O que uma jovem cantora de jazz americana faz no Overmundo, que se propõe a promover a cultura brasileira? Assim, eu mesmo me questionei antes de escrever este texto sobre Esperanza Spalding, uma americana de 24 anos, que toca baixo acústico e canta de uma forma que encanta na primeira audição. E surpreende não só por tocar muito bem seu baixo, quebrando um tabu de que este é um instrumento essencialmente masculino no circuito do jazz, mas por também ter uma bela voz para ninguém botar defeito. Além disso compõe e faz arranjos como uma profissional madura apesar da pouca idade. Para completar, ela canta em três línguas diferentes: o seu inglês nativo, o espanhol, que lhe batiza o primeiro nome, e o português. Sim, um português com um leve acento, mas perfeito.
E aí entra a cultura brasileira. No seu tão festejado segundo disco, Esperanza (o nome é simplesmente Esperanza) canta em português duas músicas brasileiras: Ponta de Areia (Milton Nascimento e Fernando Brandt) , que abre o disco, e Samba em Prelúdio (Baden Powell e Vinicius de Moraes) , que o fecha. A música brasileira, de fato, emoldura seu trabalho e nas suas composições e arranjos se percebe claramente esta influência. Mas até aí, qual a novidade, diriam alguns? Músicos americanos (e do resto do mundo) encantados com a música brasileira não é novidade desde os tempos de Carmem Miranda e mais ainda depois do célebre concerto de bossa nova no Carnegie Hall em 1962. Divas do jazz americano, como Ella Fitzgerald ( da qual Esperanza herdou o gosto pelo “scat” ) também já cantaram em português. Então o que me despertou atenção nesta cantora que tem se tornado a nova sensação do jazz americano e já é presença confirmada no Tim Festival em São Paulo e no Rio de Janeiro em outubro deste ano?
A resposta é pura especulação e não tem a pretensão de ser verdadeira. Esperanza Spalding é um exemplo musical (e aposto que devem haver outros) de uma interessante fusão cultural que aproxima a outrora dominadora cultura norte-americana da cultura hispano-americana e da brasileira. O imperialismo cultural dos Estados Unidos tem perdido força na mesma medida em que o seu imperialismo político baqueia e a sua economia e moeda definham. Em contrapartida os EUA ficam cada vez mais hispânicos e estão prestes a eleger seu primeiro presidente negro. A cultura norteamericana, que na verdade nunca foi fechada e sempre absorveu em graus diferenciados influências estrangeiras, nunca esteve tão fortemente influenciada pela língua, costumes e modos de vida de mexicanos cubanos, porto riquenhos, brasileiros e latinos em geral.
Esperanza, mulher e negra, canta em todas as línguas americanas e compõe e toca sob a influência de estilos musicais que extrapolam a fronteira de seu país. Esperanza traduz um lado interessante da globalização, o movimento inverso ao da dominação cultural. Culturas consideradas dominadas invadem o domínio dos seus dominadores. Há quem acredite que isto não muda o sentido da dominação, pois o que se exporta daqui como influência cultural é devolvido repaginado em produtos culturais ainda importados. Mas talvez esta discussão já não importe tanto, pois tal como a miscigenação racial, a miscigenação cultural vai nos tornando cada vez menos diferentes. E se com isto há o risco de perdermos diversidade há a esperança de que nos tornemos cada vez menos apartados e menos desiguais.
Como diz Esperanza: “ Meu nome significa “esperança” e por ela quero viver”.
Milu. Obrigado pela minunciosa revisão. Valeu. O link para o MySpace da Esperanza é mesmo demorado. Outra alternativa é assistir seus vídeos no YouTube.
abs
ora, não tem de quê!
hoje consegui abrir o myspace dela. que voz! valeu a dica, gyothobat.
ab
Opa, mulher, negra, cantando em poprtugues do Brasil e escolhe uma das faixas mais lindas de Milton. Vou ouvir correndo, mas desde ja apaludo essa garota e aplaudo de pé sua iniciativa de nos indicar tao rica perola.
abcs
(qual e o my space?)
Legal, Nic.O link do MySpace está no texto. No Youtube você assiste ela cantando Ponta de Areia.
Gyothobat · Brasília, DF 6/7/2008 11:35
Clap, Clap, Clap, Clap. Reviews desta natureza me alimentam a alma.
Obrigado. Muito Obrigado.
Sinceramente, não gostei, voz arrastada e sem muita expressão, temos artistas aqui no Overmundo com mais talento, espalhados por este nosso Brasil.
Não tem o meu voto, mesmo inclusas músicas brasileiras em seu repertório.
Abs
Beto
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
O Overmundo nasceu com um objetivo bem claro, o de dar visibilidade às práticas e manifestações culturais brasileiras, abrindo, para isso, um c... +leia
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!