Trocando em miúdos...
O vídeo-documentário sobre a Praia da Pipa tem o intuito de divulgar como, em poucos mais de duas décadas, a acanhada vila de pescadores tornou-se um dos principais destinos turísticos do Brasil. A narração histórica é sustentada sob alguns discursos: o relato de historiadores, “estrangeiros” e de antigos moradores.
Estabelecidos os fatores determinantes para mudanças socioespaciais bruscas, parte-se para a análise crítica dos benefícios e prejuízos oriundos da atividade turística. Dentre os aspectos negativos trazidos com o dito progresso, tem-se o intuito de destacar no vídeo o fato de as tradições locais estarem em processo de extinção, sendo gradativamente suplantadas pelos costumes cosmopolitas.
Finalizado o documentário, a exibição para a comunidade é a última e principal ação empreendida no trabalho. A divulgação entre moradores, comerciantes e visitantes pretende levar informação e gerar uma consciência coletiva que garanta a atratividade e, sobretudo, a sustentabilidade da Praia da Pipa.
Complicando um pouco...
Fundamentalmente, desde seu viés metodológico, este trabalho procura contribuir com uma reflexão sobre a urbanização acelerada, a especulação imobiliária, a descaracterização do lugar, a mobilidade social dos moradores da Praia da Pipa. Esta pesquisa, animada pela existência de poucos trabalhos contemporâneos sobre a localidade, deixa de lado as formas tradicionais e clássicas de coleta de dados e procura diálogos, pontos de convergência e novos métodos de aproximação com outros territórios, de maneira especial o cinema e, mais especificamente, o documentário.
O ensaio áudio-visual propõe enfocar o universo das narrativas orais e imagéticas em torno da Praia da Pipa. Em termos de abordagem, a entrevista é o carro-chefe, revelando o ímpeto de “dar voz”, de abrir os microfones aos atores sociais, opção que tem correspondente, de forma latente, à menor participação de voz over interpretativa ou totalizadora, interrogando-lhes os efeitos do real que lhe são apresentados.
Em outros termos, através das narrativas dos ‘contadores’, ou sujeitos retratados, se pretende acessar o imaginário coletivo em torno de diversas circunstâncias, criando um canal de expressão para grupos sobre os quais pesava uma identidade social imposta e abstrata – ou a invisibilidade. O documentário busca seu tema através do recorte mínimo, a expressão autêntica e singular de cada elemento.
Além das narrativas, a exploração imagética da paisagem estará presente como um dos eixos centrais, desempenhando um tipo de metalinguagem em relação aos depoimentos das personagens do documentário.
PERSONAGENS
As personagens dessa narrativa audiovisual se configuram em importantes fontes de pesquisa, na medida em que externam suas percepções e idiossincrasias a respeito da historiografia da região. Suas declarações nos ajudaram a compreender uma pouco melhor a dinâmica da Praia da Pipa, geografia essa, marcada por mudanças físicas, sociais e, sobretudo, culturais.
Zilda Marinho, rendeira, 73 anos.
Aos sete anos, ao observar o bordado de sua mãe, ela aprendeu sozinha o primeiro ‘ponto’, o chamado “olho de pombo”. Daí em diante, a famosa “Dona Zilda” passou a entrelaçar com maestria os fios que depois de meses de trabalho viram almofadas, colchas e vestidos. Por ser uma das poucas rendeiras de bilro na Praia da Pipa, ela acabou se tornando mais uma atração turística.
João Peixinho, pescador, 74 anos.
Tendo o ofício de pescador desde criança, João Peixinho acompanhou as mudanças ocorridas com o a pesca de subsistência. Ele aponta a diminuição do número de ‘homens do mar’, como uma causa das supostas facilidades que a Praia da Pipa foi adquirindo com o passar no tempo.
Domitila Castelo, ex-professora, 84 anos.
Membro da família Castelo, uma das primeiras a povoarem a região da Pipa, Dona Domitila foi a primeira professora nascida na Praia, sendo responsável pela alfabetização de muitos moradores. Ela conta sobre as lendas existentes na região como o Lobo-homem, Batatão e Caipora.
David Husset, Coordenador do Santuário Ecológico.
Encantado com a fauna e flora local, no final da década de oitenta, o inglês David Husset adquiriu uma área próxima à Praia da Pipa, transformando-a no Santuário Ecológico, local onde a mata atlântica é preservada. Aberto a visitação, nele existem dezenas de trilhas e alguns mirantes de onde se têm as mais belas vistas da região.
Francesco Delvederi, empresário, 55 anos.
O italiano Francesco conheceu a Praia durante suas férias no verão de 1994. Atento à capacidade de desenvolvimento do local, em 1999, Francesco montou uma restaurante de comida italiana na Pipa. Casado com uma brasileira, Francesco fala sobre as motivações que o fizeram mudar da cidade de Roma para o lugarejo praiano.
Márcia Nascimento, Coord. Ong. Núcleo Ecológico da Pipa, 43 anos.
A jornalista e fotógrafa Márcia Nascimento trocou a vida agitada do Rio de Janeiro pela tranqüilidade que a Pipa oferecia no início da década de 90. Ela acompanhou nos últimos 15 anos, as mudanças ocasionadas pelo aumento do turismo da região. Atualmente, Márcia é Coordenadora da Ong. Núcleo Ecológico da Pipa, instituição que busca discutir a cadeia produtiva da Praia.
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A defesa da tese com a apresentação do documentário Praia da Pipa: Tradição & Contemporaneidade acontece no próximo dia 29. Depois disso, é hora de voltarmos à Pipa e mostrar o vídeo para a comunidade local.
Amigo Filipe, espero que dê tudo certo, na defesa e no produto final o vídeo. Parabéns por todo seu trabalho junto ao pessoal ai...
Higor Assis · São Paulo, SP 16/7/2008 17:48
Filipe, fiquei feliz de saber mais notícias do seu vídeo. E mais feliz ainda de ver que minha amiga querida Márcia está nele. Mas quero ver o vídeo. Quando é que ele vai estar aqui no overmundo pra gente ver?
Abraços e sucesso na sua banca!
Ilha, eu aprender a mexer nesse questão dos Torrents, que é a linguagem que permite colocar vídeos maiores como é o caso do Documentário, aí sim, com certeza, eu disponibilizo o vídeo em terras overmundanas... A Márcia foi maravilhosa conosco, topou participar na mesma hora, muito bom...
Obrigado pela leitura. Um abraço.
meus votos!
beijo no coração
Felipe,
estive de passagem, com a Luiza, vendo as fotos e desejando
umas proximas oportunidades.
abraço
andre.
a
Filipe,
O espaço urbano de Pipa está caótico e os efeitos sobre o meio natural são visíveis. Passei por Maragogi e Porto de Galinhas também. A situação de Pipa é a mais delicada. Estive lá em julho/2007, realizando entrevistas para uma pesquisa em turismo. Quando for publicada, avisarei.
A construção do anel viário, se concretizada, talvez melhore o acesso.
Abs,
Filipe,
Mais um trabalho 'show de bola'.
Abs
Felipe...que seu texto tenha som...pois grita muito.
Belíssimo e pudera eu um dia visitar Dona Zilda...pois o que sempre
recordo de minhas andanças por aí é a arte do bordado dessas senhoras...
Parabens jornalista, sempre em alerta!ab
Filipe, meu amigo,
bela matéria sobre Pipa, uma das poucas praias dos arredores de Natal que ainda não conheço. Infelizmente, pois, pelo dito em seu documentário (quando sai?), já se transforma - a exemplo de tantas outras - em mais uma vítima do turismo predatório. Uma pena mesmo, mas, pelo andar da carruagem, o mesmo destino reserva-se a outros paraísos potiguares, como Galinhos, por exemplo, que de bucólica vila de pescadores no litoral Norte, já se transforma a olhos vistos em novo pólo de atração turística do RN - com suas ruas de areia, hoje já calçadas, o aumento de pousadas e bares e até a promessa de construção de uma mega-resort na região. Não sei se isso vai acontecer, mas - pouca gente percebe - este tipo de turismo é também um dos efeitos da chamada globalização que reinaugura nos países periféricos um novo tipo de colonização, cuja principal arma é o Euro, que - se não desssangra como as espadas dos seus antepassados - atinge essas comunidades e destrói sua cultura pela força do capital. Há muito o que se falar disso, se ampliarmos o ângulo de visão. Gostei demais de seu texto (das dudas partes) e das fotos. Parabéns.
Neocolonização Nivaldo. Este é o processo pelo qual a Praia vem passando nas últimas duas décadas principalmente. Mas é preciso manter a esperança. Ainda existem pessoas com sensibilidade para a mudança.
Um abraço a todos.
Olá Filipe,
Desfrutar e cuidar, para permanecer. Sendo praia então. Temos um trabalho chamado poética do Abandono, na Ilha de Itaoca em São Gonçalo, RJ. Se puderes olhar e comentar vou gostar.
Abraço.
O Link:
http://www.overmundo.com.br/overblog/a-poetica-do-abandono-antropologia-e-fotografia-1
Valeu pela visita, pelo comentário e, sobretudo, pela dica Natália. Um abraço.
FILIPE MAMEDE · Natal, RN 18/7/2008 21:24Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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