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Por onde andam os Anjos do Abismo

Reginaldo
Anjos do Abismo: Pio, Beto, Valério e Rogério. Faltou o Charles
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Valério Fiel da Costa · São Paulo, SP
15/12/2006 · 107 · 6
 

Presos dentro de um camarim improvisado, de paredes de madeira, colocado na borda de uma praça rente a armazéns abandonados do cais do porto, um grupo de jovens músicos tenta entender o que acontece quando alguém arremessa uma garrafa de cerveja no telhado, inúmeros outros forçam as portas e as paredes, mais garrafas quebram sobre suas cabeças, o pânico toma conta de todos, uma mulher grávida, esposa de algum roqueiro, começa a chorar, um dos seguranças do show se acocora num canto com os olhos arregalados sem saber o que fazer. Vários instrumentos musicais ali, vários equipamentos caros, coisas alugadas, e lá fora centenas de pessoas na maior batalha campal da história da música paraense.

Nenhum policial a postos naquela madrugada, toda a proteção do festival de bandas de rock tinha sido deixada a cargo de uma agência terceirizada chama “Gang Mexicana”, que, nada mais fez que precipitar o confronto final ao chutar um garoto que tinha acabado de cair desajeitadamente do palco durante o show de uma banda de heavy metal que ora se apresentava. Esse chute tinha sido a gota d’água. Tudo foi quebrado e saqueado: palco, caixas de som, mesa de controle, barraquinhas de alimentos, pessoas, entre outras coisas, num frenesi que durou pelo menos meia hora.

No final havia restado apenas escombros do que poderia ter sido a grande oportunidade do rock paraense projetar-se na cena nacional. Era a terceira vez em dois anos que Belém tinha conseguido organizar o festival de bandas “Rock 24 Horas”, onde nada menos que 24 bandas tocaram durante 24 horas seguidas (e pelo menos uma centena ficava de fora), das 9 da noite até as 9 da noite do dia seguinte. Era abril de 1993, ano em que o Mangue Beat foi descoberto em Recife e que produtores importantes de São Paulo fizeram questão de viajar ao Norte para saber que diabos está acontecendo lá em cima. Em Pernambuco e Belém, todo um movimento de bandas ocupando um espaço expressivo nas cenas locais. Foram lá ver. De Recife colheram um dos mais interessantes acontecimentos da música popular brasileira dos anos 90; de Belém, colheram uma verdadeira lição de barbárie e falta de organização. Demorou muito tempo para que o rock paraense voltasse a aparecer com força na cena local: cerca de 10 anos.

Mas, voltando ao camarim prestes a ser destruído do último Rock 24 Horas, na Praça Kennedy (hoje Praça Waldemar Henrique) encontramos uma das bandas que faziam parte desse movimento acuada, amedrontada e que teve que correr de mãos dadas gritando “somos músicos, somos músicos!” no momento em que uma das paredes foi derrubada e uma turba enfurecida invadiu o aposento. Ninguém dos Anjos do Abismo saiu ferido. Foram arremessados em táxis em fuga, recolheram-se às suas casas e decidiram não mais participar daquele caos que tinha se tornado a cena roqueira paraense. Tanto sacrifício tocando em espaços precários, tomando ônibus lotado, em pé, abraçado ao instrumento para ir ensaiar em Icoaracy (distrito afastado de Belém) com equipamento precário, procurando compor algo que acabou-se por identificar como rock progressivo pelos seus apreciadores.

O s Anjos do Abismo tiveram vida curta. Começaram em Icoaracy nos idos de 1990 como uma das bandas de lá, logo começaram a se apresentar em Belém regularmente e a participar ativamente da cena do rock da capital, tendo participado das três edições do festival Rock 24 Horas e lançado uma música na Rádio Cultura chamada “Black Screen”, cujo formato final (com arranjo de cordas) jamais foi tocado nas rádios paraenses por ter sido produzida no canto do cisne da banda quando ninguém mais tinha vontade de continuar.

Atualmente os Anjos do Abismo continuam, cada um à sua maneira, dedicados à música. O Beto (Hoje Márcio D’Alari), vocalista, violonista e percussionista, atualmente se encontra em Boston tocando com grupos dedicados à música brasileira. Também se formou em musicoterapia e massoterapia; Valério Fiel da Costa, guitarrista e violonista seguiu a carreira acadêmica e dedicou-se à composição, atualmente está em São Paulo fazendo doutorado pela UNICAMP; Rogério Carvalho permaneceu em Belém, continua tocando baixo elétrico e de vez em quando realiza participação em bandas de rock na cidade – teve um filho; Pio Lobato, guitarrista, dedicou-se ao estudo das guitarradas e foi o principal responsável pelo atual resgate desse gênero em Belém. Continua tocando guitarra na banda Cravo Carbono, fez música para cinema e representa o Pará em duas coletâneas de música brasileira patrocinadas pelo Itaú Cultural; Charles Matos, baterista, aperfeiçoou-se como músico de jazz e realiza regularmente trabalhos com diversos músicos em Belém, tendo lançado um livro sobre adaptação de ritmos regionais para um set de bateria.

O baterista Beto Brasil e o guitarrista Helder Avelar (ex "Chama") também passaram pelo Anjos e chegaram a tocar no último show da banda, em 1994, no Teatro Margarida Schiwazzappa em Belém, onde Beto aproveitou a imprensa presente para comentar a perseguição do Grupo Liberal de Comunicação contra o jornalista Lúcio Flávio Pinto. O último vôo dos Anjos do Abismo.


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Jayme Katarro
 

Cara, tempos mágicos, e sons idem. Recordar do Anjos é lembrar de todo aquele movimento que rolou no início dos anos 90. Lembrar de um show no Waldemar Henrique em que quebraram vários discos de estilos indesejáveis para muitos da época. Relembrar de um amanhecer na praça da república com eles tocando numa das edições do rock 24 horas. As bandas de icoaraci tinham um quê de especial e esses anjos (ou demônios?) transmitiam isso de cara num palco com seu psicodelismo um tanto quanto incinvencional pro rock que se fazia na época.

Jayme Katarro · Belém, PA 15/12/2006 13:59
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Valério Fiel da Costa
 

Grande Jayme.

Um dos poucos batalhadores que continuaram produzindo sem interrupções nesses 10 anos de aridez absoluta para o rock paraense. A recompensa está aí com o reconhecimento nacional do Delinquentes e com o renascimento do rock paraense.

Daqui de Sampa muitas notícias boas o tempo inteiro sobre as movimentações dos paraenses. Tenho orgulho de ter sido parte dessa história estranha da música de Belém. Bons e divertidos tempos de clandestinidade tocando no Waldemar Henrique, carregando coisas na cabeça e procurando locais de ensaio.

Diz que mandei um abraço para o Sandrão.

Valério Fiel da Costa · São Paulo, SP 15/12/2006 14:20
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Fábio Cavalcante
 

A barbárie no último rock 24 horas foi, naquele momento, um banho de água fria na empolgação de muitos que faziam a cena do rock paraense de então. Mas se esse "banho frio" foi quase um golpe de morte (e infelizmente não foi), não é sinal de que o movimento não estava maduro o suficiente pra "vingar" como em Recife? Não estou afirmando isso, mas te perguntando, Valério; já que estavas dentro do movimento, e já deves ter pensado nisso.
Parece-me às vezes que ao rock no pará, naquele momento, faltou ultrapassar uma barreira de independência e maturidade, coisa que, uma década depois, o movimento bregueiro na capital (feito também por gente jovem, sem real apoio dos órgãos oficiais de cultura, e com músicos que se espremeram nos ônibus com suas caixas e instrumentos) conseguiu fazer. Acho que já conversamos sobre isso, não?

Parabéns pelo artigo e a foto é ótima (quase não conseguia te reconhecer).

Fábio

Fábio Cavalcante · Santarém, PA 15/12/2006 15:54
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Valério Fiel da Costa
 

Pois é. Bem observado. Não dá para comparar o movimento de bandas de Belém daquela época com o Mangue Beat, que já tinha criado uma cooperativa, tinha um programa de rádio, gírias próprias já difundidas pelos fãs, produtos com a "marca" espalhados por Recife, um site do movimento, etc. Não é à toa que um dos ídolos do movimento era o Malcoln MacLaren: um produtor e não um artista. A procupação com o marketing era algo que fazia parte de tudo aquilo e funcionava muito bem.

Em Belém, isso ainda estava se esboçando em algums tentativas aqui e ali de reunir todo mundo para, por exemplo, reinvidicar da Secult mais espaço e apoio. Isso não vingou, não conseguimos dialogar direito entre nós e acabamos criando pequenos grupinhos, cada um tentando tangencialmente vingar. A aproximação de bandas como Mosaico de Ravena, Álibi de Orfeu, e Violeta Púrpura e mesmo nossa com o Endless e os Falsos Adeptos são exemplos dessa tática.

A verdade é que era um saco de gatos. Um universo que se expandiu rápido demais e acabou-se perdendo o fio da meada. Pomos na mesma sala punks, bluesmen, head-bangers, jazzmen, progressivos, crooners, pops, etc e simplesmente esperamos para ver o que acontecia... não rolou. E dessa falta de nexo surgiu a idéia de que seria melhor cada um tomar conta de sua vida e tenar garantir apoio da instância que na época, po conta do Rock 24 horas, meio que gerenciava a cena: a Secult... e a Secult tinha lá suas prioridades.

resumindo (e Jayme, se tu estiveres ai ainda, veja se estou errado): 1) um movimento que ficou grande demais antes que fosse proposto formalmente; 2) como disse o Caco Ishak aqui no Overmundo, essa "crise de múltipla personalidade" do rock paraense fez com que cada sujeito visse no terapeuta de plantão, a Secult, uma das únicas possibilidades de cura.

Meio caótico, mas acho que foi por aí.

Valério Fiel da Costa · São Paulo, SP 16/12/2006 19:33
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musicaparaense
 

Acabei de me apossar dessa tão rara informação sobre uma das bandas mais cultuadas na Belém fim dos anos 80 e início de 90. Apropriação permitida e creditada que estará no meu blog www.musicaparaense.blogspot.com apareçam por lá!

musicaparaense · Belém, PA 2/9/2009 13:50
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Bruno Rabelo
 

Nessa época o Pio ainda era o "piu-piu".

Bruno Rabelo · Belém, PA 7/6/2010 11:03
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