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O Rio Tocantins e o porto de Babaçulândia
“A morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade; e por isso, nunca procure saber por quem os sinos dobram, eles dobram por ti”.
Conheço desde muito essa reflexão de John Donne, poeta inglês do século XVI, na verdade um belo verso de suas Meditações XVII que Ernest Hemingway deu destaque em seu livro Por Quem os Sinos Dobram.
Conheço também o seu significado, mas nunca o havia sentido de maneira tão efetiva como agora que estou desenvolvendo pesquisa para um livro sobre a história de uma cidadezinha do Tocantins de nome Babaçulândia.
Essa consciência surgiu a partir do momento das entrevistas com antigos moradores que, com seus depoimentos ajudar-me-iam a recompor, como no trabalho de um artífice em sua colcha de retalhos, a história do lugar.
Houve sim muitos depoimentos ricos e surpreendentes, textos e documentos valiosíssimos, mas ainda assim lá no fundo, bem no fundo do coração, ficou enraizado um sentimento de frustração a despeito do quanto pude resgatar e tenho certeza que será preservado com o livro.
A frustração surgia quando em meio à conversa descontraída com um antigo morador – arqueado pelo peso dos anos e das lutas de uma vida agreste -, ele me dizia sobre alguém que fora importante na história do lugar: “Meu pai falava muito sobre fulano de tal”.
No afã de que tivesse preservado fielmente a memória paterna (sonho de um aprendiz de historiador), eu perguntava ansioso: “E o senhor, sabe da história dele como seu pai sabia?” Os olhos perdidos no horizonte pareciam delatar o desejo de navegar no rio Tocantins que corta a cidade em busca de resgatar a história em águas do passado; mas, ao cabo de duas batidas de remo na água, expressavam antecipadamente o naufrágio e a decepção de não poder colaborar, denunciados em seguida pelos lábios: “Não, isso faz tanto tempo. Eu era pequeno, pouco guardei”.
Sentia-me nessas ocasiões impotente. Era dominado pelo sentimento de ter chegado atrasado e ter deixado retalhos da história se perderem. A riqueza de detalhes pela contemporaneidade, o depoimento fidedigno pela participação na história estavam irremediavelmente perdidos.
O pouco que pudesse transmitir já vinha contaminado pelas falhas do esquecimento, pela miscelânea dos boatos em que os fatos corrompidos se transformaram. Nesse caso é obrigatório cotejar muitos depoimentos em busca de aferir a veracidade dos fatos. Mas muitos deles emergem diminuídos dos recessos da memória de quem conta, sem a riqueza de detalhes de quem o faz em primeira mão.
Em tais momentos compreendia que cada homem que desaparece leva consigo um pouco da história da humanidade. E é quando os sinos tocam por cada um de nós.
tags: Babaçulândia TO cultura-e-sociedade jjleandro babaculandia artigo por-quem-os-sinos-dobram rio-tocantins historia
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Pô cara, no alvo!
Também faço prospecção na memória do povo e sinto a mesma coisa, como se tivesse chegado atrasado.
E o pior é a sensação de impotência frente a tanta riqueza que a gente não sabe como evidenciar, como colocar no foco das prioridades civilizatórias.
Parabéns pela matéria meu amigo, ilustras com propriedade o sentimento dos pesquizadores.
Marcado para voltar.
Abraços
Marcos Paulo Carlito · Coxim (MS) · 13/10/2007 10:06
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Obrigado Marcos,
fico agradecido pelo comentário e por saber que muitas pessoas existem Brasil afora, como vc, preocupado em não deixar a bela história de nossa gente escorrer pelo ralo da vida temporal. Claro está que registrar a memória de um povo é permitir às gerações futuras conhecer, entender e continuar escrevendo a sua história de uma maneira que traga o máximo de felicidade e bem-estar.
abcs
jjLeandro · Araguaína (TO) · 13/10/2007 10:48
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Por nós, não é mesmo?
Marcos Paulo Carlito · Coxim (MS) · 14/10/2007 16:12
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JJ Leandro,
Muito perspicaz teu texto, referindo-se às palavras do inglês John Done, realmente , nós como "pesquisadores" temos essa sensação de ter chegado atrasado no "filme" que teve uma vida mais saborosa. Parabéns JJ. Tenho acompanhado teus textos com admiração. Teu jornalismo tem "alma". abçs.
Cintia Thome · São Paulo (SP) · 14/10/2007 19:21
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Olá Leandro,
É a primeira vez que leio um texto seu. Sou nova por aqui mas, já conheço muita gente que escreve muito bem no Overmundo. Vc pelo jeito faz parte desse grupo.
Muito bom seu texto, sei bem o que é essa sua frustração, pois também pesquiso, meu tema é "identidade negra" e, cada entrevista que fazemos e sentimos a história faltando um pedaço... é como se perdessemos o fio da meada.
Gostei do texto, muito bem escrito. Parabéns!!
Um beijo
ILZE SOARES · Salvador (BA) · 14/10/2007 19:34
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Ah, Leandro!
Você é um encanto mesmo! Um talento, uma sensibilidade, uma alma sem par...
Digo que melhor seria manter o quê é de valor. De qualquer forma, realmente, é preciso “correr” para relatar. E, por mais que se corra sempre fica a certeza de que algo foi irremediavelmente perdido, de que nada pode contornar essa perda.
A dor da perda é enorme, né? Dói em cada parte, em cada veia, em cada poro, em cada milímetro de nós. A frustração de se deparar com isso é muito grande. Nossa... Parece indefinível!
Pior que sabemos que esse processo de perda sempre estará ocorrendo aqui e ali, fazendo ainda mais necessário que se relate com urgência...antes que tudo se desfaça no ar, feito poeira.
Sinto por cada relato que você não pode prestar. Junto ao seu sentimento, fica o sentimento de muita gente. Fica a certeza de que algo das pessoas diretamente envolvidas e também de outras (nas quais me incluo) se vai. Fica a impressão de algo escorre entre os dedos, escapulindo de nós.
De qualquer forma, faço votos de que você, com sua enorme capacidade e grandiosidade, continue prestando o seu trabalho de relato, ofício de que você tão bem se incumbe.
Abçs solidários/"sentidores" do seu sentimento e admiradores de seu talento!
apple · Juiz de Fora (MG) · 14/10/2007 21:37
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Querido jotajota:
Votadíssimo. Parabéns. Eu costumo dizer que o tecido da memória é o mais fino de todos e que me admira a facilidade com que se rompe. Aproveitando o mote, eu ainda não "ouvi" você dizer que não quer participar do livro "Reminiscências da Escola" (nem, infelizmente, que vai participar). Entendo que o livro é uma criação coletiva, de todos no overmundo, mas se for por falta de convite, puxa, convidado ao cubo pode se considerar. Aproveito para renovar os parabéns pelo primoroso e emocionado texto. Gostaria demais de contar com uma contribuição sua no livro.
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho
Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras (PI) · 14/10/2007 22:21
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Pois é Leandro, assim como você, gosto muito de pesquisar, mas tem horas que a gente não sabe mais o que fazer, só sabe que está faltando algo, só não sabe bem o quê, e nem onde econtrar aquilo que a gente não sabe... uma eterna redoma...
Um abraço.
FILIPE MAMEDE · Natal (RN) · 15/10/2007 11:37
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Leandro, lendo seu texto, fiquei imaginando a frustração e a esperança dos historiadores antigos e de suas raras fontes, uma vez que as pessoas morriam sempre tão jovens.
Por outro lado, admiradora sua, penso nesta frustração que você sente por não conseguir alcançar, a tempo, os fazedores de história.
E então, minha admiração cresce porque, apesar de saber que "os sinos dobram por nós", você não desistiu, continua buscando.
Eu o admiro.
beijos
P.S. Lembrando o que Joca disse: falta você nas reminiscências da escola.
Saramar · Goiânia (GO) · 16/10/2007 00:13
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Marcos, Cíntia, Ilze, Apple, Joca, Filipe e Saramar, obrigado amigos por estarem aqui.
Realmente qualquer um que busca levantar as referências históricas fica frustrado quando tem o sentimento de ter chegado atrasado. Mas acho que deve perseverar e tentar o resgate do que for possível.
Joca, o seu convite está aceito. Saramar, obrigado pela sua admiração. Vc sabe também o quanto curto seus poemas!
abcs a todos
jjLeandro · Araguaína (TO) · 16/10/2007 01:50
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Um país sem memória... É o que somos. Já perdemos tantas memórias: arquitetônicas, culturais, folclóricas, históricas, etc. Costumes, tradições, lendas, fotografias... E um pais sem memória é um país sem identidade. Que pena.
Parabéns pela matéria, JJ.!
Abraços,
Nydia
Nydia Bonetti · Campinas (SP) · 16/10/2007 09:29
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Leandro, lendo essa matéria, fico imaginando como será o livro sobre Babaçulãndia...
Estou emocionada, viajei com voce junto aos moradores, senti a dor da falta de cada um....
Parabéns, menino... bravo!
bjs
sinvaline
Sinvaline · Uruaçu (GO) · 16/10/2007 13:18
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Nydia e Sinvaline, obrigado amigas pela presença.
A pesquisa lá me surpreendeu positivamente a despeito do muito que já foi perdido com o passar do tempo que não perdoa os personagens.
abcs
jjLeandro · Araguaína (TO) · 16/10/2007 14:26
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e quantos já não despareceram??
Parabéns!!
Kais Ismail · Porto Alegre (RS) · 16/10/2007 15:25
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Querido Jotajota:
Justamente eu tiraria uma lição diferente, na realidade quase oposta, da que as pessoas, em geral, estão extraindo da sua reflexão: seja qual for o grau de insatisfação com o que é perdido é sempre sobremaneira maior a satisfação de obtida pelo esforço para conservar o que for possível. Assim, eu diria que, longe de ser frustrada, gente, como você, que se dedica a pésquisar a história é demais vencedora.
E olha, meu querido, quando descobri a importância da pesquisa histórica, a partir deste dia tenho procurado deixar quantas mais pistas puder sobre o Joca Oeiras e seu tempo para diminuir ao máximo a frustração dos pesqusadores que, no futuro, venham a pesquisar a minha história. Certamente haverá quem pense que não passo de um pavão pretencioso mas eu nem ligo por que sei que a história é quem me julgará e tanto melhor será este julgamento quanto mais informações puderem ser coletadas a meu respeito.
beijos e abraços.
do Joca Oeiras, o anjo andarilho
Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras (PI) · 16/10/2007 17:06
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Pois é Leandro, ainda mais que a História da Humanidade está esquarteja entre a verdade aceita e louvada; a verdade não aceita e rejeitada (desfeita); a verdade arrumada (a historia oral de fundo cristão) e a história oral verdadeira, (de fundo africano, indigena) refutada, enterrada massacrada pelo cristianismo. Um dia as tuas investidas, quem sabe,
andre.
Andre Pessego · São Paulo (SP) · 16/10/2007 17:07
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Realmente, Joca, quem tem essa visão deixa sim boas pistas para quem depois vai investigar. E quando se topa alguém assim é mt gratificante. Em Goiás, no século XIX houve um presidente da província (era esse o título àquele tempo) que foi assaz criterioso com a história. Ele deixou mt da história num registro intitulado Annaes da província de Goyaz que é referência hoje para quem deseja estudar o estado.
....
Realmente André, são mts histórias que se contam por aí sobre uma só história. O trabalho de quem pesquisa é saber separar o joio do trigo. Isso nem sempre é fácil pq muiats vezes quem tem essa missão coloca mais joio ao trigo e tudo se embaralha ainda mais.
abcs
jjLeandro · Araguaína (TO) · 16/10/2007 17:36
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Olá jjLeandro,
Através deste seu primoroso texto, acabei de conhecer o OVERMUNDO, ficando "dominado pelo sentimento de ter chegado atrasado" .
Parabéns.
carlosgvieira · Rondonópolis (MT) · 16/10/2007 17:48
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Jornalismo é algo que se pode fazer com arte. Você é a prova de que sabe fazer das suas matérias arte. Linda matéria. Adorei e me identifiquei com a matéria.
MaluFreitas · Salvador (BA) · 16/10/2007 20:46
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Que texto lindo Leandro! Fiquei encantada com a tua escrita e sensibilidade, parabéns! Sobre o passado ter ficado pra trás e não tê-lo pordido resgatar, saiba que tu fizeste a tua parte, e que os sinos dobram sim, por ti.
Beijos.
Candice Gonçalves · Crato (CE) · 17/10/2007 01:03
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oi... Seu texto me remete ao filme Narradores de javé, buscar os protagonistas do seu tempo, reunir estórias e história recompor um pouco do passado. Um grande garimpeiro . Abraços
analuizadapenha · Natal (RN) · 19/10/2007 16:41
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Beleza pura caro JJ! A mais pura reflexão. Cada homem é uma alma mandada em missão. Cada homem uma centelha criada e projetada no . Nota mil para Vc.
raphaelreys · Montes Claros (MG) · 23/12/2007 05:29
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