Princesinha do Café procura novo consorte

Egeu Laus
Panorâmica da praça principal no Centro Histórico
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Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ
11/8/2007 · 263 · 21
 

A 116 km do centro do Rio, indo para o oeste, a um pouco mais de 400 metros de altitude, na região Centro-Sul Fluminense, na margem direita do Rio Paraíba do Sul, mais ou menos na metade do seu curso para o mar, mora uma princesinha. A Princesinha do Café, apelido que recebeu há muito tempo atrás, quando era cortejada pelos barões plantadores de café no auge de seu poder por volta da metade do século 19.

Naquele tempo, a economia nacional era o café e perto de 70% de sua produção vinha de suas terras que incluíam desde os atuais municípios de Paty do Alferes e Miguel Pereira até parte de Paracambi. Para se ter uma idéia da riqueza da princesinha, o Brasil exportava em 1830 perto de 484 mil sacas. Dez anos depois já exportava perto de 3 milhões e quinhentas mil. Em 1850 o Brasil já era o maior exportador mundial de café. O ouro verde.

A princesinha vivia cercada do luxo, do requinte e da riqueza imperial. Dizem que Companhias de Teatro vinham da Europa especialmente para seu deleite e de seus convidados. A princesinha gostava de exclusividade e pagava um extra para que as companhias, ao voltar ao Rio de Janeiro, embarcassem para a Europa diretamente, sem nenhuma outra apresentação no Império do Brasil. Os barões do café formavam uma aristocracia rural morando na província, que se dava até ao luxo de esnobar um pouco a Corte, embora todo o café saísse pelo porto do Rio. A princesinha se preocupava mais com festas na cidade, em palacetes iluminados por lustres de cristal da Boêmia. O vinho e a champagne eram importados, lógico. Afastadas ficavam as imponentes fazendas com suas amplas casas-grandes ao lado de lagos e suas extensas filas de adolescentes palmeiras imperiais.

A cidade crescia e com ela um enorme contingente de serviços ligados ao comércio do café mas também por ser local de entroncamento das estradas e linhas da região, levando mercadorias, servindo viajantes e tropeiros. Mercearias, estalagens, hospedarias e pensões surgem sem parar. Por trás de tudo isso, o trabalho escravo, que faz com que a cidade chegue a ter, em determinado momento (censo de 1851), num universo de 28 mil e 638 habitantes, um total de 19 mil e 210 escravos. Bem mais da metade da população.

Mas todo período de crescimento, por mais que dure, tem um fim. E o preço por todo esse fausto imprevidente foi caro. A natureza, a primeira da fila, apresentou sua fatura: a princesinha descobriu que cerca de 50% de suas terras já não podiam produzir mais nada a não ser pasto. Os escravos são libertos depois de várias insurgências que tiveram na revolta de Manuel Congo, escravo da região, um de seus líderes mais contundentes. A produção do café na província de São Paulo, apoiada no novo braço do imigrante e com melhor tecnologia cresce continuadamente. Finalmente, em 1894, a produção de café fluminense já estava em 20% da produção nacional. Enquanto a província foi poderosa, o Império brilhou. Quatro anos depois ele se extingue com a chegada da República.

A princesinha, na virada daquele século, vê no comércio e nos serviços uma saída para sua sobrevivência, ao lado da agricultura mais diversificada, com produtos agrícolas variados, principalmente o tomate, mas também o milho, a cana, o arroz e o feijão, além do gado de corte e o leite. A Estrada de Ferro Central do Brasil é o principal escoadouro e espinha dorsal dessa produção muito mais modesta, porém mais diversa. A crise internacional de 1929 contribui para abalar também a economia da região, seguida da revolução de 30 e mais tarde a Segunda Guerra Mundial. Apesar disso, a princesinha atravessa a primeira metade deste novo século em relativa bonança com o surgimento de hotéis e novos moradores à procura de busca de novos ares mais limpos, longe da crise sanitária da Capital da República. No entanto, ainda continuava em busca de sua nova vocação.

Os tempos eram outros e o antigo fausto e riqueza já se perdiam no horizonte quando, para além da metade do século 20, a Princesinha conhece um Severino cearense que iria modificar sua vida. Era um militar e professor, formado na Escola Militar de Realengo, fascinado pela força da educação e dos projetos pedagógicos como instrumento de segurança nacional desde que era capitão e redator da seção de pedagogia da revista do Exército Defesa Nacional, em 1935.

Severino Sombra de Albuquerque, general de Exército, instala a primeira Faculdade de Medicina na região, em fins de 1969, atendendo principalmente a militares veterinários do Posto de Exército de Paty dos Alferes, cidade próxima. No ano seguinte instala um Hospital Universitário e mais tarde 15 postos de assistência médica na zona rural. Em 1975 se consolida a Fundação Educacional Severino Sombra. Um grande campus é criado, outros cursos surgem na Fundação (História Social recentemente é um deles) e a princesinha descobre sua nova vocação.

Alunos surgiam do Brasil inteiro para estudar na cidade, uma das primeiras universidades regionais do país. O curso de Pedagogia agregou o maior contingente de estudantes de Santa Catarina de que se tem notícia. Os aluguéis na cidade disparam e uma vaga para estudante era o preço de um apartamento no Rio de Janeiro. Nos anos seguintes os médicos formados na Universidade trabalham nas cidades em torno mas moram ali, e suas famílias contribuem para o desenvolvimento da cidade. Diz a lenda que uma parte considerável do comércio local de miudezas, lembranças e presentes, em uma determinada época, era dirigida por mulheres de médicos.

A princesinha vive alegre em meio ao seu segundo grande período de crescimento. Mas, já entrando no século 21, num mundo globalizado, com o crescimento das inúmeras demandas urbanas e populacionais no interior do desenvolvimento local, surgem novas questões a serem enfrentadas. Com a facilidade para a abertura de universidades regionais em todo o Brasil nos anos posteriores a 1980 e principalmente nos últimos 10 anos, a Fundação, embora ainda forte e estabilizada, sofre um decréscimo considerável em suas matrículas vindas de outros estados, agora com muito mais alunos da própria região e grande parte deles com menor poder aquisitivo.

A princesinha olha para seu futuro em busca de um novo consorte. Dizem que ela está namorando a Cultura. Alguns acreditam, outros, acham que ela está apenas “ficando”.

Quem achou que a Cultura podia ser um bom partido para a princesinha foi o Turismo. A antiga memória imperial se manteve preservada parcialmente na arquitetura das fazendas do café e nas construções do Centro histórico da cidade. Isso só foi possível por conta de uma luta de 50 anos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN, com o tombamento do Centro Histórico em 1958 (e ajudado mais tarde pela lei que transformou a cidade em Estância Turística). O seu Escritório Técnico, hoje instalado no Museu Casa da Hera, palacete também tombado, enfrentou cerrada oposição dos moradores na primeira década, mas teve enfim seu trabalho reconhecido com a atuação firme de sua diretora, desde 1984, a mestre em arquitetura Isabel Rocha.

A influência francesa, presente no Império, retorna agora com as idéias do Agroturismo, desenvolvido na França há mais de 40 anos. Duas entidades foram criadas para se pensar o desenvolvimento sustentável do Vale do Paraíba fluminense, tendo como espinha dorsal o turismo. O ConcicloConselho de Turismo da Região do Vale do Ciclo do Café, e o PreservaleInstituto de Preservação e Desenvolvimento do Vale do Paraíba, com foco nas questões do patrimônio histórico, cultural e ambiental da região. As fazendas, algumas transformadas em hotéis e outras abertas à visitação, tentam fazer do turismo histórico-cultural parte substancial de seu novo negócio.

A princesinha ainda não tem certeza de sua nova posição, pois se agroturismo pressupõe responsabilidade sócio-ambiental, ela não parece estar disposta a sujar as mãos nesta jardinagem: Segundo o Tribunal de Contas do Estado, enquanto as pastagens representavam 49,4% do uso do solo, as florestas diminuíram sua área de 16,6 para 9,6% segundo dados de 2001. O assoreamento das colinas próximas é visível, e o desbaste pelo fogo parece ser ainda uma prática comum. O “mirante” do Morro da Vaca, próximo ao centro da cidade, mencionado nos folhetos como ponto turístico, é um descampado arenoso necessitando de vegetação e cuidados.

Se não há movimentos visíveis em defesa da questão ambiental, Cultura como fator de desenvolvimento integrado e participativo ainda é expressão confusa na cabeça da princesinha. Para alguns, no entanto, não há opção melhor. Ricardo Plastino, ex-Secretário de Planejamento da administração municipal anterior, afirma que só um Plano Diretor Participativo com um de seus focos na Cultura e outro na Educação poderá dar um novo sentido a vida da princesinha.

O próprio IPHAN, junto ao Programa Monumenta, estimula iniciativas nessa direção como deixou claro no seu projeto de apoio ao Festival Vale do Café (principal iniciativa para o turismo na região) onde incluía entre seus objetivos resgatar as tradições culturais locais e integrar e valorizar a comunidade negra, através de um Núcleo de Apresentações e Palestras, um Núcleo de Cursos e um Núcleo de Tradições do Vale. Além da arquitetura do século 19, para além da pedra e cal, o “Patrimônio Imaterial deve ser resgatado e incentivado”, diz o projeto.

A harpista Cristina Braga, que junto com o violonista Turíbio Santos, teve a idéia do Festival, em 2003, fez questão, desde o primeiro momento de integrar, de alguma forma, as tradições populares ao Festival. Mas, mais que integrar, há que fomentar e dar autonomia a esses grupos. André Jacques Monteiro, estudante de História, Griô Aprendiz do projeto Raízes do Vale que congrega os grupos de tradição popular ao projeto Ação Griô de valorização da tradição oral, do Ministério da Cultura, tem batalhado nessa direção.

A administradora Celia Pinheiro Moreira e o maestro Claudio Pereira Moreira, o casal à frente do PIM – Programa Integração pela Música, projeto chancelado pela Unesco que atende a mais de 800 jovens da região, e responsável por todos os cursos de música durante o Festival, percebem a importância dessa integração comunitária. O jornalista local João Henrique Barbosa em artigo na Tribuna do Interior, jornal da região, aponta na mesma direção: “Mais que business, o Festival Vale do Café já faz parte do coração e da alma de Vassouras. É preciso ter vida longa.”

Resta saber como a princesinha irá perceber e conciliar esses novos conceitos. Parece não haver outra saída. De outro modo estará condenada a vagar indefinidamente qual um espectro pelos esparsos bosques das cercanias, tarde da noite, envergando seu traje nupcial e com uma lâmpada na mão, como reza uma antiga lenda da cidade de Vassouras.



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FILIPE MAMEDE
 

Que texto bacana Egeu. Você agregou história, economia, literatura... contextualizado e muito inventivo. O Spírito postou aqui também um texto excelente sobre a questão do Manuel Congo. Muito interessante.

Um abraço Egeu.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 8/8/2007 16:42
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Egeu Laus
 

A resenha do Auto de Manuel Congo, projeto teatral ainda inédito para a cidade de Vassouras, pode ser lido aqui.

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 8/8/2007 18:02
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Spírito Santo
 

Egeu,
Bacana o texto e as informações. Gostaria até de colaborar inserindo aqui este link, que acrescenta informações detalhadas (embora refletindo opiniões pessoais) sobre a revolta de escravos comandada por Manoel Kongo e o potencial da cidade para o turismo cultural, a partir do resgate de seu passado histórico (com seus dois lados, o bom e o mau, representados igualmente).
Gostaria também de obter mais informações sobre a Ação Griot local, em Vassouras mesmo (o trabalho do André Jacques Monteiro, mais precisamente) já que o link atual informa apenas a ação genérica, do Minc em Pontos de Cultura.
Mais uma vez parabéns pela iniciativa altamente informativa.

Abs,

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 9/8/2007 07:56
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mariana varzea
 

Egeu,

Vassouras e o Paraíba são paisagens de minha memória, pois lá estive diversas vezes. Vivas a Cristiana Braga que cultiva o melhor nas terras do café.
abs,

mariana varzea · Rio de Janeiro, RJ 9/8/2007 10:42
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mariana varzea
 

Egeu,

Vassouras e o Paraíba são paisagens de minha memória, pois lá estive diversas vezes. Vivas a Cristiana Braga que cultiva o melhor nas terras do café.
abs,

mariana varzea · Rio de Janeiro, RJ 9/8/2007 10:42
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Nivaldo Lemos
 

Egeu,

Seu texto me levou a uma viagem imaginária pelo Vale do Paraíba Fluminense. Quase pude sentir a brisa matinal da serra, as águas que cortam os antigos latifúndios lambendo seus leitos como se a aliviar as dores de seu passado escravagista. Um belíssimo texto, recheado de links informativos e à altura de seu talento e sensibilidade.

E foi exatamente clicando no link de Vassouras que conheci uma história incrível, com certeza merecedora de uma futura matéria sua (isso é uma sugestão e um convite). Falo do Cemitério Nossa Senhora da Conceição – que fica na Praça Cristóvão Corrêa e Castro, em terreno doado pela Irmandade Nossa Senhora da Conceição e construído em 1848 para servir de repouso eterno aos membros da Irmandade. Pelo que li, a história é rica e cheia de curiosidades. Um delas me fascinou: a ocorrência da flor de carne, uma espécie rara em forma de coração que só abre apenas na época de Finados no túmulo do Monsenhor Rios, um padre mineiro ali sepultado e considerado por muitos milagroso. Já pensou essa história contada por você? Pense no assunto, amigo.

Meus parabéns pelo delicioso e superbem escrito texto.

Um abraço

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 9/8/2007 16:16
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Nivaldo Lemos
 

Egeu,
em tempo: as fotos também estão ótimas. Fiquei com vontade de conhecer a cidade.

Abraço.

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 9/8/2007 16:22
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Bernardo Carvalho
 

egeu, achei muito bacana. casa perfeitamente com teu ultimo texto e com o texto do spirito. dá uma vontade danada de conhecer...

Bernardo Carvalho · Rio de Janeiro, RJ 9/8/2007 17:23
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Egeu Laus
 

Aguardem mais Vassouras chegando. Aliás, overmanos e overminas: comecem a visitar o interior dos seus estados. tem muita coisa linda para ser mostrada...

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 9/8/2007 17:47
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João Henrique
 

Egeu, muito bom o trabalho. Apresentando para os freqüentadores do Overmundo este pedaço tão bonito como interessante deste nosso Brasil. As várias facetas de Vassouras foram aí descritas com seu olhar atento. Falta a Vassouras uma visão mais estratégica, governos mais atentos a planejamento e uma mobilização maior de sua sociedade. Temos um enorme potencial turístico, uma história riquíssima e até uma Universidade para ajudar-nos a escolher os nossos caminhos. Recentemente, um Plano Diretor quase clandestino nos roubou algum tempo, alguma oportunidade. Mas o jogo ainda não acabou. A princesa, que é mestiça, adora Jongo, não perde uma apresentação de Folia de Reis e se orgulha do seu patrimônio tombado, merece um final feliz. Lendo você, que nem mora aqui, só nos aumenta a responsabilidade de lutar por esta moça que faz 150 anos em setembro. Aos cariocas -- e a todos os brasileiros, mas aos cariocas pela enorme proximidade -- um aviso: subam a serra que não se arrependerão.

João Henrique · Vassouras, RJ 9/8/2007 18:46
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Carlos Henrique Machado
 

Carlos Henrique Machado · Volta Redonda, RJ 9/8/2007 22:49
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Carlos Henrique Machado
 

Querido Egeu
Parabéns pela belíssima matéria sobre esta região tão rica em cultura e tradição feita por este povo cheio de poesia.
Um grande e afetuoso abraço e obrigado pelo convite.

Carlos Henrique Machado · Volta Redonda, RJ 9/8/2007 22:53
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Egeu Laus
 

Carlos Henrique, é um prazer tê-lo por aqui.
Gostaria muito que você falasse sobre o seu trabalho e trouxesse também notícias de Volta Redonda.
Abraço e seja benvindo!

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 9/8/2007 23:12
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Carlos Henrique Machado
 

Querido Egeu
Falar do nosso trabalho, é sempre um prazer, pois o "Vale dos Tambores" é um projeto que propõe uma discussão, aliás, gostamos de enxergar os projetos que fazemos, como o próximo, "Força Bruta" um componente político, uma ferramenta de comunicação, caminhos que deram origem à arte. Isso faz com que a gente se mantenha em constante discussão sobre o projeto, ele não finda, é um organismo vivo como o choro, que é o foco central do trabalho, que tem como característica, essa dinâmica antropofágica. O processo cria picadas para novas discussões. Esta sua bela matéria sobre Vassouras, traduz bem o próprio espírito do Vale dos Tambores. O Vale do Paraíba guarda particularidades que se mantém vivas desde o ciclo do café, que são, a dinâmica entre o rural e o urbano, entre a aristocracia cafeeira e o império e os ecos da cultura de todo este processo. A grande massa humana de períodos tão controversos que foram, o ciclo do café no século XIX e, já no século XX, o ciclo industrial, dá uma hegemonia estética a toda a bacia do Vale. A bacia sem as cercas políticas, a bacia que só a poesia de um rio e seus afluentes podem trazer, distante do querer do homem, obedecendo o traço, o santo traço de traição das organizações geográficas. A bacia do rio Paraíba toda, plena, caminhou a seu modo. Essas águas que cantam os cantos ancestrais de Clementina de Jesus, Tia Eulália, Vó Maria, trouxeram para o entorno de suas margens, pássaros que inspiraram sopros mágicos nas flautas de Altamiro, Patápio, Lenir Siqueira e o trumpete de Bonfíglio de Oliveira que, ladeado com o som do Mississipe, com os ecos de Louis Armstrong, ecoaram o som da principal nascente do rio Congo. Mano Elói, Natal da Portela, Roberto Ribeiro, Ary Barroso, Herivelto Martins, Martinho, são um misto desse manancial de sons que, ao longo de toda a bacia, ecoaram os jongos de Tamandaré, do Quilombo da Fazenda São José, de Pinheiral e de tantos outros. Esses mesmos negros batuqueiros, após a abolição, vão se ocupar em criar a maior de todas as celebrações que a cultura pode ter, o carnaval carioca. Mas deixaram antes uma pérola, talvez, a maior de todas. Imaginarmos condensados, num mesmo foco, catira, calango, jongo, toada, ciranda, moçambique e congada, lundu, curimba e tantas outras infinitas manifestações de que o Vale foi palco ao longo de sua história; do cururu do índio à sofisticação de Tânia Maria e Egberto, do beliscar das machetes e violas de Baden, Rosinha e Dilermando em seus violões. Tudo isso, talvez, Egeu, se traduza em um nome, Manuel Congo, um herói no Vale, um símbolo de resistência que pode ser ouvido nos coretos até hoje pelas centenárias e magníficas bandas, Euterpe de Pinda monhangaba e Santa Cecília Arrozalense com o seu representante que é a própria encarnação desta poesia, Maestro Jacy, há 67 anos à frente desta banda que foi escola e palco do principal compositor de dobrados, Pedro Salgado, autor de um dobrado que é o hino de toda esta riqueza das bandas de coreto, "Dois Corações". Quando digo que Manuel Congo simboliza o Vale, digo que ele é um emblema de resistência de todo o povo mestiço que habitou e habita as águas do Vale. O dobrado foi, através das bandas de escravos, o primeiro levante de resistência de uma cultura que já tinha sido determinada pelos próprios escravos que ocupavam as bandas, pelos índios, caboclos, caiçaras, pelas formidáveis poesias do imaginário que o ilustre Monteiro Lobato soube ler, numa aparente, só uma aparente conflitiva imagem entre ele e o pós-modernista Flávio de Carvalho num momento da história, mas o cerne dos dois é o mesmo. A poesia no Vale é um processo tão humano, que consegue a atmosfera lúdica e recompõe, a seu modo, os representantes dos horrores da escravidão, da extinção dos índios, da derrocada econômica que jogou o Brasil a um ostracismo, invertendo posições de superiodade em relação aos Estados Unidos no início do ciclo do café e, após o seu término, os barões, os famintos e os pouco dotados gestores de desenvolvimento, que ainda conseguiram, através de uma miragem, serem transformados em figuras acima do que a história real lhes permitia, porque jogaram o Brasil a uma condição econômica doze vezes menor que os Estados Unidos. É assim o Vale, entre o real e o imaginário, um verdadeiro palco, pronto para o grotesco e o lúdico. Um Vale sem barreiras, este é o caminho. Um Vale que inspira uma figura tão importante como você na história da música brasileira, como operário e militante em prol do homem universal através de seus direitos universais, a sua cultura, nos dá a certeza Egeu, que, com o carinho que você falou de Vassouras no contexto amplo que a sua paisagem narra, as águas deste rio tão importante para a economia e cultura brasileiras, só podem ter vindo dos céus, de uma nascente que mistura dor e paixão, poesia e esperança, numa lágrima de Deus. Ali nasce as sonoras águas da Bacia do Rio Paraíba.
Um grande e afetuosos abraço dos amigos,
Carlos Henrique e Cele

Carlos Henrique Machado · Volta Redonda, RJ 10/8/2007 11:00
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Egeu Laus
 

Carlos,
Sugiro voce preparar um artigo sobre o Vale dos Tambores para publicar no Overblog (já que o espaço para comentários é reduzido). Se precisar de ajuda conte comigo.
Abraço!

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 10/8/2007 11:13
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Carlos Henrique Machado
 

Querido Egeu
Agradeço a possibilidade de um artigo sobre o Vale dos Tambores. Por isso, peço-lhe a gentileza de enviar para o meu email: chorobrasileirocarloshenrique@yahoo.com.br, o seu endereço para que eu possa remeter-lhe o estojo Vale dos Tambores. Assim, imagino que você mesmo possa escrever sobre o projeto.
Um grande abraço.

Carlos Henrique Machado · Volta Redonda, RJ 10/8/2007 12:02
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Isbel Rocha
 

Carlos Henrique, que maravilha de texto - parece até que estou ouvindo os Tambores do Vale.
Egeu, vc tá conseguindo reunir pessoas da maior importância para a cultura no Vale do Paraíba.
Parabéns

Isbel Rocha · Barra do Piraí, RJ 10/8/2007 14:57
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Carlos Henrique Machado
 

Um GRANDE BEIJO Isabel, estamos com saudades eu e Celeste

Carlos Henrique Machado · Volta Redonda, RJ 10/8/2007 20:02
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baduh
 

Egeu.
Foi um belo trabalho. Estás de parabéns! Li com prazer e muita curiosidade. Espero que você continue a nos brindar com textos deste quilate.
Grande abraço e fique bem!
Baduh (Fernando)

baduh · Rio de Janeiro, RJ 11/8/2007 08:05
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Guilherme Mattoso
 

egeu, parabéns pelo texto. muito bacana!

Guilherme Mattoso · Niterói, RJ 12/8/2007 17:25
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Spírito Santo
 

Começando a contar o que vi e vivi: http://www.overmundo.com.br/overblog/vale-negro-festa-folia-e-festim-01

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 7/9/2009 10:17
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O Museu Casa da Hera, que mantêm importante coleção de trajes franceses. zoom
O Museu Casa da Hera, que mantêm importante coleção de trajes franceses.
Detalhe dos jardins da fazenda histórica de São Fernando, na região. zoom
Detalhe dos jardins da fazenda histórica de São Fernando, na região.
Colina próxima ao centro da cidade bastante assoreada. zoom
Colina próxima ao centro da cidade bastante assoreada.
Um domingo na Praça Barão de Campo Belo. zoom
Um domingo na Praça Barão de Campo Belo.
Encerrando o Festival Vale do Café 2007 – ao fundo a igreja do século 19. zoom
Encerrando o Festival Vale do Café 2007 – ao fundo a igreja do século 19.

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