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Por que eu não compro arroz de Roraima

Arquivo: Conselho Indígena de Roraima
Indígena ferido durante ataque de 5 de maio à Raposa Serra do Sol.
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Thaís Brianezi · Manaus, AM
25/6/2008 · 163 · 16
 

Sinceramente, tenho minhas dúvidas sobre o tão festejado poder transformador dos novos hábitos de consumo frente às práticas selvagens do capitalismo. Embora eu duvide que os consumidores consigam modificar a lógica das empresas (que, ao fim e ao cabo, têm o lucro como objetivo máximo), também não ignoro o papel militante do chamado consumo consciente em nossa sociedade. E é por isso que, apesar de serem os mais baratos, não compro arroz das marcas Faccio, Itikawa ou Acostumado - e espero que você, após ler esse artigo, também não compre!

Não estou, felizmente, sozinha nesta campanha. O poeta Ribamar Bessa, em crônica publicada no “Diário do Amazonas”, jornal de Manaus, já propôs o boicote a todas as marcas de arroz produzidos em Roraima, frutos da invasão da terra indígena Raposa Serra do Sol. Em minha estréia no Overmundo, eu escrevi sobre o programa radiofônico “Vamos Aprender Macuxi”, falado na língua do povo mais numeroso que tradicionalmente habita essa área (ao lado dos Wapichana, Ingarikó, Taurepang e Patamona). A Raposa Serra do Sol está de novo sob os holofotes tendenciosos da mídia nacional, porque sua homologação em área contínua (efetivada em 2005, após 30 anos de luta do Conselho Indígena de Roraima – CIR) está sendo contestada no Supremo Tribunal Federal (STF).

Muita terra para quem, cara pálida?

Nesta sexta-feira (19 de junho), acompanhei na Universidade Federal do Amazonas o debate “Raposa Serra do Sol e o futuro da Amazônia”. Impressionou-me a riqueza de dados da exposição do representante do CIR, Júlio Barbosa, do povo Macuxi, que desmontou um a um os argumentos contra a homologação em área contínua.

Um dos mais freqüentes é de que é “muita terra para pouco índio”. No caso da Raposa, são 1,74 milhão de hectares para 19.025 pessoas, com um crescimento populacional anual de 4% (bem acima da média estadual e nacional). Atualmente, isso representa uma densidade populacional de 1,1 habitante por quilômetro quadrado – que pode parecer baixa para os padrões do Sudeste, mas é quase o triplo da densidade populacional (0,4 hab/Km²) das demais áreas rurais de Roraima. Ou seja, com 7,7% da área total do estado, a terra indígena Raposa Serra do Sol concentra 21,4% de sua população rural (dados do IBGE, de 2007). Claro, pode-se argumentar que, de maneira geral, a população no campo é pequena. Mas, para isso, é preciso se questionar por que ela é reduzida? E a explicação será encontrada no processo êxodo rural ligado à concentração fundiária – na Amazônia, implementado à base de chumbo e grilagem, com a conivência histórica do Estado. A triste ironia é que a opinião pública dificilmente se levanta para reclamar que “é muita terra para pouco latifundiário”.

Quantos cabem no seu todos?

Outro argumento falacioso é o de que a demarcação dos territórios indígenas em áreas de fronteira ameaça a soberania nacional. Sindicatos, movimento estudantil, teatro, literatura, cinema, artes plásticas, muitas já foram as vítimas desse pseudo-nacionalismo militarista. O discurso autoritário, que não reconhece nossa diversidade cultural e étnica (afinal, serão os militares mais brasileiros que os povos indígenas?), de vez em quando volta à tona, em declarações preconceituosas como a do comandante Militar da Amazônia, general Augusto Heleno.

Supostamente fã de Hugo Chavez, o líder dos arrozeiros e prefeito do município de Pacaraima, Paulo César Quartiero, declarou à imprensa que gostaria de ver parte do território de Roraima incorporado à Venezuela. Ele acredita que, com isso, conseguiria manter a posse das suas fazendas localizadas dentro da Raposa Serra do Sol – de onde já deveria ter saído, no máximo, em 15 de abril de 2006, já tendo recebido (depósito em juízo) a indenização correspondente. Por que o Exército e os formadores de opinião não acusam o latifundiário de ser uma ameaça à soberania nacional?

Basta de violência: comece pelo seu prato

Mas talvez a maior ameaça representada pelos arrozeiros de Roraima, mais do que o risco à soberania nacional, seja a destruição do meio ambiente e das pessoas que nele vivem e dele cuidam. As plantações irrigadas de arroz funcionam à base de agrotóxicos, desmatamento, contaminação do solo e das águas. Não por acaso, no mês passado, o Ibama multou Quartiero em R$ 30,6 milhões, por crimes ambientais.

Não por acaso, também, o líder dos arrozeiros foi preso pela Polícia Federal, por se auto-proclamar mandante dos ataques ocorridos contra os indígenas no último dia 5 de maio. Desde 1981, de acordo com dados do CIR, 21 indígenas Macuxi, Wapichana, Ingarikó, Taurepang e Patamona foram assassinados na luta pela demarcação da Raposa Serra do Sol, 103 sofreram atentados e agressões físicas, 10 mulheres foram estupradas. A violência se volta também para os bens materiais das comunidades, com impressionantes dados de construções destruídas e/ou queimadas: 90 casas, 31 retiros comunitários, oito roças, três escolas.

O processo de identificação, demarcação, homologação e registro da terra indígena Raposa Serra do Sol, iniciado formalmente em 1993 (e concluído em 2005), seguiu todas as etapas e atendeu a todas as exigências estabelecidas pela Constituição Federal de 1988. Em agosto próximo, os ministros do STF decidirão se rasgam ou não parte da nossa Carta Magna, no seu aniversário de 20 anos. A nós, reles mortais que temos a proclamada liberdade estabelecida pelo mercado, cabe-nos decidir se queremos ou não ter em nossas mesas o arroz sangrento de Roraima. Comprar produtos das marcas Faccio, Itikawa e Acostumado é ser conivente com o crime.



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JACK CORREIA
 

Thaís, primeiramente, parabéns pelo seu texto cujo tema é de interesse de todo o País e que diz respeito a todos nós brasileiros! Sequer conheço essas marcas de arroz, e, infelizmente, as injustiças sociais e políticas não se refletem somente nesses produtos mencionados. Quanto a nossa CF, ela já é "rasgada" diariamente, tanto pelos "reles mortais" como você diz, como também, por aqueles que têm a missão (como ofício) de garantí-la. Essa questão da demarcação é muito séria e não está recebendo o espaço necessário e merecido para discussão na mídia, nas escolas, nas instituições públicas e privadas, até porque, ela traz todo um contexto histórico passado e atual que a grande maioria da população brasileira desconhece, e, pouco se importa com seu desfecho por achar que não lhe diz respeito. E essa completa ignorância com relação à nossa própria história é o que também gera a famosa frase brasileira: "tudo vira pizza". A questão ambiental é algo que me deixa muito preocupada, e ver pessoas como Marina Silva deixando o Ministério do Meio Ambiente, me deixa pior ainda! Essa "gerra civil" que parece ser reflexo da própria natureza humana, onde desde o início dos tempos em todo o mundo não consegue dividir espaços, o desrespeito às etnias, a ambição, o poder que fala mais alto do que os acordos, e mais do que a própria lei, etc.! Tenha certeza, Thaís, que essa questão da Raposa do Sol não é um desatino político, jurídico, social e moral somente contra os índios. É também contra todos os demais brasileiros! Um abraço.

JACK CORREIA · Crato, CE 22/6/2008 15:03
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Thaís Brianezi
 

Oi, Jack! Concordo com você. Apesar de geograficamente muito distante de grande parte dos brasileiros (que, como você, sequer encontram o arroz Itikawa, Faccio ou Acostumado nas prateleiras dos supermercados que frequentam), a Raposa Serra do Sol diz respeito a todos nós. Obrigada pela leitura atenciosa!

Thaís Brianezi · Manaus, AM 22/6/2008 18:14
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Cristiano Melo
 

Thaís,
Muito pertinente e relevante seu texto. Tive a "felicidade"? de conhecer a área e outras áreas indígenas, especificamente na área Yanomami. tenho amigos que residem em Roraima e alguns sofrem até ameaças... O que me chamou a atenção de imediato foi que no avião, da primeira vez que fui, de Manaus a Boa Vista, um senhor me perguntou o porque do governo enviar dentista para índios se eles não pagam impostos e ele, que paga impostos, deveria ter acesso a dentistas e outros... Tentei em vão passar a informação que para isto ele tem o SUS e que nele ele tem o atendimento revestido do imposto que se arvorou que pagava...Enveredei mais em vão ainda, nesse momento ele nem me ouvia mais, que o "resgate-dívida" que temos para com os povos indígenas é impagável, bem isto porque tentei ficar no censo comum... A revoltante constatação de que "borrifam" aldeias com veneno para agricultura é real e inominável. Ações como esta devem ser tomadas por nós para ontem. Valeu, e que seja leve!
abços
Cristiano

Cristiano Melo · Brasília, DF 23/6/2008 19:18
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ceita almeida
 

Dileta Thaís!
Parabéns pelo seu manisfesto e vou compartilhar tanto a informação quanto a sua campanha!
Nem a propósito, ontem eu vi uma matéria especial do reporter Luiz Carlos Azenha no programa Especiais Cultura - TV Cultura com o título "Luta na Terra de Makunaima", como segue o link abaixo:
http://www.tvcultura.com.br/detalhe.aspx?id=295

"Luta na Terra de Makunaima"
"A Terra Indígena Raposa Serra do Sol é um obstáculo ao desenvolvimento do estado de Roraima? É uma ameaça à soberania nacional? A demarcação desrespeitou o direito de quem nela vive? Apresentado pelo jornalista Luiz Carlos Azenha, o documentário inédito retrata o conflito entre brancos e índios no norte de Roraima: a luta pela terra, o embate entre o progresso impulsionado pela agricultura e a sobrevivência do modo de vida dos povos indígenas".

ceita almeida · Manaus, AM 24/6/2008 14:55
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Thaís Brianezi
 

Oi, Ceíta! Que informação legal! Cristiano: conforme escrevi na mensagem para você: o clima de discórdia entre indígenas e não-indígenas em Roraima, especialmente Boa Vista, é mesmo impressionante.

Thaís Brianezi · Manaus, AM 24/6/2008 16:32
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Yasodara Córdova
 

bacana: também não compro mais as marcas referidas. Parabéns pelo texto! o boicote é uma arma poderosa contra quem se pauta pelo bolso.

Yasodara Córdova · Brasília, DF 24/6/2008 22:24
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Yusseff Abrahim
 

Sensacional, Thaís!!!
Sinceramente, to emocionado. Não me contive em manifestar mesmo para escrever isso neste primeiro momento.
Prometo respirar e fazer minhas considerações.

Yusseff Abrahim · Manaus, AM 24/6/2008 22:36
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Marcos Paulo Carlito
 

Apoiado!

Marcos Paulo Carlito · , PR 25/6/2008 10:31
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businari
 

Criar "ilhas de reserva" para os índios é o mesmo que fazem com macacos no zoológico...Isolá-los da presença humana para que estes últimos sintam-se confortáveis em apreciá-los à distância...Mais uma salva de palmas à imbecilidade humana...Parabéns!

businari · São Vicente, SP 25/6/2008 18:25
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Thaís Brianezi
 

Oi, Businari! Opiniões contrárias são sempre muito bem-vindas (concordo com Nelson Rodrigues, a unanimidade tende a ser burra). Acontece que essas opiniões precisam de embasamento. As terras indígenas não são reservas para espécies em extinção. Os Macuxi, Taurepang, Wapixana, Ingarikó e Patamona que lá vivem não estão isolados - ao contrário, conectam-se nacional e internacionalmente. No próprio estado, o que as "distâncias" citadas por você é o preconceito, não a garantia de posse do território onde eles vivem e produzem.

Thaís Brianezi · Manaus, AM 26/6/2008 11:45
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Rafael D.
 

A questão indígena vem a tona à medida que ações de sustentabilidade e desenvolvimento sustentável vêm ganhando espaços em mídia e sociedade. Efetivando o debate à respeito dos temas ligados a esta ainda icógnita que é nossa Amazônia. Parabéns pelo texto. Abraços

Rafael D. · Belo Horizonte, MG 26/6/2008 15:42
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businari
 

businari · São Vicente, SP 26/6/2008 16:16
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businari
 

Thais, legal a réplica, mas acho que não fiz me entender bem...quando falo sobre ilhas de reserva, refiro-me ao termo que o próprio governador de Roraima inventou ao definir, para uma das repórteres da Globo, no que ele quer que as reservas já homologadas por lei sejam transformadas. Ou seja, ele disse que lutará - e tem a bancada governista da assembléia do estado e da câmara da cidade onde fica a reserva ao seu favor para isso - para garantir que se faça a revisão da demarcação das terras homologadas pelo atual governo. Pois a idéia é permitir o avanço das culturas de arroz, gado e cana, e dando aos índios pequenos círculos de terra espalhados por várias regiões do estado, onde eles poderiam viver em paz...cercados por fábricas, plantações e capangas armados. Se isso não é isolá-los e pulverizá-los, como se chama? Reapropriação de terras indígenas e remanejamento de seus moradores para o avanço da destruição?

Quanto de mata seria necessário para um povo autóctone retirar seu sustento caçando, pescando e plantando? Uma pantera seria capaz de sobreviver de forma natural em um único hectar de terra? Ela morreria de fome, pois não encontraria caça suficiente para alimentar-se...Ou água limpa para banhar-se e beber...Não sou índio, não nasci com o direito imediato e consciente à liberdade...Mas convivi com alguns que moram na Mata Atlântica e já tive longas conversas com pajés ao pé da fogueira, mirando o luminoso cocar de Ceci riscando os céus. Um índio que se diz contra a homologação contínua de suas terras é porque não tem interesse em preservar sua cultura e seus valores, que são seus bens mais preciosos. O isolamento a que me refiro é etnológico. Não tem a ver com tecnologia a serviço da comunicação.

Aqui em São Vicente, uma antiga tribo recebeu o direito de reaver as terras que haviam sido de seus ancestrais, na Praia de Paranapuã...eles construíram sua taba de frente para o mar nesse local, que hoje é território da Marinha Nacional. As autoridades permitiram. Porém, eles são impedidos de pescar, caçar ou arrancar palmito para o próprio sustento, pois a área ainda por cima é uma reserva ecológica. Intocável. Até mesmo para quem nasceu, foi criado ou ouviu histórias sobre ela. No caso, os índios...moral da história? Todo domingo, eles são vistos na maior feira livre da cidade, catando os restos da xepa. E uma vez ao mês, os jornalistas da assessoria de imprensa da prefeitura acompanham a entrega de cestas básicas doadas pelo Fundo Social de Solidariedade do município. E empurram releases goela abaixo dos jornalistas da região, enaltecendo a caridade do governo municipal para com os "pobres índios". Sei que pode soar estranho, mas, para mim, pobre é quem compara índios a macacos não na palavra dita, mas na intenção oculta por trás da ilusão dos gestos...Esse, sim, sofre de uma pobreza imaterial...

Abraços e sucesso!

businari · São Vicente, SP 26/6/2008 16:45
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businari
 

Ceci = Jaci para algumas tribos do litoral paulista.

businari · São Vicente, SP 26/6/2008 16:53
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Thaís Brianezi
 

Oi, Businari! Do jeito que estava, parecia que você concordava com os argumentos do governador de Roraima. Opinião detalhada, concordo com você. É o mesmo dilema das unidades de conservação da Amazônia: se a lógica de produção e consumo, como um todo, não for revista, elas estão condenadas a serem ilhas (que, pelos fenômemos globais de desajuste ecológico, como as famosa mudança climática, desaparecerão). Isso quando não forem (e são, como as terras indígenas) invadidas! Abraços e obrigada pelo debate!

Thaís Brianezi · Manaus, AM 26/6/2008 17:36
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Pedro Rivero
 

Parabéns pelo texto e idéias. Abraços.
Se puder leia meu texto :

http://www.overmundo.com.br/banco/dez

Pedro Rivero · Bélgica , WW 20/3/2009 16:39
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