Preservando a diversão nos blocos de rua

Denise Cordeiro - todos os direitos reservados
Protegidos pelo cordão, Mestre Sala e Porta-Bandeira seguem a grande Carmelita
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Marcelo Rangel · Aracaju, SE
5/3/2007 · 106 · 10
 

A esta altura, uma semana depois da Festa de Momo, as cinzas já baixaram e quase já não se ouvem mais os ecos da folia. Mais por uma questão de palavra dada, não quis deixar de escrever minhas impressões sobre o Carnaval do Rio, já que fui aquele que lançou a idéia de uma overcobertura do Carnaval 2007.

Pela proximidade com alguns integrantes do Bloco das Carmelitas e do Bangalafumenga, acompanhei de perto o que acabou se tornando uma das maiores polêmicas deste ano no Carnaval carioca: o modo como os blocos de rua tentaram evitar desfiles tumultuados.

Fumegando com o Banga

O Bangalafumenga, uma espécie de dissidência do Monobloco que é comandada pelo compositor Rodrigo Maranhão, fez uma anti-divulgação. A preocupação com alguns incidentes violentos em seus ensaios pré-carnavalescos e com brigas do ano anterior fez com que divulgassem que o bloco sairia da Praça São Salvador, em Laranjeiras, quando na verdade sairia do Horto, no mesmo local onde desfilou no ano anterior. Não adiantou muito, já que quem descobriu o local correto do desfile foi avisando aos amigos, ali na hora mesmo, via telefone celular.

Uma enorme multidão acabou seguindo o bloco, bem maior do que em sua estréia na rua, em 2006. Mas talvez fosse ainda mais tumultuado se o local correto fosse divulgado na grande mídia. Mesmo com a superlotação, valeu a pena ser embalado pelas variações rítmicas da bateria, com um repertório variado, versões de Chove-Chuva, Maracatu Atômico, ao som do vozeirão de Serjão Loroza . O cara é uma potência. Na minha humilde opinião, é o mais sério candidato a sucessor de Tim Maia. Sem piadas, não é pelo porte físico; seu forte é a levada funk-samba-soul, o vozeirão, o suingue, a simpatia, o bom-humor, a malemolência. E ele foi cantando ali no meio da bateria, no asfalto, junto da massa.

A freira foge do convento e da multidão

No caso do Bloco Carmelitas, a história é mais longa. Criado pelos moradores do bairro há 17 anos - juntamente com uma lenda que reza que certa freira fugia do Convento das Carmelitas Descalças na sexta-feira de Carnaval e só retornava na terça-feira gorda - foi tomando proporções gigantescas e causando enormes transtornos aos moradores das ruas estreitas e calmas de Santa Teresa. Muitos dos antigos participantes já não desfilavam mais e os moradores que antes apreciavam o cortejo com alegria passaram a reclamar, do xixi, das brigas, dos roubos e assaltos, do assédio impertinente de pitboys e otras cositas más. Há alguns anos atrás, depois de a bateria do bloco ser indicada por um jornalista como uma das piores do carnaval do Rio, os integrantes chegaram a aumentar a (má) fama, espalhando o boato de que o bloco tinha, além da pior bateria, as mulheres mais feias e a cerveja mais quente. Tudo para espantar a multidão e brincar na paz.

Em 2007, depois de ensaios tumultuadíssimos, que acabaram sendo cancelados, resolveram que o bloco sairia às 15h de sexta-feira, e não às 18h, como nos anos anteriores. A diretoria do bloco dizia que não havia sido consultada sobre o horário pela imprensa, que indicou nos jornais o mesmo dos anos anteriores. Eles apenas não corrigiram a informação e nem deixaram que os jornalistas do bloco o fizessem. Devo confessar que o resultado foi positivo. Foi um desfile tranqüilo, com as ocorrências normais de festa carnavalesca.

Minha amiga Rita Afonso, por exemplo, antes integrante do naipe de tamborins, já não desfilava há dois anos. Resolveu brincar na sexta-feira em 2007 ao saber da mudança de horário. Já tinha passado por maus bocados, momentos desagradáveis mesmo, como quando sentiu uma certa aguinha quente e amarelada em seus pés - vinda não de seu próprio corpo, é claro. Difícil de suportar, não é mesmo? Em seu retorno, não voltou à bateria, mas faz parte do cordão de proteção dos ritmistas. Assim como ela, vários outros moradores e foliões engajados pareciam cuidar do bloco como se fosse um filho, pedindo passagem carinhosamente a quem ficava parado no meio do caminho, sem apoio de seguranças, só no papo mesmo, com gentileza e alegria.

Trajando uma versão da camiseta oficial do bloco em forma de vestido, o designer gráfico Bob Siqueira era um dos que pedia que a massa andasse. Inacreditavelmente, ele sozinho fazia a multidão à frente do bloco seguir em frente para que o bloco evoluísse. Em determinado momento, a massa avançou tanto que o bloco ficou folgado. Sua família também estava no cortejo: filhas, mãe, pai, prima, irmãs, sobrinhos. Os Siqueira em bloco, com duplo sentido mesmo. Na verdade, uma síntese do espírito do Carmelitas, um bloco família, de velhos e crianças, como esbravejaram alguns revoltados no fórum da comunidade do bloco no Orkut.

Uma cena em especial chegou a me comover. Em determinado momento, uma senhora beirando os 80 anos começa a dançar animadamente na calçada na passagem do bloco, com um dos pés enfaixados e trajando um daqueles vestidos estilo camisola (aliás, o mesmo tipo de roupa que normalmente circula pelo bairro). Era Dona Didi, uma moradora antiga do bairro, que nos anos anteriores também já não conseguia mais entrar na folia. Ao perceber sua presença, o mestre sala Emmanuel Santos a chama para o meio do bloco e ela recebe a faixa de Rainha do Carmelitas, passando a evoluir ainda com maior alegria, também protegida pelo cordão da bateria. Parecia claro que ela, assim como todos os outros, estavam radiantes por poderem brincar à vontade, sem muita confusão, como se declarassem, “temos de volta nossa festa, podemos festejar mais tranqüilos”.

O samba deste ano, bem... eu diria que é bem genérico. Serviu bem em relação aos quesitos animação e evolução, mas é só substituir o nome no refrão que serve para qualquer agremiação:

Vem Carmelitas que eu vou, amor
Vou me embalar na multidão (ops, eles nem queriam isso. rs)
Que emoção
Se hoje eu tô que tô
Se você vai eu vou
Pra ganhar seu coração


No dia seguinte, sábado, no Bar do Serginho – uma mercearia-boteco, praticamente um dos mais tradicionais pontos de encontro dos moradores do Largo do Curvelo e adjacências – o mais interessante era ver os freqüentadores se congratulando. “Parabéns, foi lindo!”. Festejavam a reconquista da paz para brincar o Carnaval em seu bairro. Muitos usavam a camiseta oficial do bloco, como os torcedores de times de futebol fazem após uma vitória expressiva.

Originalmente, o Carmelitas saía na terça-feira no fim da tarde, do Largo dos Guimarães, para levar a freira de volta ao convento no final da tarde. Para evitar o gigantismo, em 2007 a concentração passou para 9h, horário que chegou a ser divulgado nos jornais. No entanto, o desfile foi tranquilo, não se sabe exatamente se por causa do horário matinal - afinal, último dia de carnaval, acordar cedo é pedir demais - ou pela raiva que muita gente teve com a mudança de horário do primeiro desfile. Duas mil pessoas acompanharam o retorno da freira ao Largo do Curvelo. No ano anterior, o cálculo foi de dez mil.

Faça você mesmo sua folia

Tudo isso me fez pensar até mesmo na proposta do Overmundo, de falar da cultura produzida no Brasil que não chega à grande mídia. Para o pessoal que organiza esses blocos e neles quer se divertir, a lógica é inversa. Se aparecer demais na grande mídia, estraga a festa, a diversão, e o prazer vira sufoco. “Não conta pra ninguém, senão estraga”, como diz meu amigo Bob. Já o mestre de tamborins do Carmelitas, Renan Cepeda, radicaliza: “se alguém perguntar se o carnaval de Santa foi bom, por favor, diga que foi uma merda...”

Com tudo isso, creio que no Rio esta avidez por blocos de rua vem incentivando um outro movimento, meio no espírito punk, tipo “faça-você-mesmo”. Se querem curtir um bloco de carnaval, uma festa, organizem a sua, “reúna seus batuqueiros” (como diz aquele samba clássico). A idéia está ganhando cada vez mais força – na quarta de cinzas, um bloco estreou em clima de realismo fantástico (mais detalhes logo abaixo); aqui em Aracaju o Burundanga está fazendo sua história, bastante contagiado por essa vontade de tomar para si o fazer folia. Particularmente, creio que já passou o tempo em que carnaval era sinônimo de alienação ou escapismo. Nossa capacidade de se brincar, de se permitir a fantasia e o prazer, talvez seja uma das mais marcantes características dos brasileiros. Então, mãos à massa!

A festa não quer, não pode e nem deve acabar

Então é isso, não fui um folião muito animado, mesmo estando hospedado onde parecia estar o olho do furacão da folia, em Santa Teresa - que me lembrou Olinda, com suas ruas lotadas de blocos, troças, rodas de samba, fantasias e gente procurando por onde passaria o próximo bloco. Até mesmo na quarta-feira de cinzas, o movimento no bairro só começou a diminuir por volta de duas da madrugada.

Mas existe um bloco pode até entrar para o Guiness como o menor desfile do mundo. É o Vassila quem pode (com "ss" mesmo, coisa de vacilão). O pessoal tem até carteirinha, faz uma longa concentração (haja cerveja!), mas desfila apenas atravessando uma rua. Reúne um grupinho de no máximo uns 30 amigos, de idades variadas e com seus filhos também. Todo mundo se diverte que é uma beleza, uma delícia, mas é só pra quem é "de casa", eles nem comentam muito nos dias anteriores, pra não espalhar mesmo. E não adianta que não posso revelar onde é a festinha, senão eles cortam relações comigo!

Já passado o final oficial da festa, tipo final da prorrogação do tempo regulamentar, na quarta-feira de cinzas à noite, aconteceu uma passagem surreal em Santa Teresa. O tal bloco estreante já citado acima, chamado de Me enterra na quarta, desfilava ao som do maracatu. Atrás dele, vinha um carro funerário. O bonequeiro Jorge Crespo, responsável pela confecção da boneca do Carmelitas, ao ver a cena pensou, “que criatividade!” Resolveu registrar a imagem e foi pedir ao motorista para parar um instante para uma foto. Sua surpresa foi o homem pedir desculpas e dizer que não podia fazer isso, pois a família vinha entristecida no carro logo atrás. Parece piada, mas é verdade: o féretro era verdadeiro!

E no sábado à noite, ainda teve mais ferveção em Santa. Já de manhã, nas ruas o boato que corria era que três blocos iam sair no bairro. À tarde já diziam que a polícia tinha proibido. Verdade ou mentira, à noite teve festa no Largo dos Guimarães, confete e serpentina de novo. No domingo, além do Monobloco em Copacabana, teve bloco na Praia do Leblon também. E andando pelas ruas, já me despedindo das férias, ouvi uma dupla de motoristas de táxi comentando, “o Rio tá querendo virar Salvador, onde a festa dura mais de uma semana”. Tudo indica que é isso mesmo, a idéia parece que está vingando. E o que pude perceber nos grandes veículos de comunicação foi um destaque maior para o carnaval de rua, até com mais espaço que as escolas de samba em diferentes roteiros e guias publicados. Eu aprovo a idéia, e quero mais, em todo o Brasil. De volta a Sergipe, percebi que esse resgate da folia livre também se fez presente, mas isso já é tema para outro texto.


O texto que você acabou de ler faz parte de uma série sugerida e organizada pela comunidade do Overmundo. A proposta é construir um panorama do Carnaval do Brasil, sob a ótica de colaboradores espalhados por todo o país. Para ler mais relatos sobre o assunto busque pela tag carnaval-2007, no sistema de busca do Overmundo.

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Egeu Laus
 

Beleza, Marcelo. Fechando com chave de ouro os textos sobre o Carnaval 2007. Mais alguém aí?
Abraço!

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 3/3/2007 01:35
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Rita Afonso
 

Ei Marcelo, ficou bem bacana!

Rita Afonso · Rio de Janeiro, RJ 3/3/2007 12:24
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Felipe Obrer
 

Marcelo, gostei muito de ler teu texto. Leve, fluido e informativo. Deu pra imaginar umas cenas.
Abraço e parabéns.

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 5/3/2007 10:51
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Marcelo Rangel
 

Quase que não sai, né, Egeu! rsrs
Rita e Felipe, valeu mesmo, despretensiosamente fui reunindo observações, reflexões e informações, que bom que gostaram.
Obrigado e abraços a todos!!

Marcelo Rangel · Aracaju, SE 5/3/2007 19:52
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Denys Leao
 

Valeu Marcelo... Refletir sobre o seu texto é descobrir que o brincante está dentro de nós... E pra que arquibancada se a plateia faz parte do espetáculo, não é?
grande abraço
Denys Leao

Denys Leao · Aracaju, SE 5/3/2007 21:57
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Nino Karva
 

Caro Marcelo,
Que texto bonito! Juro que me emocionei várias vezes. Tive oportunidade de conhecer um pouco do caraval de rua do Rio, faz uns 15 anos e pude observar um pouco dessa espóntaneidade e beleza. Claro que a cena era outra e alguns blocos citados ainda nem existiam, mas o gene dessa magia do carioca é o mesmo. Ê povinho danado de bom! Parabéns, "cumpade"!!

Nino Karva · Aracaju, SE 6/3/2007 11:00
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Clarice Mota
 

Olha aí, belo Marcelo, um voto especialmente de New Jersey prá voce, meu amigão! Gostei de ver e adoraria ter estado presente nessa carnavalança toda! Haja folego! Muito bom o artigo, muito bem escrito, não é atoa que voce é o meu tradutor! Beijos, Clarice

Clarice Mota · Maceió, AL 6/3/2007 22:48
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André Teixeira
 

Salve Marecelo!!!
Parabenizo-o pela amplitude desse seu escrito. Muito bom!!!
Compartilho da mesma opinião do Denys Leão que "o brincante está dentro de nós", ou que o "carnaval é estado de ESPÍRITO", como bem exemplificastes ao falar de Dona Didi, ao sambar do alto de seus 80 carnavais! É uma imagem e tanto!!! Emocionante, realmente. Valeu!!!
GRANDE abraço!!!
A.T.

André Teixeira · Aracaju, SE 7/3/2007 15:05
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Marcelo Uchoa
 

Poxa!!! parabéns Marcelo!!!! O "poxa" é que fiquei com um pouquinho de "inveja"... Deve ter sido muito legal curtir e acompanhar tudo isso.... O texto nem preciso comentar.... Tá muito legal..... Parabéns, mais uma vez!!!!!

Marcelo Uchoa · Aracaju, SE 7/3/2007 20:10
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Suyene
 

Oi, Rangel, td bem??? Ao ler seu texto, lembrei-me de nossa empreitada no carnaval carioca do ano passado. Prometi a mim mesma, que voltaria este ano para um bis, mas não deu. Quem sabe, no ano que vem, né?
Mas você foi bem feliz ao elaborar essa descrição do que é um bloco de rua no Rio, a emoção de segui-lo, enfim, a essência do carnaval carioca. Quem nunca foi, fica com água na boca. Quem já conhece, fica com o coração na mão.
Bj grande e até o ano que vem, quem sabe, seguindo o Cordão do Boitatá...
Suyene Correia

Suyene · Aracaju, SE 8/3/2007 09:10
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O Banga bem que tentou, mas não conseguiu evitar a multidão zoom
O Banga bem que tentou, mas não conseguiu evitar a multidão
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