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Quem tem medo de Irton Marx?

Janaína Zilio
1
Fabio Godoh · Porto Alegre, RS
4/12/2007 · 109 · 3
 

Boêmio, guitarrista e fã de Bob Dylan, o guasca Irton Marx Neto é hoje – não corra! – um dos homens mais temidos em todo o Brasil. (A la fresca!) Líder de um grupo que há 20 anos defende a conversão do Rio Grande do Sul em "República do Pampa" – e autor de uma das obras mais subversivas do índex provinciano ("Vai nascer um novo país", publicada em 1990) – Irton esteve recentemente na Feira do Livro, em Porto Alegre, para debater, ao lado de Juremir Machado e Antonio Risério, a complexa questão do subdesenvolvimento intelectual pampeano. No entanto, como ele mesmo disse, "a indiada acabou não se garantindo" – e na última hora, por falta de quorum, o evento foi cancelado: "Isso é normal, pois quando os oponentes descobrem que eu me chamo Irton Marx, astutamente debandam em retirada." (Oigalê, índio touro!) Porém, nós, da revista Cidade B – que no perdemos la ternura jamás! – aproveitamos a desiludida estada de Irton na Capital, e resolvemos convidá-lo para tomar um mate (ou comer um chucrute?) na Casa de Cultura Mario Quintana. Em resumo, paisano, uma "entrevista de macho" – como todo o gaúcho deveria ser!


Quem é o senhor?

Bem, a pergunta é complicada, mas eu diria que acima de tudo sou um boêmio. Sempre apreciei muito a vida de bar, pois é dali que surgem as grandes discussões, e não de palácios viciados onde só o que predomina é a mentira. Inclusive, foi numa dessas mesas de bar que eu comecei a pensar mais a fundo sobre a questão do separatismo. Foi por volta de 1964, quando assisti a um tradicionalista gaúcho ser preso e espancado por soldados do exército brasileiro. Na época, já muito rebelde, eu vivia em função da minha Gibson Les Paul, tocando Pink Floyd, Led Zeppelin e Bob Dylan, meu ídolo maior. Portanto, fiquei muito revoltado com o acontecido, e a partir daquele dia o assunto se tornou constante em nossas investidas noturnas. Resultado: alguns anos depois, e eu já estava estruturando as idéias que formariam a base do Movimento República do Pampa!

Acusado de nazismo pela imprensa nacional e processado por racismo pelo Estado Federal. O que o senhor tem a dizer sobre isso?

A mídia brasileira tentou forjar uma guerra étnica no Rio Grande do Sul. Na época, a idéia de separatismo vinha crescendo cada vez mais entre a população, e eles precisavam encontrar uma maneira de silenciar a minha voz. Tudo aconteceu em 1993, quando a Rede Globo foi até Santa Cruz do Sul no intuito de produzir uma reportagem sobre o nosso movimento. Lá pelas tantas, num intervalo das gravações, eles me viram falando em alemão, com o meu cachorro, algo que é muito natural na minha região. Pois bem, foi o suficiente para que montassem uma matéria criminosa, afirmando que eu era o "novo Hitler dos pampas"! E a partir daí, passei a sofrer todo o tipo de hostilidade. Fui processado, seqüestrado, tive a minha residência invadida pela Polícia Federal, que apreendeu toda tiragem do meu livro, enfim. Mas após quatro anos de processo, e isso a imprensa esqueceu de noticiar, fui completamente absolvido de todas as acusações, obtendo o direito constitucional de expressar livremente as minhas opiniões. Hoje em dia, sou o vereador mais votado na minha cidade, pelo PR, e por iniciativa minha, já que falamos em segregação racial, a nossa Câmara criou a Galeria dos Afro-Descendentes, um projeto que resgata e ensina a cultura de origem africana em Santa Cruz do Sul. Além disso, o Movimento República do Pampa está de vento em popa, com diretorias em 805 cidades do estado.

E as suas idéias continuam as mesmas?


Olha, estou sempre procurando renová-las, mas o núcleo do meu pensamento continua o mesmo, que é formar uma grande corrente de solidariedade para defender os interesses da cultura e da economia do Rio Grande do Sul. Afinal, ninguém suporta mais o abuso de impostos, a corrupção generalizada e, sobretudo, a má vontade do governo federal em relação ao nosso estado. Além disso, sob o ponto de vista cultural, percebo que somos vítimas de um nefasto processo de "baianização", como conseqüência de uma mídia que nos enfia goela abaixo a cultura nordestina, e trata o Rio Grande do Sul de forma debochada e agressiva. Por isso, eu costumo dizer que os agressores não são os separatistas, mas os anti-separatistas! Ou ninguém nunca parou para pensar por que eles não liberam a independência da Catalunha, por exemplo, ou de Quebec, ou das províncias de Missiones e Corrientes na Argentina? Ora, muito simples: porque existe muita gente lucrando com a dominação desses territórios.

Por que o separatismo virou tabu entre os gaúchos?

Em primeiro lugar, devido ao linchamento midiático ocorrido na década de 90. Em segundo lugar, por culpa do Movimento Tradicionalista Gaúcho, que determina a "aculturação dos elementos imigrantes ou descendentes", como está escrito em sua própria Carta de Intenções. Ou seja, de acordo com o documento, alemães, italianos e castelhanos, por exemplo, não pertencem à cultura do Rio Grande do Sul. Por isso, muitos tradicionalistas, que se dizem defensores dos ideais de 35, ficaram decepcionados com o fato da República do Pampa não ter nascido num galpão, mas numa cidade de colonização alemã. Portanto, existe a resistência, mas ela emana da cúpula MTG, pois a massa gaudéria, com certeza, é separatista, e não declara por medo.

Quais seriam os caminhos objetivos para a separação?

O primeiro passo é o plebiscito. A Constituição Federal diz que o Rio Grande do Sul pertence ao Brasil de forma indissolúvel, mas o nosso argumento é que ninguém pretende dissolver o Brasil. Queremos apenas separar o que já se considera separado. Por exemplo, a bandeira do estado. Está lá, com todas as letras: "República Rio-Grandense." Mas que afronta à Constituição! Pois bem, caso eu concorra às eleições para governador, como está programado, vencerei no primeiro turno, e o plebiscito acontecerá em 2010. Um ano depois, pode ficar registrado, seremos um país independente. Amigos do Brasil, é claro, mas deixando de enviar mensalmente esta fábula de impostos aos cofres do governo federal. Porque a verdade é uma só: enquanto a aplicação dos recursos depender de Brasília, ninguém vai solucionar nada!

O senhor não se contentaria com uma revisão do pacto federativo, conferindo mais autonomia aos estados?

Olha, muitos dizem que não precisamos nos separar, que poderíamos ser como os Estados Unidos, mas considero um equívoco. Não existe tal autonomia. Lá, por exemplo, tudo é controlado por Washington: o imposto, a moeda, o exército, a educação, enfim, tudo é centralizado, exatamente como aqui. Para se ter uma idéia, o Brasil possui 27 estados federados, e cada um deles tem direito a três senadores no Congresso Nacional. O Rio Grande do Sul, com quase 12 milhões de habitantes, possui os mesmos três senadores que os estados do Acre, Rondônia, Amapá e Roraima, os quais, juntos, somam apenas 2 milhões habitantes, representados por 12 senadores! Quer dizer, não tem como competir!

Uma vez criada a República do Pampa, qual seria o regime?


A princípio, presidencialista. Depois, passaríamos ao parlamentarismo, para que fosse possível a destituição de quadros incapazes ou corruptos. Mas o importante é que haja uma descentralização efetiva do poder, ou seja, uma gestão municipalista, na qual os municípios tenham uma maior autonomia. Afinal, os prefeitos e os vereadores estão mais próximos da população. Mesmo assim, alguns ainda dizem: "Mas o mundo está se unindo, e nós querendo nos separar." Não, o mundo não está se unindo. A Alemanha continua Alemanha, Portugal continua Portugal, todos continuam com seus presidentes, com seus ministros e com suas leis. A diferença é que as fronteiras foram abertas. Portanto, é preciso que uma coisa fique clara: não estamos propondo uma separação radical, com arame farpado! Na verdade, estamos apostando no desenvolvimento do Mercosul, de modo que um dia ele possa funcionar como a União Européia. Aí então, quem sabe, mais no futuro ainda, poderemos criar a tão sonhada Confederação Sul-Americana, composta por Chile, Argentina, Uruguai e República do Pampa. Ou seja, o hemisfério sul em desenvolvimento absoluto!

E Paraná e Santa Catarina? Entrariam no plano separatista?


Não. Em tese, seria apenas o Rio Grande do Sul. Mas a questão é que os povos de Santa Catarina e Paraná desejam participar. E mesmo que venhamos a nos separar juntos, amanhã ou depois, seguramente, esses dois estados formarão novos países. Afinal, eles possuem realidades históricas muito distintas, de modo que dificilmente fariam parte de uma mesma nação.

Como o senhor analisa o fenômeno da Geral do Grêmio?


Bem, eu entendo que é uma prova cabal contra aqueles que insistem em afirmar que o Rio Grande do Sul não tem nada de platino. A torcida do Grêmio, assim como a do River Plate, na Argentina, e a do Nacional, em Montevidéu, são exemplos de uma mesma filosofia castelhana. Trata-se, portanto, da semente emancipacionista que plantamos no coração dos gaúchos há 20 anos, e que agora, naturalmente, está germinando. Em breve, a torcida do Internacional entrará em contato conosco, pedindo a bandeira da República do Pampa, da mesma forma que a do Juventude já solicitou. E logo, todo o Rio Grande estará gritando pela independência!

Pois bem, uma última questão: Maradona ou Pelé?

Pergunta delicada... Olha, eu diria que o Pelé chamou a atenção do mundo por ser muito jovem, mas o melhor jogador brasileiro, sem dúvida, foi o Garrincha! Só que o Mané, assim como o Maradona, era muito boêmio, e sofreu muito por causa disso. É que os boêmios, quando vêem a lua, acabam soltando a língua, e ficam livres para buscar as suas próprias verdades. Mas as pessoas, infelizmente, se acostumaram com a hipocrisia! Portanto, respondendo a sua pergunta, eu voto no Maradona!

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Roberto Maxwell
 

Os argumentos dele são muito bem colocados. Mas, acho estranho que ele considere fora da tal confederação o Paraguai, por exemplo. Seria um leve indício de racismo? E por que o Brasil estaria fora da confederação? Enfim, não sou nacionalista. Não me faria diferença se o RS fizesse ou não parte do Brasil. Ia continuar tudo do jeito que está para ambos. E meu ponto de vista sobre ambos não iria mudar porque, afinal, identidades nacionais são construidas artificialmente, no jogo da ilusão da História.

Roberto Maxwell · Japão , WW 4/12/2007 07:00
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Pedro Monteiro
 

Muito bom Rapaz!
Grenal
Abraços

Pedro Monteiro · São Paulo, SP 18/4/2008 00:37
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Émerson Tordilho
 

irton é um pessoa idealista e só quer o melhor para esse povo gaucho mas uma separação nao seria uma saida esim uma auto autonomia dos estados dai sim teriamos uma politica que iria dar certo

Émerson Tordilho · Alegrete, RS 11/11/2009 11:36
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