No final da tarde o Titanzinho se apinha de crianças, jovens e adultos carregando pranchas feitas de resina e compradas com suor de longas horas fazendo bicos. Os trabalhos que fazem nada tem a ver com o que estão prontos para executar dentro do mar. É só chegar um novo swell que a moçada do bairro Vicente Pizón, diga-se que a maioria deles descendentes de pescadores expulsos da Praia Mansa por tratores Titan, desvia caminho por baixo de ondas que quebram na areia. O destino certo que tantas crianças seguem neste bairro é o de pegar uma onda atrás da outra até um campeonato internacional de surfe.
Para quem já sabe raspar a parafina da prancha não é mistério falar que André Silva, Martins Bernardo, Argelino Santos, Tita Tavares e Pablo Paulino saíram da Praia do Titan para brilharam na categoria de acesso do surfe internacional (WQS). Antes de serem reconhecidos fora do país, eles eram um desses garotos. Não havia incentivo financeiro para aprender a dropar uma onda. Hoje os garotos crescidos vivem fora do Estado e alimentam o sonho destes meninos e meninas do Titanzinho, sobrevivem com o patrocínio de grandes empresas do surfe que, aos poucos, vão descobrindo e divulgando os jovens que vivem numa das regiões mais pobres de Fortaleza.
João Carlos Sobrinho, conhecido por todo mundo aqui como “Fera”, viu um dos “amigos de prancha” morrer em cima do asfalto por conta do tráfico. Daí para maquinar num caderninho como tirar essa juventude do crime foi um pulo, em 2 de fevereiro de 1995 criou a Escola Beneficente de Surfe Titãzinho.
No início as atividades eram simples e não havia muitas pranchas para a garotada entrar no mar e testar as manobras que treinavam na areia. Os humanistas e políticos de plantão também não tinham criado termos elegantes como “Responsabilidade Social”, sobretudo não havia a Secretaria da Juventude (Sejuv) para dar o modesto patrocínio de pranchas e pouco mais de R$ 300,00 mensais. Além do mais, naquele tempo surfar era coisa de malandro. “Muitas das pessoas daqui brincavam dizendo que eu era louco porque vivia agarrado toda hora escrevendo aulas de surfe num caderninho”, lembra João Carlos.
Se a falta de assistência social continua e o estereótipo do surfista incomoda, pelo menos alguma coisa mudou nos 12 anos da escolinha. Primeiro, João criou uma taxa de R$ 1,99 e abriu a escolinha para quem não mora no bairro, “é uma taxa simbólica que serve para estimular os alunos a freqüentarem mais as aulas”. Depois, vieram aulas teóricas sobre o surfe e reforço escolar, que funciona à noite com uma professora.
Quase tudo aqui ainda é voluntário, os exemplos de pobreza e superação são o estimulante para fazerem os alunos aprenderem a subir e surfar numa prancha em menos de 3 meses. “Você pega o exemplo de D. Luzenira, mãe do Fábio Silva. Hoje o rapaz vive no Rio, mas se você ver, D. Luzenira vive numa das piores regiões daqui. Quando chovia, eles tiravam a água dentro da casa e hoje melhorou as condições da casa, e aí, é quando comunidade vê isso que dá mais valor ao surfe”, conta Fera.
A realidade continua dura no Tintanzinho, quem olha de dentro do mar pra dentro da comunidade, num fim de tarde como este, encara uma paisagem de pobreza. É que a esperança dos 30 meninos e meninas da comunidade, que hoje estão aprendendo a surfar pela escolinha, está depositada, assim como a dos seus antepassados, no mar.
Marcelinho, que tem por volta de 8 anos, aproveita as aulas de educação física na areia para tirar brincadeiras com os outros e é só sorriso. “Vem cá, Fábio Gouveia!”, provoca quem se sente incomodado pelo “brincalhão”. O elogio de ter o jeito do surfista paraibano que virou filme e foi campeão mundial em 1998 não é por acaso. A cabeça de Marcelinho vai fugindo dos colegas, sorri muito com o apelido, vai virando sonho em forma de onda.
SERVIÇO:
Escola Beneficente de Surfe Titãzinho
Endereço: Rua Ponta Mar, 15
Vincente Pinzón
Fortaleza/ CE - Brasil
Tão longe daqui.
Eu iria, só pra ver as crianças a rolar...
Belíssimas fotos!
Até sou capaz de sentir a areia e a brisa do mar!
Parabéns!
Segunda matéria bacana sobre surf que eu me lembro aqui no Overmundo. A primeira foi essa aqui.
Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 12/3/2007 20:06
Fotos lindas, texto apurado.
Esse rapaz é meu amigo! :D
Parabéns pelo trabalho!
Texto lúcido. Párabéns!
Guilherme Cavalcante · Fortaleza, CE 13/3/2007 09:51Obrigado pela colaboração de todos que comentaram e votaram neste texto para que ele entrasse no Overblog! Um grande abraço do também amigo de vocês...
André Gurjão · Fortaleza, CE 13/3/2007 18:49Ainda da´pra reverter muita coisa por aqui, basta força de vontade e se inspirar em exemplos como esse.
FILIPE MAMEDE · Natal, RN 14/3/2007 14:34
alô André: parabéns pelo texto e pelas fotos - já tive a honra de conhecer o Fera e o filhinho dele - são pessoas muito bacanas - tomara que da escolinha continue a sair muitos outros campeões!
Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 14/3/2007 14:41poxa, que bacana! texto e iniciativa.
André Gonçalves · Teresina, PI 14/3/2007 17:06
Muito boa matéria. Ainda não tinha lido nenhum texto relacionado ao surfe aqui no Overmundo.
As fotos ficaram muito boas e o texto bem interessante.
Abraços...
Iniciativas como estas são prova de que o Brasil pode dar certo. Enquanto a midia privilegia o futebol e um ou outro esporte, na realidade, temos tantos outros mais. Pela extensão de mar que nós temos, já existe uma vocação latente de entrar na água. E por que não despertar este desejo, estimulando os vocacionados a esta modalidade de esporte de reconhecimento mundial. E tudo começou de um sonho e não houve investimento de grande capital para se tornar real.
Parabéns pela matéria!
Parabéns André! Matéria emocionante e fotos superbacanas. Muitos campeões para a escolinha e vida longa. abs
Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 14/3/2007 22:12
Muito boa... há quem diga que o surf é também filosofia de vida.. ó aí a prova... as fotos dão uma clima muito especial ao texto e acredito que captaram muito o espírito da Escolinha..
Abraço,
Belo texto, belo trabalho...e do título sai poema. Abs.
Ju Polimeno · São Paulo, SP 15/3/2007 11:29Parabéns pelo texto!Ele me prendeu até o fim, sem qualquer esforço! Abs,
Vanessa FJ · Florianópolis, SC 15/3/2007 12:35
Este é um exemplo de como um ser iluminado clareia tudo à sua volta.
Quem norteia a vida de uma criança se ilumina, de várias e nestas condições, só pode mesmo ser iluminado!
Valeu, FERA!
Valeu, André!
Abraços.
Magnífico! lembra Pessoa:
"Deus quer
o homem faz
a obra nasce."
Parabéns!
Há males que vem pro bem. Arte, esporte, educação seriam bens essenciais de todos e sua simples ausência deveria ser causa de indignação. Entretanto, infelizmente está sendo necessário garotos matarem garotos para que se atente a esses serviços. Mesmo que seja pelo instrumental motivo de "tirar a meninada do ócio e evitar que entrem na crimanalidade" ao menos esses bens começam a ser valorizados.
Parabéns à escolinha de surfe e ao colega André pelo mediação formidável.
uma bela matéria, andré. importante mostrar trabalhos como esse, ainda mais de uma maneira tão afetiva, mas também sem lentes cor de rosa, como a situação merece. parabéns, pra vocês e pro Fera!
*obs: aqui é o bruno reis, seu colega jabaniano :)
muito boa sua matéria sobre a escolinha de surf no titãzinho. sem contar que daquela praia dá pra ver o nascer do sol mais bonito que já encontrei por aqui. um abraço.
Diana Melo · Fortaleza, CE 16/3/2007 10:43
Meus Parabéns André. Texto polido e fotos muito boas...
Abçs primo.
O foto está maravilhosa, podemos até nos sentir presentes através dela. Quero parabenizar tb pelo título que realmente daria uma poesia e pela sensibilidade de ter captado os sentimentos daquele povo guerreiro que são os pescadores, que hj podem até mesmo não estarem conseguindo sobreviver da pesca, devido a indústria pesqueira, mas que continua através dos sonhos e coragem de seus filhos que nunca perderam a esperança no mar. parabéns a você pela escolha da matéria, ao povo do Titãzinho por sua coragem e determinação e ao fera por sua visaõ, ousadia, espírito de liderança, solidariedade, etc.
Mara
maravilha de texto, fotos e astral de trabalho
longa vida!
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