Poesia em Xilogravura

Tatiani Assunção
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JACK CORREIA · Crato, CE
15/5/2008 · 231 · 22
 

Há tempos, bem antes de ser considerada arte ou pura “poesia expressada em madeira” como diria João Nicodemos*, a xilogravura era usada em antigos povos como meio de comunicação estampada em tecidos. Com o passar dos tempos, esta técnica milenar veio adquirindo formas e expressões novas, revelando o seu lado democrático, popular, ousado e artístico.

Como é sabido a xilogravura chegou ao Brasil por encomenda dos colonizadores portugueses sob forma de folhetos pendurados em cordas, encontrando terreno fértil para expandir-se como Literatura de Cordel no Nordeste Brasileiro, ganhando fortes e diferentes expressões nos trabalhos de diversos artistas contemporâneos, dentre eles, Maércio Lopes.

Artista diversificado, e, ainda anônimo diante da grandiosidade que é o seu trabalho, Maércio Lopes, filho do Cariri, é um exemplo claro da vertente criativa que a xilogravura alcançou em meio às mais variadas temáticas e técnicas de aperfeiçoamento.

Em 1999, ainda como estudante de Letras, ingressou na Academia dos Cordelistas do Crato-CE onde pôde diversificar tanto o seu talento de poeta popular como também a sua habilidade extraordinária como desenhista, conhecendo, enfim, a xilogravura.

Tocado pela magia gigantesca que envolve esta arte, o xilógrafo Maércio Lopes, que em fase de aprendizagem técnica, revelava seu talento nato ainda com linhas grosseiras e sem a minuciosidade que hoje lhe é peculiar, expressava-se apenas por meio das temáticas regionais pelas quais a Literatura de Cordel é mais conhecida no Brasil.

Aos poucos, suas faces artísticas foram se revelando com mais contundência, por meio de um refinamento das linhas delineadas na madeira, com obras inspiradas no famoso desenhista Gustavo Doré, e nos gravadores Pannemaker e Pisan. Era o início – 2004 mais precisamente – da sua marca inconfundível de individualidade, requinte e originalidade artística quando o assunto é xilogravura.

Acima de tudo, o que Maércio faz acontecer na madeira, seja ela umburana, louro ou pau d’arco, não é simplesmente uma imagem gravada, é, antes de tudo, uma obra de arte que “fala por si” até mesmo diante dos olhares mais leigos.

Suas obras são facilmente distinguidas das demais xilogravuras, uma vez que, são imagens que ganham vida mediante linhas e entrelinhas traçadas, devidamente calculadas e que revelam tons e meios-tons (escalas de cinza) raramente vistos em trabalhos de outros artistas do gênero, que tendem a se limitar nas suas antigas formas e temáticas.

Antes com desenhos regionais, depois com desenhos clássicos e bíblicos, Maércio, mesmo com algumas ressalvas, se atreve hoje a seguir o caminho da inovação criando xilogravuras com desenhos psicodélicos, abstratos e surrealistas. “A xilogravura para mim deve ultrapassar a barreira do preconceito de que existe apenas uma forma a ser seguida. Ela, como toda arte, só se engrandece quando indiscriminadamente estende fronteiras” disse ele na última exposição feita de suas obras na oportunidade de inauguração do Espaço Cultural Coletivo Malungo em Crato.

Nas mãos de um artista com tais refinamentos, que ultrapassa barreiras subjetivamente estabelecidas e que para atingir uma perfeição desejada, usa como ferramentas de trabalho instrumentos inusitados como hastes de guarda-chuvas, antenas de rádio e pregos para criar novas texturas, a madeira adquire vida, cabendo a este fazer com que ela se expresse. Em outras palavras, disse Maércio que “a versatilidade da madeira permite ao artista criar variações de corte e utilizações de instrumentos não convencionais para criar infinitas composições e movimentos que resultarão em diferentes texturas, que nas minhas peças, caracterizam-se nos tons de cinza e não apenas em preto e branco como na maioria da xilogravuras”.

Existe uma máxima que diz que “um trabalho criativo é fruto de 10% de inspiração e de 90% de transpiração”. Há quem diga que em se tratando de xilogravura, a madeira tem uma espécie de personalidade, tanta que o resultado final independe da intenção do artista, e que, por fim, toda essa grandeza só se confirma no momento exato da impressão.

O que é incontestável, porém, é que em se tratando da busca pela perfeição artística, a técnica jamais deve andar em sentido contrário ao dom ou talento, que muitas vezes se encontra perdido e jamais resgatado naqueles que não exploram seus potenciais artísticos. O diferencial é a busca, é o interesse, é a sede pelo aprendizado e pela descoberta, além da sensibilidade que é inerente a todo artista!

Em nenhum de todos esses aspectos primordiais a qualquer tipo de arte, Maércio Lopes foge à regra. A perfeição ou aproximação dela nas suas peças é tão nítida, que muitos, pensando que são gravuras feitas com bico-de-pena, se surpreendem ao saber que aquele desenho estampado na folha, é na verdade, o resultado de um trabalho de dias a fio sobre a madeira (matriz) na busca de produzir nela todos os efeitos da imagem desejada.

Este artista, que por trás dos seus óculos e da sua timidez esconde uma imensidão de talento, seriedade e competência, não expressa suas poesias apenas nos versos em seus cordéis. Maércio Lopes expressa poesia também através da imagem... Na figura que “fala” e que nasce através das suas mãos.

=============

Em notas:

Contato com Maercio Lopes:
maerciolopes@hotmail.com
http://www.maerciolopes.zip.net
Telefone: (88) 9962-0754

(*) João Nicodemos: paulista radicado em Crato, é músico, radialista, poeta, xilógrafo e atualmente divulga seu mais recente trabalho "Chorinhos e Afins"

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Hermano Vianna
 

Realmente impressionante o trabalho - "imensidão de talento" é um justo elogio - agradecimentos por apresentar, em detalhes, a xilogravura do Maércio Lopes para o Overmundo!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 15/5/2008 14:37
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Adroaldo Bauer
 

Jack,
Excelente apresentação de um artista nosso que vai além das fronteiras mesmo dele, que o cerne da madeira lhe carrega, que o suporte se faz poema e nos mostra inteira a poesia. Também aproveito para agradecer tua visita em meu postado, que ainda mais agora que a li valorizo e aprecio. És também muito sensível ao nos revelar o artista Maércio, de uma forma bastante objetiva e também apaixonada.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 15/5/2008 16:03
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alcanu
 

Já tinha votado, apenas não apareci, mas , tô prestigiando essa maravilhosa modalidade de arte !
Um beijo, Alcanu

alcanu · São Paulo, SP 15/5/2008 16:09
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Kaika Luiz
 

Querida Jack!
Mas que maravilha você está postando! Sou fã ardoroso do trabalho de Maécio e agora com esse teu texto, fiquei também teu fã rsrssrs
Parabéns pela matéria e saiba que, s depender de mim, seu texto já está é publicado!
Grande beijo e sucesso sempre, cara conterrânea!

Kaika Luiz · Crato, CE 15/5/2008 16:45
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Sinvaline
 

Jack parabens por nos apresentar o trabalho desse grande artista! Com ele mesmo disse: indiscriminadamente estende fronteiras!
Votado
sinvaline

Sinvaline · Uruaçu, GO 15/5/2008 17:13
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Kasinsk
 

Olha,fascinante!Essa imagem remonta-me ao meu próprio passado,quando vivi numa casa de taipa em minha infância... confesso que me emocionei.E é ainda mais impressionante como na mioria das vezes esquecemos nossas origens,como a literatura de cordel,por exemplo.Obrigado por este presente.

Kasinsk · Embu, SP 15/5/2008 20:11
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Andre Pessego
 

Jack,
vou votar depois te falo,
abraço
andre

Andre Pessego · São Paulo, SP 15/5/2008 21:22
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azuirfilho
 

Poesia em Xilogravura
JACK CORREIA · Crato (CE)
Um show de beleza e uma forte divulgação.
Muito bom este Trabalho pela beleza da sua construção como principalmente como oferta de proposta para opção de arte para a juventude desfrutar e viver um sonho ideal.
Gostei Muito.
parabéns pelo Nobre Trabalho .
Abração, Com orgulho virei votar peloo merecimento.

azuirfilho · Campinas, SP 15/5/2008 21:56
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azuirfilho
 

Poesia em Xilogravura
JACK CORREIA · Crato (CE)
O Merecimento já é agora.
Um Trabalho cheio de valor para a nossa gente criar muita Arte.
Valeu
Abração e voto de louvor

azuirfilho · Campinas, SP 15/5/2008 21:58
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Lauro Gueluta
 

MEO DEOS!!!! Com Ó mesmo, de admiração!
Fabulosamente, incrivelmente, espetecularmente maravilhoso! É lindo demais! Expandiu 2000 léguas meus horizontes para a xilogravura. Eu já me aventurei 2 vezes nessa arte popular que acho tão linda e fascinante e simplesmente não tinha idéia de que a madeira podia tomar tais proporções de beleza, vida e movimento. É inacreditável. Louvável. Onde é que Maércio, este artista inigualável, mora mesmo, que preciso visitar seu atelier e conhecer suas outras obras! Psicodelismo em xilogravura! Preciso ver isso...

Fantástico. Jack, meus sinceros agradecimentos por trazer à público esse admirável artista. Parabéns.

Lauro Gueluta · Natal, RN 15/5/2008 22:39
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sandra vi
 

M A R A V I L HO S O

sandra vi · Petrópolis, RJ 16/5/2008 11:39
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jfparanagua
 

Parabéns pela brilhante matéria.
Já votei!!!!

jfparanagua · Salvador, BA 16/5/2008 18:41
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taloverde
 

Interessante o trabalho do Marcércio Lopes. É, para mim, uma pena que este não tenha nos apresentado ainda mais o gestual explorado na obra O Senhor das Nações, pois nesta consiste a ruptura na obsoleta concepção acadêmica da forma em xilogravura e estabelece, anti-retilineamente, uma retina através de um determinado segmento.

Parabéns! Belo trabalho!

Tito Oliveira

taloverde · São Paulo, SP 16/5/2008 18:54
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Saramar
 

Que belíssima colaboração.
Em todos os sentidos,a começar do título, Jack, você ensinou e encantou ao nos mostrar a história deste sublime artista brasileiro.
Sou apaixonada por xilogravuras e, como você demonstrou, as criações de Maércio superam tudo que já vi.
Muito obrigada por nos mostrar esse artista inigualável.

beijos

Saramar · Goiânia, GO 16/5/2008 18:57
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Andre Pessego
 

Eu ia te dizendo pela manhã - tenho verdadeira paixão por retrato em preto e branco. Desenho a ponta de lápis então, é assim uma loucura.
E não tenho dúvida que tudo isto foi sendo cravado exatamente por ninguém mais ninguém menos que as capas dos livretos de cordéis.
Imagino perfeitamente como eram a Princesa da Pedra Fina; a donzela do Pavão Misterioso..........
Tenho lido e visto alguma coisa do Maércio Lopes. Não muito distante na TV diário, em dois ou tres programas no domingo, até umas amostras conduzidas por Geraldo Amâncio.....
Legal.
andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 16/5/2008 20:39
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Poeta Jorge Henrique
 

Parabéns, Jack, pela belíssima apresentação desse trabalho belíssimo do artista Maércio Lopes. Fiquei impressionado com a riqueza de detalhes e com a leveza das gravuras. Realmente é magnífico o trabalho dele.

Poeta Jorge Henrique · Nossa Senhora da Glória, SE 16/5/2008 22:43
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Lu&Arte
 

Maravilhoso o trabalho do Maercio. Obrigada por compartlhar conosco. É impressionante ver o quanto ele foi "beber" em artistas tão fantásticos como Gustavo Doré e também da gravura mais tradicional do Cordel. Muito bom.

Lu&Arte · Porto Alegre, RS 16/5/2008 22:54
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Ludmilla Lacerda
 

Jackkk!!! Adorei sua colaboração! É de grande importância mostrá-la para nosso público!

continue assim! beijos

Ludmilla Lacerda · Crato, CE 18/5/2008 07:48
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Guilherme de Faria
 

Oi Jack
Vim visitar o seu teu trabalho e deparei-me com essa curiosa abordagem meio realista da xilogravura desse autor talentoso. Confesso que gosto mais das xilos de estilo primitivo do cordel nordestino, pela síntese gráfica e plástica na qual me inspirei para as minhas próprias ilustrações dos meus cordéis (vide meu Blog de cordelista). Mas o xilógrafo Maércio é cheio de valor e o seu ensaio sobre a sua arte da xilo é notável e dou a ambos os meus parabéns.

Guilherme de Faria · São Paulo, SP 19/5/2008 15:02
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Gisele Colombo
 

Maravilhoso Jack! Continue escrevendo suas matérias, pois assim como o Maércio, talento não lhe falta. Abcs Gi

Gisele Colombo · Campo Grande, MS 19/5/2008 17:20
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Coletivo Itinerante
 

Felicidade ... essa é a sensação ao ler a tua matéria jack ... nem te conheço mais engrosso o coro dos demais ... Parabêns!

Adoro o trabalho de Maércio ... sou Franklin Lacerda curador da exposição do Maércio no Coletivo Malungo. O Coletivo malungo está localizado numa casinha charmosa e colorida na Rua da Vala em Crato-CE e abriga entre outras coisas a Galeria onde essa exposição está em cartaz.
Deixo aqui o endereço do Coletivo para quem quiser ver de perto essas obras e, quem sabe de quebra conhecer o Maércio.

Coletivo Malungo, Rua Tristão Gonçalves, 567 Centro Crato-CE

Coletivo Itinerante · Crato, CE 27/5/2008 21:27
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Renato de Mattos Motta
 

Impressionante o trabalho de Maércio!
Maravilhoso!
Ele trabalha com madeira de topo, não?

Renato de Mattos Motta · Porto Alegre, RS 21/7/2008 14:08
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