QUEM SE LEMBRA DOS ÚLTIMOS AGUDOS DE GAL COSTA?

Contracapa do LP Índia, de 1973
Os incríveis agudos de Gal Costa na regravação de "Índia"
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Abílio Neto · Abreu e Lima, PE
16/9/2012 · 7 · 5
 

Há algum tempo eu desejava escrever algo sobre o LP “Ìndia”, de Gal Costa. Encontrei um texto de um blogueiro que disse tudo o que eu pensava dizer e talvez não o fizesse com tanta competência. Vale a pena ler parte desse escrito:

“Depois de passar pelo sucesso do show ‘Gal a Todo Vapor’, que deu origem ao disco de 1971, Gal Costa só voltaria a lançar um novo álbum em 1973. E para os cabeludos undergrounds que encheram a platéia do show, Gal Costa voltava mais uma vez renovada, em outra atmosfera além das limitações do desbunde e da contracultura. Com o fim do milagre brasileiro e a crise econômica mundial gerada pelo petróleo, os tempos já não eram de abundância, e a repressão cultural e ideológica era acirrada. Sem a fartura do milagre, desbundar já não era tão agradável para mascarar a falta de liberdade da ditadura. A morte do estudante de geologia da USP Alexandre Vanucchi Leme (o Minhoca), reacende o movimento estudantil, que convida Gilberto Gil para uma apresentação na Politécnica. O show, uma homenagem ao estudante morto e um protesto à repressão, teria 30 minutos, durou 3 horas, apesar da vigilância da polícia. Gilberto Gil apresentou a sua nova canção de protesto feita em parceria com Chico Buarque ‘Cálice’.

Em 1973, a Phonogram realizou com todo o seu elenco o festival Phono 73, no Palácio de Convenções do Anhembi, de 11 a 13 de maio. ‘Cálice’ foi proibida, na hora da apresentação a censura cortou o som e não se ouviu a interpretação de Chico Buarque e Gilberto Gil. Ficaria proibida até 1978, quando Chico Buarque finalmente a gravou, tendo a participação especial de Milton Nascimento. No Phono 73, Gal Costa canta em duo com Maria Bethânia ‘Oração de Mãe Menininha’ (Dorival Caymmi), seu maior sucesso de massas daquele ano.

Ainda no fatídico e agitado ano de 1973, Gal Costa grava o compacto com a canção ‘Três da Madrugada’ (Torquato Neto – Carlos Pinto), que acompanhava o livro ‘Os Últimos Dias de Paupéria’, poemas de Torquato Neto, o Anjo Torto da Tropicália, que se matara em novembro de 1972, em homenagem póstuma. 1973 registra, ainda, o fenômeno ‘Secos e Molhados’, banda sob o comando de Ney Matogrosso, que parou o Brasil.
É nesse clima que numa atmosfera folk-glitter o álbum ‘Índia’ é lançado no segundo semestre. Gal Costa que naquele ano traz a sensualidade à flor da pele, faz um ensaio seminua na praia com Marisa Alvarez Lima, para a revista Pop.

Já a distanciar-se do desbunde, ‘Índia’ é um álbum definitivo, traz nove faixas essenciais no universo galcostiano, com interpretações de uma cantora que crescia a cada novo álbum, surpreendendo sempre.

Sensual também é a capa do álbum ‘Índia’, com fotografias de Antonio Guerreiro, traz um close frontal de Gal Costa vestida com um pequeno biquíni vermelho, na contra capa a cantora aparece de seios nus, vestida como uma índia. A censura vetou a exposição da capa e o disco foi vendido nas lojas dentro de um plástico opaco, azul, a esconder a beleza sensual das fotos.

Longe dos holofotes de musa do desbunde, Gal Costa surpreende logo na abertura do álbum, ela resgata um antigo sucesso guarani do repertório de duplas sertanejas: ‘Índia’ (J. A. Flores – M. O. Guerrero – versão José Fortuna). Em 1973 a musa do underground a cantar uma canção sertaneja era além de inusitado, um ato de coragem em arriscar. Numa recriação musical de Rogério Duprat, a canção sofre uma ruptura histórica. Deixa de ser assimilada a interpretações masculinas e de duas vozes, perde a sua verve sertaneja para ganhar a voz definitiva de Gal Costa e dos seus agudos, como se a música tivesse sido feita para ela, e nunca tivesse existido antes da sua interpretação. Os arranjos dão um tom épico à canção, quase que lembram um filme. Gal Costa começa com uma interpretação contida, intimista, depois vai crescendo, até encontrar o apogeu da música. ‘Índia’ passou a ser definitiva no repertório de Gal Costa, tamanha assimilação que quando a cantora foi dar shows em Portugal em 1986, teve que incluir a canção no repertório por exigência do público português. Gal Costa revisitaria ‘Índia’ por mais duas vezes, em ‘Gal Tropical’ (1979) e ‘De Tantos Amores’ (2001). Anos mais tarde a cantora declararia que esta era a música preferida do pai e que esta gravação era uma singela homenagem a ele.”

Isso aí acima eu copiei de Jeocaz Lee-Meddi, que nos dá sua ficha: escritor, nascido em Goiás, Brasil, criado em Santos e na Bahia. Viveu anos em Lisboa e Roma. Convive intensamente com o seu tempo. Militante da política, cultura e de gente. Como escritor teve o romance "Fatal - A Hora Azul" premiado pela Fundação Jaime Câmara. Um homem tranquilo com a vida, insatisfeito com as convenções, que procura sempre conhecer gente, matéria-prima de um escritor. Apaixonado pela vida. Urbano incorrigível. Fascinado pelo mar e pela lua. Escreve sobre o seu tempo e sobre o passado histórico, dois contrastes que se traduzem na sua literatura.

Pois é, repito que há meses eu queria escrever algo sobre Gal Costa, o show “Índia” e o disco de mesmo nome. O show eu assisti no Teatro do Parque, em Recife, numa noite que para mim foi inesquecível. Nunca aplaudi tanto uma cantora! Nem a saudosa Elis Regina. Vale ressaltar que um dos músicos que acompanharam Gal no show e no disco foi o nosso querido Mestre Dominguinhos, no vigor dos seus 32 anos de idade. Já era um grande músico.

A ficha técnica do disco Índia é um desbunde musical:

Direção musical: Gilberto Gil
Violão e violão 12 cordas: Gilberto Gil
Violão em “Desafinado”: Roberto Menescal
Acordeom: Dominguinhos
Guitarra: Toninho Horta
Contrabaixo: Luiz Alves
Bateria: Roberto Silva
Percussão e efeitos: Chico Batera
Percussão em “Milho Verde”: Chacal
Órgão: Wagner Tiso (“Pontos de Luz”, “Presente Cotidiano”)
Órgão em “Volta”: Tenório Jr
Arranjos e regências: Arthur Verocai (“Pontos de Luz”, “Presente Cotidiano”)
Regência das Cordas em “Índia”: Mário Tavares
Recriação de “Índia”: Rogério Duprat

Quero acrescentar apenas que a interpretação de Gal Costa para “Índia” me deixou em êxtase na cadeira do teatro. Meus ouvidos não tinham escutado nada parecido e acho que jamais ouvirão nada igual. A gravação dessa faixa no disco é longa, assim como foi sua apresentação no show, mas para efeito do que quero demonstrar, é bastante a repetição da letra da música quando Gal eleva o tom de voz e canta como ninguém. Então, eu editei o áudio para ir direto ao ponto. Vocês conhecem alguém melhor do que a Gal? Até hoje eu tenho dúvida: quem é a maior entre Gal e Elis?

Assim sendo e sem mais delongas, escutem o meu áudio editado e aqueles que quiserem, podem pedi-lo por completo que eu mandarei com o maior prazer. Não tenham dúvida de que esta música foi feita para Gal homenagear seu pai conforme ela declarou. Se foi isso mesmo, ela deu o melhor de si. Que pai feliz era o pai da Gal!

Este texto é uma modestíssima homenagem a esta grande cantora que em 26 de setembro próximo fará 67 anos. E que Deus a permita ainda por muitos anos ter o “dom de iludir” com a sua voz cristalina! Sei que ela já não canta nesse tom de 1973, quando tinha 27 anos de idade, porém a ação do tempo na voz dos artistas é uma coisa inevitável. Clique aqui para se enfeitiçar com a voz dessa baiana notável.

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Dadá Malheiros
 

Gal é uma das mais afinadas cantoras do mundo, mestre Abílio Neto! Bela e sincera homenagem. Abraços: Dadá Malheiros.

Dadá Malheiros · Paulista, PE 16/9/2012 13:13
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Bruno Negromonte
 

Jeocaz tem outro belíssimo texto escrito sobre o álbum "Gal-fatal" no espaço ao qual publica seus escritos. Lembro-me que certa vez vi no livro "Eu não sou cahorro não", do mesmo autor da biografia não autorizada do Roberto Carlos, Paulo César de Araújo, que este disco batizado com mesmo sucesso da dupla Cascatinha e Inhana teve um alto investimento à época pela Philips e não obteve o retorno esperado, se comparado aos artistas populares que estavam despontando na mesma gravadora (artistas estes que tiveram um investimento ínfimo...).

Bruno Negromonte · Olinda, PE 16/9/2012 14:01
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Abílio Neto
 

Pois é, meus caros amigos. Comercialmente o LP Índia pode não ter trazido os resultados econômicos esperados, porém artisticamente ele EXCEDE, assim com maiúsculas mesmo. Abraços!

Abílio Neto · Abreu e Lima, PE 16/9/2012 15:20
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joe_brazuca
 

A Gal realmente sempre teve uma voz privilegiada.Uma soprano "II", atinge registros quase dum "castrati".
Afinadíssima ao vivo ( o que é dífícil, raro, para poucas...), tb não "deixava barato" nos LPs.
E sempre com um repertório diferenciado, sem dar muitos tratos à bola, das vontades "midiáticas"...

"Meu nome é GAL!!!!"...

beleza de artigo, Zé Preá!...abrax, meu velho!

joe_brazuca · São Paulo, SP 19/9/2012 00:19
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Abílio Neto
 

Obrigado, caro Joe Canônico. Abração!

Abílio Neto · Abreu e Lima, PE 19/9/2012 07:51
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