Há pouco tempo fiz uma oficina de um processo colaborativo e, no meu grupo, caiu uma atriz que passou pelo CPT de Antunes Filho. Durante todas as discussões ela insistia que aquilo que estávamos fazendo era inútil e que quando ela fazia Antunes, fazia muito mais sentido todos ficarem parados, um observando o outro, até que a cena viesse. Aquilo ficou em minha cabeça por um bom tempo por dois motivos: primeiro porque a menina era uma mala sem alça e acabou com a oficina para mim, e segundo porque eu não acredito que epifanias substituam as discussões coletivas.
Este momento "querido diário" tem tudo a ver com o espetáculo Prêt-a-Porter 8, em cartaz no Espaço CPT no SESC Consolação. Desde que eu comecei a me interessar por teatro e a procurar pelas peças no guia dos jornais, sempre vi esse tal de Prêt-a-Porter em cartaz, em diferentes edições. E nunca vi nenhum porque me lembro de um amigo dizendo, lá na minha recente adolescência, que era chato.
Pois bem, agora que eu sou gente grandinha e já faz alguns anos que me meti com esse mundo de teatro, decidi conferir qual era a desse projeto que há tanto tempo ocupa seu espaço nos guias semanais. Trata-se de uma pequena mostra de cenas criadas e dirigidas pelos atores do Centro de Pesquisa Teatral do SESC e coordenadas pelo velhinho Antunes Filho.
Ao entrar no espaço o público encontra sobre as cadeiras (não consigo entender o porquê de serem numeradas, uma vez que são tão poucos lugares) o programa, que logo na contracapa traz uma citação de Gilberto Freyre: "Acredito que nunca ficarei completamente maduro nem nas idéias, nem no estilo, mas sempre verde, incompleto e experimental."
Inicia-se a primeira cena: dois grandes amigos de faculdade se reencontram após muitos anos e, ao longo do diálogo, percebem o tamanho de sua amizade e da importância de um para o outro, mesmo apesar da distância. Na segunda cena, uma esquete cômica de duas amigas caricatas (que em alguns momentos beiram a boçalidade, mas conseguem nos tirar risadas) conversam sobre o Natal, sobre seus planos e esperanças. Na última cena, dois homens conversam sobre a beleza da morte, compartilham um com o outro seus planos macabros de como serão seus respectivos velórios e discutem qual a forma mais interessante para se morrer.
Depois de ver as três cenas, percebo que o que aquela chata de galocha da oficina tinha comentado acontece em todos os três diálogos. Cada um traz dois personagens que ficam sentados e simplesmente conversam. Os textos são ágeis, os atores realmente demonstram conhecê-lo e reagem com o timing ideal, há ótimas interpretações (ok, algumas nem tanto), mas praticamente não há ação. As três cenas, não fosse a elaboração dramatúrgica, seriam certamente monótonas.
Após o primeiro diálogo, uma garota na platéia comenta com o namorado "É numa cena dessas que a gente vê quanto conhecimento eles têm!", um comentário fútil, reflexo da redoma de vidro que se estabelece em torno de Antunes, de seu centro de pesquisa e de tudo o que se produz lá. Por não ter achado a cena nenhuma demonstração de conhecimento acima da média, as perguntas que me fiz foram outras.
Onde afinal está a tal pesquisa teatral proposta pelo próprio nome do CPT? Onde está o experimentalismo proposto pela citação de Gilberto Freyre na contracapa do programa? Lembrando da insegurança irritante da chatonilda da oficina, pergunto mais: onde está a ousadia e a coragem de se propor algo sem o medo de errar? Qual o propósito de uma pesquisa que não vai além do que já está estabelecido?
Não acompanho de perto o trabalho de Antunes Filho e pode ser que eu esteja falando uma grande bobagem, mas o pouco que vi em cena nos últimos anos não reflete essa pesquisa e este experimentalismo propostos. Não questiono a importância do diretor na história do teatro nacional, mas bem que gostaria de jogar uma pedra pra quebrar essa redoma ao seu redor. Seria bem bom vê-lo propondo inovações, questionamentos e provocações de verdade sobre o fazer teatral brasileiro contemporâneo, assim como continuam fazendo outros grandes nomes também "das antigas", como Zé Celso e Gerald Thomas.
Publicado originalmente na Revista Bacante.
Maurício Alcântara · São Paulo, SP 9/8/2007 16:52maurício, pode ser que vc nao esteja errado, mas se "os textos são ágeis, os atores realmente demonstram conhecê-lo e reagem com o timing ideal, há ótimas interpretações, mas praticamente não há ação.", então podemos supor que é uma peça fantástica! as ultimas grandes jogadas do antunes que assisti foram drácula e veredas da salvação, e achei espetaculares. lá se vão mais de 10 anos... será que a pesquisa arrefeceu? será que mudou tanto assim?
Bernardo Carvalho · Rio de Janeiro, RJ 9/8/2007 17:13
Então, Bernardo... Acontece que para mim, decorar o texto e conhecer seu timing é muito pouco para que se considere uma grande obra teatral. Ainda que haja boas atuações, o que vemos no palco é apenas verborragia. Para que a peça seja fantástica, ao menos para mim, ela tem de ir além do texto decoradinho por bons atores, é preciso que haja mais do que diálogo, é preciso convencimento. E para que se caracterize como pesquisa ou como experimentação, é preciso que haja uma experimentação de se ir além daquilo que já existe. Um pouco de radicalização não faz mal pra ninguém que se proponha a experimentar...
Abraço!
Só complementando: o grande problema neste caso é a linguagem. Mantém-se praticamente a mesma linguagem do teatro do século XIX. Se Antunes é ou não um diretor de vanguarda eu não sei (acho que não), mas o fato é que o projeto está a anos-luz de muitos grupos e encenadores que de fato se propõem a realizar uma pesquisa substanciosa da linguagem teatral...
Maurício Alcântara · São Paulo, SP 9/8/2007 17:35ok, mauricio. concordo contigo que a linguagem é fundamental. o antunes é um experimentador antigo...
Bernardo Carvalho · Rio de Janeiro, RJ 9/8/2007 19:28Mauricio pode ter tudo a ver ou nada a ver , mas por onde anda o Vertigem ? Soube que eles estavam com problemas de patrocinador, sabe de algo ?
dudavalle · Rio de Janeiro, RJ 9/8/2007 23:40
Oi Duda,
Sei sim. Na verdade o problema não foi de patrocinador, foi com a logística do BR3, a peça no Rio Tietê. Por isso, interromperam a temporada (felizmente consegui assistir!), mas isso foi no ano passado. Agora eles estão com um projeto bastante bacana, bem intimista para o padrão dos espetáculos deles, mas bem bonito. É uma leitura cênica de "História de Amor", do Jean-Luc Lagarce.
E bons rumores dizem que este ano terá BR-3 aí no Riocenacontemporânea, se não me engano na Lagoa. Estou torcendo para que sim, para ver novamente (embora eu duvide-o-dó que a Lagoa seja tão emblemática como o tietê, aqui em SP.
Só pra fazer um paralelo com essa crítica - esse sim é um grupo ousado e absolutamente vanguardista... Inclusive uma das atrizes desse prêt-a-porter participou de um outro projeto aqui em SP - 5PSA O Filho - que foi orientado pelo Tó Araújo (diretor do Vertigem). Apesar de cheio de ressalvas, um projeto bem mais criativo e provocador do que essa perfumaria que é o prêt-a-porter...
Abraço~!
Olá Mauricio
http://www.teatrodavertigem.com.br/index2.htm
Ateh achei esse site mas ao que parece desatualizado, esse espetaculo novo estah aonde ?
Olha a Lagoa estah longe de estar limpa , mas assim como o Tiete recebe uma boa quantidade de esgoto sem tratamento.
E O Oficina ? Tem a Cia do Latão também não ?
Alias cortaram as verbas ? Tinha uma ameaça desta não que a prefeitura ou o estado aih em São Paulo iria cortar verbas.
É, o site do Vertigem está desatualizado. Quando eu falo do Tietê, refiro-me não apenas à poluição, mas também à arquitetura fantasmagórica e grandiosa de sua calha... Mas vamos ver o que essa turma vai adaptar aí no Rio...
O Oficina está com dois espetáculos, um do Zé Vicente e um outro escrito pelo próprio Zé Celso. E estou torcendo para que entrem em cartaz com uma montagem deliciosa de Schiller que eles fizeram para um festival da Alemanha. Se não trazerem pra cám, fico feliz de ao menos ter fotografado o ensaio, hehehe...
Sobre o Latão eu não sei dizer.
Quanto às verbas, o fomento permanece. Ao menos que eu saiba.
Update: Latão está em cartaz com o Círculo de Giz Caucasiano, aqui em SP.
Maurício Alcântara · São Paulo, SP 11/8/2007 18:05
Oi, Maurício!
Gostei muito de sua crítica e embora não tenha assistido a esse espetáculo concordo com o fato negativo do "endeusamento" que impede diretores talentosos, como o Antunes Filho, de produzirem prjetos mais interessantes e vanguardistas, assim como propõe seu adjetivo. O fato é que muitos deles vivem de um grande mérito passado. E arrastam uma legião de fãs.
Abraços
Marcelo
Pois é, Marcelo. Acontece que muitos diretores, apesar desse "endeusamento", conseguem separar uma coisa da outra e fazer coisas espetaculares... como os exemplos que citei (Zé Celso Martinez Corrêa e Gerald Thomas, por exemplo). E nisso, Antunes realmente perde pontos... Logo mais reestréia seu "A Pedra do Reino", que eu ainda não vi. Vamos ver no que dá, se essa imagem muda ou não muda.
Abraços
Maurício :
Legal seu artigo. Aproveito para consultá-lo a respeito de como ficou a polêmica entre entre Zé Celso e o Sílvio Santos, a respeito do espaço para o Teatro Oficina, onde o SBT queria fazer um estacionamento.
E uma sugestão: tenho a maior curiosidade, e provávelmente não deve ser só eu, sobre esse processo de recuperação da Praça Roosevelt, que se tornou um espaço cultural, com sete teatros no seu entôrno, revitalizando essa área do centro de São Paulo. Quem sabe vc posta uma colaboração, nos fazendo um breve relato disso ?
Um abraço, e boa sorte.
Oi Levi,
Sobre o Oficina x Silvio Santos, me parece que a obra está parada devido a uma liminar que impede a construção no entorno de um prédio tombado (o oficina). E na verdade, a história é um pouco mais triste: o SS não quer construir um estacionamento - este já existe. Ele quer um shopping... Como se já não tivesse tantos naquela região e na cidade...
Sobre a Roosevelt, é um fenômeno interessante, porque de fato virou o centro nervoso do teatro em SP, ponto de encontro de todo mundo, enfim. Ontem mesmo Gerald Thomas estava sentado em uma mesinha por lá. Mas com isso, vem também uma aura meio babaca, sabe? De que tudo que rola lá é lindo, e tudo mais. Pra vc ter uma idéia, entre esses teatros todos, apenas 3 trazem programação mais interessante (e muitas vezes trazem porcarias tb). Os outros ainda sobrevivem de produções comerciais e nada legais...
Recomendo a leitura de uma matéria que fizemos sobre o chamado "teatro alternativo", que invariavelmente acaba citando a praça:
Aqui
Abraço!
Maurício, como observador, fanático por encenações do tipo "mambembe"", fantoches, e de dramas rápidos, como existiam em circo, tenho a impressão de que esta "DITADURA" de fulanos e cicranos, tem prejudicado o mundo das artes cênicas no Brasil. A terceira parte do Séc. XX, premido pelos regimes de excessões, o Brasil teve um ganho fabuloso no campo das artes, o acomodar se deu nas custas de negociatas, de re-lotear em tudo, do surgir da outra ditatura - dos fulanos e cicranos.
- E a historia do teatro no Brasil é a mais irreal. Autores com
90 peças, (loucura quem inventou o rádio, descobriu o pára-raio, ficou nisto, escrever peça, não passa de tres - o resto é desdobramento), sufocando o nascimento de outros. E com as leis de incentivo a cultura ficou pior. Quem "faz jus àquelas verbas"? - também uma Ditadura.
- A mesma peça, encenada pelos mesmos autores, a cada dia tem
um "AR". cada dia, cada instante ele é único.
- Assisti a poucas peças uma única vez. E nunca vi no dia seguinte o mesmo desenrolar. Mesmo nas peças de bonecos.
- Vocês moços precisam romper com Antunes, Zé Celso, fulano e Beltrano. Antunes teve a angustia do seu tempo (dele), voce e outros têm uma mesma angústia. Ninguém tem esse valor pra chegar a tres gerações interpretando a sociedade em que vive.
Zé Celso foi bom, como o Glauber, como o Gil, como ...
- O Mundo sofre das ditaturas, do senil, em todos os campos.
Que tal um Papa com 35 anos, fugindo pra ir ao puteiro?
um abraço andre.
Mauricio ,
somente falando sobre
o lugar "ideal" para uma encenação do Vertigem pensei um pouco e achei que o canal da Ilha do Fundão seria uma boa. Dentro de canal totalmente poluido mostrando o ineficiencia quanto a poluição da Baia de Guanabara, de um lado a Ilha do Fundão para aonde a ditadura empurrou os estudantes encurralando-os de outro a linha vermelha com seus tiroteios, com a Favela da Maré e uma estrada para o aeroporto da cidade. Pode ser uma ?
André meio patético esse pensamento geracional e ditadura do senil, fico com a máxima nem tudo que eh novo é bom nem tudo que é velho é sábio e saiba você que Zeh Celso eh apenas um aglutinador o Oficina eh composto de inúmeras cabeças de diferentes gerações e aih reside o interessante, quanto mais diverso mais resistente , asssim como a Opera Seca do Gerald Thomas e tantos outros.
Quer coisa mais atual que a Luta do Oficina ?
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