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Quem tem medo de jiló?

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Rodolfo Noronha · Rio de Janeiro, RJ
5/2/2007 · 125 · 10
 

Quem tem medo de jiló?
Talvez exista uma cultura comum entre os diversos botecos da cidade. E talvez o jiló tenha algo a ver com isso.


Jiló não é legume, pra começar a conversa. É um fruto, mas esse não é o motivo de tanta discriminação pela qual ele tem sofrido ao longo dos anos.

Tudo bem, não se trata aqui de escrever um libelo em defesa desse injustiçado. Mas me chamou a atenção o fato de que o recém-lançado (novembro foi outro dia) guia Rio Botequim, em sua 7ª e especialíssima edição, dedicada à famosa e suculenta comida de botequim, não se refere a nenhum - nenhum - petisco que leve esse malfadado fruto em consideração.

É verdade que o Jiló, bar localizado no Leblon (mas ao qual ainda não fui devidamente apresentado) lá estava. Mas nenhuma referência ao dito cujo. Nem em meio a alguma salada (é verdade, também são vendidas saladas em botequins!), ou escondido dentre outros petiscos, como na mistura que envolve jiló, salsichinhas e cebolinhas do Real Chopp, outro que ficou de fora dessa edição apesar do maravilhoso e único pastel de carne seca. Ou alguém mais já conheceu algum pastel de carne seca molhado? Molhado?!? Ao menos, o Real Chopp já figurou em outras edições do guia. O jiló, coitado, jamais passou por suas páginas.

Tá bom, tá bom, talvez eu esteja forçando a barra um pouco. Afinal, gosto é gosto. Ninguém é obrigado a gostar de jiló tanto quanto eu (acho que tenho um pouco de passarinho em vidas passadas, vai saber), tanto quanto é verdade que garçons de boteco não precisam ser bem humorados (quem já foi - e continuou indo depois disso - ao Bip Bip, dentre outros, sabe do que estou falando). Vida que segue. A questão é que a presença do jiló no cardápio (ou fora dele, mas ao menos exposto no balcão) é um dos itens que caracterizam um verdadeiro boteco.

Junto com outras duas perguntas - de onde viemos? Para onde vamos? - uma terceira atormenta a vida de boêmios: o que faz de um boteco boteco? O que lhe garante poder ostentar esse nome? Essa pergunta não faria sentido anos atrás, quando os lugares para comer e beber eram divididos entre botecos e restaurantes, basicamente. Não havia nenhum dilema, era escolher entre beber com os amigos (ou sozinho) ou levar a família. Algo do tipo "mulher para comer" e "mulher para casar" (poucas frases são tão machistas quanto essa... mas tinha a ver com o contexto, então...). Bastava escolher o que se desejava no momento. Eis que essa paz foi interrompida com o advento das "novas tradições": velhos bares que mudaram seus ares (como o Belmonte, por exemplo), ou novos estabelecimentos e redes de bares, pipocando por toda a Cidade Maravilhosa. E o título de "boteco" colado a muitos desses novos nomes.

Antes de continuar devo dizer que nada tenho contra esses novos bares, ou essas "novas tradições": pelo contrário, a princípio, são bem-vindas. Boa comida, boa bebida, bom ambiente e bom preço (para o bolso dos proprietários, claro...) fazem parte do cardápio. O problema é que talvez estejamos concordando com a concessão de um título que talvez não seja devido, não seja merecido. É como a escolha de um novo Barão, um novo Conde: deve ter algum motivo muito claro para a pessoa receber esse título. O que nos traz de volta à velha pergunta: afinal, o que faz de um boteco um boteco? Talvez exista uma cultura comum entre os diversos botecos da cidade, que o caracterizam como tal. E talvez o jiló tenha algo a ver com isso.

São essas perguntas, caro(a)s leitore(a)s, que pretendo desvendar nessas mal traçadas linhas. E desconfio que o jiló seja a chave... Ou parte dela. O seu sumiço das prateleiras e do cardápio, comida de macho (e de "macha"), de quem sabe apreciar um legume (fruto! fruto!) de sabor bem forte e que combina divinamente bem com cerveja, pode querer nos dizer alguma coisa. Sinal dos novos tempos? Onde ainda se pode encontrar o bom e velho jiló, bem temperado? Quem tem medo de jiló? Perguntas, perguntas, perguntas. E talvez descobrindo isso, descobrimos afinal o que faz de um boteco boteco.

Em tempo: no Belmonte "original" (na Praia do Flamengo, realmente não vi nos demais), lá está ele, impávido colosso: os balcões estampam bem temperados jilós. Vida longa ao Belmonte!

Ic!

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Egeu Laus
 

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Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 5/2/2007 11:18
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Camafunga · Pelotas, RS 5/2/2007 19:00
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Rodolfo Noronha · Rio de Janeiro, RJ 7/2/2007 19:04
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brigitte · Goiânia, GO 11/2/2007 18:17
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Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 21/2/2007 16:09
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Rodolfo Noronha · Rio de Janeiro, RJ 27/2/2007 10:58
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Fabiano Barroso · Belo Horizonte, MG 30/4/2007 13:53
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victorvapf · Belo Horizonte, MG 23/2/2009 13:16
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