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Pornografia antes da pizza

Divulgação
Fernanda Torres assiste ao espetáculo de mil pessoas ruborizadas.
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Maurício Alcântara · São Paulo, SP
2/4/2007 · 100 · 5
 

Em uma noite qualquer de janeiro, ao final dos merecidos aplausos pelo espetáculo O Avarento, Paulo Autran pedia um segundo a mais da atenção da platéia para recomendar A Casa dos Budas Ditosos, monólogo interpretado por Fernanda Torres e que dividia o mesmo palco do Teatro Cultura Artística com seu espetáculo.

Muito mais do que política de boa vizinhança, o ator indicava uma das obras mais libertárias dos últimos tempos. Adaptada do livro homônimo de João Ubaldo Ribeiro, a peça conta a vida sexual de uma mulher de 68 anos que viveu sua vida inteira em função do prazer, sem pudor algum.

Ao sair da sala, ouvi um casal saindo e comentando sobre este espetáculo: “Fulano assistiu essa peça que ele indicou, e disse que é pornô.”

Imediatamente comecei a rir. Como pode um espetáculo ser "pornô" se a protagonista fica as duas horas da peça sozinha, sentada em uma cadeira, mostrando apenas as pernas do joelho para baixo? Intrigado, pesquisei a definição para pornográfico no Houaiss e concluí: se for no sentido de "explorar o sexo tratado de maneira chula", definitivamente a peça não tem nada de pornô. Agora, se interpretarmos como uma peça "que demonstra, descreve ou evoca luxúria ou libidinagem", aí sim, é deliciosamente pornográfica, no sentido menos pejorativo possível da palavra.

Considerando que o texto é considerado bastante avançado até mesmo para pessoas que se acham com mente mais aberta, fiquei imaginando o quanto os relatos daquela senhora baiana não soariam como um escândalo agressivo aos ouvidos da classe média-alta paulistana que vai ao Cultura Artística para pagar dez reais numa taça de espumante nacional.

Suas histórias seriam suficientes para que muita gente se levantasse da poltrona logo nos primeiros vinte minutos, mas não é exatamente isso o que acontece, ou esta terceira temporada na cidade não teria sido prorrogada até agora. E jamais estaria naquele palco elitista. O fato é que Fernanda Torres se entrega de uma forma tão intensa à personagem, conferindo-lhe um senso de humor e uma presença de palco tão impressionantes, que a platéia fica cativada do início ao fim, hipnotizada pelo relato daquela libertina fantástica.

A primeira vez que vi assisti a esta peça foi em sua primeira temporada, no pequeno e intimista teatro do Centro Cultural Banco do Brasil (onde paguei menos de dez reais pelo ingresso, vale frisar). Já no teatrão chique de mais de mil lugares no meio dos puteiros da Nestor Pestana, o espetáculo continua excelente e a transposição do relato para o formato de uma palestra funciona ainda melhor.

Assistindo pela segunda vez nesta temporada, percebi que aconteciam dois espetáculos em paralelo, um de frente para o outro: a atriz e seu monólogo, e do outro lado as reações de uma verdadeira horda de velhinhas chiques e cintilantes, ostentando jóias aparentes, todas maquiadas e perfumadas como se fossem a um baile. Em meio a elas, vários casais de classe média em geral mais velhos, todos igualmente bem-vestidos e reagiam da mesma maneira, apesar da ausência dos paetês, lantejoulas e maquiagens pesadas.

Com certeza muitos estavam ali por ser um sucesso de bilheteria com uma atriz da Rede Globo em cartaz. E isso não basta quando o espetáculo não é comédia, mas felizmente a peça em questão preenche todos os requisitos básicos do grande público de teatro comercial.

Ingressos destacados, poltronas aquecidas com as respectivas bundas, e entra a personagem no palco. Todos começam a se deliciar com as histórias extremanente bem-humoradas de sua primeira relação sexual, seu desvirginamento e as dezenas de peripécias que aprendeu com sua melhor amiga Norma Lúcia (que by the way será interpretada por Hebe Camargo na versão do texto para o cinema, e isso é sempre importante ressaltar).

As reações são positivas e aparentemente liberais, até que ela começa a falar de incesto. Primeiro vem o tio e a platéia estranha, apesar de ainda se divertir - chegando a aplaudir em cena aberta a versão sacana que ela cantarola para Eine Kleine Nachtmusik de Mozart. E então vêm as relações sexuais com o irmão e o teatro mergulha no mais absoluto silêncio que paira por aproximadamente uns dez minutos. Se as luzes se acendessem, como acontecia na temporada do CCBB, a atriz se divertiria com uma platéia de mil pessoas ruborizadas.

Como toda tortura tem seu fim, o momento tenso passa e ela volta a assuntos mais amenos, trazendo todos de volta para suas zonas de conforto. Entre uma gargalhada e outra, ela solta alguma como “(...) porque toda mulher já deu o cu (...)”, e a platéia pudica reage com silêncios ou risadinhas abafadas e incômodas.

Essas alfinetadas são constantes, e são feitas com a rara sensibilidade de provocar (e muito!) sem necessariamente agredir as pessoas que, queiram ou não, são forçadas a encarar diversos tabus extremamente fortes em nossa sociedade, como monogamia, heterossexualidade, castidade, incesto...

Depois de tanto libertarismo, depois dos aplausos e no caminho até a saída do teatro, fica a cargo de cada pessoa se questionará seus próprios bloqueios ou se vai simplesmente engavetar aquela peça junto com todas as outras porcarias que viu, inclusive ali naquele mesmo palco, e partir para a pizzaria mais próxima logo em seguida. Mas independente desta escolha, a arte já terá cumprido o seu papel com grande sucesso: provocar. Neste caso, de forma primorosa, com humor e muita elegância.

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Thiago Camelo
 

Olá Mau! Tenho acompanhado com muito entusiasmo suas colaborações sobre teatro!! Um tema ainda com muito pouco destaque tanto no Overmundo quanto em outros veículos. Uma coisa boba: a última palavra do seu texto é "elegência". Não seria "elegância"? Abraços e parabéns!

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 30/3/2007 13:07
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Maurício Alcântara
 

Thiago, valeu pelo toque! Era "elegância" mesmo.
Abraços e valeu!!

Maurício Alcântara · São Paulo, SP 30/3/2007 14:07
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Clotilde Tavares
 

Como já fiquei muitas vezes em cima do palco - atuando - achei curiosa essa coisa dos dois espetáculos frente a frente: o púbico assistndo a atriz e a atriz "assistindo" o público. Seu texto também se detém sobre o papel provocativo do teatro, que é um aspecto pouco abordado no que leio aqui e em outros lugares, onde a maioria dos artigos dá destaque à descrição do "processo" de construção do espetáculo, etc. Nada contra. Mas gosto de ler sobre teatro quando se comenta o papel dessa arte em balançar estruturas, em fazer pensar, em mexer com valores cristalizados. Como diz Shakespeare, na fala imortal de Hamlet no final do segundo ato: "É com a peça que atingirei a consciência do rei."

Clotilde Tavares · João Pessoa, PB 1/4/2007 09:19
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Felipe_CiaMínima
 

ai, preciso ver essa peça! linda crítica!

Felipe_CiaMínima · Santa Maria, RS 11/4/2007 12:56
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Alex Costa Lopes
 

Eu li a obra, e é... digamos assim, excitante... mas tambem muito engraçada.
Agora imagina a peça...
Adoraria poder assistir.

Alex Costa Lopes · Cuiabá, MT 24/4/2007 23:17
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