Quanto quer pagar?

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Téo Ruiz · Curitiba, PR
24/10/2007 · 195 · 10
 


O grupo de rock alternativo (como define alguns), Radiohead, teve início no fim dos anos 80, em Oxford, Inglaterra, originalmente sob o nome On A Friday. O nome Radiohead veio de uma música dos Talking Heads, uma das influências da banda, chamada "Radio Head".

Mas, na verdade, não estou aqui pra discutir o som desse grupo britânico e muito menos o valor deles dentro do “rock alternativo” internacional. Deixo isso para os especialistas de plantão. O que realmente chamou a atenção no último álbum lançado pela banda, In Rainbowns, 2007, foi a ousadia e a maneira de distribuição proposta, que é exatamente o título deste “texto ninja”, como diria Leminski. O que represente, talvez, uma grande revolução do próprio conceito de CD, foi tachado, por alguns, como mais um fulminante ataque à indústria fonográfica atual. E pode ter sido mesmo, principalmente por ter vindo de um grupo com um grande renome.

Logo ao entrar no site da banda já aparece um aviso de que o novo álbum da banda está, por enquanto, disponível somente no site. Logo mais, você descobre que pode fazer o download das músicas pagando qualquer valor entre 0 e 100 libras! Aí muitos perguntariam: e o disco? Ele pode ser adquirido, ainda pelo site, a partir de dezembro, porém aí, obviamente, com custo de envio e tudo mais.

O que está embutido nesta atitude radical, em sintonia com a produção independente que desponta no Brasil, é que, cada vez mais, os artistas estão se dando conta de que o esqueleto do esquema fonográfico montado durante praticamente todo o século XX começou a entrar em cheque a partir principalmente dos anos 90, sofrendo duros golpes ao longo deste início de milênio resultando em queda brusca das vendas e ausência de novidades, por exemplo, condenando o circuito a um abismo cíclico, espero, sem volta. Naturalmente é de se esperar que a tendência seja mesmo que artistas fora desse grande circuito ganhem mais espaço, e, de certa forma, já começamos a observar isso.

O site da BBC Brasil traz uma matéria com uma dura crítica a essa inovação. “Talvez a revolução digital tenha dado poder demais às bandas. Talvez o Radiohead precise de uma gravadora”. E realmente, a revolução digital tem dado cada vez mais “super poderes” às bandas e, se não fosse isso, hoje em dia provavelmente estaríamos experimentando uma constância musical generalizada, inclusive fora da grande indústria, pois o escoamento de toda ebulição cultural que se observa atualmente seria muito difícil. Os motivos da crise instaurada na grande indústria cultural são vários, e com certeza os pobres camelôs que vendem CDs piratas e o site do Radiohead estão longe de serem os principais responsáveis, como costumam apontar os órgãos oficiais.

A circulação rápida e globalizada de informação é inevitável e trouxe grandes avanços para vários setores da sociedade. Então porque esperar que artistas, mesmo das majors, fiquem de fora das maravilhas tecnológicas? Há muito tempo grandes artistas reclamam dos contratos e distribuição dos discos por parte das grandes gravadoras, essas sim, os grandes piratas que, digamos assim, acabaram cavando a própria cova. E mesmo elas já perceberam que a tendência é que a força do CD diminua, e o MP3 seja cada vez mais uma realidade. O cenário independente ou “alternativo” há muitos anos já é uma realidade (não precisa mais ser chamado de alternativo), inclusive no mercado, e essa nova maneira de distribuição proposta pelo Radiohead traz de bom uma forma simples de acesso com um recado muito claro às majors de que sua estrutura é cada vez menos atrativa aos novos artistas. Com toda certeza a banda não está preocupada com a discussão de que pode ser perigoso deixar o consumidor decidir o preço ou de quanto vale a arte. Vários grupos independentes já disponibilizaram seus discos totalmente pela Internet antes do Radiohead, mas a estratégia de marketing utilizada por esse grupo que com certeza já está na mídia é, sem dúvida, algo que merece destaque. E talvez eles até ganhem algum dinheiro com isso.

Essa maneira de distribuição, na minha modesta opinião, vai ao encontro com a toda nova produção musical que está sendo feita no Brasil, e também no resto do mundo. As gravadoras têm cada vez menos condições de manter sua enorme estrutura através de jabás e caros artistas, que, na maioria das vezes, não traz grandes inovações musicais. Sem entrar no mérito se este novo álbum do Radiohead é ou não uma obra prima, ele provavelmente será lembrado como um divisor de águas na distribuição pela Internet, a revolução digital, assim como o álbum Sargent Peppers dos Beatles é um marco do início da nova era de tecnologia de estúdio.

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dudavalle
 

Um outro exemplo de distribuição foi o Prince. Este ano seu album foi distribuido na edição dominical de um jornal.
http://news.bbc.co.uk/2/hi/entertainment/6900792.stm
O Lobão distribuiu o album A vida é doce nas bancas
Novas bandas são lançadas pela Revista Outra Coisa , caso por exemplo da Vanguart entre outras.
Apenas lembrando que o Radiohead tem mais de 10 anos de carreira.

dudavalle · Rio de Janeiro, RJ 24/10/2007 20:40
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pavanelli
 

Téo,Parabéns
Muito boa abordagem e o conjunto das referências.
Parece que de fato não tem volta o controle artistico,cultural e financeiro de obras,especialmente a música.
Os intermediários de um modo geral sempre interferiram nas obras com um único foco,o lucro,o negócio.Só espero que esse controle não passe para as indústrias que detém as tecnologias de mp3/4,ipods,por que aí os controles só mudariam de mãos.
Abraço

pavanelli · São Paulo, SP 24/10/2007 20:41
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Felipe Obrer
 

Téo, tinha lido algumas coisas sobre a iniciativa do Radiohead na Folha do último sábado. Segundo o texto lá, eles tinham lucrado, até então, aproximadamente vinte milhões de dólares ao distribuir o disco dessa maneira (deixando por conta do consumidor a definição do preço).
De qualquer maneira, acho mais interessantes propostas colaborativas como o Overmundo (e outras que não conheço), a variedade de licenças opcionais disponíveis, enfim, a profusão de iniciativas independentes que conheces bem... Querendo ou não, o Radiohead fez fama dentro de um modelo bastante convencional. Nada contra terem pegado a onda agora, mas seria interessante pesquisar casos de grupos que, desde a origem, se dispuseram a oferecer registros fonográficos de graça, alcançando popularidade assim e logo lucrando com apresentações ao vivo.
Por último: motivado pelo link para o site deles, no teu texto, entrei pensando em baixar o disco. Desisti ao ver o formulário, que exige o fornecimento obrigatório de várias informações pessoais.

Abraço,
Felipe

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 24/10/2007 21:26
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Téo Ruiz
 

Pois é Felipe, com certeza eles conseguiram essa fama dentro de um circuito convencional. São uma banda relativamente antiga, mais de 10 anos, eu sei disso. Mas essa onda de discos pela internet e algo relativamente novo, pois não existia ainda servidores potentes o suficiente de armazenar discos inteiros de MP3, que ocupam bastante espaço. Com certeza, eles aproveitaram o nome para lucrar com essa estratégia. Mas isso me chamou atenção, essa estratégia de marketing que reflete, entre outras coisas, essa nova tendência de discos pela internet e um cenário fora das gravadoras mesmo. Vindo de uma banda de renome, achei um grande sinal de que realmente a indústria fonográfica não é mais a mesma.

Téo Ruiz · Curitiba, PR 25/10/2007 08:53
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Felipe Obrer
 

Entendi. :)

Abraço.

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 25/10/2007 10:48
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Bernardo Bravo
 

Salve Teo. Muito bem escrito o artigo. eu, enquanto compositor incipiente (aqui de Curitba) tenho as inovações tecnológicas como suporte para
a divulgação do meu trabalho.Observar que até mesmo ´´bandas de renome`` optaram por esse meio é, deveras, de suma importância para compreender que a sistemática do mercado cultural é outra, e que esse novo traçado de relacionamento entre público e artista tenderá a ser mais próximo e mais sincero.
Abraço!

Bernardo Bravo · Curitiba, PR 25/10/2007 11:54
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adan arr.
 

a outra coisa é ótima!

adan arr. · Maringá, PR 25/10/2007 14:17
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dudavalle
 

Téo apenas lembrando que tem bandas jah estão vendendo o mp3player com seu "album". Me falaram que iriam fazer isso aqui no Brasil com a Pitty mas não foi nada confirmado.

dudavalle · Rio de Janeiro, RJ 25/10/2007 21:33
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adan arr.
 

o lançe da Pitty é o seguinte: ela lançou ( ou vai lançar não sei ), um dvd, cujo conteúdo sairá nos celulares, tipo, essas coisas de "exclusividades".

adan arr. · Maringá, PR 26/10/2007 18:05
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Téo Ruiz
 

Dudavalle, com certeza. No iníco texto, disse que o Radiohead começou nos anos 80. E obviamente vários grupos já fizeram a distribuição de seus discos pela internet antes do Radiohead. Porém, vindo de um grupo do "circuito oficial", digamos assim, é algo que precisa ser lembrado. Que o CD será artigo raro nos próximos anos, já não era novidade. Mas agora, talvez, outros grupos das gravadoras comecem a perceber essa vantagem da internet. eles ganharam já um bom dinheiro dessa maneira, e acho que essa foi a grande sacada: deixar as pessoas pagar quanto quiser! Pelo reconhecimento deles, com certeza várias pessoas vão pagar alguma coisa. Por ser o download algo muito direto, achei que a idéia foi nova e boa.

Mas valeu pelos tópicos levantados, abraços!

Téo Ruiz · Curitiba, PR 27/10/2007 20:29
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