Porta-voz da cultura popular

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noitesdecabiria · Florianópolis, SC
16/11/2008 · 136 · 3
 

Imaginário e cotidiano permearam a obra de Franklin Cascaes, que este ano completa o centenário de nascimento
Cascaes retratou por meio da escrita, desenho, escultura e artesanato a Ilha de Santa Catarina, com uma percepção apaixonada e sensível, capaz de captar, absorver e interpretar o que estava diante dos olhos e o que lhe chegava aos ouvidos. A vida do folclorista se confunde com a própria cultura das comunidades litorâneas catarinenses.

Desde criança circulava nos engenhos de farinha, ouvia histórias dos pescadores e confeccionava utilitários, como balaios e louças de barro. Foi descoberto pelo professor Cid Rocha Amaral, diretor da Escola de Aprendizes e Artífices de SC, aos 21 anos, esculpindo na Praia de Itaguaçu. Os primeiros registros artísticos de Cascaes são de 1946, quando tinha 38 anos.

O saber fazer, procissões, pesca, lavoura, causos, folguedo, cantorias noturnas, religiosidade, brincadeiras, lendas, literatura oral, enfim, todo o fabulário popular da Ilha fez parte do seu dia-a-dia e tornou-se objeto de pesquisa e estudo para o artista. Seus cadernos de anotação eram diários de campo, onde coletava desde receitas até crenças e rezas populares, subvertendo os modelos acadêmicos de pesquisa.

Diferentes aspectos da vida cotidiana do imigrante e seus descendentes, suas formas de organização social, subsistência, natureza e imaginário foram registrados. Cascaes queria divulgar a cultura açoriana para as próximas gerações e, principalmente, para seus próprios protagonistas, chamados de "colonos anfíbios", por lidar com terra e mar.

O calendário cultural da cidade e o caráter religioso das manifestações populares criavam um universo de sincretismo onde sagrado e profano conviviam. Tanto as festas de padroeiros quanto as rezas bravas para afastar bruxas interessavam o folclorista. As histórias dos seres fantásticos presentes no folclore catarinense, como bruxas, lobisomens, vampiros e assombrações, resultaram no realismo fantástico ilhéu. Logo, Florianópolis passou a ser conhecida como Ilha de Cascaes, da magia ou das bruxas.

Todo o imaginário bruxólico da literatura, música, arte e vida foi criado ou reproduzido por Cascaes, que sempre esteve atento ao resgate da linguagem do povo, usando as mesmas expressões e falas.

- Cascaes abstraiu e interpretou de forma muito singular o imaginário local, reforçando seu olhar sensível em traços fortes, expandindo seu gesto e explorando as potencialidades e possibilidades deste mesmo imaginário. Sendo assim, promoveu uma leitura muito própria, por exemplo, do que seria a bruxa, agora vista como o progresso e a especulação imobiliária, pisando com suas grandes botas em cima das comunidades e de suas tradições, sem dó nem piedade - completa a professora Aglair Maria Bernardo.

"Seu Francolino", como era carinhosamente chamado, passava temporadas imerso em comunidades de pescadores e agricultores ouvindo estórias, com um interesse quase antropológico em desvendar a identidade daquela cultura. Depois de muitas anotações e desenhos em nanquim, organizava uma exposição com o que havia produzido sobre o cotidiano da comunidade, devolvendo para aquele espaço o que foi com ele compartilhado.

- Franklin Cascaes é um fenômeno até hoje incompreendido. Ele registrou o folclore vivaz e a alma da nossa gente. Tinha uma fala intensa com os trabalhadores e conhecia o calendário cultural das comunidades, onde tudo era feito com muita fé e alegria, cantorias e comilança. Foi criado nesse meio. Era também um portador dessa cultura - comenta Gelci José Coelho, o Peninha, ex-diretor do Museu da Universidade Federal de Santa Catarina(UFSC) e maior pesquisador da vida e obra do artista.

Personagens do cenário insular, do manezinho às figuras políticas, foram moldados em argila. Pequenas esculturas de bruxas, reproduziam as descrições dos antigos moradores do interior. Essas histórias, causos e conhecimentos, que eram repassados de boca a boca, transformavam-se em arte.

O olhar atento de Cascaes teve uma importância política fundamental. O artista dedicou a vida para registrar as lendas e histórias, pressentindo, angustiado, a perda dos traços culturais das comunidades com os ventos da modernidade.

Visão crítica sobre o futuro


Quando ninguém falava de ecologia, Franklin Cascaes já tinha um discurso crítico, alertando para as conseqüências da modernização.

A partir de 1950, época em que a sociedade florianopolitana almejava a modernidade do Rio e de São Paulo, Cascaes agiu na contramão da história. Além de resgatar as tradições seculares, estava atento às questões ambientais, que começavam a ser suplantadas com o "desmonte" da cidade.

- Enquanto as elites locais se deslumbravam com as mudanças que estavam chegando porque eram sinônimos de progresso, Cascaes as pensava de modo crítico, antecipando uma leitura de cunho ecológico, pois observava o impacto da especulação imobiliária não apenas na vida cultural local, mas também no meio ambiente - comenta a professora Aglair Maria Bernardo, na palestra proferida no Museu do Mar em comemoração ao centenário do artista.

Em um dos seus manuscritos, Cascaes afirma: "O progresso, senhor mui poderoso e soberano terráqueo, mandará tudo destruir sem técnica, dó, nem piedade, como já o fizeram os homens lá das outras bandas da Terra, das Oropas. Infelizmente, não fui mau profeta como teria desejado sê-lo".

Cascaes denunciava as agressões ao meio ambiente em suas poesias, esculturas, desenhos e manuscritos, na ânsia pela preservação do patrimônio histórico e natural da cidade. Foi um visionário, por isso seu discurso permanece tão atual.

- A obra de Cascaes é uma referência para todos que reconhecem a singularidade do nosso lugar. Não é possível fazer uma ponte com o local sem beber na fonte de Cascaes, o maior pesquisador da cultura popular do Litoral de SC - afirmou a produtora cultural e jornalista Isabel Orofino, que preside a Associação dos Amigos do Museu Universitário.

Qualquer leitura sobre as comunidades litorâneas passam necessariamente pela produção de Cascaes, que cantou a sua aldeia e foi universal, fundindo o passado da cultura ilhoa com reflexões sobre o presente. (A.M.)

Matéria publicada no Diário Catarinense, 16 de outubro de 2008

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Stella Tuttolomondo
 

Votado!

Stella Tuttolomondo · Rio de Janeiro, RJ 14/11/2008 21:04
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Jorge Daher
 

Votei, da uma olhada no meu também.. obrigado

Jorge Daher · Ribeirão Preto, SP 16/11/2008 02:29
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José Cycero
 

Gostei por isso Votei,

José Cycero · Aurora, CE 16/11/2008 11:29
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