Há mais de 20 anos radicada no litoral norte de São Paulo, a jornalista e fotógrafa, Nicia Guerriero, trocou a correria da capital paulista pela tranquilidade de São Sebastião, município que ainda preserva a riqueza da mata atlântica e a cultura caiçara. Durante esse período, Nicia vem colecionando fotos e fatos que já renderam publicações, postais e sua mais recente obra, o livro “Praias na Serra do Mar”.
As belíssimas imagens unidas às histórias dos habitantes fazem da publicação um registro completo sobre a região, revelando a bela fauna, as praias e também os costumes caiçaras e sua relação com o mar. Dessa forma, o livro vai muito além do registro fotográfico, documentando o linguajar, a culinária e o quotidiano da região.
O povo caiçara, resultado da mistura entre o branco e o índio, possui uma forte ligação com a terra, vivendo basicamente da pesca e da agricultura de subsistência, em técnicas que exploram o uso do solo sem causar danos ao meio ambiente.
Por que você optou por trocar a vida agitada da capital paulista pela calmaria da serra do mar?
Eu frequentava este litoral há anos e invejava pessoas que fizeram a "travessia" antes de mim. Em São Paulo eu era uma fotógrafa free-lancer, correndo atrás de pequenas chances. Quando me dei conta de que aqui havia uma comunidade com carência de um fotógrafo profissional, juntei a vontade de ter uma vida calma com a intenção de ter um papel cultural mais relevante.
Como surgiu a ideia de fazer um livro registrando os costumes, a cultura e as paisagens de São Sebastião?
A primeira pessoa a me alertar de que este lugar merecia um registro foi uma amiga historiadora, Meire Enice, durante uma conversa na sombra da jaqueira na Praça da Mentira [em São Sebastião], anos antes de me mudar para cá. Fotografar cenas de rua e de praia era uma atividade natural para mim e, com o passar dos anos, reuni um acervo significativo. Além disso, dividi residência por quatro anos com um rapaz de uma família tradicional daqui, o Xixico, e tive o privilégio de escutar muitos casos e detalhes desta cultura diferente da minha. Sei que se eu tivesse apenas feito muitas entrevistas, racionalmente, não teria entendido tanto. Quando nos separamos escrevi o primeiro livro, "Carapirás, entendendo o peixe de Boiçucanga" e dividi a autoria com ele. Na sequência, pessoas das outras vilas me pediram para falar delas também. Fiz "Costa Sul do Litoral Norte" em 1998 e, dez anos depois, fiz o "Praias...", que traz conteúdos dos dois anteriores, atualizado e com grande evolução gráfica.
No livro, você dá grande destaque à população caiçara. Fale um pouco sobre a origem destes habitantes.
O caiçara é um povo formado por quem teve fibra de enfrentar a natureza e ficar. No século XVI aqui estavam os índios, que tinham princípios morais muito diferentes, mas lidavam com a natureza com muita sabedoria. Os jesuítas vieram catequizá-los e foram bem sucedidos, pois todo caiçara do início do século XX é católico e mantém o conhecimento indígena da natureza.
Como é a relação deles com o meio ambiente?
É uma relação de muito trabalho e respeito. Usavam as madeiras sem devastar e praticavam a agricultura sem estragar o solo. Em Boiçucanga, os morros próximos ao mar parecem ser cobertos de mata virgem, mas nas fotografias anteriores a 1960 vemos que eles eram totalmente cultivados, com plantações de mandioca, café, milho e banana.
Como uma cultura como esta, em uma das regiões mais povoadas do Brasil, conseguiu preservar sua essência?
Esta essência foi preservada enquanto a estrada não chegou. Até 1960, as comunicações aconteciam basicamente via marítima e o mar desta região não é dos mais fáceis, pois não há portos seguros. Como é uma região montanhosa e de muita chuva, a primeira estrada de terra foi aberta no início da década de 60 e só se completou em 1965. Somente em 1985 terminaram de asfaltar.
O crescimento do turismo e a expansão imobiliária são as principais ameaças à preservação da cultura caiçara?
A população deixou a vida de agricultor não só porque vendeu as terras e passou a trabalhar para o turismo ou para o novo morador, mas também porque esta é uma vida mais confortável. Mudanças culturais na moralidade vieram com as telecomunicações. Na relação com a pesca é onde vemos a cultura caiçara ainda pulsando. Nestes últimos dias temos tido fartura de tainhas pescadas e as famílias envolvidas estão em festa.
O que se tem feito para que estas comunidades não percam suas raízes?
Fora os pescadores que continuam lidando com a natureza, as outras raízes já são assunto de museu. As escolas da região se preocupam em passar noções aos novos habitantes. Nos últimos anos, chegaram milhares de migrantes do sertão nordestino. Temos oficinas culturais de artesanato caiçara, estudos folclóricos e homenagens aos mais idosos, que estão morrendo com a cultura.
Fale sobre o conceito de “neocaiçara”.
No livro uso esse neologismo para falar do novo habitante do litoral. Gente como eu que veio e ficou e descendentes dos velhos caiçaras que hoje utilizam tecnologia globalizada, com uma coisa em comum, que é a dedicação a este lugar cuidando para preservá-lo. O litoral norte do estado de São Paulo, assim como o litoral sul do Rio de Janeiro, é muito rico em natureza. Estamos na beira da Serra do Mar, onde a Mata Atlântica está preservada e esta é uma das florestas mais ricas do planeta em biodiversidade. Temos que lutar para que o Turismo seja sustentável e atenda cada vez mais a pessoas que venham nos visitar com respeito e admiração à natureza. Chega desse visitante cafona que só vem para descansar e deixa um monte de sujeira.
---
Se você se interessou pelo livro "Praias na Serra do Mar" (R$ 50,00), entre em contato com a autora para compra direta: niciaguerriero@uol.com.br.
Uau, um lugar que tem uma praça com o nome de Mentira só pode ser interessante! Que bacana o trabalho dela e o reconhecimento da população, que quis ser retratada quando viu o primeiro livro. Interessante esse conceito de neocaiçara, tomara que esses personagens se difundam por aí. Abraço, Mattoso, sempre aprendo com as suas viagens!
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 15/8/2009 20:37
oi helena,
sempre generosa nos elogios. brigadão! deu gosto fazer essa entrevista. me encantei com o tema e com o livro... aí fica fácil :)
Oi Guilherme,
Gostei da matéria. Parabéns!
Conheço o litoral-sul carioca e sei o quanto a região é rica em biodiversidade.
Muito importante sua iniciativa em documentar esse trabalho.
Abs.
Parabéns pela divulgação do livro e pela reportagem. Conheço a região e- muito além da cadeirinha de praia, cerveja e som ruim e alto - estamos diante de um dos mais belos trechos do litoral. E o livro e a entrevista põem um molho da história. Parabéns à Nícia. Força em novos empreendimentos
paulo salvador · São Paulo, SP 12/1/2010 16:41Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
A Chapada dos Veadeiros, como você já deve saber, é um lugar bonito por natureza. Com a beleza da sua diversidade biológica, o lugar parece um... +leia
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!