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Pro Dia Nascer Feliz

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Jean Faustino · Campinas, SP
21/4/2008 · 190 · 9
 


Não, “Pro Dia Nascer Feliz” não é um filme ou documentário sobre a vida do cantor Cazuza ou do grupo Barão Vermelho. Apesar de ter recebido como título o nome de uma antiga música do notório cantor, uma possível relação entre a canção e o conteúdo do documentário é algo que permanecerá ainda obscuro por um bom tempo.

Afinal de contas, o que pode existir em comum entre uma música que fala de um relacionamento amoroso sexualmente satisfeito com um documentário que tem como objetivo fazer um retrato da realidade do sistema educacional no Brasil?

Uma possível pista desta correlação talvez possa ser encontrada no tema da aula que nos é apresentada quando o documentário se ocupa com o retrato de uma escola na periferia de São Paulo. Esta aula, diferentemente daquelas das outras três escolas que são mostradas no filme, ocupa-se com o tema do romantismo.

Os alunos questionam, então, se o sofrimento amoroso dos românticos não era uma conseqüência da falta de sexo, ao que a professora, surpreendentemente, reconhece que talvez a idealização amorosa do romantismo estivesse, sim, relacionada com um desconhecimento de uma relação física prazerosa. E este último ponto, como já foi dito antes, é o tema da canção de Cazuza.

Muito bem, mas qual a relevância do tema desta aula para o resto do documentário? A relevância é que este é justamente o ponto de dissonância em relação às outras realidades com as quais o documentário se ocupa: uma escola numa das cidades mais pobres do país em Pernambuco, uma escola ao lado de uma “boca de fumo” na baixada fluminense, e uma escola num dos bairros mais ricos da cidade de São Paulo.

O ponto de dissonância reside no fato de que as aulas de todas as outras escolas ocupam-se com temas que estão relacionados à realidade social brasileira. Senão vejamos. Qual é o tema da primeira aula que o documentário mostra? A narrativa de um homem público que por ser bom e querer ajudar as pessoas foi perseguido e morto. “Isto é certo?”, pergunta a professora.

Depois, ao tratar da escola na baixa fluminense, o tema da aula é a política do “café com leite” quando então, diz a professora, o país era governado por “coronéis”. E, por fim, ao mostrar um trecho da aula da escola do Alto Pinheiros o tema é o livro “O Curtiço” do qual a professora destaca as diferenças da arquitetura da casa dos pobres (o cortiço, que é horizontal) em relação a dos ricos (prédios, que se elevam verticalmente) e que reproduzem as diferenças sociais.

Em suma, com exceção da aula sobre o romantismo na periferia de São Paulo, todas as outras mostram a herança da desigualdade social brasileira que, por dedução, acabam ecoando na realidade atual formada pela repressão das pessoas que desejam fazer o bem para a sociedade (tema da aula em Pernambuco), pelo domínio de uma elite oligárquica que defende apenas seus próprios interesses (tema da aula em Duque de Caixas), e por uma desigualdade social que se expressa através de particularidades como a arquitetura da própria residência (tema da aula em Pinheiros).

Como não poderia deixar de ser, o documentário trata também das conseqüências da desigualdade desta sociedade da qual as escolas fazem parte. Assim, se por um lado a escola do interior de Pernambuco recebe uma verba anual de R$1.000, não tem banheiro descente e nem transporte apropriado para levar os alunos para o colégio, por outro lado, a escola de Pinheiros tem catraca eletrônica, gente bem vestida, alunos com celulares e com sentimento de culpa por não fazerem trabalho voluntário devido ao compromisso com a aula de natação.

A escola de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, fica por sua vez ao lado de uma “boca de fumo”. Enquanto que a escola da periferia de São Paulo, nas palavras da própria professora entrevistada, fica na “periferia da periferia”.

Conseqüentemente, a realidade dessas escolas se reflete também nos alunos e na relação desses com a instituição. Assim, a preocupação dos professores da escola de Duque de Caxias, ao aprovar um aluno que foi para o Conselho, tem mais haver com uma tentativa de evitar que ele caia novamente na marginalidade do que em exigir que ele aprenda o conteúdo ensinado.

O contrário acontece na escola de Pinheiros onde os alunos parecem já ter interiorizado a cobrança que a instituição lhes aplicou durante anos. Aqui, o que se vê á a angústia da auto-cobrança deles o que não se limita apenas à estrutura da escola, mas, também às atividades externas: de natação até número de relacionamentos amorosos num ano.

Na escola da periferia de São Paulo, dois alunos se destacam: um que deseja ser padre e uma que encontrou na poesia a chave para fugir da apatia e da tristeza. Ao final do documentário ficamos sabendo apenas do destino desta aluna que, através do projeto do fanzine na escola, conseguiu expressar suas angústias, mas que, após o final da escola, começa a trabalhar e volta para a apatia e para a solidão anterior.

Já na escola do interior de Pernambuco, o enfoque é dado numa aluna que se relaciona muito bem com seu meio – ainda que formado por uma realidade pobre. É somente através da câmera que acompanha esta aluna que conseguimos assistir sua relação com o mundo externo a escola: a feira, a família, a rua e finalmente uma estrada de terra por onde ela caminha depois de recitar uma poesia que escrevera como um exercício de intertextualidade em relação a um poema de Manoel Bandeira.

E ao recitar este poema tão original e tocante, em meio a uma realidade tão pobre, tão árida e tão distante, acabamos nos convencendo que apesar de todos os desafios e todas as imperfeições do sistema educacional brasileiro, a instrução é um dos bens mais preciosos que se pode legar `auma pessoa. Pois, ao compararmos o belo discurso desta aluna de uma das cidades mais pobres do país com o discurso das alunas de um dos bairros mais ricos do Brasil, vê-se claramente que se por um lado as desigualdades sociais têm uma forte influência no destino dos alunos, por outro lado elas estão longe de desempenhar um papel determinante em relação àquilo que a pessoa se torna.

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Ilhandarilha · Vitória, ES 19/4/2008 19:45
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Dora Nascimento · Olinda, PE 21/4/2008 14:11
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Zezito de Oliveira · Aracaju, SE 21/4/2008 14:29
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Zezito de Oliveira · Aracaju, SE 21/4/2008 14:37
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andremartins · São Paulo, SP 21/4/2008 21:25
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Lu&Arte · Porto Alegre, RS 21/4/2008 21:27
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apple · Juiz de Fora, MG 22/4/2008 01:47
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Denis Sen@ · Salvador, BA 22/4/2008 16:09
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Rogéro Floripa · Apiacás, MT 28/8/2011 18:56
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