isto condicionou os traços de muita gente: o padrão estabelecido era o dos grafiteiros gringos, e a expressão genuinamente nacional foi deixada de lado por muitos.

O graffiti em Nova Iorque começa como marca territorial, e invade os trens de metrô, já que lá uma composição cruza vários pontos da cidade fora dos túneis, à vista de todos. Por aqui, a procura por “ibope” (fama) leva os pixadores brasileiros para o topo dos prédios. A escolha do látex no lugar das latas de spray (material mais barato e mais prático para as dimensões desejadas), aliado aos locais onde as grafias seriam colocadas definiu o estilo paulista. Tipos gigantescos, garranchos se adequando a ângulos retos, mensagens de agressão e comentários cotidianos que beiram os hai-kais. A luta por “picos” de difícil acesso e grande visibilidade, a demarcação de zonas em territórios e os encontros com trocas de assinaturas em cadernos e folhas, tudo bem abaixo dos radares da sociedade, é que constituíram esta história, uma forma de expressão viva e em mutação constante.

Em lojas do Centro apareceram artefatos dessa cultura, como vídeos amadores mostrando proezas (do alto de prédios até carros de polícia sendo assinados), e até os dois volumes do álbum de figurinhas “SóPixo”, editados pelas próprias grifes (nome dado as turmas de pixadores), com fotos de qualidade “familiar”. Subterrânea até hoje, aparece uma mudança nos horizontes. Há alguns anos os graffiteiros daqui começaram a incorporar as letras de pixo aos seus trampos, a razão eu desconheço.

A pixação foi tratada com propriedade em pelo menos dois trabalhos acadêmicos do curso de Sociologia da USP, as teses de Alexandre Manoel Ferreira (bibliografia desse texto) e de Lucas Frettin, na cadeira de Antropologia Visual. O trabalho de Lucas é um documentário excelente chamado "A Letra e o Muro", e foi realizado graças a uma bolsa no LISA (Laboratório de Imagem e Som da Antropologia). Ele começou sua pesquisa em 1999, atraído pela ”organização social dos pixadores em gangues e grifes além de pontos de encontro e festas de pichadores. Para a antropologia a pixação é um prato cheio, para a antropologia visual mais ainda, porque a organização social na pixação vem do seu aspecto visual. Fiz um trabalho de etnologia durante um ano, só depois comecei a filmar...”, conta ele. “Quando fui filmar, já conhecia o point, tinha feito rolês (sessões de pixação), fui parar na delegacia, já tinha uma idéia do que era pixação”.

Os traços originais impressionaram as platéias européias. “Já mostrei o documentário na França e na Espanha, e as pessoas ficam impressionadas com o estilo gráfico, que é unico. A pixação de São Paulo é muito original, única no mundo, totalmente diferente das pixações (tags) da Europa, inspirados no estilo Americano”.

Recentemente a Editora do Bispo, nova no mercado, lançou o livro TTTSSS. Trata-se de um livro baseado em um caderno com várias assinaturas de diferentes grifes. O volume de autoria desconhecida caiu nas mãos do grafiteiro Boleta em 1988, que seguiu coletando assinaturas singulares por 9 anos. O livro combina as assinaturas com alfabetos inteiros nas fontes originais, fotos de João Wainer e textos dele, de Pinky Wainer e do jornalista Xico Sá. Se isso vai de alguma maneira abrir as portas (e os olhos) dos descolados para o fenômeno, eu também não sei. Que as grafias vêm sendo cada vez mais incorporadas ao design, isso é certo.

Mas o espírito transgressor inerente à atividade é completamente avesso à legalidade. Um bom paradoxo. Outra entrada pela porta da frente pode ser o novo projeto de Lucas: “Atualmente estou realizando um segundo documentário sobre o mesmo assunto, que deve estar pronto esse ano. Fiz duas filmagens, uma em julho de 2004 e outra em dezembro 2005. Diferente de "A Letra e o Muro", este novo filme retrata a vida de um pixador em seu cotidiano, além de outros personagens ligados à pixação, mas que têm outro ponto de vista, como proprietários, juizes, urbanistas e artistas. Terá duração de 80 minutos”. Fiquemos no aguardo.

Você pode assistir ao documentário "A Letra e o Muro no LISA", dentro da USP, nos seguintes horários: 2ª e 4ª das 9:30 as 19:30, 3ª 5ª e 6ª das 9:30 as 16:30. Marcar sessão através do e-mail lisa@usp.br.

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