Projetos resgatam conhecimento de índios wapixana

Orib Ziedson
Indígenas trabalhando na fabricação de pimenta
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Adenice Viriato · Boa Vista, RR
22/9/2006 · 101 · 5
 

O conhecimento das propriedades medicinais das plantas é uma das maiores riquezas da cultura indígena. Em Boa Vista (RR), dois projetos criados com o objetivo de promover o resgate cultural do hábito da utilização das plantas para a cura de enfermidades e também o cultivo e fabricação da jiquitaia (pimenta em pó) estão ganhando espaço nas 14 comunidades indígenas existentes no município.


Implantado em maio deste ano pela Prefeitura de Boa Vista, o projeto “Didia”, que na língua wapixana significa pimenta, é pioneiro na região e ensina as mulheres da comunidade de Vista Alegre, primeiro local onde foi implantado, o processo de fabricação da jiquitaia, produzida com a mistura das pimentas malagueta e murupi, secas e moídas, acrescidas de sal.

Para efetivar a produção, as mulheres receberam treinamento sobre cultivo e utilização de pimentas. Maria Aniceto, que não sabe ao certo a idade, é uma das idosas que idealizou o projeto desenvolvido. Ela e mais seis mulheres das primeiras gerações de moradores de Vista Alegre, a 78 km de Boa Vista, tiveram a idéia de reativar a tradição da jiquitaia e também ensinar aos filhos e netos as técnicas da fabricação, pois desta maneira poderiam utilizar sua cultura como forma de garantir uma renda extra.


“A gente começou procurando quem poderia nos ajudar. Foi quando fizemos contato com os técnicos da Prefeitura de Boa Vista, que já nos ajudam em outros projetos e começamos a trabalhar”, conta Maria. Ela diz que das primeiras mulheres somente cinco estão firmes na proposta. “Duas desistiram, mas eu sempre digo a todas que não desanimem, porque vale a pena”, comenta Maria Aniceto.


Para aperfeiçoar as técnicas e aprender corretamente o manejo e cultivo da pimenta, a Prefeitura ofereceu neste mês de setembro um curso com duração de uma semana sobre a “Cultura da Pimenta” para 15 pessoas da comunidade. Entre os participantes somente um era homem. Além da fabricação da jiquitaia, aprenderam sobre molhos e geléias feitas do material. Mil pés de pimenta foram plantados em maio para serem utilizados nas aulas práticas do curso.


“Nós começamos plantando em copos descartáveis e aos poucos mudando para a lavoura. Como eu já conhecia o processo, ensinei as outras pessoas”, conta Generosa Julita Marcolino, outra idosa da equipe pioneira. Ela diz também que já está em andamento o plantio de mais 1.120 pés de pimenta.


A produção da jiquitaia está fortalecendo a relação entre jovens e idosos. Valdéria da Silva Pimentel, 14, é uma das netas de Maria Aniceto. Ela conta que não consumia nem gostava de pimentas.


“Eu comecei a olhar minha avó trabalhando com a malagueta e a murupi, plantando, colhendo e colocando as pimentas para secar, o jeito como ela se dedicava ao manejo, à fabricação da jiquitaia. Então percebi que ela queria mesmo era que a nossa cultura fosse preservada”, diz. Valdéria foi uma das que passaram pela capacitação promovida pela Prefeitura.


Para se fazer a jiquitaia é necessário que as pimentas sejam postas para secar no mínimo uma semana no sol ou levadas ao forno por duas horas. Depois de seca, ela pode ser moída em pilão convencional ou no liquidificador, sendo misturada um pouco de sal para obter um sabor mais agradável.


As especiarias já começam a ser comercializadas em feiras de Boa Vista por um preço mais barato que a do mercado local. Enquanto que o preço médio do saquinho pequeno da jiquitaia no comércio boa-vistense é de R$ 5, a jiquitaia de Vista Alegre sairá por R$ 3,50. O objetivo é promover a auto-sustentabilidade das comunidades indígenas.


Plantas Medicinais – O outro projeto que vem sendo trabalhado com sucesso é o Farmácia Verde, um piloto de desenvolvimento sustentável que a Prefeitura de Boa Vista desenvolve com 514 indígenas nas comunidades do Morcego (18 famílias) e Vista Alegre (83 famílias). O projeto começou a ser desenvolvido em maio de 2005 promovendo a capacitação das comunidades sobre o cultivo e extração de plantas medicinais.


A proposta é preservar a biodiversidade e ainda trazer vantagens econômicas e sociais, ampliando a geração de renda entre as famílias além de promover o resgate da cultura tradicional do uso dos recursos da natureza para a cura das enfermidades. Com o treinamento os indígenas puderam conhecer 20 variedades diferentes de plantas medicinais que podem ser cultivadas em canteiros.


A bióloga Salete Lima, coordenadora do curso, lembra que o uso das plantas medicinais no dia-a-dia das comunidades indígenas sempre foi de grande importância. “Essa era uma prática que vinha sendo lembrada apenas pelas mulheres mais idosas das comunidades. Elas agora estão contentes em ver que esse conhecimento será preservado”, enfatiza.


Terapêuticas – Os benefícios das plantas medicinais hoje são bastante abrangentes e ultrapassam a barreira da utilização pelas comunidades indígenas. Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) mostram que cerca de 80% da população mundial fazem uso de algum tipo de planta na busca de alívio de alguma sintomatologia dolorosa ou desagradável.


No Brasil, os Ministérios da Saúde e da Ciência e Tecnologia prevêem um investimento de R$ 6,9 milhões até final de 2008 em projetos de parceria público / privada para o desenvolvimento de bioprodutos terapêuticos, incluindo o uso de plantas medicinais e fitoterápicos.


Em 3 de maio deste ano foi aprovada a Portaria nº 971 do Ministério da Saúde que estabelece a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) no Sistema Único de Saúde. Isso significa que os tratamentos em Acupuntura, Homeopatia, Fitoterapia e Crenoterapia (que utiliza águas minerais como recurso terapêutico) vão estar em breve disponíveis aos usuários do Sistema Único de Saúde – SUS.

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Rodrigo Biguá
 

Maravilha

Isso é do kct nesse Overmundo. Saber sobre coisas bacanas rolando em Boa Vista.

Rodrigo Biguá · Rio de Janeiro, RJ 22/9/2006 10:41
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Edgar Borges
 

Meu deu vontade de comer damorida!!!!

Edgar Borges · Boa Vista, RR 22/9/2006 10:56
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Edgar Borges
 

Me deu vontade de comer damorida!!!!

Edgar Borges · Boa Vista, RR 22/9/2006 10:56
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Edjane
 

A valorização da cultura é a valorização do ser.

Edjane · Boa Vista, RR 22/9/2006 12:35
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Ricardo Rodrigues
 

belo incentivo às comunidades indigenas

Ricardo Rodrigues · Boa Vista, RR 22/9/2006 13:05
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Indígenas fabricando a jiquitaia zoom
Indígenas fabricando a jiquitaia
Molhos feitos com pimenta malagueta e murupi zoom
Molhos feitos com pimenta malagueta e murupi
Jiquitaia, feita de pimenta seca e moída zoom
Jiquitaia, feita de pimenta seca e moída

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