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Que mal faz o pop?

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Rodrigo James · Belo Horizonte, MG
23/6/2006 · 100 · 4
 

Zapeando pela tv num domingo à tarde, dou de cara com um documentário sobre o grupo Rebelde (ou RBD) e sua turnê latino-americana. Uma espécie de making of, mostrando os estádios, a estrutura, a histeria dos(das) fãs e perfis dos integrantes do grupo, exaltando sua beleza, talento, etc. Todos os elementos que compõem a fórmula de sucesso de uma banda pop adolescente. Os mesmos elementos que já fizeram a fama de gente como Menudo, New Kids on The Block, Westlife, Take That, N Sync, Backstreet Boys e tantos outros.

O pop adolescente existe desde que o pop é pop. Afinal, tudo começou lá em Liverpool, na década de 60, com os Beatles. Uma heresia, dirão alguns de vocês, comparar os Beatles com estes outros nomes que mais parecem casas pré-fabricadas musicais, mas o elemento principal necessário para categorizar um artista nesta classe – a histeria dos(das) fãs não pela música, mas pelo visual, a estética e a, digamos, “formosura” dos artistas – começou mesmo lá atrás, sob o nome de beatlemania. Trocando em miúdos, musicalmente existe um abismo, mas esteticamente dá pra dizer que os Beatles inauguraram esta linhagem. Execradas pela crítica em geral e por pessoas com mais de 16 anos de idade, as bandas pop adolescentes cumprem um papel importante na formação musical de muita gente e preparam o caminho para o que vem pela frente. Não são poucos os casos de gostos musicais que foram sendo refinados ao longo do tempo e acompanhando o crescimento da pessoa. Em muitos destes casos, o gosto é refinado de acordo com o amadurecimento musical do próprio artista. Haja visto que até o rei do pop, Michael Jackson, um dia freqüentou esta categoria adolescente e amadureceu (musicalmente, é claro. Como pessoa é uma outra história). Assim como os membros mais recentes desta dinastia – Robbie Williams e Justin Timberlake, que, em busca de um trabalho musical mais consistente, arrastaram consigo as hordas de fãs do passado. E é exatamente aí que a porca torce o rabo.

Para a maioria das pessoas, pop não é música. É produto para vendagem, sem qualidade musical e que jamais pode ser comparado com uma banda de rock, por mais chinfrim que esta seja. Discordo veementemente. São dois lados de uma mesma moeda, mas que se confrontam em muitos momentos. Música pop não é feita para suscitar reflexões. É diversão pura, para pistas de dança, para corações apaixonados amolecidos, para consumo imediato, para se ouvir com um sorriso na cara, sem maiores preocupações. É música para momentos ensolarados, felizes, de relaxamento e deleite puro. Muita gente tem dificuldade em aceitar que existe música sendo feita neste sentido, mas os que sabem apreciar conseguem enxergar o valor de gente como os supra-citados Justin Timberlake e Robbie Williams, de musas como Britney Spears, Christina Aguilera, Gwen Stefani, de grupos como Roxette, Spice Girls, Pussycat Dolls e da nova campeã de vendas, Kelly Clarkson. Sempre separando o joio do trigo, por favor. Não custa lembrar que para cada pop bem feito, existe também um mal ajambrado. Ou, para cada Britney Spears existe um Kevin Federline (marido de Spears, que cometeu a horrenda “Popozão”, supostamente baseada no funk carioca e na ginga brasileira).

Nenhum destes artistas pretende mudar o mundo ou proporcionar reflexões a partir de suas letras. Mesmo porque seus temas são quase sempre os recorrentes do mundo pop: festas, amores perdidos, amores reencontrados, amores impossíveis, amores, amores e amores. Seu propósito é único: diversão. E que mal há em deixar um pouco os preconceitos de lado e tentar embarcar nessa joyride? Seu cérebro não vai derreter ou atrofiar. Muito pelo contrário, vai ganhar alguns neurônios alegres e em busca de um pouco mais de diversão.

(texto originalmente publicado na coluna Esquema Novo, produzida pela equipe do programa Alto-Falante, no jornal Estado de Minas)

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Ricardo Sabóia
 

Muito bacana o texto. Quem nunca curtiu uma banda (ou se pegou cantando uma música) pop na vida que atire a pedra na primeira banda "indie" que encontrar pelo caminho.

Ricardo Sabóia · Fortaleza, CE 21/6/2006 21:18
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Felipe Gurgel
 

Muito legal o texto, Rodrigo. Embora eu ache que a música pop, sim, vai além da diversão. Acho que a dita "função" dela não se esgota na idéia de enganar (no bom sentido da distração) nossas almas. A música pop pode ser emoção como quaisquer outras, mesmo que não soe necessariamente divertida. Mas a reflexão é muito boa, parabéns!

Felipe Gurgel · Fortaleza, CE 22/6/2006 14:10
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Rodrigo Ortega
 

Ah, eu já ouvi essa "Popozão", achei sensacionalmente ruim, hahaha.
Concordo demais com as idéias do Rodrigo. Mas tb acho q a porca torce o rabo na hora de "separar o joio do trigo". Se o parâmetro é a diversão, qualquer coisa q diverte uma pessoa pode estar do lado do trigo, ou o inverso. Existem os sentidos sociais, maiorias e minorias, mas os critérios finais são pessoais. Vc pode fazer suco de trigo, q parece trigo, tem gosto de joio, mas na verdade é de trigo, e isso é mais divertido ainda.
Ah, e artista q não tem como propósito a diversão é um chatão.

Rodrigo Ortega · Belo Horizonte, MG 26/6/2006 10:17
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Dewis Caldas
 

A musica Pop é ruim ou má? Exatamente como vc falou, não existe antagonismo, são momentos e ideais diferentes. Me parei lendo seu texto, e me prendi, ótimo modo de pensar. Valeu cara.

Dewis Caldas · Cuiabá, MT 13/2/2007 14:34
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