Recebi o e-mail abaixo de meu amigo Álvaro Santi, figura séria e competente que me autorizou ampla divulgação. Impressionante constatar onde alcança o braço corporativista de algumas categorias.
Boa leitura.
---------------------
De: Alvaro Santi
Enviada em: quarta-feira, 2 de abril de 2008 11:51
Para:
Assunto: concurso para produtor cultural
Ilma. Sra. Pró-Reitora de Extensão
Sara Viola Rodrigues
Dirijo-me a V. Sa. com o propósito de, antes de tudo, parabenizá-la pela realização de concurso público para preenchimento de vagas de PRODUTOR CULTURAL. A programação cultural dessa Universidade, reconhecida amplamente pela comunidade, sempre primou pela qualidade e pelo acesso universal, pelo menos desde os anos 80, quando do meu ingresso como aluno. E colaborou decisivamente para eu ter escolhido a carreira artística, quando já matriculado no curso de Geologia. No entanto, não posso deixar de registrar minha perplexidade ao saber que é pré-requisito para este cargo a graduação em COMUNICAÇÃO SOCIAL. Difícil entender quais razões nortearam tal exigência. A Universidade considera que seus alunos egressos dos bacharelados e licenciaturas em música, artes cênicas, artes visuais, e mesmo de letras, não têm competência para exercer esta atividade? Outra hipótese que me ocorre seria a submissão à padronização do gosto imposta pela grande mídia, que nos empurra goela abaixo os padrões estéticos que ela mesma elege, sabe-se lá por que motivos; ou simplesmente o anunciante que paga mais. Pode-se também apelar para o entendimento tácito, igualmente difundido pelos meios de comunicação, de que o curso de Comunicação Social (em especial o Jornalismo) confere uma espécie de super-poder aos seus alunos, habilitando-os, com um mínimo de conhecimento, opinar sobre praticamente qualquer área do conhecimento, do futebol à política, passando pela arte, esta já historicamente um campo aberto ao diletantismo. Ou seria uma opção preferencial pela visibilidade do evento artístico, em detrimento da qualidade do seu conteúdo? Ou ainda, uma exigência destinada a defender o mercado de trabalho de uma categoria profissional mais organizada institucionalmente, nefasta infiltração de critérios corporativistas na redação deste Edital? Qualquer uma dessas hipóteses me parece absurda, se confrontada com o valioso trabalho desenvolvido até hoje na área cultural
pela Universidade.
Não vai aqui qualquer menosprezo aos profissionais da comunicação, e sim uma defesa ao mesmo tempo da especificidade do conhecimento artístico e da mais ampla oportunidade de trabalho, atendendo à diversidade própria do campo cultural. Exemplifico com um depoimento pessoal: em 1996, a Prefeitura de Porto Alegre realizou concurso para técnicos em cultura, visando criar um quadro de pessoal estável para a SMC, então com poucos anos de existência. Foram abertas vagas para todas as artes, além de ciências sociais, museologia, antropologia e comunicação social. Isto não obstante já haver no quadro profissionais "técnicos em comunicação social". Graças a este concurso, eu e outros ex-alunos da UFRGS tivemos a oportunidade de trabalhar em produção cultural no serviço público. Ainda que a grade curricular do meu curso, meio desconectada da realidade, não tenha me preparado para isso, tenho a pretensão de estar contribuindo desde então para qualificar a gestão pública de cultura, como parte de um corpo funcional bastante diversificado.
Dessa forma, venho apelar a V. Sa.para que suspenda o concurso, retificando o edital com a finalidade de ampliar a possibilidade de acesso a todas as áreas artísticas.
Cordialmente,
Álvaro Santi
Bacharel em Música e Mestre em Letras pela UFRGS
Titular do Conselho Nacional de Política Cultural/MinC
Gerente do FUMPROARTE/SMC
Li, e votei! Esse mundo é virado mesmo!
abraços
Oi, Moysés. Boa discussão. Na verdade, acredito que nem sequer para trabalhar na própria imprensa deveria ser exigido bacharelato em comunicação social. Menos ainda para lidar com produção cultural. Corporativismo é o nome do mal, realmente.
Ainda bem, existem coisas novas acontecendo, como é o caso deste ambiente mesmo, no qual qualquer pessoa, independentemente de reconhecimento formal, institucional, pode escrever textos jornalísticos ou não sobre o tema cultural que preferir.
Um abraço,
Obrer
Excelente post, sou da área de Letras e conheço o preconceito!
insigne · Canoas, RS 7/4/2008 11:30
Pois é Moysés, nosso camarada Álvaro como sempre atento e atuante. Essa exigência inclusive vai contra nossa própria atuação como autoprodutores, não-especialistas.
Abraços
É importante que haja uma pluralidade e o entendimento que 99% dos profissionais que desenvolvem a atividade de produtor cultural são oriundos de diferentes áreas.
Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 8/4/2008 10:47
1)Na área de projetos culturais, é importante que haja uma interação entre diversos profissionais (alguém que entenda de divulgação, outro que entenda da área correlata ao evento, por exemplo). Todos saem ganhando.
2, respondendo a um comentário) Obrigatoriedade de profissionais formados em comunicação para trabalhar em jornais não há, infelizmente, por que tal panorama está diretamente ligado, na minha opinião, a apadrinhamentos políticos. O que existe é obrigatoriedade de diploma para ser considerado jornalista. Uma coisa é corporativismo, a outra é profissinalização (senão seria justo jornalista dar aula de português, por exemplo).
Esta discussão está se dando também entre a turma recém formada na pós de Economia da Cultura/UFRGS, fomentada por Flávia Motta. Foi para lá o mail do Álvaro Santi (citação do overmundo). Bom para juntar os tentáculos de um polvo a quem interessa ações várias, porém efetivas.
O que exaspera: nessa discussão vem o desconforto: ao fim e ao cabo, a própria UFRGS não reconhece profissionais que forma. Ou isso não justificaria um edital que, além de seguir critérios de legislação específica, também seguisse critérios de razoabilidade e pertinência?
Legal de ver estas mensagens, precisamos manifestar nossa inquietude pois do contrário continuará tudo como está. Instituições jurássicas e/ou paquidérmicas não se moverão sozinhas, elas precisam do nosso "empurrão" para se ventilarem um pouco.
Abraço prá todos,
Pessoal,
Na reunião do Conselho Nacional de Política Cultural, que ocorreu em Brasilia nos dias 3 e 4 de junho, aprovamos uma moção pela alteração da Lei que criou o plano de cargos e salários das Universidades (que estabeleceu o requisito que estamos questionando). Coincidentemente, a representação da dança no CNPC trouxe A MESMA queixa do setor, em relação a outros cargos na área artística, para os quais esta lei estebeleceu exigências de formação igualmente equivocadas e até impossíveis.
A moção assim que publicada no Diário Oficial será oficialmente entregue ao Ministro da Educação, que por sinal estava presente à reunião (para outros fins), foi informado do caso e manifestou simpatia pela proposta de alteração.
Como é uma lei, caberá ao MEC enviar ao Congresso Nacional a proposta de mudança.
Valeu o debate e vamos seguir de olho até que ela aconteça de fato.
Grande notícia, vamos aguardar o desfecho... Podes estar certo de que estaremos atentos!
Abraço,
muito importante ficarmos antenados nisto!
Luiz Cabelo · Porto Alegre, RS 6/2/2009 23:34Sou bacharel em Direito, curso Pós em Gestão cultural e sei o quanto é difícil conseguir um trabalho como Produtor Cultural. O mundo mudou, mas as pessoas por trás de mesas, com poder e dinheiro ainda não se atualizaram. Convenhamos, possuimos muitos conhecimentos e em diversas áreas, mas o que nos diferem é que amamos a cultura, a arte e não uma simples função.
Adriano Richardi · Caxias do Sul, RS 20/8/2010 10:59Sou Produtor Cultural Graduado em curso superior de produção cultural e especialista em gestão cultural. No que se refere a protecionismos e corporativismos, venho a informar que a profissão de produtor cultural está devidamente regulamentada pela RESOLUÇÃO NORMATIVA CFA Nº 374/2009 do Conselho Federal de Administração (http://www2.cfa.org.br/legislacao/resolucoes/2009/RN09374%20consolidada.pdf). Diante da regulamentação também está vedado aos oriundos da área de comunicação o exercício da profissão de produtor cultural.
renatofrota · Curitiba, PR 29/7/2011 14:43Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!