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Por que Revolução Farroupilha?

Rosane Scherer
Danúbio no Ateliê em plena produção do mural
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Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS
14/9/2008 · 138 · 11
 

Este é um artigo do artista plástico Danúbio Gonçalves, publicado na edição deste mês do mensário de cultura porto-alegrense Fala Brasil.
Danúbio Gonçalves vai ter um painel público seu inagurado na Semana Farroupilha, em torno do 20 de Setembro na capital gaúcha. Curiosidade: ainda hoje, a capital guarda em sua bandeira brasão com dístico de leal e valerosa (leal ao Império combatido pelos revolucionários farrapos).


Por que Revolução Farroupilha?
por Danúbio Gonçalves

Cinco dias hospitalizado, em repouso pós-cirúrgico, prótese no joelho direito, em retiro, dedico-me a literatura.

O ponto de partida: Livro "Revolução Farroupilha" que recebi do amigo Antonio Augusto Fagundes. Pesquisador renomado, tradicionalista apaixonado, estudioso constante sobre a Vivência pampeana e sua história.

Nesta obra literária mostrando como era o Rio Grande no começo do século XIX, opinando sobre as causas da Revolução Farroupilha. Contribuição informativa ao restrito conhecimento que antes tinha eu sobre esse ciclo histórico, exemplar para nosso Estado e para o Brasil.

Tal informação somada à do deputado e historiador Raul Carrion, autor de várias obras editadas, algumas incisivas sobre fatos escamoteados, mas verídicos, sobre essa valorosa odisséia revolucionária, baseando-se em documentos, cartas, que evidenciam e justificam os combates.

Dei-me conta, a seguir, da quase inexistência dessa temática épica entre nossos artistas plásticos. Conhecidas, anteriormente, apenas aquarelas de gaúcho com cara de gringo..., omitindo a participação da negritude da Revolução (tão numerosa de escravos trabalhadores nas charqueadas e campeiradas!).

O mesmo acontece com outro pintor, político eleito, Guido Mondin em sua coletânea de pinturas acadêmicas de medíocre expressividade.

Ressaltamos, positivamente, o nosso muralista Clébio Sória e o excelente ilustrador João Mottini.

Sendo, ambos competentes desenhistas e profundos conhecedores da morfologia eqüina e dos costumes campeiros.

Antecedidos pelo escultor Antonio Caringi, autor de vários monumentos e do iconográfico "Laçador" e por Vasco Prado com seus cavalos e a dramática série do "Negrinho do Pastoreio".

Atualmente, outro destacado escultor da cavalaria, Caé Braga, defendeu, em entrevista, a recuperação da Memória Histórica Gaúcha, destacando a importância fundamental do cavalo crioulo nos combates farrapos.

Em concordância com João Cabral de Melo Neto: - "Não se pode chegar ao nacional sem ser regional".

Logicamente esta afirmativa é repudiada pelo preconceituoso modismo contemporâneo... Nem se flagrando ainda de que a arte regional, há séculos se distinguiu por sua qualidade estética peculiar, autóctone, gerando com sua primitividade lição, inigualada pela cultura civilizada, em obras raramente alcançadas pela estética moderna.

Confira na antigüidade egípcia faraônica, na japonesa, na chinesa, na inca, na asteca, na africana, na da Polinésia, na da Oceania, este gigantesco patrimônio artístico que supera, nitidamente, certos movimentos de uma limitada vanguarda em crise, fadada ao beco sem saída...

Assumindo posicionamento humanista e estético, nunca divorciado da coletividade e ancestral familiar, sendo trineto de Bento Gonçalves, aderi ao resgate pessoal dessa temática, através de um painel medindo 93,20m quadrados. Pintado sobre 550 lajotas em porcelanato, com tinta azul queimada a 800 graus. Intitulado de "Memorial da Epópéia Riograndense, Missioneira e Farroupilha".

Concebido em cinco módulos seqüentes, a partir da resistência missioneira e guarani, enfrentando o despótico ultimato ibérico em conluio com o império lusitano. SEPÉ TIARAJÚ, GIUSEPPE GARIBALDI, "LANCEIROS NEGROS", BENTO CONÇALVES DA SILVA e heróicos insurrectos farroupilhas, proclamando a República Rio-grandense. Finalmente abafada com armistício acomodado ao governo imperial...

Adotei, neste mural, o parentesco com a tradição bizantina, existente nos belíssimos mosaicos da Catedral de São Marcos em Veneza e de certos afrescos italiano, como também do muralismo mexicano (Diego Rivera principalmente).

Valendo-se da mensagem escrita, títulos e frases, no propósito de facilitar comunicação com o público menos esclarecido. Aproximo o Mural à narração da história em quadrinhos. Contrariando as metáforas sofisticadas e impopulares... Com acessibilidade à multidão transeunte!

Projeto previsto e adaptado ao platô circular da obra em reforma da Estação Trensurb, localizada na Praça Revolução Farroupilha, em frente ao Mercado Público Municipal (no Centro) e que terá iluminação noturna.

Aprovado pelo prefeito José Fogaça, pela Secretaria Municipal de Cultura, pela diretoria do Trensurb, patrocinado pela Companhia Zaffari e tendo a curadoria de Luiz Coronel.

Obra pública monumental, gratificante e somatória à trajetória cultural, didática e artística nesta capital, onde tive acolhimento como cidadão de Porto Alegre, tendo construído minha residência e ateliê, à cerca de meio século no Bairro Petrópolis, gerando maior parte de minha produção gráfica, pictórica, mosaística, duas filhas e neta e netos.

Retornando constantemente a Bagé, onde fundamos o Clube de Gravura junto com Glenio Bianchetti, Glauco Rodrigues e outros artistas plásticos. Reunidos em ateliê coletivo, com adesão assídua e apoio de Pedro Wayne. Debatendo e questionando o rumo da cultura contemporânea universal e regional. Na época direcionada ao abstracionismo, conveniente à manipulação de Nelson Rockefeller na primeira Bienal Paulista, assustado com o exemplo dos muralistas revolucionários mexicanos.

Postura discutida pelos jovens denominados "Novos de Bagé", um tanto atrevida e "surreal", em pleno ambiente ruralista da indústria saladeira das charqueadas do Rio Grande do Sul.

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Claudia Almeida
 

Um abraço Adroaldo dos pampas!
claudinha

Claudia Almeida · Niterói, RJ 13/9/2008 06:46
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Eloy Santos
 

Excelente e oportuno resgate de parte importante da memória gaúcha e nacional.

Eloy Santos · Rio de Janeiro, RJ 13/9/2008 21:15
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Keyser Soze
 

Muito interessante, Adroaldo. Assim como na minha matéria, acima da sua, em que pergunto quantos brasileiros sabem da importância da Batalha do Jenipapo (aliás, se sabem que ela existiu), que consistiu de um brancaleônico batalhão de vaqueiros, lavradores e gente do povo que expulsou do Piauí uma guarnição de elite do exército Português, é fundamental resgatar o papel da gente simples também na Revolução Farroupilha. Voto com louvor.

Keyser Soze · Teresina, PI 13/9/2008 22:00
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Diacui Pataxo
 

Está de parabéns pela obra o sr Danúbio. Passo aqui para lembrar a todos que a solução do Império para resolver os conflitos daquela época foram muitos diferentes, pois os cabanos do Pará, negros, caboclos e índios tiveram triste fim porque protestaram contra a miséria, a fome e as condições insalubres em que viviam; também na Balaiada e a Sabinada as lideranças não tiveram melhor sorte, lembrando que Luís Alves de Lima e Silva, patrono do Exército Nacional teve papel importante na "pacificação " destas outras, como também no acordo com as elites do Rio Grande do Sul, que após dez anos de batalhas saíram premiadas com anistias e outras beness que garantiram o seu status quo. Na história do nosso país as lutas populares, durante muito tempo, foram rechaçadas ao esquecimento ou pequenas notas nos livros de História, a memória de Canudos foi alagada por uma represa, a cabeça de Lampião e Maria Bonita estiveram expostas durante anos no Instituto Nina Rodrigues, em Salvador, conservadas bizarramente em formol para visita pública e disso sou testemunha pois chegou a vê-las; imagino que estavam ali pelo mesmo motivo que os pedaços do corpo esquartejado de Tiradentes foi exposto pelas Minas Gerais... Mas é isso, salve o povo brasileiro, ainda há tempo de se resgatar a memória, a tradição e as lutas populares das classes subasternas no Brasil e parabéns ao artista que, no seu tempo, resgata um retalho dessa colcha Brasil, nos Farrapos.
Aqui em Ilhéus aconteceram dois momentos históricos marcantes que recentemente é que passaram a serem citados nos compêndios: 1 - o genocídio patrocinado por Mem de Sã contra os Tupinambé de Olivença, fato narrado por ele mesmo ao rei de Portugal em carta oficial, onde relata que depois de matá-los mar adentro, mandou que tirassem seus corpos da água e os estendessem um ao lado do outro, do Cururupe (mar de sangue) até Olivença, segundo ele, mais de meia légua de índios mortos estendidos na areia da praia.
2 - a primeira greve de escravos do Brasil, ocorrida no Engenho de Senhora Sant'Ana, quando os escravos conseguiram tomar o engenho por aproximadamente 02 anos e depois fizeram um acordo de paz com os portugueses, que assim que viram os africanos depondo suas armas, traíram-nos.
Em homenagem a todos esses aos quais aqui me reporto, dou meu voto e que vivam Sepé Tiaraju, Galdino, Zumbi e tantos outros verdadeiros heróis e mártires da formação e da construção da nosso história

Diacui Pataxo · Ilhéus, BA 13/9/2008 22:58
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Adroaldo Bauer
 

Diacui,
Inda é controverso e vertentes a um lado e outro confirmam dados com densos estudos que David Canabarro, para assinar a paz com os imperiais, ainda promoveria a Batalha de Porongos, em cuja os Lanceiros Negros, batalhão exímio de cavaleiros audazes haviam sido desarmados na véspera, pelo que foram chacinados pelos imperiais.
A chacina impediu que o fim da guerra civil de 1835-1845 deitasse exemplos de labor livre de negros, que ofereceriam, bravos que haviam sido nas batalhas, no trato da terra e da criação.
Caxias tem mais história para ser acrescentada ao currículo. A Batalha de Porongos , a traição atribuída a Canabarro, exigida a matança dos lanceiros negros como fiel da paz pode ser um trecho dela.

Por exemplo:
André Mello, Especialista em História Contemporânea, é um dos que fundamenta o que escreve:
Engana-se quem pensa que realmente existiu uma democracia racial entre os farrapos. Ao contrário de Artigas (Uruguai), nunca os líderes farroupilhas prometeram liberdade aos escravos que com eles lutaram. Os soldados até poderiam ser negros, mas os oficiais eram todos brancos. A solução (arrumada por Caxias e Canabarro) viria em 14 de novembro de 1844, quando aconteceria o episódio mais lamentável de toda a Revolução Farroupilha: a traição de Porongos, com o massacre dos lanceiros negros. Desarmados um dia antes por ordem de David Canabarro, os negros foram alvo fácil para as tropas do Império sob o comando de Francisco de Abreu, o Moringue. O objetivo havia sido alcançado, isto é, estava eliminado o último foco de resistência à assinatura da paz...
A vinda de imigrantes europeus a partir de 1824 já evidenciava uma nítida tentativa de branqueamento da população.
Essa primeira reforma agrária que tivemos excluiu totalmente os negros.
Por 388 anos o Brasil não teve trabalhadores, mas, sim, escravos. Quando realmente começaremos a reparar esse grande erro histórico?




Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 13/9/2008 23:27
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Adroaldo Bauer
 

Grato, Eloy.
Agradecido, Cláudia.
Bem posto, Soze. Agradeço.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 13/9/2008 23:29
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Cintia Thome
 

BRAVO ADROALDO, RESGATE E ELUCIDA PARTE DA HISTÓRIA E A INFLUÊNCIA DOS ARTISTAS E ARTEIROS...

Cintia Thome · São Paulo, SP 14/9/2008 11:27
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Cintia Thome
 

Danúbio Gonçalves, parabens pela obra, mais que bem escolhido a quem tem o aval de Erico Veríssimo, Jorge Amado, Jacob Klintowitz e Carlos Scliar e um trabalho ímpar.

Cintia Thome · São Paulo, SP 14/9/2008 11:34
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Sérgio Franck
 

Presente!

Sérgio Franck · Belo Horizonte, MG 14/9/2008 19:15
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Alexandre.Brito
 

MUITO BOM!
Adroaldo,
através dos nomes elencados pelo Mestre, destacando outros Mestres (e pupilos), tem-se uma panorâmica da produção pictórica gaúcha sobre a temática da Revolução Farrapa. destaco também este importante testemunho de Danúbio Gonçalves quanto aos "Novos de Bagé", contrapondo-se ao avanço Abstracionista da época. essa bem apanhada lembrança é memória que não deve constar apenas em notas de pé de página.
parabéns. abraço.

Alexandre.Brito · Porto Alegre, RS 27/12/2010 19:51
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Adroaldo Bauer
 

Grato, Alexandre. Ficamos gratos, os que desejam não perder a memória dos que lutaram por iberdade, dos lanceiros falo.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 27/12/2010 20:18
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