Quando o Maracanã, depois de nove meses fechado, foi finalmente reinaugurado, a expectativa do torcedor não era apenas de ver os grandes clássicos de volta ao lugar de onde nunca deveriam ter saído. A esperança maior era que os quatro grandes times do Rio também voltassem a seus dias de glória e proporcionassem aos seus torcedores espetáculos que, graças à qualidade em campo, revivessem os tempos em que o futebol carioca era respeitado em todo o Brasil. E o começo foi mesmo bonito: oito gols na vitória do Botafogo sobre o Vasco.
Porém, com o fim da Taça Guanabara, o primeiro turno das disputas no Rio, ficou demonstrado que a derrocada continua. Coisa que todos já estão cansados de saber: foi sintomática a manchete de um matutino no ano passado, anunciando que o futebol carioca fez, em determinada rodada do Brasileirão, as pazes com a derrota. A ironia não foi nada fina. Pois eis o fato: em todo o Brasil pode se perceber um movimento de profissionalização extrema do futebol. Contratações milionárias de jogadores estrangeiros em times paulistas, o reconhecido técnico alemão Lothar Mattheus dirigindo um time do Paraná, os times do Sul finalmente reencontrando seu caminho de volta definitiva ? elite do esporte. E os cariocas?
Perdidos em meio a confusões, salários atrasados e deficiência técnica, os torcedores ficam atônitos. Tanto é assim que Romário, símbolo deste cenário, afirmou com todas as letras que continuaria jogando mesmo já tendo passado dos quarenta porque, segundo ele, o nível do futebol carioca está muito fraco. Mas será que é apenas isto que explica a classificação de apenas um dos grandes, o Botafogo, para as semifinais do primeiro turno do campeonato estadual deste 2006?
Os outros três classificados (América, Americano e Cabofriense) não estão apenas chutando cachorros mortos. É desmerecedor da parte de qualquer um deixar de reconhecer os méritos destes times. E não apenas deles: o caçula da Baixada, o Nova Iguaçu, e o Volta Redonda também vieram bem. O Fogão, inclusive, só não foi desbancado por conta do saldo de gols - porque, no confronto direto com o Volta, foi este que se deu bem.
Ainda há muita resistência em se admitir que o profissionalismo que se espalha pelo resto do país não consegue chegar aos tradicionais times cariocas, com dirigentes decanos e jeitinhos mil de se fazer as coisas. Isso do jeitinho, que leva aos famosos caminhos da Lei de Gérson, já deveria ter sido enterrado faz um tempo. Mas todos, dos clubes à federação, parecem se acomodar e ninguém faz nada. Clube empresa? Nem pensar! E aí cada time fica dependendo do aparecimento de um ídolo, que se torna privilegiado enquanto o resto do plantel fica lá, ralando. A troco de quê, mesmo?
Enquanto isso continuar acontecendo, o Maracanã, coitado, acabará tendo que ser palco para que os torcedores dos grandes cheguem ao desespero. Como na rodada final da Taça Guanabara, na qual o Flu perdeu para o Cabofriense, numa jornada dupla em que o Botafogo também apanhou do velho Ameriquinha. O que já faz alguns torcedores pensarem em coisas tristes. Como um amigo flamenguista que, desolado, disse para mim algo a se pensar: "Do jeito que vai, futebol bom no Rio vai ser que nem a Geral do Maraca: nunca mais".
É triste.
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