Afinal, o que é preconceito? Trazendo o tema para dentro de nosso universo musical, o preconceito se apresenta em diversas formas, que podem ir desde o momento em que somos apresentados à alguém, passando por situações de escolha de repertório e de gigs. Como seres humanos, sempre que somos colocados em uma situação, emerge de nosso cérebro um parâmetro comparativo, ou seja, uma referência antes armazenada. Na maioria das vezes, esta idéia é pré-concebida, o que não necessariamente é ruim. Trabalhar com referências faz com que nós tenhamos os parâmetros necessários para fazer uma avaliação mais concisa e honesta de um determinado assunto. O problema acontece quando passamos a agir pré-concebidos no famoso "piloto automático". Exemplo: você é apresentado a alguém que é altamente expansivo e comunicativo, cheio de idéias e expressões visuais. Dependendo da situação, pode acontecer de você achar que esta pessoa é arrogante e narcisista, quando você acabou de ter apenas o primeiro contato com ela.
Talvez em algum momento de sua vida você conheceu alguém que, além de expansivo e extremamente comunicativo, olhasse mais para o próprio umbigo do que outra coisa. Mas passar a encarar todas as outras pessoas assim é agir com puro preconceito.
O preconceito com estilos musicais é um outro vasto e enigmático assunto. Todos nós gostamos mais de determinados estilos musicais. Mas, é notório o preconceito que rola no mundo da guitarra: "Fulano de tal é um babaca, não toca nada, fica só nas pentatônicas". "Sicrano tem o ego na Lua". "Não gosto dele porque ele toca guitarra de maneira egoísta, como se não existisse mais ninguém em volta". "Viu quem está tocando sertanejo agora"? "Aquela escola é cheia de panacas, um querendo se mostrar mais que o outro". E assim vai, tendendo ao infinito.
Ter sua opinião é fundamental. Mas respeitar seu próximo é algo mais importante ainda, por mais óbvio e simples que pareça. Repare na quantidade de gente que fala mal dos outros, diariamente! Há pessoas que falam mal de alguém assim que o mesmo sai da sala! Esta atitude não só gera mais preconceito no meio musical, induzindo muitas pessoas a terem uma idéia errada sobre algo que pode ser quase irreversível.
Muitos "taxam" literalmente um instrumentista porque ele toca com artistas sertanejos ou artistas de grande expressão popular, ou porque preferem tocar uma música tão única que estão eternamente ligados ao underground. Outros são "crucificados" por possuírem uma visão artística diferente, muitas vezes mais ampla e angular que a maioria. Aqueles que propõe um novo caminho, uma nova alternativa ao padrão vigente muitas vezes padecem por muito tempo até conseguirem estabelecerem suas idéias.
É preciso termos, antes de tudo, respeito. É preciso uma sintonia aberta, receptiva para a novidade. Muitos que mudaram a história sofreram com o preconceito da sociedade e até mesmo de amigos e parentes próximos. Santos Dummont foi chamado de louco por suas idéias. Villa-Lobos tinha fama de "maluco", exatamente por querer ressaltar a criatividade e a originalidade brasileira em um momento em que a maioria queria estereótipos europeus. Schoenberg (criticado por seus conceitos dodecafônicos), Einstein (muitos não admitiam a mistura de sua origem judia e sua genialidade latente), Carl Sagan (chamado de louco durante muitos anos), Frank Zappa (chegou a ser preso e tratado como delinqüente), George Benson ("Ele se vendeu ao sistema ao começar a cantar".), João Gilberto (chamado de individualista e até mesmo esquizofrênico). Enfim, a lista não acaba mais.
Um dado importante nesta história: muitos têm preconceito com o sucesso alheio. Aceitar o êxito dos outros para muita gente é tarefa impossível. Começam a achar defeitos e teorizam caminhos diferentes ("Se fosse eu faria assim, faria assado".). Estas pessoas, ao ficarem falando mal dos outros e alimentando preconceitos, estão na verdade empacando as próprias vidas. Aceitar e respeitar seu próximo é o primeiro passo para a evolução humana.
Enquanto houver preconceitos religiosos, de idéias, de caráter, de obras artísticas, o passo para frente de todos nós fica um pouco mais "amarrado". Conflitos como o de Israel e Palestina, o ódio aos norte-americanos alimentado recentemente mundo afora, a banalização de artistas consagrados apenas porque os mesmos estão vendendo discos e shows como nunca e a "falação" generalizada com que muitas vezes nos deparamos em nosso meio de trabalho. Tudo isso é ruim para todos nós.
Ninguém toca mais ou menos que outro porque é evangélico ou judeu. Assim como ninguém toca mais ou menos porque é ateu ou não dá a mínima para religião. Ou porque é budista. Ou espírita. Ou toca com muito reverb e delay. Ou prefere uma distorção enorme e cheia de ruídos. Porque gosta de refrães contagiantes e "grudáveis". Ou porque nunca compõe nada parecido com um refrão. Enfim, ninguém é melhor que ninguém. Somos todos diferentes, somos todos únicos e, esteja onde estiver em seu grau de evolução como músico e pessoa, temos algo a dizer.
A vida não pára, está sempre em mutação, sempre andando, sempre em contínuo movimento. Aceitar as pessoas como elas são é estar ligado com a vida, é estar conectado com a humanidade. Da próxima vez que alguém falar mal de outra pessoa para você, deixe que estas palavras entrem por um ouvido e saiam pelo outro. Não repasse lixo para frente. Seja mais você, consciente de seu papel como ser humano.
Estou votando, para aproximar da publica. Sem tempo depois vou comentar alguma coisa,
um a
andre
Voce fala umas coisas que já mais imaginei.
- O exemplo do tocador de guitarra. Nunca pensei que a coisa fosse colocado assim.
- Do sucesso do outro, também.
Talvez eu concebesse a coisa como INVEJA, que não é a mesma
coisa, absolutamente. Da inveja há um desejo, um ciume encrustado, negado, massacrante e massacrando e massacrado, mas há um desejo que aquilo fosse "pra mim". No preconceito,
acho que não. Porque no preconceito é a ignorância pura. Não há um entendimento de valores.
Mas adorei o teu artigo. Acho mesmo que eu boiava.
um abraço
andre.
Andre, vc "captou" muita coisa bacana, grande contribuição meu caro!!!!
Vamos manter contato, grande abraço!!!
AM
André, muito bom o seu artigo. Tomei a liberdade de publicá-lo no blog da minha produtora. Acesse www.cucanova.com e confira lá. Qualquer coisa é só me falar, ok?
Parabéns!
Grande Abraço!
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