“Triste vida, triste sina, do poeta de latrina”, estava escrito na porta do banheiro público. Posso imaginar o poeta anônimo remoendo sua mágoa naquela posição que nos torna, ricos e pobres, iguais.
Ah, os artistas! Todo mundo quer se expressar, ser reconhecido como indivíduo, um ponto brilhante sobre a triste faixa cinza do anonimato. Esse fenômeno contemporâneo de afirmação individual tem no que se convencionou chamar de “arte” sua principal válvula de escape. Ser “artista” garante uma impunidade além do bem e do mal, além da crítica e do olhar atravessado do transeunte. Ser “artista” é representar algo mesmo que esse algo seja caprichos mesquinhos, mesmo que esse algo seja apenas uma tola vaidade.
O jeito que enxergamos a arte hoje em dia é, historicamente, novo. Está diretamente relacionado à invenção do indivíduo, dos direitos civis, da revolução industrial e, mais próximo do agora, da era digital que nos abre as portas ao estrelato fácil através de sites como o youtube ou o myspace, entre outros. O tronco da idéia de arte para mim é comunicação e representação. O artista representaria o espírito de uma época, aspirações comuns aos seus pares e também seria veicúlo de comunicação desses ideais. Há outras coisas além disso mas nessa discussão me detenho a poucos detalhes, afinal o que você está lendo não pretende ser um texto profundo mas apenas uma reflexão rápida para ser lida através da web.
Por detrás de muitos artistas há um ditador que quer fazer o mundo engolir sua arte, sua expressão mesmo que aquilo nada represente para ninguém mais senão para ele, mesmo que seja só um birra ou, como já disse Roger, uma cisma. – Pronto, cismei que sou artista!!!. Apoiados sobre o fajuto argumento da liberdade – o que é isso? Buñuel diria que é um fantasma – nossos artistas desconhecidos se dizem libertos e portanto merecem veneração do público, dos jornalistas, merecem os olhares de admiração das moças e moços fascinados por aquele homem superior. Ai de ti, abacaxi, se não gostares da obra “livre” e “independente”, ai de ti se não reconheces o contexto sociológico que o inspirou.
Se no mercado de arte contemporânea o jogo passa claramente longe do público, atendendo as necessidades de agentes, críticos donos de galeria e do tal “homem liberto”, no dia-a-dia do artista pobre – de dinheiro, pois sua arte vale mais que qualquer coisa – a parada desanda geral.
Outro dia, um artista de Olinda, num debate sério com profissionais da música, bradava, dedo em riste: “Eu odeio o mainstream, eu não quero ser mainstream”. Para quem não é familiar, o termo mainstream designa a cultura dominante, comercialmente bem sucedida. É o oposto do underground, da cena que não lucra tanto e, às vezes, se diverte mais.
(Será que ele diria o mesmo se Martin Scorsese o convidasse para compor a trilha do seu próximo filme? Ou se os Beastie Boys o convidasse para uma participação no próximo álbum?)
O problema é que na maioria das vezes o artista underground só é underground porque ninguém, exceto ele mesmo e seus dois ou três amigos, o vê com relevância artística. No íntimo seu sonho é passear pela cidade montado no elefante da glória e do triunfo, paparicado por um harém de belas donzelas, o bolso cheio de dinheiro, fruto justo de sua arte.
Desdenhar o bem-sucedido soa como a fábula da raposa e das uvas. Como a raposa não conseguia apanhar um cacho de uvas, dizia que estavam verdes e não prestavam para comer.
Opor sucesso comercial e valor artístico é um erro gravíssimo, obscurantista. Música, como qualquer forma de arte, é expressão séria de humanidade mas também é um produto. Saber vendê-lo e manter-se íntegro é para poucos. Sobram os poetas de latrina.
Oi Dolores, se não me engano você tinha um texto nesse mesmo post antes, não? O que houve para mudar de idéia e postar só esse título? Quem leu o texto enquanto esteve na edição ficou sem entender... E acho uma pena que tenha tirado, pois trazia mais uma reflexão bem interessante. Abraço
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 20/11/2006 13:00Acho que é o primeiro não-texto postado no Overmudo!
Ricardo Sabóia · Fortaleza, CE 20/11/2006 14:37
olha, depois que postei achei o tom ácido demais em relação a outros textos do site
não sei se cairia bem . ..
na dúvida, retirei
helena, vc acha q devo postar?
Oi Dolores. Acho que uma das coisas mais bacanas de postar textos por aqui é que eles nunca acabam no ponto final. A discussão toma rumos novos nos comentários, vez por outra os próprios autores assumem um novo ponto de vista... Enfim, acho válido sim! É meio ácido mesmo, mas que que tem?
E quando li quase comentei que tava impressionada com o fato de que, além de DJ e designer (e de ter um sobrenome de estirpe, hehe) você é um ótimo articulista! Posta aí pra todo mundo entender do que a gente tá falando!
Opa! Voltou o texto. Que bom! Já havia lido antes dessa confusão toda. Tenho uma opinião: acho, sinceramente, que ninguém - seja a pessoa artista de latrina ou artista de grande público - deveria bater no peito para se intitular "artista". Na maioria das vezes, essa autodefinição já carrega em si um ranço tão grande de sentimento de superioridade, como se o ser artista fosse mais capaz de mudar o mundo do que um auxiliar de pedreiro (uma das profissões de Cartola, por exemplo). A arte, a música, o cinema, a literatura etc. devem ser tratados de modo tão prosaico quanto uma ida à padaria.
Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 21/11/2006 13:19Não concordo totalmente com o que você diz, Thiago. Bater no peito e se dizer artista nem sempre é atitude movida a ranço. É como bater no peito e se orgulhar de ser pedreiro, jornalista, advogado, sei lá. Até entendo que você queira dizer que muita gente tem essa atitude com fins de impor uma certa superioridade. Mas aí acho que pode acontecer em qualquer "profissão", não dá para generalizar... O artista deve ser humilde no trato com sua arte, ok, mas isso não faz da sua arte algo "tão prosaico quanto uma ida à padaria". É algo especial, pelo menos tanto quanto o fruto do trabalho do padeiro que sai do forno toda manhã. :)
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 21/11/2006 14:03Bom, eu acho que toda profissão, do artista ao padeiro, do presidente ao padeiro, tem suas epifanias. Mas, de modo geral, elas são apenas uma profissão, fruto de um labor diário, que contém, certamente, momentos profundamente inspirados. De modo geral, a vida é prosaica (aí é uma crença existencial mesmo). Falo de "artista" já partindo do princípio que essa definição traz em si a carga de superioridade que nós dois somos contra. E concordo contigo: arte é tão especial quanto "o fruto do trabalho do padeiro que sai do forno toda manhã". Foi isso que eu quis dizer : )
Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 21/11/2006 14:21Rapaz!!! legal teu texto. Cabeças pensantes em Propriá!!!! muito bom.
Marcelo Uchoa · Aracaju, SE 21/11/2006 21:52
Adorei o texto e a discussão entre o Thiago e a Helena. Concordo piamente com a idéia de que o termo "artista" é comumente utilizado em uma posição de auto-engrandecimento. Talvez até porque a arte nos envaidece, nos dá a falsa impressão de superioridade. Na minha opinião, uma má consequência advinda da indústria do mainstream, que tira o valor de culto inicialmente provocado pela manifestação artística e o substitui por uma espécie de almejamento, de aspiração pessoal mesmo.
Talvez, por isso, ser "artista" hoje é sinônimo (pelo menos ao senso comum) de ter status. Claro que, seguindo a lógica de mercado que permeia as relações do artista e sua obra, é importante que se saiba lidar com a questão de reconhecimento e aceitação. Mas, antes de tudo, deve ser vista como uma forma de expressão pessoal, de auto-conhecimento. Afinal, arte é apenas uma livre representação de tudo o que somos.
Parabéns Dolores! Um ótimo texto gerando ótimas discussões!
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