Luís Bustamante
No balcão da padaria, a mocinha comenta com a colega: “Bah, guria, não tem mais cacetinho!”. Ao que a outra responde: “Capaz!”. Para quem vem de outro Estado, principalmente do Norte ou Nordeste do país, o diálogo parece estranho, incompreensível até. Na verdade, trata-se de um linguajar característico da cidade de Porto Alegre, uma mistura de expressões interioranas com gírias que vão sendo incorporadas ao dia-a-dia da população metropolitana. Objeto de pesquisas de estudiosos locais, essa forma de comunicação lingüística recebe o apelido de “porto-alegrês”.
Porto Alegre possui uma cultura rica e variada, que tem contribuições de várias etnias, o que explica em parte a diversidade de expressões idiomáticas e a facilidade com que aqui se criam gírias. O tema é tão rico e presente que já chega a fazer parte de estudos de linguagem e regionalismo, resultando em publicações como o livro “Dicionário de Porto-alegrês” do professor de literatura brasileira na UFRGS, Luís Augusto Fischer, 45 anos. Lançado durante a Feira do Livro de 1999, o livro reúne centenas de expressões utilizadas na capital gaúcha e na região metropolitana. “A fala de Porto Alegre é diferente mesmo em relação a outras cidades do Rio Grande do Sul, e disso temos consciência”, explica Fischer. “Tudo o que fiz, depois de extensa pesquisa, foi catalogar essas expressões em ordem alfabética”, complementa.
De fato, algumas expressões que fazem parte do dia-a-dia do porto-alegrense parecem mesmo exclusivas daqui. É o caso de “cacetinho” (pãozinho francês), “abobado” (bobo), “deu pra ti” (chega!) e as abreviaturas que ainda não constam nos dicionários oficiais, como ”findi” (fim-de-semana), “churras” (churrasco), “super” (supermercado), “ceva” (cerveja). Algumas chegam mesmo a romper as fronteiras geográficas e vão parar em outros Estados, como “viajar na maionese”, que já esteve em moda no Rio de Janeiro, e “deu pra ti”, nome de uma música de sucesso nacional da dupla Kleiton e Kledir. Há também aquelas que atravessam o tempo e, de tão antigas, já não se sabe a origem, como “mãe do badanha”, “lá onde o diabo perdeu as botas”, “balaqueiro”, “tempo do epa”, “ariri pistola”, “lagartear”.
Idioma exótico
“Se existe um lugar do Brasil onde, junto ao português, se fala um idioma completamente exótico, esse lugar é Porto Alegre”, comenta a promotora de eventos Vera Molina, 43, que veio de São Paulo para os preparativos de uma feira de negócios em Novo Hamburgo. “Mas falo com respeito e admiração, porque aqui é uma das regiões do país onde melhor se fala o idioma brasileiro”, frisa Molina, no que é respaldada pelo professor Fischer: “Realmente há um cuidado em se falar corretamente, mas que não chega a conflitar com alguns pequenos deslizes, como o uso do tu sem a concordância ortodoxa”, observa. “Costumamos dizer “tu vai”, “tu foi” e não vemos problema nisso”.
Quem também não vê problema na ocorrência de pequenos deslizes de expressão oral é o compositor e cantor da noite, Émerson Luís, 36, que já identificou erros gramaticais que passaram despercebidos em composições de Lupicínio Rodrigues, Túlio Piva, Armandinho e até de Roberto e Erasmo Carlos, cujas canções ele é fiel intérprete. “Mas aí os erros são licença poética”, justifica.
Exótico ou apenas diferente, o certo é que a maioria das expressões que formam o dialeto local são faladas há anos (ou “há horas”, no bom porto-alegrês) e se agregam com naturalidade ao cotidiano da população, independentemente de posição social ou orientação cultural. Não é raro encontrar-se, numa cafeteria por exemplo, um engravatado executivo comentar que seu café está “tribom”, embora esteja “triquente” e que ele está “triafim” de mais uma xícara. Tanto é verdade que mesmo os críticos do fenômeno lingüístico não escapam à sua influência; “Pra mim esse modo de falar é chinelagem”, opina um cidadão que não quis se identificar, fazendo uso de uma expressão típica do dialeto porto-alegrês.
A primeira vez que soube da expressão "lagartear" foi num livro do Sítio do Pica-Pau Amarelo, do Monteiro Lobato, só não lembro mais em qual...
Léo Lago · Rio de Janeiro, RJ 9/10/2007 17:05
Bah, guri, achei tri-legal tua matéria...Melhor que sotaque de carioca...Uma barbaridade!
BJS
Cris
Meu irmão, Luis Bustamante.
Caraca...muito show tua crônica...fico muito feliz em ler e de certa forma me sinto também reconhecido, sendo um morador de Porto Alegre e usuário do linguajar portualegres. Parabéns.
Ficou tri legal e tu ti puxou, hem...lagartear ao sol tomando um chima bem trnaquilo ou num dia bem quente tomando uma ceva bem gelada, preparando um churras pra curtir com as gurias é tudo queremos.
Grande abraço.
Muito bom,Luis!
Vou encaminhar a tua crônica para o e-grupo do Fórum Estadual de Culturas do RSdo qual sou um dos moderadores, pela afinidade com a cultura popular gaúcha.
Valeeu!
Grande abraço
Edu Cezimbra
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