Primeiros Passos e um vexame (reminiscências)

desculpa, senhor fotografo, não tem como saber seu nome.Sei que meu pai te pagou
Foto daquelas tiradas na escola por fotógrafos que querem dinheiro
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Bruna Célia · Goiânia, GO
20/9/2007 · 115 · 13
 

Pintura verde, janelas grandes, salas amplas e cadeirinhas também verdes. Na entrada, um portão gradeado e uma área que, tenho certeza, já tinha sido uma garagem. Era ali eu que esperava, por mais de uma hora, meus pais me buscarem, brincando com massinha e fazendo os mais estranhos desenhos, rolando no chão.

Chamava-se Primeiros Passos, um nome bem característico de escola para crianças. Foi nesse espaço que começaram os meus estudos, no então chamado Jardim II, em 1991. E até à oitava série do Ensino Fundamental foi assim: Bruna e seu irmãozinho mais novo, quase sempre, ficavam esperando seus pais até a hora em que os alunos do período vespertino começavam a chegar.

A Escola era particular e localizava-se no setor Itatiaia III, próximo ao aeroporto de Goiânia, cidade, para mim, maravilhosa, capital do Estado de Goiás. Tia Zizita, a diretora, e tia Lílian, a professora, estão na minha memória até hoje. Num passado não muito distante chamávamos, aqui em Goiás, as nossas professoras de tias. Aliás, acredito que no Brasil inteiro era assim. Não se usa mais isso.

O edifício escolar ficava num lote de esquina. À direita havia um pátio enorme onde eu passava os períodos de recreio brincando e pulando. Foi neste lugar que ocorreu um vexame infantil que insiste em não sair da minha memória.

A escola toda preparava-se, com antecedência, para homenagear as mães no seu dia. Vários esquetes foram montados para permitir a apresentação de muitas crianças – os pais adoram ver o desempenho dos próprios filhos (e criticar os dos filhos dos outros).
Fui escolhida para ser a mãe numa peça teatral. Meu papel consistia em dizer em frente a um tanque imaginário “Lava a roupa todo dia, que agonia” . Muito treinei, ensaiei e representei no palco mais aconchegante do mundo - a sala da minha casa. Meu pai e minha mãe adoraram (os pais sempre adoram, não é?) Acho que passei semanas ensaiando.

Eis chegada a hora. O pátio (aquele, à direita) todo lotado por pais e mães de alunos sentados em cadeiras cuja cor não me lembro (sei que não eram verdes), o palco montado em frente a todos e o locutor (ou locutora?) chamando a "mãe" Bruna e o restante dos atores daquela peça.
Eu estava vestida com uma roupa qualquer e um avental da minha mãe. Entrei. As mãos suadas e o rosto abaixado indicando que eu estava morrendo de vergonha. Depois de explicado o que seria a peça - que era um homenagem e tal - foi dado o toque para que eu começasse a cantar enquanto fingia lavar roupa.

Travei!!! Não consegui cantar. Não consegui falar. Não me mexi. Só pensava em sair correndo.

Não sei dizer quanto tempo demorou aquele constrangimento. Só sei que minha mãe deve ter rezado para eu soltar alguma palavra. Coitada!! Ainda bem que em casa eu tivera a coragem de representar a pequena fala e o presente, para ela, já havia sido dado.

Consegui sobreviver e até superar, bastante, a timidez. Fiz amigos e consegui me socializar. Mas o trauma relativo ao Teatro permanece. Já me arrisquei a subir nos palcos algumas poucas vezes, mas nenhuma delas com muito sucesso. Prefiro mesmo é assistir peças e depois contar como foi o desempenho dos atores, tornar-me escritora ou jornalista!

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Joca Oeiras, o anjo andarilho
 

Querida Bruna:
Talvez nem tentando você se recorde, mas gostaria que fizesse um esforço para tentar lembrar porque foi escolhida para o papel. Só porque era (e, aliás, ainda é) linda? Ou houve algum outro critério? Vc sabe dizer se o seu papel era o principal? E as outras crianças? Vocês nunca ensaiaram na escola? Já aprendeu a lavar roupa?(brincadeira)
Alguém, que vc lembre, "pegou no seu pé" pelo vexame? Enfim, meu bem, teu texto tem gosto de quero mais e este negócio de acusar o público de impaciência não cola mesmo.
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho
PS Nós temos muito tempo. Vamos esticar as cordas da sua memória o máximo que for possível. Afinal, elas são, ainda, tão novinhas!

Outra coisa, eu estava adorando a sua descrição da escola. Não dá pra continuar, antes ou depois do vexame? Mas Bruna, descreva-a como ela era pra você. Não relativize que acaba perdendo força expressiva ( vc sabe a história de Gulliver)

Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI 18/9/2007 00:40
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crispinga
 

Bruna Lindinha,
Talvez seja este o objetivo dos nossos queridos editores. Fazer uma comparação com a Escola de hoje e a de ontem...Não deixe de participar. A tia Cris vai adorar ler suas recordações...rsrs
BJS

crispinga · Nova Friburgo, RJ 18/9/2007 09:48
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Joca Oeiras, o anjo andarilho
 

Querida Bruna:
Continuo esperando a continuação da descrição da escola, bem como os detalhes mais "picantes" do vexame. Some não!
E olha, menina, parece que a Crispinga não gostou muito de ser chamada de velha no mesmo saco comigo. Senti um que de mal escondida ironia naquele "Tia Cris" rsrsrsrsrs
E realmente, Bruna, eu quase poderia ser pai da Crispinga, o que me honraria muito, diga-se de passagem.
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho

Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI 18/9/2007 15:52
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Bruna Célia
 

ehehhehe

adoro vocês! Agora tô sem tempo! Ainda tenho 31 horas para consertar.. ehehe
e daqui a pouco uma aula de Sociologia da Comunicação.. afeee....

Bruna Célia · Goiânia, GO 18/9/2007 15:57
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Joca Oeiras, o anjo andarilho
 

E aí, Bruna, como ficamos?
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho

Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI 19/9/2007 09:07
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crispinga
 

Joca,
Eu adoraria ser sua filha e tia da Bruninha...Só não envelhece quem morre jovem e as experiências de quem já viveu quase meio-século...Dá para escrever um livro...De 5 capítulos...
Beijos em cada bochecha, BJOCA
CRIS

crispinga · Nova Friburgo, RJ 19/9/2007 10:42
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Bruna Célia
 

Linda! Adoro vc e o Joca... são pessoas que não me deixam desistir de participar do overmundo... já desanimei uma vez, mas agora fico até o fim!

Beijo bem grande, Cris!

E Cadê você, JOCA? Melhorei o texto por sua causa! Vem me ajudar!

Bruna Célia · Goiânia, GO 19/9/2007 16:20
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baduh
 

Bruna.
Vim, vi, gostei e votei.
Um abraço do,
Baduh

baduh · Rio de Janeiro, RJ 20/9/2007 04:16
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Nydia Bonetti
 

Muito Bom, Bruna! Vim para arquivar! Não desista nunca nem do overmundo, nem de escrever... Abçs...

Nydia Bonetti · Piracaia, SP 20/9/2007 23:01
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Bruna Célia
 

Não desisto mesmo... posso estar na correria que passo aqui para dar nota, ajudar a editar e publicar também!!!!!!!

abraços!

Bruna Célia · Goiânia, GO 22/9/2007 07:55
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Ize
 

Adorei Bruna. Entendo tão bem vc. Ás vezes tb penso, não em desistir, mas em ficar aqui só filando as leituras de mansinho, aproveitando do talento de overmanos e manas e ir saindo de fininho...Pq o tempo que dá pra eu ficar aqui, e isso deve ser igual pra todo mundo, é o que eu tiro da praia, do cinema, das leituras, do namoro, do sono (ai que sono que estou agorinha mesmo que virei a noite trabalhando). Mas aí eu abro esse mundão e é um tal de gente transbordando e aí eu me perco por aqui e acabo esquecendo o resto. E tb tem o projeto do Joca com o qual eu me impliquei. E disso eu jamais abriria mão.
Bem, mas foi pra elogiar seu texto que vim aqui. É ótimo como tudo que vc escreve pq vc tem uma imaginação fértil e uma escrita que prende e seduz.
Beijos

Ize · Rio de Janeiro, RJ 4/10/2007 15:54
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Letícia L. Möller
 

Oi Bruna,
adorei ler tuas lembranças... muito gostosos esses textos.
Achei que seria eu a escrever as lembranças mais recentes... (fiz o jardim em 1983-85)! Cheguei mesmo a conversar com o Joca e a Ize sobre isso, pois não sabia se seria interessante um texto de lembranças dos anos 80. Agora, lendo o teu texto, vejo que nossas recordaçoes não tão distantes tambem tem o seu sabor.
Um beijo, e siga sempre escrevendo,
Leticia.

Letícia L. Möller · Porto Alegre, RS 5/10/2007 10:04
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Andre Pessego
 

Bruna, menina bonita de Palmas. Palmas para ti.
Só hoje li tuas lembranças. Aliás quão belas. Contadas com sequidão de uma grande escritora.
Quase nem termino de a ler, vendo a boniteza e a timidez, o sufoco no palco. Lembrando que também tive minhas incursões nos "dramas", assim se chama o "teatro" em Gilbués.
E é assim, a vaidade, a vontade, o "orgulho" que satisfazem
os adultos não os deixam perceber - toda criança ser igual, rigorosamente igual. Muito lindo, muito bom o contar, como disse com o rigorismo duma grande escritora,
um abraço, andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 13/10/2007 15:27
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