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QUEM NASCE NO BRASIL OU É BRASILEIRO, OU É TRAIDOR

Marcelo Labes sobre arquivo público.
Vargas e Plínio Salgado pensaram ter silenciado as culturas imigrantes.
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Labes, Marcelo · Blumenau, SC
23/3/2008 · 179 · 13
 

Calma, leitor. Antes de pensar que esta se trata de uma frase tirada de um panfleto, preste atenção: ela foi dita por Lauro Muller, catarinense, engenheiro militar e político que morreu em 1926, no Rio de Janeiro. E por que esta frase está aqui? Vem acontecendo, desde novembro de 2007 (vem acontecendo porque é em fases) o I Seminário de Língua Alemã de Blumenau. O projeto deste evento foi encaminhado ao Ministério da Cultura e acontece, hoje, graças ao Petrobrás Cultural.

UM POUCO DE HISTÓRIA

Há que ficar claro aos leitores que a questão da língua alemã no sul do Brasil não é somente séria, merecedora de revisões, como também mal estudada. Na verdade, os estudos parecem ter recém começado, mas de qualquer forma faltam aprofundamentos. Pensando nisso, talvez, que o Seminário de Língua Alemã veio ao mundo.

Pra quem não sabe, boa parte da região sul foi colonizada por imigrantes europeus. Oriundos de algumas grandes frentes regionais (Alemanha, Polônia, Itália, Ucrânia), esses imigrantes não somente deixaram seus países de origem como almejavam levá-los consigo para o Novo Mundo. Foi o que aconteceu na região de Blumenau. Os migrantes que por aqui chegaram depois da metade do século XIX não somente possuíam nacionalidade alemã, como tentaram manter o espírito alemão, o deutschtum, que numa tradução imprecisa significa germanidade.

Mas vivendo num país estranho, falando uma língua estranha, ainda que em comunidade, pode se imaginar o conflito vivido por estes novos moradores da América. De um lado, traziam a esperança de, finalmente, possuírem terras, bens econômicos, liberdades política e social (que na Alemanha andavam escassas) e poderem oferecer vidas melhores a si e aos seus filhos. Por outro, ficava a saudade de uma Alemanha civilizada, de literatura desenvolvida, de pessoas que entendessem o idioma que falavam, enfim, irmãos de sangue e pátria.

O PIONEIRISMO DE VALBURGA HUBER

A respeito desse tema, do dualismo constante vivido pelos imigrantes alemães que chegaram ao sul do Brasil, ninguém pode ser melhor referência do que Valburga Huber. Doutora em Língua e Literatura Alemã pela USP, foi a primeira pesquisadora a abordar o tema da literatura teuto-brasileira (teuto, que vem de teutônico, que abrange os demais povos de língua germânica que migraram para o Brasil na época). A dissertação de mestrado que virou livro, Saudade e Esperança – O dualismo do imigrante refletido em sua literatura, é o ponto de partida de uma série de novos olhares para essa realidade do imigrante alemão em terras brasileiras.

Em Blumenau, o idioma alemão foi oficial por quase cem anos. De 1850 a 1940, o alemão era oficial tanto na mídia impressa como nas escolas e na literatura dos blumenauenses. Poetas e escritores emigrados não fizeram somente muito sucesso entre as colônias alemãs brasileiras — mesmo porque a literatura que produziam estava diretamente ligada aos fatos da imigração — como muitos chegaram a fazer sucesso na própria Alemanha do início do século XX. A esse respeito, nada melhor do que ler e se deixar apaixonar pelas obras de Valburga Huber e Marcelo Steil, este que escreve nos anos de 1990 sobre a poesia imigrante, procurar entender do que na verdade se tratava esta produção literária que era tanto alemã quanto brasileira. Se não no idioma, mas certamente no espírito.

Com as Campanhas de Nacionalização do Ensino, impostas por Getúlio Vargas, não somente se perdeu o contato com esse idioma escrito, como aos poucos ele foi sendo deixado de lado até ser quase totalmente esquecido. Pois bem. Nos anos de 1940, institui-se que o idioma oficial de Blumenau é o português. E daí? Proibiram-se os jornais, fecharam as escolas e por um bom tempo se deixou de escrever literatura.

O BILINGÜISMO PESQUISADO POR MARISTELA FRITZEN

O leitor que veio até aqui pode imaginar o trauma causado pelas decisões meramente políticas, burramente políticas, que silenciaram não somente um povo, como também emudeceram uma cultura. Da década de 1940 até as décadas de 1960/70 temos o período que chamamos “silenciamento lingüístico”. Ou seja: por vinte, trinta anos, não se falou. Ou melhor: os então descendentes de alemães que por aqui viviam tiveram de reaprender a se expressar, dominar uma nova língua, novos costumes lingüísticos; tiveram de se tornar brasileiros.

Ou não. E quem oferece a negação é outra pesquisadora que merece aplausos. Maristela Fritzen apresentou durante o Seminário de Língua Alemã partes interessantes de sua tese de doutorado. Denominada “Ich kann mein Name mit letra junta und letra separada schreiben” (Eu consigo escrever meu nome com letra junta e com letra separada), o trabalho de pesquisa de Maristela descreve as experiência de bi e multilingüismo em escolas da região de Blumenau. O que fica claro é que mesmo o silenciamento provocado pelo Estado Novo conseguiu apagar os traços mais importantes da cultura alemã no sul do Brasil: seu idioma e as pessoas que o falam.

Se no século XIX tínhamos alemães que deixaram a Alemanha em busca de uma Terra Prometida, por assim dizer, no século XXI temos uma comunidade extensa que procura ser respeitada pelo idioma que ainda fala. É verdade que o alemão de Blumenau não é o mesmo da Alemanha, mas como frisa Maristela, “o português do Brasil é o mesmo de Portugal?”. A língua é viva, pois não.

Acontece que falar o “alemão de Blumenau” não é uma questão de prestígio. Isso, Maristela explica muito bem, colocando como línguas prestigiadas o inglês, o francês, o espanhol e até mesmo o alemão gramatical, aquele estudado em escolas alemãs. O dialeto que surgiu no Vale do Itajaí, este sofre com o processo de estigmatização da língua por não ter prestígio, por estar limitado a um grupo relativamente pequeno de falantes.

VOLTANDO AO SEMINÁRIO

É preciso voltar ao I Seminário de Língua Alemã de Blumenau para terminar este meu texto. É preciso dizer que este evento tem uma importância desigual para a compreensão histórica e social do que aconteceu no Sul do Brasil nos últimos cento e cinqüenta anos. É preciso parabenizar seus organizadores por terem reunido, numa mesma fala, três dos maiores pesquisadores da língua e da literatura alemã no estado de Santa Catarina.
Mas é preciso retomar um pouco da fala de Valburga Huber. Quando lhe foi perguntado se o uso do idioma alemão na literatura (sobretudo na poesia) era uma questão de mera sensibilidade ou uma prática política desses mesmos imigrantes alemães para que não perdessem o vínculo com o país de origem, a pesquisadora busca nos poetas de língua alemã lá do século XIX uma resposta precisa: ainda que escrevessem em alemão, eles já saudavam a nova pátria, o Brasil, suas riquezas naturais etc. como pertencentes a esta terra, como seus novos moradores.

E é aqui, finalmente, que se encaixa a frase-título desse texto. Ela foi dita por um desses descendentes de alemães que lutaram pelo país para o qual migraram, o Brasil. Os imigrantes vieram da Alemanha, é verdade. Mas quem sofreu com as diretrizes políticas do Estado Novo foram os seus filhos. Se queriam, por um lado, manter contatos anímicos com o país de origem, em momento proibiram que seus filhos se tornassem “brasileiros”. Pretenderam, na verdade, manter viva a cultura, mantendo-a acesa — o que não é problema nenhum se virmos as oktoberfests que acontecem em todo o sul do país, os “vales europeus”, os grupos de danças típicas alemãs. A verdade é que o Brasil foi o país que acolheu estes imigrantes quando seus países lhes davam as costas; de alguma forma, lhes eram agradecidos.

Aos poucos, a língua alemã volta a ser pauta de discussão nos meios educacionais e políticos de Blumenau. Felizmente. Não que ainda dê para recuperar o tempo perdido durante as campanhas de nacionalização, a Segunda Guerra Mundial, a repressão com que sofreram estas milhares e milhares de pessoas. O tempo passou e as marcas estão aí. Mas que seria realmente muito bom se se reconhecesse a brutalidade que aconteceu contra brasileiros, em território brasileiro, que somente não tinham o português como língua padrão, ah, isso seria realmente muito bom. Seria, principalmente, o primeiro salto contra o preconceito lingüístico: aquele que diz que quem não fala o bom e velho (velho mesmo) português gramatical deve ser varrido das faces deste país.


A respeito deste tema, já escrevi no artigo Nacionalismo: marcas de um silêncio que persiste, de 2007. Como se pode ver aqui, trata-se ao mesmo tempo de uma afirmação daquele, contendo a sua negação.

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Helena Aragão
 

Labes. Já no teu outro texto fiquei com vontade de comentar, mas acabei dando pra trás por estar tão longe do tema e poder parecer "intrusa" na discussão. Extremamente válido o debate e ótimo saber que o tema está voltando à tona por aí. Entendo também sua intenção de mostrar que a medida de Vargas causou um silêncio cultural que é preço a ser pago até hoje, de certa forma.

Mas, vendo o exemplo de uma amiga do norte da Itália que tem como primeira língua o alemão (e, confesso, achando isso um pouco estranho), pensei: historicamente falando, e de modo algum concordando com os métodos e proibições impostos, não é natural que um país queira manter a soberania de sua língua? Como disse, chego a essa discussão por fora e sem ter dimensão de toda a complexidade da situação. E é assim mesmo que digo: a rigor, olhando de fora, não me parece um absurdo que se exigisse o português como primeira língua. O que absolutamente quer dizer que a proibição da outra língua fosse aceitável (fosse o alemão ou línguas indígenas, por exemplo, que talvez sejam casos ainda mais graves, pois algumas delas quase desapareceram).

Enfim, só para começar a prosa... Abraço


Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 19/3/2008 16:47
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Labes, Marcelo
 

Pois bem, Helena, a língua é uma questão de soberania. Apesar de os alemães daqui insisterem no alemão até a década de 1940, utilizavam a língua para falar do Brasil, fosse na escola, na imprensa etc. O que aconteceu, que foi mais forte, foi essa violência física e moral contra os falantes de língua estrangeira.

Na verdade, acredito que os alemães daqui se tornariam bilingües naturalmente, com o tempo, se lhes tivesse sido permitida a transição.

Infelizmente, não temos como saber exatamente o que se passava na cabeça dos políticos da época. Sei que houve, na década de 1910, uma valorização dos professores bilingües (português e alemão) por parte do Governo do Estado.

O que é mais duro de aceitar é que o mtivo de toda essa violência se deu pela escolha de um lado na Segunda Guerra: o Brasil ou fecharia com a Alemanha ou fecharia com os EUA. Fechou com o segundo e ganhamos a Vale do Rio Doce. Mas, veja bem, aqueles mesmos imigrantes que foram amistosamente recebidos poucos anos antes tenham sido violentamente silenciados uns poucos anos depois.

A prosa começou.

:)

Labes, Marcelo · Blumenau, SC 19/3/2008 17:08
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Andre Pessego
 

Labes,
rico o teu texto. Mas ele deveria enfocar como uma vontade de um estudo histórico, pelos que tem origem alemã, origem italiana, e assim por diante.Do interesses deles.
Ora o Brasil, de primeiro quartel do sec. XIX para cá é, vem sendo, um apanhado de nacionalidades. È de todo inconcebível que o Governo (Tesouro Nacional) bancasse escolas com a cultura, a lingua, as tradições de todas elas.
Esta história das tantas proibições atribuídas a Vargas, não vem sendo bem colocada desde o início dos anos 1940. Vargas não proibiu o ensino de lingua estrangeira nenhuma. Vargas juntou as verbas fragmentadas, tirando da conta de cada cacique de cada região, e botou todas
no MEC. E exatamente ai começam as dicussões da Lei de Diretrizes e Bases da Edução, que levou mais de 10 anos para ser aprovada. Quem dirigiu a moldagem da LDBdaE, foram intelecutuais do meio universitário, coordenados por Anisio Teixeira. (que não era, nunca foi político partidario)
Em todos os lugares, em todos os tempos, mesmo no auge da guerra houve institutos privados de ensino de linguas estrangeiras. O Instituto Rio Branco, nunca aboliu, ou deixou de exigir esta ou aquela língua estrangeira, da preferência do candidato a aluno.
As particularidades da imigração alemã, desde o primeiro programa (colonizador, não sei de que), do Senador Vergueiro, se deve às questões de guerras internacionais; os embates nas mudanças nacionais - Império República - e assim deve ser tratada.
O àmbito dos interesses deste ou daquele agrupamento deve ser bancado, dirigido por eles. E não do Tesouro.
Mas legol teu texto,
um abraço, andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 23/3/2008 11:41
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Labes, Marcelo
 

André, vamos por partes.

1o: o Governo Brasileiro, como era e como vem se mostrando até hoje, foi inútil no que diz respeito à educação dos blumenauenses coloniais e pós-coloniais. Tanto que, quando o nível de analfabetismo no país era de 80% (em SC de 90%), em Blumenau não havia analfabetos. Por quê? Porque as escolas daqui, todas comunitárias-particulares já somavam 130, com 11.000 alunos, enquanto as escolas estaduais era não mais que 15 com trezentos alunos.

2o. Por conta de ter alfabetizados todos os seus habitantes, a colônia Blumenau começou uma campanha de alfabetização do português, traduzindo gramáticas, obras literárias e livros didáticos, a fim de facilitar a vida dos educadores.

3o. Não sei quanto às tuas fontes, mas Getúlio proibiu sim que os falantes utilizassem o alemão, tanto que quem cuidava disso era o exército, que é um órgão federal, não as polícias. E isso fica claro quando vemos que os Konder, que apoiavam Prestes, foram "violentados" quando os Ramos, que apoiavam Vargas, viram o golpe de 31 acontecer. Nessa época, a PM de Florianópolis invadiu Blumenau com metralhadoras a fim de coibir um holocausto público que nunca existiu.

4o. Para ficar claro, então, os interesses regionais da imigração alemã foram geridos e administrados por eles, os colonos, até a década de 1930. A partir de então, caiu nas mãos do governo brasileiro. É daí que vem o trauma. Ao mesmo tempo em que foram proibidos de falar, escrever e se comunicar em alemão, foram obrigados a aprender à força uma língua que, naturalmente, dali a um tempo, estariam dominando como língua materna.

5o. Muito obrigado pela leitura atenciosa e pelo comentário inteligente.

Abraço.

Labes, Marcelo · Blumenau, SC 23/3/2008 12:19
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LAILTON ARAÚJO
 


CARO LABES...


Vivemos em um país que abriu as portas para todos os povos! E só por isso as portas estão escancaradas... Algumas fechadas para brasileiros no exterior... Se o sujeito tiver a aparência não convencional para os padrões europeus é volta na certa!

Acho que o povo alemão deve falar o que é nativo... Na Alemanha fala-se alemão! O português será bem vindo como o primeiro idioma!O segundo poderá ser o Tupi e ramificações... A África tem como crédito a terceira posição...

Você é descendente de alemães? Percebo que você tem uma grande preocupação com essa cultura! Acho muito interessante!

No mais... Mas, porém?

Abraços.

Lailton Araújo

LAILTON ARAÚJO · São Paulo, SP 23/3/2008 15:03
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Joca Oeiras, o anjo andarilho
 

Querido Labes:
O sucessivos governantes do Brasil cometeram, sem absoluta sombra de dúvidas, desmandos criminosos, violências inquestionáveis e tudo o mais que nós sabemos e a maior parte do que não sabemos.
A própria existência da nação brasileira, de que o overmundo é prova, é para mim um verdadeiro milagre. A história que você relata do ensino em Blumenau, totalmente entregue a particulares, isto é, sendo a intervenção do governo brasileiro perfeitamente dispensável, me lembra, sinceramente, a situação das favelas cariocas onde os traficantes são, de fato, os provedores da assistência social aos favelados, tornando supérflua e ela sim "marginal" a existência do Estado brasileiro nas favelas.
Uma das expressões mais evidentes da nacionalidade, acho que deve concordar comigo, é a língua falada. Então, Labes, eu não sei não sei mesmo se as medidas tomadas no Estado Novo foram corretas e até tendo a achar que não foram, mas o que não posso concordar com você é que a situação iria evoluir naturalmente.
Por outro lado, embora aparentemente incipientes, existem forças centrípetas que jogam pesado contra o Brasil Nação. Outro dia mesmo, aqui no overmundo, me desculpe não retive o link, entrevistaram um gaucho que prega a criaçãp de um Estado em separado RS-SC não sei se também PR.
Do lado de cá, no Nordeste, o Piauí principalmente, há os que o consideram sub-Brasil , descartável sem que se derrame uma lágrima sequer (lembra do Zotollo) e eu prefiro ficar com o Edvaldo Nascimento, um velho roqueiro piauiense para quem "Pro Brasil dar certo o Piauí tem que dar certo!". Desculpe se achar que estrapolei, espero que entenda porque.
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho

Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI 23/3/2008 16:04
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Labes, Marcelo
 

Joca, isso também não consegui entender de primeira. Na segunda noite com as pesquisadoras - da qual não falei aqui - perguntei finalmente se elas não achavam que, uma vez vivendo em um país soberano, os caras achavam certo continuar falando o idioma deles.
Valburga me respondeu em três pontos de uma mesma literatura. Veja bem: a primeira literatura, a do Deutschtum (ou germanidade) era escrita louvando a terra ancestral, a Alemanha. A segunda, já era a literatura do exotismo do Brasil, mas ainda mantendo vínculos com o país de origem. O terceiro momento, e foi aqui que a coisa ficou feia, já não era mais de Deustschebrasilianentum (sentimento germano-brasileiro), mas era, podemos chamar, literatura brasileira escrita em alemão, porque a temática já era toda o novo país.

E verificar que já haviam gramáticas, traduções de textos do português para o alemão etc. já parece um grande passo. Uma hora, e isso se mostrou com força nas décadas de 1960 e 1970, quando o têxtil explodiu por aqui, haveria de acontecer essa adaptação - ou então ela teria chegado ao seu auge: teríamos um povo bilingue, brasileiro, que falaria tanto o alemão como o português, cada um em suas ocasiões. E não é assim que acontece: a gente não sai de casa e começa a falar um outro português? Um português que uns dominam mais, outros menos, mas que a gente se entende? Agora, chegando em casa, falamos outro idioma; não é mais o portuuês das gramáticas etc. Seria por aqui, creio, que aconteceria com o alemão em relação ao português.

Labes, Marcelo · Blumenau, SC 23/3/2008 22:00
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Joca Oeiras, o anjo andarilho
 

Querido Labes:
Ideal mesmo seriam 6 bilhões de seres humanos viventes expressarem-se, além da língua de seus pais, a de seu pais e até mais duas ou três, assim como o ideal seria o acesso irrestrito destas 6 bilhões à saúde e educação gratuitas. O resto a gente correria atrás na maior.
Labes só te peço para que penses o que teria ocorrido com as nossas gerações a minha em primeiro lugar (eu tinha 16 anos em 64), se nós não tivessemos sido submetidos a uma ditadura militar sanguinária que, mais do que qualquer coisa (e como sempre) mutilou a parcela mais criativa da vanguarda cultural brasileira? Aí você vem me reclamar de que podaram uma elite cultural teuto-brasileira mas, putz, as elites dominantes não fazem outra coisa ou você acha que eu exagero? Então, Labes, por favor entenda, eu não estou a favor de massacre cultural nenhum, mas havemos de concordar que a brecha aberta pelo Estado Brasileiro, se é do jeito que você descreve (abandono da educação a particulares sem sequer fixar normas de contuda)´era uma coisa muito grave e certamente poderia, manipulada por experts de plantão, vir a tornar-se um fator de desagregação da nacionalidade, ou eu estou vendo fantasmas?
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho
PS Só para aplicar a socialização forçada no campo, Stalin matou mais de 20 milhões de camponeses, tantos cidadãos soviéticos quanto os que morreram na 2ª Guerra Mundial.

Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI 23/3/2008 23:05
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Labes, Marcelo
 

Ok, Joca, vamos por partes, novamente. Quem foi silenciado, não foi a elite, ok? A elite, pelo contrário, apoiou, tenho lido, muitas das ações governamentais justamente porque queria poder ascender a este governo.

E eu sei que tratar de um tema assim, transversal, como a comunidade teuto-brasileira (somente umas centenas de milhares de pessoas) e o trauma que sofreu pode ser intrigante.

Veja bem: havia, por aqui, como houve em todo o Brasil, radicais de extrema-direita. O Integralismo - movimento liderado por Plínio Salgado de teor nacionalista - teve por aqui grandes representantes.

Veja bem, Joca: sinto-me perdido por aqui. Esta cidade é triste. O valor do trabalho se sobrepõe a qualquer futilidade como amar, se divertir, passar um tempo bom fazendo nada. Entende? Eu, como muitos da minha idade, pretendemos deixar Blumenau assim que nossas pernas conseguirem andar realmente sozinhas. Não é questão de identidade, é questão de saúde. Portanto, não pense que defendo a todo o custo os teuto-brasileiros, porque não os defendo.

Defendo, sim, essa coisa tão brasileira de que o Brasil se orgulha tanto: "Somos miscigenados" etc. Se escrevo um texto como esse, é para mostrar que nem sempre foi assim. Que houve violência injusta contra colonos ingênuos que habitavam os interiores agrícolas do país. As elites teuto-brasileiras, Joca, não passaram por este momento histórico da mesma forma. Foi tudo mais tranquilo.

E veja bem, Joca. A imprensa européia (sobretudo a inglesa) fez questão de relacionar, numa atitude de má-fé, o número de imigrantes alemães que havia na América Latina com os planos de expansão da Alemanha nazista. Burramente, a imprensa brasileira de então (e como faz até hoje, basta abrir a Veja) colocou-se à disposição do Eixo do Bem, tratando de colocar a comunidade teuto-brasileira (veja, não falamos de teutos, mas de teuto-brasileiros) em seu devido lugar: no curral da sociedade.

Se se tivesse atido à violência de então, dos anos 30, estaríamos até muito bem. Acontece que as gerações posteriores a Getúlio, inclusive a tua, foi promiscuamente traumatizada em regiões de imigração; da mesma forma como hoje acontece, muitas crianças entram na 1a. série falando somente o alemão. Hoje já se tem um trabalho bilingüe sério com essas crianças, mas nos anos de 1960, 1970 elas reprovavam até 5 anos seguidos na primeira série. O que sucede então? Êxodo escolar e ignorância - o que, veja, era o contrário do que acontecia quando as escolas eram geridas pelos próprios colonos, lá nos anos de 1930.

Parece que não seriam boas histórias para se contar num conto de reminiscências escolares, não?!

Pois é, é triste, Joca. Mas não pense que os defendo até a morte, que quero justiça ou morte, porque não é assim. Somente gostaria de compartilhar com os colegas overmanos uma atividade cultural interessante, porque rara, que foi esse seminário de língua alemã.

No mais, é pano pra manga.

Abraço.

Labes, Marcelo · Blumenau, SC 24/3/2008 01:19
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Joca Oeiras, o anjo andarilho
 

Querido Marcelo:
Em nenhum momento eu quis diminuir ou menosprezar o drama vivido pelos teuto-brasileiros. Se fiz você entender dessa forma, peço que me desculpe. Apenas procurei alertá-lo que se cometeram e cometem violencias muito maiores sem a forte – você há de convir, forte – argumentação de que havia uma parte do Brasil falada em alemão em plena guerra. E também, em nenhum momento quis dizer, inclusive não disse, que a política aplicada pelo governo brasileiro era justa e correta, apenas que plenamente justificável aos olhos da nação.

Quanto a castração de um movimento literário em plena vitalidade, a brutalidade não é maior no caso que relatas do que incontáveis outras que ocorrem até hoje, inclusive por efeitos da globalização, nem menos lastimável e digna de uma reflexão do que todas as demais.
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho

Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI 24/3/2008 02:21
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victorvapf
 

Labes, muito bom seu texto, mas gostaria de saber o voce acha dos brasileiros que nao estao sendo aceitos, nem para visitar paises na Europa?

victorvapf · Belo Horizonte, MG 24/3/2008 13:40
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Joca Oeiras, o anjo andarilho
 

Querido Victor:
Desculpe se me antecipo à resposta do Labes mas não considero justo -- apenas pela publicação e os comentários emitidos pelo Labes -- que você coloque em dúvida que ele, como todas as pessoas de bem sejam elas brasileiras, espanholas, angolnas, coreanas, italianas, turcas ou gregas, considere normal que se impeça o direito das pessoas irem e virem pelo mundo afora. O Labes não expressou, em seu texto, o menor resquício de discriminação a quem quer que seja.
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho

Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI 24/3/2008 17:39
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victorvapf
 

A pergunta e geral, pode ser respondida por qualquer um. Nao se trata de discriminação, e que o texto sugere reflexoes diversas...deixo bem claro, Abraços

victorvapf · Belo Horizonte, MG 24/3/2008 18:41
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