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Porto Alegre, o túmulo da cultura

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16 · Porto Alegre, RS
13/4/2008 · 58 · 2
 

Ae galera, texto bastante oportuno retirado do Blog do Cafifo (cafiforibeiro.blogspot.com)!!

Salve!

Porto Alegre, o túmulo da cultura



Não sei quem, nem quando, mas alguma vez alguém disse

- Porto Alegre é a capital da cultura no Brasil!

Talvez quem inventou esse mito seja um daqueles bairristas típicos das nossas pagas, daqueles que dizem que as mulheres daqui são as mais belas (talvez pela alta incidência de arianas e misses-em-potencial por aqui).

Quem sabe o cara que inventou essa baboseira toda de capital cultural é o mesmo que espalhou por aí que o nosso futebol é o mais raçudo, representando bem os anseios do homem-macho daqui, ou quem sabe - como eu ia me esquecer!? – o boato foi espalhado pelas figuras aos montes que afirmam ter ouvido por aí que o nosso pôr-do-sol é – comprovadamente – o mais bonito do Bras... ops, do mundo!!

Sobre as mulheres, o futebol e o pôr-do-sol, bem, passo a bola, ainda que tenha uma afeição pelos três assuntos (especialmente o pôr-do-sol!!!)!

O que segue é um pequeno relato que, bem sei, representará muito bem a muitos guerreiros da mastigada classe artística da cidade.

Aniversário:

No dia 29 de março, comemorando o aniversário burocrático de Porto Alegre, a prefeitura organizou (organizou não é a melhor palavra)///

No dia 29 de março, comemorando o aniversário burocrático de Porto Alegre, a prefeitura ajuntou algumas atrações para shows e apresentações na cidade, num lance à altura da nossa tradição de povos-artisticamente-esclarecidos.

O nome do projeto seria 24h de Cultura, e teria apresentações em diversas praças da cidade, cada uma em um horário diferente. A idéia era que, a pé, o público conseguisse acompanhar, se quisesse, todas as atrações do projeto, com um tempo de folga pra perambular de praça em praça e curtir as atrações.

Vou aqui narrar um desses eventos, acontecido na Usina do Gasômetro. Na divulgação, constava três apresentações no pátio da Usina, a partir das 16h: grupo Bom Partido, Bandinha Di Da Dó e a Balzacs, representando bem a diversidade de sons que se fazem na cidade.

Pequeno detalhe: no mesmo horário a Secretaria da Cultura de Porto Alegre inventou um show na prainha do Gasômetro com outras três atrações, Rosa Tattoada, Alemão Ronaldo e Cachorro Grande. Um palco a 50m do outro. Céu aberto. Não precisa ser um exxxpert em sonorização e eventos pra prever alguma confusão nisso.

Testemunho:


Ao chegar no local, reparei que os envolvidos na produção da Usina estavam mais nervosos que o habitual: temiam que o show da prainha com artistas midiáticos tirasse o público das bandas que iriam tocar ali no pátio, no evento original promovido antes pela Usina do Gasômetro.

Pra completar, a Secretaria da Cultura se ofereceu, dias antes, pra ficar responsável pela sonorização de ambos os shows, pois o som da Descentralização da Cultura, previsto para o show pátio, chegaria de outro evento muito em cima para a função.

Só que o pessoal da Secretaria da Cultura resolveu economizar e trouxe o pior som que encontraram, e ainda por cima acharam que não seria necessário contratar um técnico de som, uma coisa supérflua dessas, uma frescura. Sem nenhum técnico, os manos que trabalhavam na empresa se viravam entre carregar os equipos, arrumar microfones, ajeitar o som, retorno, p.a.

As pombas pararam de revoar, talvez anunciando o que viria a seguir.

Shows:


Na hora soube que o grupo de samba não tocaria, e no lugar entraria a banda Taxi Driver. Trouxeram a bateria – pois é! – e um ampli de guitarra, coisas que originalmente viriam com o kit de sonorização. 16h e pouco começa a apresentação... Quer dizer, os músicos gostariam de ter começado a apresentação, mas o som estava tão, tão ruim que o show foi resumido numa passagem de som valendo – o pesadelo de qualquer músico.

Foi a vez da Bandinha Di Da Dó, subindo apressada no palco – o show do palcão estava prestes a começar, e ninguém sabia o que ia acontecer depois. O som foi se ajeitando um pouco e a banda mandou ver, para um ótimo público que vinha se formando – sim, público se formando pra ouvir música autoral em Porto Alegre! – coisa rara! O show acabou e o público pediu bis, animado. Os produtores até esboçaram algum sorriso, enquanto ás 17h e pico no outro palco começou o show da Cachorro Grande, anteriormente previsto pras 19h.

A Balzacs, que tinha show divulgado pras 18h subiu no palco ali pelas 17h20 (divulgação? pra quê?), tranqüila, pois contrariando toda a expectativa, o som do palcão mal dava pra se ouvir do palquinho.

(Depois fui sacar: a sonorização do palcão também não era lá bicho, e o palcão não era tão ão assim: 6m x 8m, bom demais para a maioria dos mastigados músicos de Porto Alegre, mas pouco para a estrutura prometida às bandas de lá, com as três baterias amontoadas no palcãozinho.)

Outra surpresa: Nem o fato da Balzacs ter começado seu show 10 minutos depois que a Cachorro Grande foi problemático no quesito público. O show começou e foi re-juntando gente, mas o pior estava por vir.

Acústico Alicate.

Lá pela quinta música da Balzacs, o público já tava animado dançando e cantando. O som tava mene-mene, mas para uma sonorização sem técnico de som, tava mais que bom. Mas enquanto os músicos da banda faziam uma rápida troca de instrumentos, notou-se que o som estava desligado. – Hey, o microfone tá desligado, liga aí. Os dois rapazes da sonorização estavam constrangidos, batendo cabeça, mal olhavam pros músicos:

– Fala com ele ali, ele que desligou a tomada.

Sim, atrás do palco, estilo vilão de desenho animado, um sujeito truculento desligava o som da energia. O pior foi o método: depois de tentarem cortar o cabo de dentro da Usina com um alicate (!) o motorista do caminhão (!!) da empresa de dessonorização estava cansado e resolveu fazer mais simples: desligar o som da tomada. A banda ainda reclamou, os produtores xingaram a mãe do motorista mas... peraí! Que que o motorista tem a ver com isso? Cadê os responsáveis pela empresa de sonorização (Antena 2)? Cadê o pessoal da secretaria?

Um produtor da Usina ordenou que o som fosse religado, guardas municipais foram intervir – um caos. Mas a Secretaria já tinha dado a bolada nas costas dos artistas e do pessoal da Usina: pagaram os caras até às 17h e já era 18h passadas. E o público ali, assistindo ao fiasco da prefeitura. Pra sorte de todos a Balzacs havia programado uma batucada coletiva pra encerrar o show, e surdo, caixa, tamborim, repinique, ganzá todos sabem, não precisam de tomada nenhuma; Os ritmistas convidados e o pessoal da banda fizeram um longo batuque-protesto, enquanto o motorista jogava o caminhão em cima das pessoas e músicos presentes, com pressa pra recolher o equipamento e com medo do linchamento.

Parabéns à você.


Nessa semana especial, parabéns Porto Alegre pelos 236 anos! Mas a beleza teu lindo pôr-do-sol foi ofuscado naquela tarde – pois a cultura estava ali, sendo crucificada diante dos olhos atentos da cidade.

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Tiago Jucá
 

é a dura realidade desta cidade! beleza de texto Rafael!

Tiago Jucá · Acrelândia, AC 14/4/2008 02:06
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clara arruda
 

Um belíssimo texto explicativo meu querido.essas coisas aindaacontecem.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 15/4/2008 05:24
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