Quanto vale um luthier

Foto: Cláudio Alves
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eduardo ferreira · Cuiabá, MT
4/4/2006 · 154 · 14
 

Autodidata, Adilson Dias conta como se tornou o melhor fabricante de instrumentos do Mato Grosso: "Faço minhas violas como quem trata uma mulher"

A fala mansa do mineiro Adilson Dias é a expressão mais pura da tranqüilidade que o ofício de luthier lhe reservou. Mineiro de Itambacuri, nasceu em 2 de agosto de 1968 e veio para Mato Grosso ainda garoto, quando já havia se apaixonado pelo som mágico da viola caipira. Paixão que surgiu como um prenúncio, daquelas coisas que a razão não explica. Então, com 8 anos de idade, ouviu uma vinheta de um programa de moda de viola na Rádio Anhanguera, de Goiânia e, extasiado, perguntou ao pai:
- Pai, que som é esse?
– É o som da viola caipira, filho.
- Um dia vou tocar viola...
- Vou dar um jeito e compro uma pra você.

O tempo passava e as dificuldades não cediam. O menino Adilson ajudava o pai na roça onde plantavam arroz e o dinheiro era sempre curto. O garoto nunca se esqueceu daquele som, “doce e triste”. A viola ficou em seus sonhos.

Em 1989 se mudou com a mãe para a cidade e prometeu a si mesmo: “Vou fazer um instrumento para mim!” Reaproveitando um pedaço do guarda-roupas que a mãe estava dispensando, fabricou seu primeiro violão. Hoje ele dá gargalhadas quando se recorda: “Ficou horrível!”

Quem vê o Adilson agora, com mais de 400 violas, violões e cavaquinhos fabricados artesanalmente, não imagina como os atalhos o desviaram dos caminhos mais naturais em sua vida, como rios que desviam seu curso, criando outras saídas.

Depois de vários sub-empregos, tornou-se cobrador de ônibus, em Cuiabá, no ano de 1994. Ali ficou até 1998, quando num dia qualquer, um usuário desconhecido o humilhou dando-lhe uma bronca terrível por míseros 5 centavos, que não tinha em caixa para devolver como parte do troco da passagem. Naquele dia, ao deixar a empresa, que ironicamente se chamava Nova Era, os ouvidos ainda eram martelados pela frase que não lhe dava paz “ Você é um merda! Você não passa de um cobrador e não vai dar em nada na vida, não sabe fazer mais nada!”.

Quanto vale um luthier? Caminhando para sua casa, cabisbaixo e arrasado, decidiu num ímpeto iluminado: “Vou voltar a fazer violão!”

Levou cerca de um ano fabricando um cavaquinho. Vendeu bem o instrumento. Pegou gosto e a partir daí não parou mais. Hoje tem uma oficina completa no fundo de sua casa, aliás, uma casa muito boa, que ampliou e melhorou com o dinheiro que vem de sua pequena fábrica. Faz questão de afirmar que nunca saiu daquele quintal para nada, nunca viu ninguém fazer um instrumento na vida, nunca visitou nenhuma fábrica, é inteiramente autodidata. “Aprendi com a sensibilidade que Deus me deu”. Adilson toca, canta e se diverte. É emocionante vê-lo acompanhando a filha de sete anos que solta a voz e demonstra uma afinação que deixa o pai orgulhoso e feliz. Ele é fã incondicional de Tião Carreiro, violeiro e cantor de MG. Segundo o também violeiro matogrossense André Balbino, Tião Carreiro é o Jimi Hendrix da viola. Adilson tem todos os seus discos. Sabe tocar e cantar mais de 3.000 músicas, não faz shows, mas não perde oportunidade de sentar numa roda e tocar noite afora. É um devoto da viola caipira.

“Busco criar a viola perfeita, que alie estética, qualidade e som inatingível.” Nessa busca ele aprimora seus instrumentos nos mínimos detalhes. “Faço minhas violas com carinho, como quem trata uma mulher. O braço deve ficar com uma curvatura para dentro enquanto estiver verde, com o tempo, ao secar e com a tensão das cordas ela se ajusta, tem que ter paciência. A escala da viola é abaulada, é parecida com a guitarra, as barras harmônicas faço com pau-brasil. A tampa é de pinho sueco ou jacarandá. O jacarandá da Bahia é o melhor, a cor é diferente, de cor preta, mas é difícil de achar e é mais caro...”

O cara sabe tudo, a ponto de hoje ser considerado o melhor fabricante de violas de Mato Grosso. Alguns ousam dizer que é um dos melhores do Brasil. O violeiro matogrossense João Ormond, que vem conquistando espaços importantes no cenário nacional, disputou prêmios Sharp e Syngenta, e que hoje mora em Jundiaí, não tem dúvidas: “Muito bom o Adilson, adquiri uma de suas violas mágicas, o som é muito bom, gostei do capricho com que ele faz a viola. Nesse universo de luthiers o Adilson não deixa nada a desejar.”

Já ganhou o Prêmio FINEP de inovação tecnológica, no Rio de Janeiro, por duas vezes. Adilson não parece brincar quando afirma que seu sonho, agora, é participar da Feira de Hannover (Alemanha) como um dos melhores luthiers do mundo. A julgar pelo seu talento e disposição acredito que ele ainda vai chegar lá. O sonho pode estar a um passo do que chamamos realidade.

*Quer falar com Adilson? (65) 3665 6293

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Daniel Cariello
 

Grande Eduardo. Quando veremos um show da Caximir com viola caipira?
Abraços!

Daniel Cariello · Brasília, DF 4/4/2006 10:50
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eduardo ferreira
 

e aí daniel? a qualquer momento podemos nos encontrar por aí...nos festivais da vida. quem sabe não produzimos algo aqui em cuiabá ou em brasília? phonopop + caximir.
abração.

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 4/4/2006 14:43
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capileh charbel
 

já tive opurtunidade de tocar em uma de sus violas, realmente, coisa de loco.

capileh charbel · São Paulo, SP 4/4/2006 16:18
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Yusseff Abrahim
 

Adoro histórias de vida e a busca no texto pelo valor das reviravoltas. Sujeito incomum... agora vou atrás de uma boa conversa e de comprar um violão dele. Excelente matéria!

Yusseff Abrahim · Manaus, AM 5/4/2006 13:22
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Balbino
 

Adilson éo retrato do Brasil, simples e grandioso, tenho uma viola que ele fez, assino duetos embaixo dessa violinha caipira, VIVA Adilson!!!!!!!!!

Balbino · Cuiabá, MT 6/4/2006 11:03
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Rafael Fuzzly
 

Viva ao Grande Luthier da Viola Caipira.....

Rafael Fuzzly · Cuiabá, MT 6/4/2006 12:07
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Hermano Vianna
 

ei Capileh e Balbino: estamos esperando um MP3 com vocês tocando a viola, para o povo do Overmundo ouvir o som!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 6/4/2006 21:22
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lorenzo falcão
 

overdose de informações que surpreendem até aqueles que estão com a égua amarrada na mesma sombra. Mundão mesmo sem porteira... vamo que vamo com este overmundo

lorenzo falcão · Cuiabá, MT 9/4/2006 02:01
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Valéria del Cueto
 

Dá-lhe Eduardo!
Um olhar sobre o universo popular sempre surpreendente de Mato Grosso.
Você sabe se ele também faz rabecas?

Valéria del Cueto · Rio de Janeiro, RJ 10/4/2006 14:26
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eduardo ferreira
 

e aeh Del Cueto?! quanto tempo, hem? e o seu filme, Histórias sem fim...? mande alguma coisa pra gente.
rabeca? só perguntando ao Adilson...mas MT ainda reserva muitas e boas surpresas. bom demais te ver aqui no Overmundo. quebrando distâncias!
abraços.

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 11/4/2006 11:37
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Valéria del Cueto
 

Oi Eduardo, saudades
Foi bom perguntar sobre o curta. Tem matéria sobre ele na fila de edição. Iremos para São Paulo e Porto Alegre. Quanto a rabeca, é sério. Pergunte pra ele.
Sabe o que mais? Lembra da VHS do Clovito pintando o quadro do Beto Dock? Pois é, quem sabe vc não acha por aí... Queria muito edita-la.

Valéria del Cueto · Rio de Janeiro, RJ 11/4/2006 13:21
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capileh charbel
 

e ai hermano(overmano) vamos mandar sim uma peça com tres violas. sao "osviralatas" eu , ferreira e balbino. logo logo. valeu e parabens a todos pelo site. muito bom mesmo essa criança.

capileh charbel · São Paulo, SP 11/4/2006 18:09
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eduardo ferreira
 

valéria, vou ler a matéria lá. beto dock está em brasília...lembro dessa fita. ficou comigo?

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 11/4/2006 18:33
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Valéria del Cueto
 

Beto mora lá e passa férias aqui em casa rsrsrsr
Por isso me lembrei do VHS. Ele ficou com você sim. Íamos monta-la, vocêe ficou com a bichinha para analisa-la, aí se mudou, depois ficamos sem os equipamento...
Faz tempo, né? Sempre achei que o material dará um curta trash maravilhoso, quando te encontrei aqui, juntou a fome com a vontade de pedir.

Valéria del Cueto · Rio de Janeiro, RJ 12/4/2006 13:01
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