Quase entrevistei Richard Stallman

(CC BY-SA) Preliminares
O homem, a lenda, a barba.
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Salmerón · São João del Rei, MG
12/12/2012 · 3 · 2
 

Richard Stallman é uma lenda da informática. Tudo bem, não é uma lenda cool, como Steve Jobs e nem de longe rico como Bill Gates. Na verdade, se você não é um entusiasta da computação, provavelmente nunca ouviu falar dele – ou se ouviu, ouviu pouco. Um breve histórico do cara inclui a criação da plataforma GNU (que dá sustentação à grande parte das atuais distribuições de Linux); 30 anos de ativismo a favor do software livre e a liderança da Free Software Foundation.

Mais do que isso, o programador-mor dos sistemas livres é também conhecido também por seus hábitos no mínimo excêntricos (pra cacete). Muitos o consideram paranoico – talvez com razão, já que ele acredita que todos os celulares da Apple contem escutas, por exemplo.

O processo a que ele se submete apenas para checar sua caixa de e-mails é digno de diretriz inter da CIA durante os tempos da guerra fria. Não fosse o bastante, aparenta ter passado a última década dentro de um porão escuro e úmido, sobrevivendo à base de Doritos e coca-cola – acredito então que nem preciso dizer que estava muito afim de conhecê-lo.

Apesar de já estar familiarizado com a figura, não compreendia bem os pormenores do seu trabalho. Mas eu obviamente não iria tentar uma entrevista com uma personalidade dessas sem me preparar, então foi exatamente isso que fiz. Pesquisei blogs de software livre, Wikipedia e outras fontes não-confiáveis de informação.

Segui para a praça Benedito Calixto, no centro de São Paulo. Primeiro seria transmitida uma Pós-TV sobre ocupação urbana, e logo depois a palestra com o mago do free software. Logo que chegou, algumas pessoas do Fora do Eixo foram conversar com ele, acertar detalhes e tudo mais. Ao ser perguntado como havia sido a viagem e o que ele estava achando do país, ele afirmou com serenidade: “eu odeio esse lugar. É quente e eu quero ir embora logo”.

Eu, que estava nervoso em conhecê-lo acabei me acalmando após a cena. Seu senso de humor azedo e levemente ofensivo me agradou. Além do mais, seu jeitão escondia a silhueta de infinitas crianças vítimas de bullying e encheção generalizada de saco. Pessoas fluentes na arte de não se importar muito com ninguém, visto que nunca tiveram importância aos olhos alheios. Pode soar bizarro, mas nos fios bagunçados daquela barba mal lavada, eu via muito de mim mesmo.

Fui até ele, e ainda meio ansioso acabei perguntando se podia perguntar algumas perguntas. Deu uma olhada irônica e percebi a gafe. Corrigi a frase, e como restavam alguns minutos até o início de sua palestra, ele concordou em conversar e corri para pegar meu notebook, munido das perguntas que diligentemente redigi.

Sentado num banquinho, enquanto olhava seu computador me alertou que para poder prosseguir com as questões, eu deveria prometer duas coisas: primeiramente, nunca devo escrever apenas Linux (e sim GNU/Linux); a outra coisa, é que jamais devo dar a entender que ele apoia as iniciativas de código aberto (pois, tomem nota, não são livres).

Decidi pergntar sobre um kit de desenvolvimento para o Ubuntu, e o que ele achava disso. Um blog – que aparentemente não era tão bom - me levou a pensar que o assunto seria interesante. A resposta que recebi foi a seguinte: “Eu não sei nada disso. Não tenho ideia do que você está falando e você não consegue me explicar o que é. Se você quiser fazer jornalismo decente precisa conhecer o assunto melhor do que eu. Vou ali que está na hora da minha fala.”

O corte doeu, mas de um jeito engraçado. Ele não falou aquilo por mal - ao seu próprio modo, foi até bem simpático. Além disso, foi uma bela de uma lição de jornalismo, por parte de um cara que detesta a mídia.

Ao fim da palestra, várias pessoas fizeram várias perguntas. Algumas delas ele respondeu, outras nem tanto – como fez comigo. Havia espaço para uma última pergunta, e a moça que ajudava a organizar tudo me perguntou se eu não gostaria de fazê-la. Disse que não, porque lição dada é lição aprendida. Quem sabe uum outro dia, quando eu entender mais sobre software livre, vigilância digital e Linux. Digo, GNU/Linux.

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Thiago Zoroastro
 

Oh, gostei também da sua tentativa de entrevista, grandes jornalistas (e pessoas) sempre se propõem a fazer além, às vezes esticando a própria capacidade do momento. O GNU/Linux me parece ser mais uma questão entre Stallman e Linux Torvalds, um dia vou saber se Torvalds apenas utiliza 'Linux'. O Richard me pareceu ser um pouco sinsero quase-insensível, mas sincero porque aqui é quente mesmo. E você perguntou sobre o Ubuntu para ele, verifique o contexto que conheci justamente agora também:

http://ubuntuforum-br.org/index.php/topic,102038.0.html

Thiago Zoroastro · São João del Rei, MG 12/12/2012 19:09
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Thiago Zoroastro
 

Linus* Torvalds

Thiago Zoroastro · São João del Rei, MG 14/12/2012 17:15
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