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Poesia, bananeiras e futebol

Divulgação
O multiartista Ricardo Aleixo
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Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG
22/10/2006 · 135 · 3
 

Nascido em Belo Horizonte, Ricardo Aleixo é poeta, músico, performer e professor. Faz parte do Combo de Artes Afins Bananeira-Ciência, grupo que integra linguagens da poesia, música, da dança e do vídeo. É curador do Festival de Arte Negra/FAN e da Bienal Internacional de Poesia/BHZIP.

- Quando e como você começou a escrever? Como você descreve a sua poesia para o leitor?

Em termos de entrada em cena, digamos assim, a música veio antes da poesia. Desde pequeno eu gostava muito de cantar. Canções radiofônicas, coisas antigas que minha mãe cantava. Por volta dos 11 anos, comecei a cantar em um grupo vocal formado no colégio, que me serviu como iniciação musical. Eu já gostava de poesia, mas só lá pelos 17 anos comecei a escrever. Vêm dessa época, também, as primeiras músicas. Curioso é que, na minha cabeça, vinha tudo junto: eu compunha os poemas, no plano gráfico-visual, como se eles fossem partituras. E até hoje é assim que procedo, buscando sempre uma inter-relação entre os códigos. Minha poesia? Acho que é, toda ela, uma tentativa de puxar conversa. Uma conversa que sai, às vezes, truncada, áspera, mas sempre baseada num esforço de aproximação do outro.

- Como você analisa a poesia brasileira contemporânea? Qual poesia te interessa hoje em Minas e no Brasil?

Prefiro responder repetindo uma provocação de Itamar Assumpção, feita aqui em Belo Horizonte, durante um show, por volta de 1983: “Minas Gerais não é Brasil?”. Não gosto de pensar que existe uma “poesia mineira”. Se existe, quero ficar de fora. Mas vá lá: dos poetas que vivem em Minas, o que me interessa mais, desde sempre, é justo aquele um que se define como um “ex-poeta”, por ter deixado de escrever poemas no final da década de 90: Sebastião Nunes. Considerando a poesia brasileira como um todo, ao nome de Sebastião Nunes eu adicionaria o de Augusto de Campos – aí, não só pelo que ele já fez em poesia, mas pelo que continua a fazer, agora numa perspectiva mais ampliada, que envolve a oralização de poemas, os videopoemas e as performances multimídia. Sem deixar de acompanhar a produção de poesia em livro, na qual se destacam criadores extraordinários, como Manoel Ricardo de Lima, Francisco Kaq, Max Martins, Edimilson de Almeida Pereira, Ademir Assunção, Frederico Barbosa, Age de Carvalho, Claudio Daniel e alguns outros, confesso que tenho voltado mais as antenas para os trabalhos que desenvolvem projetos intermídia: o grupo Poemix.br (João Bandeira, Lenora de Barros, Walter Silveira, Cid Campos e Grima Grimaldi), Ricardo Corona, André Vallias, que é um poeta/webdesigner fabuloso, o Guilherme Mansur, com seus “tipoemas”, as performances do Chacal, sempre matadoras... Também tenho me interessado muito pela produção do pessoal mais jovem, como Marcelo Sahea e Amarildo Anzolin, entre outros.

- Qual é o seu papel dentro do Combo de Artes Afins Bananeira-ciência? Quais as principais influências do trabalho do grupo?

Sou uma espécie de faz-tudo. Produzo, componho, canto, toco, faço barulho. Falando sério, o grupo é uma viagem que reúne gente que gosta de estar junto: Chico de Paula, videoartista e músico; Tatu Guerra, VJ e percussionista; Rato, DJ e bailarino. E o grupo está sempre aberto à participação de convidados. As influências vão de free-jazz a afrofuturismo, de spoken word a congada, passando pelo rap, pelo funk e pelas várias facções da música eletrônica e eletroacústica além de Cage, Stockhausen, Godard (que é um compositor magistral, no que diz respeito à organização da paisagem sonora de seus filmes), DJ Spooky, Naná Vasconcelos, dadaísmo, poesia concreta alemã, grupo Ongaku (do Japão) e o escambau. Entre os brasileiros, sem que se trate propriamente de influência, temos muita afinidade com trabalhos como os de Livio Tragtenberg, Wilson Sukorski e Chelpa Ferro – devido, sobretudo, ao uso de objetos sonoro/visuais e à superação da dicotomia entre som e ruído.

- Você acha que o caráter experimental do seu trabalho o restringe a um certo tipo de público e circuito? A sua poesia é para poucos?

De forma alguma. Minha poesia tem chegado a um número bem considerável de pessoas, por razões as mais diversas – dentre elas, a inclusão de dois livros em listas de obras de vestibular. Mas não sou exatamente “popular”, nem quero ser. Minha poesia é “para poucos” se comparada com o público do Affonso Romano, por exemplo. O que faço não é hermético ou elitista. Claro que me interessa desafiar o leitor, tentar desautomatizar sua leitura, desconcertar seus possíveis esquemas classificatórios. Sou um sujeito que anda de ônibus, toma cerveja em copo sujo e, com isso, volta e meia topo com alguém que leu alguma coisa minha, ou que me viu “performando”, e quer conversar a respeito. O saldo tem sido positivo, por enquanto.

- Você tem parcerias com nomes da MPB. No seu trabalho, há uma diferença de peso entre poesia e música? O processo de compor uma música é próximo ao de fazer uma poesia?

Sim, escrevi canções com Gilvan de Oliveira (um ciclo de oito temas para um espetáculo sobre Canudos, apresentado em 1997), com Maurício Tizumba, com Zeca Baleiro e outros. E há as canções que compus individualmente, letra e música, ao violão. Venho daí, da canção popular, ou, para dizer como o maestro Júlio Medaglia, da “música impopular”, trabalhos influenciados por Walter Franco, Itamar Assumpção, Tom Zé. Os processos de composição da poesia e da canção são diferentes, mas ambos bastante complexos – em graus diferenciados. Assim como é complexo escrever um text-sound para ser “performado”. Entre a intenção de fazer algo interessante e o que efetivamente sai há todo um oceano Atlântico...

- Você acha que a música pode ser uma boa maneira de aproximar as pessoas da poesia?

Prefiro pensar que uma e outra podem se completar, como, de resto, sempre aconteceu, até que o livro passasse, nos dois últimos séculos, a ser considerado o “lugar” por excelência da palavra poética. Para mim, a questão não é propriamente “aproximar as pessoas da poesia” (como se ela não fosse algo deste mundo, algo bom e necessário como a água que se bebe, a amizade e o amor, a saúde, mas algo estranho aos humanos). Que a poesia possa vir de onde menos se espera (inclusive dos livros), eis a maior das expectativas que alimento, como poeta e amante da arte verbal.

- O que o mundo contemporâneo de redes a cabo, comunidades virtuais, ferramentas interativas e de uma relação cada vez mais forte entre mídias tem a oferecer as artes?

Para falar só da mais óbvia das vantagens, a possibilidade de fundar novas relações dialógicas, que permitam aos artistas pelo menos tentar um contato mais direto com o público, sem passar por tantos atravessadores, digo, intermediários. O diálogo criativo entre os próprios artistas, que a internet potencializa como nenhum outro meio, é outro benefício digno de registro. Da mesma forma, a possibilidade de lidar com os registros de obras de outras épocas e contextos culturais: podemos ser, como diria o poeta e ensaísta mexicano Octavio Paz, “de todos os tempos sem deixar de ser do instante”. No momento, ando fascinado com as possibilidades abertas, no âmbito da cultura eletrônico-digital, para as poéticas da voz. Por força do meu trabalho como artista, e também da minha atuação como professor, tenho conhecido trabalhos interessantíssimos no campo genericamente definido como arte sonora – e que envolve a sound poetry, as instalações sonoras ou audiovisuais, as radiopeças e muitas coisas mais. Embora calcados na exploração da materialidade do som, são poéticas que levam a novos usos da imagem, do corpo e da palavra. Sinto, sinceramente, que vivemos uma época bastante alentadora, por força até da maior popularização dos programas de geração e processamento de som. Não é à toa que alguém – creio que a cineasta Tata Amaral – usou recentemente, para definir as proezas sônicas do pessoal do rap, o termo “Stockhausen da periferia”... Genial!

- Como fica a arte escrita em uma era dominada pelas imagens?

Tem ficado bem, e ficará ainda melhor, na medida em que um maior número de poetas e escritores passe a se interessar pela apropriação criativa – o que implica competência e sensibilidade intersemiótica – dos meios eletrônicos-digitais. Palavra também é imagem, além de provocar o surgimento de novas imagens. Não há razão para lamentar a crescente perda de prestígio (e não a “morte”, como preferem dizer os “apocalípticos”) do objeto livro. “Tá tudo solto na plataforma do ar/ tá tudo aí/ tá tudo aí”, já cantou o grande Luiz Melodia.

- Você, sendo curador do Festival de Arte Negra de Belo Horizonte, como vê a relação entre os espaços culturais da cidade e os artistas negros?

Desde a primeira edição do FAN, em 1995, os artistas negros de Belo Horizonte têm se posicionado de uma maneira menos tímida diante do mercado. Mas a tônica ainda é a expectativa de que o FAN acolha praticamente tudo o que se faz na cidade, em termos de cultura negra, com uma certa complacência, de olho menos na qualidade da proposta artística e mais na necessidade histórica de reparar as injustiças cometidas contra os negros – artistas ou não. Penso que o FAN já cumpriu sua função, como evento, de tornar nítido para a cidade e o país o problema da secundarização da arte e da cultura de extração africana. O salto agora, a meu ver, deve-se dar no sentido da promoção de intercâmbio com países da África, da “Afro-América” e dessa nova cena que vem se constituindo a olhos vistos na Europa, fruto das novas ondas migratórias.

- Você jogou futebol durante a adolescência e que sonhava em ser jogador de futebol. Você ainda se interessa pelo tema? Acha que pode existir alguma relação entre o futebol brasileiro e a poesia? E o que você pensa sobre a atuação brasileira na Copa do Mundo da Alemanha? Como ficou esse futebol poético?

Continuo a me interessar pelo tema. Como já não jogo, me resta fazer associações entre o futebol e a poesia, o futebol e a arte. Mas é tudo balela. Quem já jogou, sabe bem: nada se compara ao prazer de um drible, ou de um chute de voleio. Não há na poesia nada semelhante, ainda que haja prazeres de outra ordem. O que penso sobre a atuação brasileira na Copa? Vi pedaços de partidas, nenhuma o tempo inteiro. Ou seja, já intuía que ia dar no que deu... O futebol poético? Eu, que aprendia jogar bola imitando Ademir da Guia, tenho algumas boas razões para achar que foi definitivamente substituído pelo futebol prosaico – a pior prosa possível, de auto-ajuda para baixo...

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gM

como "nem quero ser popular"? um amante da arte verbal sem fronteiras? um performer-viajante pelos caminhos de norte a sul? nascido e criado na melhor tradição da canção popular? um craque, parceiro dos melhores de todos os tempos, que vc mesmo apresenta&anuncia? organizador de festivais? criador de uma poesia em busca se aproximar do outro? nada se compara a. está tudo aí, suas palavras mostram uma poesia muito viva. sua imagem é força presente. você já é pop, poeta! no melhor sentido, overmundo.

gM · Maceió, AL 26/10/2006 10:08
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Demetrio Panarotto

Fala Sergio, muito boa a entrevista!!! Ricardo Aleixo esteve em Fpolis, recentemente, participando do Folia das Falas (um evento que reuniu alguns nomes da poesia brasileira), e fez uma apresentação encantadora,

abs

Demetrio Panarotto · Florianópolis, SC 29/10/2006 11:54
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francesco napoli

grande! ricardo aleixo é grande!

francesco napoli · Belo Horizonte, MG 30/3/2008 20:15
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