Quando saber ler é saber falar sobre livros

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Rafael Costa · Belo Horizonte, MG
11/7/2008 · 154 · 4
 

Em seu Por que ler os Clássicos, Italo Calvino afirma que “os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: ‘estou relendo’… e nunca ‘estou lendo’ “. Venhamos e convenhamos, nem sempre somos honestos o suficiente para admitirmos que sequer vimos pela frente um exemplar de Finnegans Wake, de Em busca do tempo perdido, ou dOs Lusíadas. No entanto, Joyce, Proust e Camões estão sempre por aí, numa epígrafe de um ensaio, nas conversas nos corredores da faculdade, servindo de exemplo para determinado procedimento literário… os livros que não lemos aparecem até mesmo quando nos pedem uma sugestão de leitura.

Por vezes, diante de um “e aí, o que vocês acharam do Decameron ?”, ficamos na defensiva: se algum dos interlocutores se arriscar, vamos com ele e “concordamos plenamente com suas palavras”; mas se sou eu o único - e desafortunado - entrevistado, oscilo entre a mentira-descarada “é uma obra excelente, muito bem construída”, a mentira-envergonhada “faz tanto tempo que eu li, que já não lembro muito bem” e a verdade-cabisbaixa “ainda não li”, mas enfatizo o advérbio.

Italo Calvino nos lembra também de que é quase impossível ler inocentemente uma obra clássica: antes mesmo da primeira leitura, já conhecemos um volume de informações e comentários feito a seu respeito - sabemos, sobretudo, se devemos ou não gostar dele. Não esqueço um caso de uma amiga indignada que veio me contar que seu pai, que “lia de tudo”, “estragara” o final de Grande Sertão: veredas, contando-lhe que Diadorim era mulher e morria no fim. Por causa dessa facilidade -estou pensando em ambientes onde sejam freqüentes práticas de letramento - de acesso a esses discursos metalingüísticos sobre os clássicos, talvez seja menos constrangedor não ter lido Hamlet, do que não ter o que falar sobre ele, ou mesmo não saber que o ceticismo de “há algo de pode no Estado da Dinamarca” foi formulado por um dos oficiais amigos do príncipe.

No entanto, é um equívoco pensar que a Metalinguagem é um discurso que tem os autores canônicos como tópica preferencial. O recente sucesso dO Código Da Vinci, seguido do aparecimento de inúmeros best-sellers que ofereciam para-interpretações sobre ele - Revelando o Código Da Vinci, Decodificando o Código Da Vinci, Quebrando o Código da Vinci, … ad infinitum - devem querer nos dizer algumas coisas. Arrisco algumas considerações: (1) também o leitor leigo produz uma demanda pela Metalinguagem, justamente porque a Leitura - seja ela ocasional, leiga ou acadêmica - e a não-leitura de um livro compreendem o processo de falar sobre o que se leu. (2) O fenômeno O Código Da Vinci também foi responsável por uma busca por informações sobre ícones da alta-Cultura, como a mitologia cristã e o a própria figura de Leonardo Da Vinci. Os acadêmicos foram, então, convocados pelas editoras e pela mídia de massa para decifrar esse outro código, por serem “especialistas” na alta-Cultura.

Claro que essa busca pelos especialistas não é um fenômeno próprio do caso Dan Brown. Basta observarmos dois lançamentos do mercado editorial brasileiro. O primeiro dele, a coleção Folha Explica já está aí há algum tempo e a contínua expansão do catálogo, atesta seu sucesso. O segundo, acaba de chegar às livrarias: trata-se da coleção Por que ler, da Editora Globo, com roteiros de leitura sobre Borges, Shakespeare e Dante. Cada volume é composto por uma pequena biografia do autor, um ensaio e citações de suas obras. Verdade seja dita, esses manuais não são novidade no mercado, é só lembrar do título do livro de Calvino, já citado aqui; além dele, os textos de Harold Bloom sobre Como e por que ler ( O Cânone Ocidental ) também têm sido bem recebido. Também não é de agora essa busca pela sabedoria dos iniciados: desde muito tempo, consultavam-se os doutores no Templo, responsáveis pela interpretação da Palavra de Deus.

Contudo, creio que há uma diferença entre as duas coleções e os textos de Calvino, Bloom e a hermenêutica dos escribas. A diferença de que falo caracterizaria aquilo que alguns autores como Charles Jencks e Umberto Eco têm chamado de double coding, isto é, a apropriação de recursos das culturas ex-cêntricas, da mídia de massa, para falar das simbologias da alta-Cultura. O que me parece digno de nota é que o conceito de double coding não se restringe à ficção pós-moderna. Há, aqui, um espelhamento nos procedimentos empregados pela ficçao e pela Metalinguagem contemporânea - aliás, essa semelhança entre a literatura e crítica literária já foi apontada por L. Hutcheon em seu estudo sobre a paródia pós-moderna (Poética do pós-modernismo). Os ”especialistas” , agora, recebem uma encomenda de uma empresa editorial para produzirem um objeto-cultural, destinado a atingir um público-alvo, não-especializado. Guardadas as devidas diferenças de veículo/público, é mais ou menos o mesmo movimento que levou a filósofa Viviane Mosé a buscar a linguagem dos recursos gráficos para falar de filosofia na TV.

Isso não significa que essas coleções descomplicadoras sejam meros esquemas para resolver a vida de quem não quer ler. Ao contrário: diante da erudição despretensiosa de uma Bárbara Heliodora avoluma-se a angústia de saber que por mais que se leia, quase tudo vai ficar por ser lido.

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Esse texto foi originalmente publicado no site TodoTexto

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Ilhandarilha
 

Rafael, sua reflexão aqui é muito pertinente, cara. Estou de volta à academia e vejo o quanto a falta de leitura, principalmente dos clássicos, está dificultando algumas reflexões acadêmicas e tornando fácil esse mercado editorial de releituras "mastigadas" deles. Algumas obras desse tipo estão fazendo - sob o cobertor da academia - algo muito parecido com o que a velha Seleções da Reader's Digest fazia (ou ainda faz, não sei), e transformando a literatura de Guimarães Rosa, para citar seu exemplo, num enredo novelístico onde o que importa é saber o fim da história. É o almanaque das boas leituras feito para iletrados! É uma pena que o prazer da leitura e da ruminação da escrita, fiquem soterrados por baixo da pretensa "análise da obra" que eles livros fazem.
Abraços

Ilhandarilha · Vitória, ES 10/7/2008 13:02
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MarcilioMedeiros
 

Rafael,
Tive uma professora que dizia: quer aprender, leia os clássicos. Ela não se referia à literatura, mas aos autores de um campo do saber específico.
De qualquer sorte, a reflexão vale aqui.
Querer 'ler sem ler', para mostrar-se erudito, é uma espécie de impostura.
Só posso considerar tais obras, espécies de roteiros de leitura, como meio para se chegar ao autor em si e forma de orientar o leitor que, por razões várias, não pode ir direto ao objeto pretendido.
Mas isso não deve ser o fim da jornada.
Abs,

MarcilioMedeiros · Aracaju, SE 10/7/2008 21:28
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Jair Jnusi
 

Votado e plaudido de pé!

Jair Jnusi · Rio de Janeiro, RJ 11/7/2008 18:43
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taloverde
 

Boa reflexão, caro Rafael. Desta forma, apagarei de minha memória as demais colaborações em que se submeteu à falar de artes plásticas e cinema. Se me permite, acho que é por aí, na crítica literária, que deve se aprofundar. Pois demonstrou o devido domínio.

Abs

taloverde · São Paulo, SP 30/7/2008 02:41
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