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prisioneira da miséria que é ser artista no brasil
andrea dutra · Rio de Janeiro (RJ) · 10/4/2008 18:08 · 97 votos · 15 comentários ·  
 
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overponto
diogo montes
“Você só canta ou você também trabalha?”
Estou enjaulada nesta condição de artista carioca. Estou prisioneira desta miséria que é ser (boa) artista no Brasil. Nasci no Rio de Janeiro, em Ipanema. Estudei aqui, trabalhei aqui, aprendi a viver e a ser alguém aqui, construí a minha carreira aqui. Sendo boa cantora, tendo personalidade artística e alguma cultura, tendo tido experiências múltiplas na música e na vida, tendo ralado e galgado degraus, tradicionais ou não, da carreira, do boteco ao Canecão, tendo me preparado pra exercer a minha profissão, tendo trabalhado ao lado de grandes e reconhecidos músicos deste país, tendo tido público, belas críticas, prêmios... Ainda assim não consigo viver de cantar na cidade onde nasci. Se eu quisesse ser mais artista que cantora, se eu quisesse mais o clima que a carreira, se eu tivesse gana de fama, talvez ainda pudesse esperar ganhar dinheiro. Desconfio que já ganhei o quinhão que cabe aos - quase todos - bons artistas profissionais brasileiros: prestígio. Sem fama e sem grana. Mas pra mim, prestígio é um chocolate recheado de coco.

Peço perdão ao rebanho d’O Segredo, mas cansei de repetir aos ventos e de visualizar minha agenda e minha platéia lotadas, muito público pagante sem desconto, minha conta bancária no azul, meus músicos com boas condições de trabalho, os discos tocando no radio e na TV, eu não precisando trabalhar com outra coisa pra pagar o aluguel, com tempo e cabeça pra me dedicar, pra estudar, podendo investir no meu trabalho e formação, pagando, com folga, todas as minhas contas com meu trabalho musical: bom, maduro, bem feito, com personalidade, cada vez melhor, ascendente. Projetei, mas acho que O Segredo não pega em músico brasileiro. Nos cariocas, certamente não pega. Se pega, dá prestígio. Grana não dá.

Depois de ter ganhado o Prêmio Tim ao lado dos meus colegas, de ter cantado no Ano do Brasil na França, de ter feito milhares de shows, pra milhões de pessoas, ao lado dos melhores músicos deste país, ainda acontece de eu não conseguir pagar minhas contas com música. Canto, sempre, sim. Fiz 24 shows em três meses. Oito por mês, dois por semana. Não é muito, mas não é pouco. Mas cantar não paga conta. Nem pensar numa loucura dessas, menina! Não tem onde colocar os músicos, o público carioca não faz mais esse programa, as casas não bancam música. Acabou. Não estou falando da Lapa, esse Baixo Gávea universal embalado a samba. Estou falando de todo o resto da cidade.

Onde está a rede que torna possível a atividade profissional do músico, ao lado da laia de técnicos de som, roadies, iluminadores? Estão todos parados? Como pode viver um artista sem desaguar sua arte? Pra poder criar mais, pra discutir, pra pensar, pra praticar, pra não parar de aprender. Experimentar: fazer fundamental pro artista. Como ter resultados sem praticar? Como? Como ser músico sem ter uma cena onde se inserir? A Lapa está cheia de sambistas acidentais por isso: porque há uma cena à qual pertencer.

Não quero reger o cordão dos ressentidos, não estou despeitada. Não considero a minha carreira um fracasso artístico, pelo contrário. Mas é um fracasso financeiro, enraizado na podridão deste país de ladrões. Como muitas outras carreiras, muitas carreiras de grandes talentos que conheço. Tenho ódio de sentir novamente este nó na garganta, essa infelicidade, essa sensação de incompetência, essa impotência. Tenho ódio da sensação de corda no pescoço, de beco-sem-saída. Tenho ódio de ver meus amigos-puta-músicos atrasando a mensalidade da escola dos filhos e tendo que ir negociar: “...é que eu sou músico...”. Meu cartão de crédito estourou, a moça ligou: “...a senhora é cantora, né? E não tem um emprego?...” Tenho ódio de escrever pra Europa pra sondar trabalho, pra morar em outra merda de cidade onde não quero morar, longe da minha casa, pra um dia na vida ter o prazer de viver do meu trabalho sem essa espada na cabeça. Não me superestimo, não quero uma limusine preta e 40 toalhas brancas. Quero trabalhar e ganhar por isso, como todo mundo. Tenho desprezo por quem pergunta: “Você só canta ou você também trabalha?” Tenho minha historia, meu roteiro, meu sucesso aqui. Quero ter um presente maravilhoso aqui. Quero poder ter um futuro brilhante, se for o caso. Quero respeito, mereço respeito, quero ser paga pelo meu trabalho. To prontinha pra trabalhar, tinindo, trincando. Quero ter onde trabalhar. Já joguei um monte de idéias no lixo por descrença. Já deixei de fazer milhares de coisas por falta total de recursos. Just like that. Foda-se, quem se importa? Eu me importo.

Mas eu não paro de trabalhar, não paro. Trabalho do jeito que for possível, sempre, porque antes de qualquer coisa eu sou cantora, esse é o meu trabalho. Esse é meu alimento e meu produto essencial: música. Tenho feito isso quase de graça e, se for necessário, continuarei fazendo. Mas sei que, neste mundo onde tudo se vende, eu deveria poder fazer música e ganhar um dinheiro justo sem ser a maior estrela do país. Eu e milhares de artistas brasileiros comuns, profissionais, que quase vivem do que fazem, quase pagam as contas, quase vão à falência, quase têm que largar tudo e ir trabalhar em outra coisa, todos os dias. Pra ter uma casa pra morar, uma família, uma vida.

Minha solidariedade aos colegas: que a jornada lhes seja prazerosa como a minha. E bem mais remunerada!

tags: Rio de Janeiro RJ cultura-e-sociedade cantora musica cantores musico artista artista-brasileiro carioca artista-carioca cache remuneracao bilheteria ingresso meio-ingresso lista-amiga


 
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Me junto ao seu grito.E voto para ver se a situação do artista brasileiro melhora.Um grande abraço.
clara arruda · Rio de Janeiro (RJ) · 9/4/2008 12:12 
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obrigada, clara! beijos e sorte!
andrea dutra · Rio de Janeiro (RJ) · 9/4/2008 13:19 
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É isso, Andrea! Tem razão em tudo! Ser músico dá orgulho, mas pavor... Meu filho nascendo, quereria que o fosse; mas torceria para compatibilizar um "emprego normal" (parafraseando a ignorância). A única coisa que eu posso fazer por isso, como todos nós, é continuar estudando, compondo, cantando. E ver no que dá fazer arte até a morte.
Um grande abraço!
basiliodaniel · Rio de Janeiro (RJ) · 9/4/2008 16:58 
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Andrea, faço parte do ABRACADABRA, um projeto que tem como objetivo principal quebrar essa barreira. Caso tenha interesse em obter o Manifesto e o esboço do Projeto, envie-me seu e-mail.

Abraços fraternos,

Paulo Esdras
Paulo Esdras · Salvador (BA) · 9/4/2008 18:56 
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daniel, quero ouvir seu som, meu computador rejeita myspace, manda pra mim por email? ou tem em outro canto pra eu ouvir seus sambas? me fala... bj
andrea dutra · Rio de Janeiro (RJ) · 10/4/2008 00:52 
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Olá Andrea!
Hum... já que não tem como acessar o myspace, pelo youtube tem como ver, apenas digitando "daniel basilio" na busca (aparecem 4 vídeos lá). Se não der certo, se seu computador não aceitar youtube, verei um jeito melhor!
Beijos
basiliodaniel · Rio de Janeiro (RJ) · 10/4/2008 01:19 
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puuutz, youtube e myspace nao rolam aqui, por algum estranho motim... rs manda pra mim por mp3, nao tem?
andrea dutra · Rio de Janeiro (RJ) · 10/4/2008 01:22 
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tenho vídeos só... hum... vamos ver se consigo!
te add no orkut, ok?!
basiliodaniel · Rio de Janeiro (RJ) · 10/4/2008 01:34 
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blz
andrea dutra · Rio de Janeiro (RJ) · 10/4/2008 01:34 
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Andrea,
li rapdidamente, vou voltar e reler. Estou indo pro trampo remunerado. (Alias devo um voto noutro trbalho que me perdi).
Mas incialmente, aqui também somos artistas, trabalhamos para a História. Nosso salário, aqui, será o saldo que deixarmos.
Assim neste (como noutros que tens escrito) já há um saldo.
um abraço,
andre.
Andre Pessego · São Paulo (SP) · 10/4/2008 06:52 
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ANDREA DUTRA...


Seu desabafo é o mesmo de outros artistas do Brasil!

Com toda razão e consciência de classe!

Concordo e apoio o que você escreveu.

Seguem dois artigos que eu publiquei sobre o assunto...

Artigo 1

Artigo 2

Parabéns!

Abraços.

Lailton Araújo
LAILTON ARAÚJO · São Paulo (SP) · 10/4/2008 17:58 
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Andrea, aqui em Mato Grosso do Sul também conheço músicos maravilhosos que não conseguem exercer seu trabalho com dignidade! Também sonhoque um dia este cenário mude. Abcs Gi
Gisele Colombo · Campo Grande (MS) · 10/4/2008 18:09 
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Andréa,
Sou filho de músico, com muita honra, e o seu texto me lembrou o lamento de meu pai, que ainda vive também da música, como professor em uma escola de curso livre que ele fundou.
Outro lembrança que o seu texto me trouxe, é quando fico estupefato com o talento musical que desfila pelo Projeto Pixinguinha, mas que entretanto, em sua maioria, é desconhecido da maioria e aí entendo o que você quer dizer.
Evohé!!
Zezito de Oliveira · Aracaju (SE) · 11/4/2008 18:16 
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oi, zezito, que legal o seu trabalho, andei bisbilhotando... parabéns! beijos e obrigada
andrea dutra · Rio de Janeiro (RJ) · 11/4/2008 19:35 
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isso aí, gisele, vamos continuar realizando e sonhando. nao conheço outro caminho...
andrea dutra · Rio de Janeiro (RJ) · 12/4/2008 05:21 
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