Nove e meia da manhã em ponto o táxi pára na porta do prédio. O nosso destino é o complexo do Alemão, mais precisamente, no Morro do Alemão que originou as 16 comunidades onde vivem 180 mil pessoas, que diariamente são retratadas com medo, chorando e revoltadas, nos jornais e tvs.
Despedi do táxi em frente da favela da Grota. Seu Rodrigues, fotógrafo do Viva Favela, e companheiro de cobertura já me aguardava para irmos até a entrada do Morro do Alemão. O nosso contato na comunidade será Alan Brum Pinheiro, coordenador geral da ONG Raízes em Movimento, que vai me apresentar um lado da comunidade que não costuma sair na mídia.
Nossa primeira parada foi tomar um café na casa da Dona Laudelina Pereira, de 80 anos, que mora há 45 anos na comunidade. A chegada foi meio de surpresa, Laudelina estava vendo a visita do Papa pela televisão,e sua filha Ana Lucia estava se preparando para cozinhar o feijão. No ar, aquele cheiro de alho irresistível.
A família de Dona Laudelina é grande. São 13 filhos, 40 netos e 26 bisnetos, segundo a última contagem. Ela faz questão de ressaltar que nenhum deles se meteu pelo caminho errado e que era bem severa com as crianças:
“Filho meu não saia de casa. Era da escola direto para casa e nem adiantava dizer que se atrasou porque eu sabia quanto tempo levavam até o colégio, por isso eles vinham correndo”, lembra rindo. A história de sua vida remete a muita luta para cuidar dos filhos. Quando jovem trabalhou colhendo café em uma fazenda na cidade de Campos e depois foi dona de bar. “Meu filho, eu peguei muita caixa de cerveja no braço e, por isso, que minhas pernas doem hoje”.
Nos despedimos e seguimos a nossa visita pela comunidade subindo pelas vielas até a casa de Dona Dulcenéia Coelho,71 anos, porta bandeira da velha guarda da Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense. Logo na entrada, já ouvíamos o batuque do samba pelo rádio. Nas paredes, as flâmulas da escola do coração e do Vasco da Gama estão em baixo do altar em homenagem a Nossa Senhora.
Dona Dulce, como prefere ser chamada, é passista de primeira. Não admite ir ao samba sem usar salto alto, aliás, ela vai para qualquer lugar usando saltos de dez, doze centímetros. “Ninguém da minha ala usa salto alto para sambar, apenas eu”, se orgulha. Dulce é muito vaidosa. Quase saiu no meio da entrevista para se arrumar. “Vocês me pegaram desprevenidas, estou toda desarrumada”, disse trazendo sua coleção de saltos. Toda essa classe lhe rendeu uma homenagem pela Associação da Velha Guarda do Rio de Janeiro como a mais elegante das porta-bandeiras.
Enquanto conversávamos com Dona Dulce, relembrando carnavais do passado e de sambas antigos, esquecemos por alguns momentos os problemas do morro, mas a realidade nos chamou de volta através dos fogos de artifícios que alertavam sobre a chegada da polícia na comunidade. O som estava muito próximo e preferimos esperar um pouco mais na casa para descer. O barulho não assusta ou incomoda Dona Dulce, para ela isso já faz parte do seu cotidiano.
Ouvimos alguns disparos que cessaram logo em seguida. Descemos para a entrada da favela para conhecer um pouco do trabalho realizado pelo Posto de Saúde e Prevenção do Morro do Alemão. Na recepção, a auxiliar de enfermagem, Ivete Silva, fazia a triagem da população e nos contou os principais problemas da comunidade. “Vários adultos estão apresentando casos de hipertensão em decorrência da violência e do medo dos confrontos com a policia nos últimos dias. Somente na segunda feira foram aferidas a pressão de 72 pessoas que passaram mal”. Outra doença comum na comunidade, que afeta principalmente as crianças, é a escabiose, ou popularmente conhecida como sarna.
Novamente a entrevista é interrompida pelos foguetes e saímos do posto de saúde para ver o que acontecia. As pessoas estavam nervosas porque avistaram o carro blindado do Bope se preparando para subir um dos acessos do morro. Rajadas de balas distantes e fogos de artifício ecoavam anunciando o início de mais uma incursão da policia nos morros do Complexo.
Tensão no ar. A rua principal que estava cheia, em questões de segundos se esvaziou. A visão do Caveirão tão próximo, marcado pelos tiros e granadas lançados contra ele, é bem diferente do que pela televisão ou jornal. Assusta. O impacto de ver policiais armados numa situação de conflito cria uma sensação de vulnerabilidade e de não saber direito como agir.
Recuamos para a entrada do posto de saúde onde outras pessoas procuravam abrigo. O agente de Saúde Comunitário Marcondes Aguiar, explicava o porquê do medo do Caveirão: “Nunca sabemos a que horas a polícia vai entrar no morro, a qualquer momento podemos ficar presos no meio do tiroteio”.
Trabalhando há três anos como agente de saúde, ele já passou por várias situações semelhantes: “Todo mundo fica tenso, mas a gente se acostuma. Caso contrário, não conseguiríamos mais trabalhar”.
A médica do posto de saúde Regina Bueno também estava preocupada porque seu carro estava na entrada da favela. Alguém falou que o carro blindado quando sobe vai arrastando tudo o que tiver pela frente.
Dentro do posto, a dona de casa Vera Lucia Guimarães, reclamava que o blindado da polícia só passava nos horários escolares: “O Caveirão sempre passa na hora que as crianças saem do colégio,aí é essa confusão”.
Várias pessoas aguardavam a situação lá fora se acalmar para irem para casa ou trabalhar. Algumas riam de nervoso, outras, mais consternadas, aguardavam em silêncio. Seu Rodrigues também é morador do Complexo do Alemão há trinta anos e vivência essa realidade. Perguntei se ele ainda sentia medo. “A minha maior preocupação não é comigo, mas com o meu filho que vai trabalhar e muitas vezes chega tarde. Nessas situações eu sempre penso nele”, disse ele com um olhar distante.
Esperamos o clima acalmar para subirmos até a sede do grupo Raízes em Movimento, onde o Alan Brum trabalha. Na subida, poucas pessoas se arriscavam a sair de casa e quase não se viam crianças. “As pessoas que descem têm algum compromisso médico já marcado ou precisam trabalhar. Do contrário, ninguém sairia de casa hoje”, afirma Alan.
Durante a caminhada, Alan foi me mostrando os grafites nas paredes das casas do projeto Galeria a Céu Aberto que funciona desde 2001. Atualmente, são 52 grafites ao longo da principal rua do morro feitos por profissionais de dentro e fora da comunidade.
Na sede do Grupo Sócio Cultural Raízes em Movimento vemos na parede várias fotos de atividades realizadas através das oficinas de grafites. Segundo Alan, o grupo surgiu da necessidade de trabalhar com a juventude através de arte e educação. O grafite é apenas uma das formas para estimular as pessoas. O objetivo do grupo é trabalhar as potencialidades desses jovens para que eles possam buscar seus próprios caminhos.
“Por que só as crianças e jovens de classe média podem se dar ao luxo de sonhar com um futuro? Por que as crianças que moram nas favelas têm que se contentar em ser apenas pedreiros, garis, pedreiro ou ladrilheiros? Por que esse jovens não podem querer algo mais?”, se questiona.
O espaço está sempre com as portas abertas para jovens. As poucas crianças que brincavam na rua entravam pedindo papel e caneta para desenhar. Durante a entrevista, o telefone do Alan toca três vezes, em todas era um familiar dele preocupado com a nossa segurança, pois o tiroteio estava muito intenso em outra comunidade do Complexo. Na sede, não dava muito para ouvir o barulho dos tiros e a rua estava muito silenciosa.
“Esse silêncio é uma aparente tranqüilidade, a vida na favela acontece nas ruas. Quando as coisas estão assim, é porque os policiais estão na comunidade”, explicou. Meu telefone também tocou, era a Fabiana Oliveira, repórter do site Viva Favela, preocupada com as notícias dos confrontos com os policiais na favela da Grota que ela viu pela televisão.
Esquecemos do tiroteio e continuamos nossa conversa. Na pauta, como os jovens e crianças se divertem na favela. Quem imagina que a única forma de diversão da comunidade é o funk, está enganado. Para a criançada, pique-esconde, bola de gude, pipa e polícia e ladrão, mas com uma pequena diferença: ninguém quer ser a polícia. Para os adultos, campeonato de sinuca, carteado e, como não poderia deixar de faltar, o campeonato de futebol que acontece ininterruptamente há 30 anos. Todos os domingos durante quatro meses, diversas equipes disputam esse tradicional campeonato da região. Existem mais de 15 times, alguns têm por volta de 20 anos de fundação, como Fla-trem, Estrela e Tormento. O torneio é tão organizado que os juízes das partidas são pagos e os vencedores ganham prêmio em caixas de cervejas.
Agora são 16h e estamos saindo da sede do grupo. Pergunto se podemos continuar subindo, mas Alan nos informa que está perigoso e que poderíamos ficar no meio do fogo cruzado. A nossa única alternativa é descer.
No caminho de volta paramos no bar do Seu Laerte Pereira, de 58 anos, para beber alguma coisa. O bar funciona quase que 24 horas, pois abre as portas na parte da manhã e vai até altas horas da madrugada. Quem ajuda a tomar conta do lugar é a sua esposa Maria Lucia, de 44 anos, que estava na cozinha preparando o mocotó que seria servido no dia seguinte. Um dos sucessos de venda que custa um real o copo e três a tigela. O segredo eles não contam, mas o toque especial está no tempero. No fim de semana, o dia de maior movimento é domingo quando acontece o torneio de sinuca.
Dentro desse bate-papo descontraído eu pergunto se as imagens que as pessoas vêem na imprensa do Complexo do Alemão retratam toda a realidade deles. “Muitas vezes o que você vê na tv ou lê no jornal não corresponde ao que está acontecendo aqui. Existem coisas boas que só nós ficamos sabendo”, lamenta.
Nosso tempo está esgotando. Nos despedimos do Seu Laerte e continuamos a descer o morro. Já não ouvíamos mais tiros, mas o clima não estava tranqüilo. No meio do caminho encontramos um dos grafiteiros do projeto, Thiago “Tosh” Pereira da Silva que estava indo para a sede do grupo. Thiago avisou que lá em baixo já estava melhor, mas as coisas mudam muito depressa e preferimos não arriscar.
Nós três nos despedimos na entrada do morro. O Caveirão continuava circulando pelas ruas, mas agora tinham vários repórteres no local. Amanhã, uma outra história seria escrita.
Que fôlego Rodrigo! Gostei da narrativa. Em alguns momentos me pareceu Cabeça de Porco (Mv Bill, Celso Athaíde). Realmente, existem coisas e pessoas muito boas vivendo pelos morros da vida.
Um abraço.
Ah, uma fotografia ilustraria bem o seu texto hein...
FILIPE MAMEDE · Natal, RN 23/8/2007 08:50
Oi Felipe, obrigado pelo comentário. As fotos estão no link do Viva Favela.
Rodrigo Nogueira · Rio de Janeiro, RJ 23/8/2007 15:51
Olá, Rodrigo.
Fez um excelente trabalho. É uma matéria das melhores, com um texto impecável. Meus parabéns e meu voto. Prossiga!
Abraço do,
Baduh
Vida que segue... ótimo texto!
C.E.P · Rio de Janeiro, RJ 25/8/2007 02:03
Rodrigo, legal, boa iniciativa, ótimo texto; bem dozado, e de tudo um pouco.
Fico com a expressão, a experiência o passado, os cuidados de Dona Laudelina,
um abraço, andre
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