“Minha filha, você canta um jazzinho? Ou um fox-trotzinho? Ou um tanguinho? Então por que há de cantar um sambinha? Use o nome correto: samba!”. Esta é uma bronca famosa de Ary Barroso em uma das calouras de seu programa de rádio quando ela disse que iria cantar um "sambinha". O engraçado é que a música apresentada depois foi nada menos do que Aquarela do Brasil, a mais famosa música do próprio Ary. Este pode ser o motivo pelo qual alguns músicos se referem ao estilo pelo nome Choro, e não pelo diminutivo Chorinho...
Nomenclaturas à parte, a verdade é que Choro parece ser mais respeitável, ajudando a dar o merecido reconhecimento a um dos mais criativos e sofisticados estilos musicais brasileiros. Com mais de 130 anos de idade, hoje, o Choro se reinventa na Cidade do Sol. Caracterizado pelo improviso e pela verve de quem toca, o ritmo executado pelas ruas da Ribeira não faria vergonha de jeito maneira a Joaquim Calado – considerado o pai do gênero - ou a Pixinguinha, um dos mais conhecidos chorões de que se tem notícia, porque benza Deus! O que os caras do Catita Choro & Gafieira tocam, não é brincadeira.
Com o solista, que pode ser uma flauta ou algum outro instrumento de sopro, o bandolim, o cavaquinho, que faz uma espécie de elo entre a percussão e a harmonia, o pandeiro mantendo a marcação e o violão de sete cordas delineando a melodia, o grupo do Catita tem arrastado pequenas multidões até a Rua Câmara Cascudo, berço do grande mestre, da terça-feira em diante, desde o dia 23 de abril, que foi quando o espaço foi oficialmente inaugurado. Mas antes de fazer parte do cenário boêmio do velho bairro, a roda de Choro se fazia presente em outras cercanias.
A origem do Buraco
A gênese do Buraco da Catita, espaço cultural organizado pelo grupo musical Catita Choro & Gafieira, remonta aos ‘Becos da Lama’ da vida, quando o pessoal ainda não tinha nome e se reunia informalmente em benefício da melodia. “A gente ia lá pro Beco do Lama no Bar de Nazaré, toda tarde, na sexta-feira, pra ouvir música. Cada um levava um CD e ficava por ali ouvindo”, relembra Ronaldo Freire, flautista do grupo.
Além de ouvir, o grupo se juntava para aprender, já que Camilo Lemos tinha acabado de adquirir um violão e precisava conhecer o novo instrumento. “A gente foi à Dácio Galvão propor um projeto. Era o Chorando na Feira. A idéia era tocar Choro nas feiras livres: Alecrim, Carrasco, Rocas e tal... tudo isso pra comprar o violão”, revela o próprio Camilo.
Com o instrumento em mãos, as esquinas do Beco da Lama não foram mais as mesmas por algum tempo. A reunião sonora que começou com o único intuito de estudar música, cresceu em progressão geométrica. O grupo começou tímido, sem uma formação fixa. Depois foi tomando corpo e reunindo adeptos. “Nós começamos a nos reunir eu, o Camilo, o Marcelo Tinoco, que é um cara que participa desde o começo, o Carlança, que é um músico daqui de Natal que freqüentava o Beco da Lama. E aí, pra tocar pandeiro, aparecia um, aparecia outro. Era desse jeito”, recorda Ronaldo Freire. No final do mês – Camilo conta risonho – “o pessoal já tava dizendo: e aí, vocês não vão tocar não?”.
Camilo relata que o espaço passou a abrigar uma verdadeira miscelânea de tipos. “Era guardador de carro, médico... uma mistura da porra. Talvez fosse ali, o local mais democrático. A gente percebeu que Natal tava carente de alguma coisa desse tipo”.
Inicialmente acontecendo no Bar de Nazaré, a roda de Choro, mesmo aumentando de tamanho e movimentado o pequeno logradouro, acabou sendo despatriada. Dona Nazaré, proprietária do Bar, reclamou e eles tiveram que meter a viola e demais instrumentos na sacola. O flautista do grupo, Ronaldo Freire, analisa: “Nós tivemos esse problema logístico lá e o jeito foi se transferir pra outro lugar, e depois pra outro. Aí foi quando o Camilo descobriu um espaço e teve a idéia de fazer um centro de cultura e é claro, trazer o Chorinho”.
Cortando as fitas do Buraco
Rua Câmara Cascudo, Ribeira. Mudança feita, o grupo começaria tudo de novo. Se reunir e tocar Choro sem grandes pretensões. Com metralha espalhada pelo pequeno ambiente recém alugado, sem energia elétrica no local e crentes que tocariam apenas para eles, o vizinho da frente – Seu Raimundo - foi quem fez a contagem: “130 pessoas” - que apareceram numa ocasião anterior à abertura. Inaugurado no aniversário do mestre Pixinguinha, no Dia do Chorinho e aos cuidados do grupo de músicos, a cidade ganhou mais um reduto de boemia e, sobretudo, de boa música – O Buraco da Catita.
Mesmo com um nome que soa estranho aos ouvidos incautos, o harmonioso recinto foi criado com um objetivo muito nobre: celebrar o Choro e aglutinar músicos de todas as vertentes. “Eu pensei primeiro em Primas e Bordões, que é um disco de Choro de Jacó do Bandolim. Além disso, primas e bordões são cordas, não caracteriza nenhum estilo, mas disseram que era muito refinado”, explica Camilo.
“O Buraco da Catita é o seguinte: Tem um compositor de Choro aqui no Rio Grande do Norte chamado K-ximbinho, que teve grande projeção nacional. Catita é uma composição dele. Nossa tendência como um grupo de Choro do Estado era homenagear alguém daqui. Á princípio, o nome ia ser Toca da Catita. Mas como quem vive em toca é raposa e, catita vive em buraco, aí ficou o nome Buraco da Catita, que é impactante na primeira vez que escuta, mas depois o sujeito se acostuma”, complementa o flautista Ronaldo.
Uma boemia bem musicada
Rua fechada. Os carros não passam. Vendedores ambulantes tiram o seu trocado vendendo cerveja. Mesas lotadas, burburinho, salvas de palmas constantes e centenas de ouvidos sintonizados na melodia contagiante do Choro. Esse cenário criado pelo grupo do Buraco da Catita mais uma vez e em muito pouco tempo, tem atraído de boêmios à professores universitários, além de um público jovem que não marcava presença no Beco da Lama. “Você não vem só pela boemia em si, mas sim pela música. Essa é uma das características da roda de choro. Uma música instrumental que é extremamente popular, diferente de outros gêneros instrumentais que, em geral, ficam restritos a certa intelectualidade musical”.
Sobre o fato de estarem atualmente situados na Ribeira, um antigo bairro da cidade, Camilo é saudosista: “Olha esses casarios aqui... ainda existe uma aura. É um lugar belíssimo, que ainda respira poesia”. O músico explica ainda, a razão de ser do Buraco da Catita. “Isso não é bar, e nunca vai ser bar. É um espaço pra gente tocar e agregar arte, um espaço realizador... E que se toque música com esse espírito... Sem mecenato”. Sinestésico, Camilo sentencia: “Ainda existem sonhadores”.
Olhares sobre o Buraco
Hoje com endereço fixo e com um público que já pode ser considerado fiel, o grupo, que se reunia despretensiosamente, tem o costume de receber amigos para aumentarem a roda do Choro. Um que sempre passeia com sua flauta em mãos pelo Buraco da Catita é o músico Carlos Zens. “Eu acho maravilhoso. Estão tornando o Choro mais público, mais próximo do povo. Ao mesmo tempo, o Choro exige muito do músico, que tem que pesquisar intérpretes e novos compositores. É uma música fundamental”.
Outro que tem entrado constantemente no compasso do Choro é o infant terrible Diogo Guanabara. O jovem músico tem sido figurinha fácil no festivo e sonoro ambiente da Rua Câmara Cascudo. “Antigamente tocavam chorinho lá em Rochinha dos Pneus, no Café Nice no centro, mas era freqüentado por um pessoal mais antigo. Aqui em Natal, as pessoas despertaram e decidiram olhar para o que a gente tem de bom. O pessoal está produzindo um movimento original, tem sido o programa de sexta-feira à noite... é uma forma das pessoas se aproximarem da nossa cultura brasileira”.
Estilo e pessoas
O chamado "regional", composto por dois ou três violões, cavaquinho, pandeiro e um solista, sendo pau pra toda obra, é a maneira como o pessoal do Catita se organiza. O grupo, vez por outra, nem precisa de arranjo escrito e acompanha até o que não conhece. “O interessante é que, tecnicamente, o Choro é uma música bem avançada, no sentido harmônico e no sentido melódico dela. E tem uma coisa que é a improvisação... Tem uns chorões que gostam de fazer pequenas variações em cima de determinado tema... é uma música muito flexível”, analisa Ronaldo. Para Camilo, o Choro “é uma música aparentemente ingênua, mas é altamente complexa, poli-ritmica, contra-pontista, deixa a alma alegre”.
Formado por Camilo Lemos fazendo a permuta entre e o violão e a guitarra, Zé Fontes dedilhando o contrabaixo, Marcelo Tinoco incendiando o Bandolim, John Fidja sentando o pau na bateria, Gilberto Cabral na cadência do trombone, Enéas Albuquerque distribuindo simpatia com o Clarinete, Neemias Lopes na introspecção do saxofone, Antônio Carlos no trompete e Ronaldo Freire fazendo solos desconcertantes com sua flauta, o Catita Choro & Gafieira acaba sendo um verdadeiro hino à diversidade.
O grupo é composto de músicos de formação clássica e outros com raízes populares. “Tem o Enéas, que a gente chama de “lorde”, que toca em orquestra sinfônica... tem o Antonio Carlos que já tocou nas melhores orquestras da Europa. Gilbertão – maestro de Choro e Frevo... de formação erudita, tem Neemias, é uma mistura... Alguns são músicos de orquestra e alguns são da noite”, finaliza Camilo Lemos.
Uma luz no fim do túnel
Quando pergunto sobre a expectativa de Camilo sobre o Buraco da Catita, ele demora um pouco a responder. Com um hiato de uns 30 segundos ou mais depois da indagação feita, o músico escolheu da melhor maneira as palavras que queria dizer e disse: “Espero que esse centro cultural seja um grande catalisador... que entre para o coração da cidade... que seja uma flor na lapela, que seja uma pérola... que se mantenha puro”.
Quando o Choro começou
O choro pode ser considerado como a primeira música urbana tipicamente brasileira. Os primeiros conjuntos do gênero surgiram por volta de 1880, no Rio de Janeiro - antiga capital do Brasil. Nascidos nas biroscas do bairro Cidade Nova e nos quintais dos subúrbios cariocas, esses grupos eram formados por músicos, muitos deles funcionários da Alfândega, dos Correios e Telégrafos, da Estrada de Ferro Central do Brasil, que se reuniam nos subúrbios cariocas ou nas residências do bairro da Cidade Nova, onde muitos moravam.
O nome Choro veio do caráter sentimental e literalmente choroso da música que esses pequenos conjuntos faziam. A composição instrumental desses primeiros grupos de chorões girava em torno de um trio formado por flauta, instrumento que fazia os solos, violão, acompanhando como se fosse um contrabaixo - os músicos da época chamavam esse acompanhamento grave de “baixaria”, e cavaquinho, que fazia o cortejo mais harmônico, com acordes e variações.
K-ximbinho, o mestre
K-ximbinho, nas horas vagas, atendia pelo nome de Sebastião Barros. Nascido em Taipu, interior do Rio Grande do Norte, no ano de 1917, mudou-se para capital, onde entrou em um conjunto de jazz. Em 1938 passou a integrar a Orquestra Tabajara de Severino Araújo, e quatro anos mais tarde foi em busca do Rio de Janeiro, se desligando da orquestra. Tocou em outros conjuntos na década de 40, e foi também músico de estúdio, acompanhando cantores. Por volta de 1946 voltou a ingressar na Tabajara, que foi a primeira a gravar uma composição de sua autoria, o clássico choro "Sonoroso". Depois de estudar teoria musical com o maestro Koellreuter e tocar em boates, fez uma turnê pela Europa, na década de 50. De volta ao Brasil, trabalhou como arranjador na Odeon e na TV Globo. Outras de suas composições também se tornaram clássicos do Choro, como “Eu Quero É Sossego”, “Saudades de um Clarinete”, “Gilka’, sem esquecer de “Catita”, música muito importante para o pessoal do Buraco. “Ele revolucionou, modificou a fórmula do Choro, uma pessoa de altíssima importância. K-ximbinho “jazzisticou” o Choro, era um cara à frente do seu tempo, K-ximbinho nosso... Se ele fosse carioca teria uma estátua, um “Instituto K-ximbinho”, esbraveja Camilo Lemos.
Prezado Felipe,
muito bom o relato sobre choro e chorões do Rio Grande do Norte.
Há poucos dias, em outra matéria aqui publicada, aplaudi o renascimento do choro em todo o Brasil.
Comentei até que aqui no Rio, em especial na Lapa, o choro encanta cariocas e turistas, tocado também por moças e mocinhas.
Na Vila Isabel, Tijuca e em numerosos bairros da Zona Norte da capital, os grupos musicais se multiplicam.
Isso é uma prova fantástica de resistência cultural.
O choro, que nasceu como um jeito de tocar - tocar polca, mazurca, valsa e outros gêneros musicais - não é originário do Rio, como muita gente pensa.
Ele é nacional. Os registros históricos são inumeráveis.
Para o historiador Nicolás Slonimsky, o choro é “qualquer composição instrumental que contenha elementos da nacionalidade brasileira”. Ele não tem forma de composição definida.
Você mesmo escreveu de forma apropriada: "...caracterizado pelo improviso e pela verve de quem toca..."
Parabéns e parabéns aos chorões aí da bela terra nordestina.
Bacana, Filipe! Achei curioso você contar da idéia de tocar choro em feiras livres. Aqui tem um pessoal que faz isso há alguns anos no bairro de Laranjeiras. Tomara que a idéia se espalhe pelo Brasil, comprar frutas ouvindo choro é o que há!
Ao melhor estilo 'Jobiniano', com banquinho e instrumento em mãos, o Choro vem pedindo passagem pelas noites do bairro da Ribeira aqui em Natal. Ele só precisa de uma coisa: que não se silencie tão cedo. Obrigado pelas visitas, Eloy e Helena. Um abraço.
FILIPE MAMEDE · Natal, RN 29/9/2008 23:04
Grande Filipe,
Muito boa esta lembrança, pra quem se reconhece brasileiro mesmo, inesquecível.
Além dos aspectos que você tão bem aborda (e o Eloy também) , gostaria de ressaltar que, além do Choro ser mesmo - como o Eloy diz - uma maneira de se tocar vários gêneros 'da moda' (outrora europeus como a Polka e etc., mais adiante, principalmente, o Samba), existem muitas outras versões para a etimologia do nome, que, ao que tudo indica talvez seja menos prosaica. Para mim, sem dúvida nenhuma, Choro é também o estágio artístico mais avançado atingido por nossa música popular (que me perdoem os que acham que é Bossa Nova).
Outra coisa curiosa são as similaridades (instrumental, principalmente) entre o Choro e outros fenômenos musicais populares contemporâneos ocorridos em centros urbanos em certa parte do mundo (Caribe, África, sul dos U.S.A) entre as décadas de 20 e 30 (época em que o conceito 'música popular' se firma).
Outro aspecto é que, o Choro, aparentemente, é a única música popular, junto com o Jazz, onde o chamado erudito ('da elite') e o tradicional ('folclórico', 'do povo') se fundiram maravilhosamente, sem hierarquias e isto, bem antes do alemão Koeulreuter (um cara fantástico, que precisa ser mais falado) que revolucionou - forjou- nossa música popular mais refinada, ensinando harmonia para quase todo mundo, de Vila Lobos a Jobim).
Sinto contudo, nostalgia do tempo em que o Choro era mais popular, no sentido integral do termo, mais visível (audível) em nossas ruas de todos os bairros.
É bom eu me conformar por que poderia ser até pior. Nenhuma época é perfeita, certo?
Abs
Spírito, entrando agora um pouco mais nessas coisas das danças tradicionais, pretendo em breve trazer um pouco da história de um grupo de Congo daqui de Natal. Obrigado pela visita. E o Choro pede passagem...
FILIPE MAMEDE · Natal, RN 30/9/2008 13:49
Oi, Filipe, lindo!
Muito bacana sua matéria!!
Adoro chorinho! E que bom que aí em Natal ele vem ganhando espaço, não pode de jeito nenhum ser esquecido.Afinal, é patrimônio histórico da nossa música,não é?
Aqui também está tendo u m projeto 'chorinho na praça'...muito bacana! E só vive cheia de gente viu....Sempre aos domingos, no bairro de Nazaré,centro da cidade.
Foi prazer ler seu texto...um prazer conhecer um pouquinnho de sua cidade.
Aguardo a próxima matéria sobre o grupo de'Congo'...tá?
Parabéns,querido!
Um beijinho azul...
Blue
Spírito, você frisou bem, o Maestro Koellreuter ensinou harmonia a meio-mundo de gente, inclusive ao próprio K-ximbinho que, por sua vez, foi a grande inspiração dos caras do Catita Samba & Gafieira.
FILIPE MAMEDE · Natal, RN 1/10/2008 18:42
Adoro choro. ou chorinho, já não sei! E, ao contrário do Spírito, acho legal ver um garoto classe média, branquinho, de cavaquinho na mão. Pra ser mais clara, acho bacana que o choro não tenha ficado restrito a um grupo, virado folclore, praticado e cultuado por poucos grupos regionais. Ainda acho estranho ouvir choro numa casa menos popular, em bairros nobres. Mas gosto. Assim como acho uma delícia ouvir na rua, em feiras, ou numa roda de boteco de subúrbio. Música boa, seja samba, choro ou rock, é sempre bom de ouvir.
Filipe, seu texto tá redondinho! Fiquei curiosa com o congo dai. Será que tem semelhanças com o congo daqui? Escreva sobre isso, sim.
bjos
Ilha de Deus! Polyana amiga!
Onde é que está escrito isto de que eu 'não acho legal' um branquinho com o cavaquinho na mão? O que eu faço sempre que posso, é chamar a atenção para os riscos de elitização de algumas coisas nossas que sendo populares (ou seja: no usufruto 'de todos', sem distinção) acabarem passando a ser privilégio de um grupo (em detrimento de todos os outros) até desaparecerem, se extinguirem (como bicho em cativeiro, sabe?). Isto acontece toda hora no Brasil e ocorreu com o Choro no Rio de Janeiro e com o Jongo do Vale do Paraíba do Sul. É óbvio.
A questão é densa e só é polêmica porque o Brasil ainda veste este modelito racista, maniqueísta, separando tudo que é refinado para o 'lado branco' com tudo que é 'primitivo' e arcaico sendo lançado para o 'lado 'negro (a mídia ainda ontem mesmo, fez esta falseta com... Machado de Assis, Tachando-o, displicentemente, de 'o negro pobre do morro que deu certo' Pode? )
A vida real não é é assim.
Não fosse isto, a questão 'elitista versus popular', pelo menos em música, seria melhor compreendida, ficando em seu âmbito, digamos assim, sócio antropológico mais evidente.
Se você acha 'estranho ouvir choro numa casa menos popular, em bairros nobres' sabe bem do que estou falando.
Esta associação entre 'branco' e 'elite' (que puxa o assunto para a seara cega do racismo) não é uma opção do meu discurso, é uma contingência do processo brasileiro que aderiu à lógica de discriminar negros e brancos em posições sociais antagônicas ('farinha pouca, meu pirão primeiro').
Racismo é um contexto de discurso muito reducionista. Simplista mesmo e ingênuo (quando não se tem segundas intenções).
Outra coisa: de onde é que você tirou este conceito de folclore como uma coisa 'restrita a um grupo'? O conceito que é colonialista (século 19) em inglês é 'Folk' & 'Lore' (ou Cultura do 'povo') e foi alterado para o politicamente correto Cultura tradicional há muito tempo e tradicional, não quer dizer, de modo algum, 'restrito a um grupo' (geralmente trata-se de mnifestações praticadas por maiorias populacionais). Chorinho é um gênero tradicional (folclórico, portanto) seja tocado por pretos ou por brancos. No Rio, no âmbito da Lapa, por exemplo, tem se caraterizado como um gênero 'apropriado' por um grupo social específico, em detrimento de outros, elitizando-se em suma, por assim dizer, já que, outros grupos sociais, principalmente os que o praticavam antes, historicamente, já não o praticam mais (e cabe a pergunta: aí, neste caso você gosta que seja restrito a um grupo?). As razões de ser deste fenômeno 'socio cultural' não estão explicitadas aqui, mas que ele é um fato é. E não devemos nos furtar em discuití-lo.
Bjs
Parabens Filipe.
Chorinho é para todos, é povo, é de A a Z. Só alienados e capitalistas que de repente ficarão a margem , pobres são e serão.
Em minha cidade natal temos bons na Arte, existe um grupo, formados pela UNICAMP , Chorando na Sombra,que acompanharam minha noite de autógrafos e que hoje, onde se apresentam fica lotado.
Gostei muito do comentário de Spírito Santo.
Em Goiânia também o choro é muito popular.
Tivemos por muito tempo uma "Escola de Chorinho" , que integrou muitos apreciadores. Depois sumiu.
Atualmente, como medida (uma das raríssimas) de revitalilzação do centro urbano, o primeiro hotel da capital (lindo, em estilo art déco) foi reformado e abriga, às sextas-feiras um encontro de amantes do choro. Como o Buraco da Catita (achei lindo este nome) atrai imenso público.
Obrigada por esta aula tão bonita sobre o choro em geral e o choro de natal, em particular.
E, fique sabendo, fiquei doida da vontade de ir conhecer estes maravilhosos músicos chorões, que deixam "a alma alegre", na perfeita definição de Camilo.
Obrigada.
beijos
FILIPE MAMEDE · Natal (RN)
Quando o Choro sai do Buraco
Um Maravilhoso Trabalho de Fólego e Digna Expressáo.
Salve o Povo da Ribeira, a Joaquim Calado e ao Divino Pixinguinha.
Salve Ary Barroso que foi Amigo do meu Pai e, aos caras do Catita Choro & Gafieira.
Salve Beco do Lama de Nazaré, Joaquim Calado e Catita Choro & Gafieira.
Salve Dacio Galváo e a idéia de choro nas feiras.
Salve Camilo e Marcelo Tonico.
Salve Ronaldo Freire, o Bar do Lama e o Bar do Nazaré.
Salve a Rua Cámara Cascudo na Ribeira.
O Inesquecível Jacob do Bandolim.
Salve K-ximbinho e o flautista Ronaldo.
Salve o querido buraco da Catita.
Salve Carlos Lens e Diogo Guanabara este que lembra o pessola do Rio.
Sempre Amados o café Nice e Rochinha dos Pneus.
Salve Natal a Cidade e o Nascimento de Jesus.
Um sem fim apaixonnte que temos de sempre dar Salves e Bravo.
Maior ogulho de vocés..
Parabéns.
Um Trabalho eterno.
Considere-se elogiado merecidamente.
Todos que contribuem merecem ser lembrados.
Isso é que faz a vida valer a pena.
Isso é que faz o mundo melhorar.
Consagrando a Publicacáo
Abracáo Amigo
Oi Filipe,
Parabéns pelo post! E eu aprendendo...
Adoro a semelhança dos grupos de choro com o nosso frevo-de-bloco que é tocado por orquestras de pau e corda, e que nas horas vagas sempre estão lá esquentando os instrumentos com choros.
Um abraço
Gostei bastante do seu texto. A leitura flui, e ela trouxe um aprendizado enorme. Aprendi mais sobre a música brasileira.
Sucesso.
Votado.
Bravo, Filipe.
Vivam o Choro, os chorinhos e os chorões!
Filipe.
Excelente tema, amigo. Como teus textos são sempre muitissimos bem elaborados, a obra cresce pelo seu conjunto. Aqui em Belém, temos algumas casas de choro, mas, acredito, que não tenham a força dessas da tua terra.
Mais uma aula sobre a história da música no Brasil que sai da tua pena sempre voltada para a cultura deste pais.
Parabéns, parceiro, por mais um maravilho trabalho.
Abraços fraternos
Noélio
Vou repassar esta colaboração para o nosso Fórum de Culturas Populares do Rs onde temos entre outras manifestações o samba de raiz da Central do Samba e o Maracatu Truvão, além de toda a parceria da música afro-gaúcha.
Valeu a contribuição histórica e cultural!
ABC(Abraço e Beijo do cezimbra)
Filipe,
todos disseram tanto e quanto. Também gosto demais do choro. aprendi com os comentários e o seu texto adorável onde o Buraco da Catita ao homenagear o compositor K-ximbinho, além da visibilidade que dá à manifestação tão nobre da cultura brasileira, ganha em humor na explicação: Á princípio, o nome ia ser Toca da Catita. Mas como quem vive em toca é raposa e, catita vive em buraco, aí ficou o nome Buraco da Catita, que é impactante na primeira vez que escuta, mas depois o sujeito se acostuma. A lógica é perfeita, aceitar estranheza até nas palavras.
E se no coração da cidade o Beco da Lama fecha as ruas é porque é flor na lapela. É casa e beco de hino à diversidade.
Adorei tudo aqui!
Beijo
PESSOAL, TO PRECISANDO DE EMPREGO. ALGUEM SABE DE ALGUMA COISA? PODE SER EM QUALQUER LUGAR DO BRASIL. A propósito, obrigado pela leitura de todos vocês. O Choro por aqui, se encontrava no limbo e os caras do Catita trouxerem ele de volta pra cá. Depois disso, visitar o Buraco tem sido a melhor pedida, principalmente, nas sextas-feiras. Além da boa música, o ouvinte tem a oportunidade de tomar uma boa cerveja gelada e ainda comer uma paçoca, que para nós, é carne moída com feijão verde e farofa, uma delícia. O espaço, como já disse, é uma boemia bem musicada. Um abraço para todos.
FILIPE MAMEDE · Natal, RN 2/10/2008 19:20
Oi, Filipe, gostei muito desta matéria. Sou um amante da boa música em geral, mas fico feliz, muito feliz quando vejo gente jovem se interessar pelo choro.
Aqui no Recife também estão surgindo novos espaços pra esse tipo de música. Sou freqüentador da Toca da Joana onde o samba e o choro correm soltos.
Quando for a Natal procurarei pelo Buraco da Catita, uma vez que preá, uma espécie de rato, gosta também de buraco. Parabéns!
Zé Preá
Ah, estas coisas de choro, de samba, de Rio de Janeiro de Lapa,
cada um por si mesmo é uma história dentro da História.
Uma aula de escrever bem.
abraço
andre.
Bravo, Filipe!
Este excelente texto, é idéia para que outros toquem chorinhos em feiras livres.
Falarei a músicos amigos meus, que adotem este exemplo.
Boa, amigo!
Ah, aproveito o ensejo para cumprimentar também o Eloy e o Spírito Santo, ambos do Rio de Janeiro. Fizeram comentários muito bons!
Zé Preá · Recife, PE 2/10/2008 22:58Ah! Ah! Calouros em desfile, um programa que procura revelar novos valores, he! he! pois sim! Grande lembranca, beleza de texto, abracos
victorvapf · Belo Horizonte, MG 3/10/2008 08:18Que beleza...e eu aqui agradeço por dividir !
Patipetista · Santo André, SP 4/10/2008 23:54
Felipe, parabéns pelo texto tão bem construído e oportuno.
Adoro um "chorinho" e fiquei refletindo profundamente a cerca do que vc usa para introduzir o texto. crio que o sufixo "inho" na nossa língua tem mais de uma conotação e utilidades. Me parece que seu uso não apenas "diminui" um substantivo, mas freqüentemente o "aproxima", cria intimidade. Então, quando a pobre moça disse que ia cantar um sambinha, eu acho que ela estava dizendo, não que ia cantar uma coisa menor, mas que o que ela ia cantar era "coisa nossa". Por isso, me parece, não dizemos jazzinho ou um fox-trotzinho ou um tanguinho - porque não nos inspira essa intimidade toda!
Acho que é uma forma de indicar proximidade, mas também intimidade e afeto. O Sambinha, o chorinho, é o "meu" samba, o "meu" choro. E o "choro" é algo tão nosso, e sai tão do íntimo, e fala tanto ao íntimo e à alma que deixou de ser "choro" para se consagrar cada vez mais como "chorinho".
Não é uma teoria, é uma hipótese...
Parabéns pelo texto!
Abç, Flávia
bom ver um texto como o teu na página de abertura, filipe. bem escrito, informativo, saboroso de ler.
aqui em floripa também acontecem rodas de choro: na universidade federal (ao meio-dia), no horto (aos domingos, à tarde), no bar varanda (às terças, à noite), no café do mineirinho (às quartas, à noite). esses são só os que sei. o chorinho tá correndo de dedo em dedo por aí, ainda bem.
quanto ao seu pedido de emprego: acho que com teu talento, logo pinta uma proposta. eu, se fosse editora de algum jornal, já te contratava no ato.
ab
Façamos aqui o Manifesto Chorando na Feira. Fico feliz pela leitura de todos e mais ainda pela vontade de alguns em dizer que vão dizer para músicos amigos adotarem essa idéia de se levar o Chorinho para as feiras livres. Se o jornalismo é, sobretudo, um perturbar da paz, uma fazer com que se faça, então percebo que consegui chegar a um propósito: O tal do não ficar parado. Um abraço no coração de todos aqueles que acompanharam minhas produções Overmundanas.
FILIPE MAMEDE · Natal, RN 5/10/2008 19:29
Um chorinho brasileirinho! Bela matéria, Felipe! Natal tem um grande jornalista!
crispinga · Nova Friburgo, RJ 5/10/2008 20:39
Filipe Mamede
muito boa a matéria,
os caras tão de parabéns pela iniciativa e você
pela divulgação do Buraco...
abraço,
Querido Filipe, o Buraco agradece, e nós muito mais a êles pela resistência das esquinas do Beco até a esquina da Ribeira. As esquinas escodem sempre uma surpresa como esta, Daqui da esquina do continente muito orgulhosa . Qto as feiras nada mais atraente e tentador.Felicidades.
analuizadapenha · Natal, RN 6/10/2008 18:38Opa, boa tarde, sou de campina grande-pb, mas estou Há 17 anos em Recife, temos muitas rodas de choro por, mas a pergunta e´pe o seguinte estou viajando a serviço e passarei 30 dias em natal, agora em abril.Como sou bandolinista e cavaquinhista queria saber como entro em contato com a galetra do buraco da catita e se eu chegar por lá dá pra fazer uns sons com eles?Valeu e abração!!!
Walber do cavaco · Campina Grande, PB 25/3/2009 13:57Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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