POEMA VERSUS LETRA: UMA PROSA

Augusto de Campos
Código
1
Paulo de Toledo · Santos, SP
25/4/2009 · 9 · 1
 

Está em cartaz nos cinemas o documentário Palavra (En)cantada, que trata, entre outras coisas, das relações entre música e poesia. Confesso que ainda não o assisti*. Mas já vi trechos na TV e uma entrevista da diretora, Helena Solberg, além de comentários aqui e ali sobre a obra.
Uma das coisas que parece ter chamado a atenção de muitas pessoas no Palavra (En)cantada foi uma declaração do Chico Buarque na qual ele afirma não se considerar poeta.
Alguns devem ter pensado: “Ora, se o Chico, que é o CHICO, não se considera poeta, os outros cantautori (como dizem os italianos) brasileiros não poderiam ter a audácia de se considerarem poetas!”
Respeito muito a opinião do Chico e de todos aqueles que concordam com ele, porém minha intenção aqui não é saber o que os autores pensam de si mesmos, mas analisar o que eles fazem.
O Chico se acha escritor e tem gente que discorda dele (nisso eu concordo com ele). E tem muita gente que pensa que é poeta, publica livros, se apresenta em público como poeta e de poeta não tem nem o cheiro (lembrei daquele poema do Augusto, o “Bestiário”).

Enfim, para começo de conversa, uma historinha hipotética.

Um dinamarquês, grande estudioso (Ph.D.) da língua e literatura portuguesas, um dia resolve se interessar também pela poesia brasileira. Ele pesquisa na www e encontra, num site de poesia, a "letra" de “O Quereres”, de Caetano Veloso.
Não há nenhuma informação sobre o texto, apenas o nome do autor.
O dinamarquês erudito percebe que se trata de um decassílabo, que há rimas, metáforas e outros recursos que normalmente fazem parte da caixa de ferramentas de todo poeta que se preze.
Quem poderia afirmar peremptoriamente que, ao considerar o texto em questão como se tratando de um poema, esse dinamarquês estaria errado?

Obviamente, quando o texto (a chamada “letra”) de Caetano Veloso é oralizado/cantado, ele se torna algo diferente da peça apenas impressa no papel. Mas isso eu deixo pro Tatit falar. A questão agora é apontar o que pensamos ser o equívoco que muita gente comete ao afirmar categoricamente que LETRA DE MÚSICA NÃO PODE SER POEMA.
Ora, alguém pode afirmar que o Caetano não fez “O Quereres” para ser lido no papel e que, por isso, ele não pode ser considerado um poema. Bobagem! Shakespeare não escreveu suas peças para serem lidas no papel, mas, sim, para serem encenadas nos palcos. E todos lemos Shakespeare!
Pode-se também argumentar que “O Quereres” cantado por Caetano é muito melhor do que apenas lido no papel. Assim como alguém pode preferir ler as peças de Shakespeare a vê-las encenadas nos palcos.
Pãos e pães é questães de opiniães.
Também é interessante lembrar que a canção “O Quereres” pode ser executada por vários intérpretes, além do próprio Caetano. E alguns desses intérpretes podem ser muito ruins. I.e., a “qualidade” da canção “O Quereres”, diferentemente do texto “O Quereres”, depende da sua execução. O mesmo ocorre com as peças shakespearianas. Uma encenação ruim pode “matar” Shakespeare.

Mas o que importa para nós é o fato de que o texto “O Quereres” pode, sim, ser fruído/lido apenas como um “objeto gráfico-verbal” (em oposição ao “objeto sonoro-rítmico-melódico”, a canção “O Quereres”).

Vamos, então, comparar dois “objetos artísticos verbais” (verbais porque compostos de signos simbólicos, segundo a definição peirceana). Um deles, o texto do Caetano já citado, o outro, o poema “Código”, de Augusto de Campos.


Para efeito de economia de espaço (e da paciência dos leitores), cito apenas o excerto final do texto do compositor/poeta baiano.

O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem querer-te mal
Bem a ti mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E querendo-te aprender o total
Do querer que há e o que não há em mim

Se compararmos ambos os textos, veremos que o do Caetano contém muitos dos elementos que caracterizam o que se costumou chamar — na nossa já longa tradição poética ocidental — de poema. Como dissemos na historinha do dinamarquês, o texto em tela é construído em versos decassilábicos, possui rimas, cria oxímoros, faz jogos de linguagem etc. etc. etc.
E o poema de Augusto de Campos, quais as características que, na época em que ele foi levado a público (1973), permitiriam aos seus leitores, baseados nos conhecimentos legados pela tradição poética, admitirem aquele “objeto gráfico-verbal” como sendo um poema?
Comparado com o texto de Caetano, “Código” contém muito menos das características que, na já citada tradição poética ocidental, identificam um poema. Ele não é feito em versos, não tem rimas, nem metrificação etc. etc. etc.
Porém, o fato é que “Código” foi e é até hoje não só considerado mas também estudado (vide o excelente Poesia Concreta Brasileira, de Gonzalo Aguiar) como fazendo parte daqueles objetos estéticos denominados poemas.
Portanto, por que “Código” pode ser denominado poema e “O Quereres” não pode?

Poderíamos levantar outros argumentos em favor de nossa posição. Por exemplo: Por que consideramos como poemas as obras dos trovadores provençais se, ao que tudo indica, eles eram produzidos para serem cantados? Então, por que não chamamos aqueles trovadores de “letristas”? (Para mais informações e muitos e muitos deleites, vide Invenção, de Augusto de Campos, obra publicada pela Editora Arx.)
Logicamente, e é bom deixar isso muitíssimo claro, não estamos querendo comparar Caetano ou outro compositor/poeta, brasileiro ou estrangeiro, com os trovadores provençais (muito menos com Shakespeare, ouviste, Bloom?). O que nos parece claro é que não querer considerar os textos impressos nos antigos encartes de LP e nos quase ultrapassados CDs como PODENDO TAMBÉM SER POEMAS é apenas mais uma espécie de pré-conceito livresco.

E, pra descerrar o encerrado, mais Caetano e um excerto de seu “Livros”:

Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando para a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo.





*Assisti o filme mais ou menos uma semana depois de “fechar” este artigo. Mas, apesar de gostar bastante do documentário, ou melhor, apesar de sair do cinema (en)cantado com diversas passagens da obra, esta não modificou em nada a minha opinião sobre a relação poema x letra de música.

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RonaldAugusto
 

oi, paulo. pois é, neste ponto não concordamos. vou simular uma polêmica. letra de música não é bem poesia. sempre lanço mão de uma metáfora para tentar clarificar minha opinião (mas sei que ao fim e ao cabo é a recepção que diz a última palavra sobre tudo, e ultimamente, onde a hibridação está em voga avassaladora, a poesia foi sequestrada para a mpb), continuando, a metáfora é a seguinte: a poesia está para a letra de música assim como o teatro está para o cinema. é inagável que há um parentesco entre essas formas artíticas, mas cada uma tem a sua semiótica. se encontram, mas não se confundem. agora, para encerrar de um modo bem tosco: acho que os poetas de uns tempos para cá começarem a se intrometer demais nas coisas da música, querem levar o debate para o andar de cima, para a "cobertura". eles é que falam em caetano e chico. mas, onde andam os letristas-músicos "menos" cultivados e geniais o,pessoal da lage, como ismael silva, nelson cavaquinho, candeia, zé keti, e outros. tá, alguém dirá que são poetas também. an-han... mas, eu passo. um homem só não é temido nem estimado.

abraços!
ronald

RonaldAugusto · Porto Alegre, RS 25/4/2009 18:47
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